I. 3Da Separação dos Poderes
I.4. Do crime de responsabilidade
Para se estudar o instituto do impeachment, se faz necessário estudar as infrações que resultam no impedimento de exercer o cargo da presidência da república no Brasil, como o crime de responsabilidade, por exemplo, definido da seguinte maneira por Alexandre Moraes34:
33 CANOTILHO, J. J., Gomes. Direito Constitucional e teoria da constituição. 7 ed.reimp. Coimbra: Almedina, 2003, p. 559-560.
34 MORAES, Alexandre. Direito Constitucional. 13 ed. reimp. Coimbra, 2007, p. 458.
Para Alexandre de Moraes (2007, p. 458), crimes de responsabilidade são infrações político-administrativas definidas na legislação federal, cometidas no desempenho da função, que atentam contra a existência da União, o livre exercício dos Poderes do Estado, a segurança interna do País, a probidade da Administração, a lei orçamentária, o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais e o cumprimento das leis e das decisões judiciais.
O crime de responsabilidade é um crime de natureza jurídica política, vez que não há que se falar que nessa normacomo uma sanção penal, considerando que o objetivo do direito penal brasileiro é a punição para um posterior combate por meio da mesma, o que não ocorre no crime de responsabilidade. O objetivo do crime de responsabilidade é resguardar a Constituição Federal. Nesse sentido, Celso Ribeiro Bastos salienta35:
Pode-se dizer que os objetivos do impeachment são diversos dos da lei penal.
Esta visa, sobretudo à aplicação de uma medida punitiva, como instrumento de serviço de repressão ao crime. O processo de impeachment almeja antes de tudo a cessação de uma situação afrontosa à Constituição e às leis. A permanência dos altos funcionários em cargos cujas competências, se mal exercidas, podem colocar em risco os princípios constitucionais e a própria estabilidade das instituições e a segurança da nação, dá nascimento à necessidade de uma medida também destinada a apeá-los do poder.
O impeachment é a sanção sofrida pelo presidente da república quando comete crimes que atentem contra a Constituição Federal, além das condutas tipificadas na Lei nº 1.079/50, lei que regulamenta o processo e o julgamento dos crimes de responsabilidade. Esses crimes de responsabilidade são os mesmos que dão ensejo à abertura do processo de impeachment.
Os crimes de responsabilidade só podem ser cometidos pelo Presidente da República, Ministros de Estado, Ministros do Supremo Tribunal Federal, Procurador Geral da República, pelos Governadores dos Estados e seus secretários, na vigência do exercício das suas respectivas funções.
Logo, ocorrendo a prática de um dos crimes de responsabilidade elencados na Constituição Federal e na Lei nº 1.079/50, a autoridade praticante irá ser
35 BASTOS, Ribeiro Celso. Elementos de Direito Constitucional. 6ª ed. São Paulo: Ed. R.T, p. 168
processada e julgada ante o órgão legislativo competente, em âmbito nacional ou federal.
Ocorre que nos casos em que o Presidente da República comete crime comum, não sendo crime de responsabilidade, o responsável pelo seu julgamento é o Supremo Tribunal Federal.
Insta dizer que na Justiça Comum o processo é diferente dos processos dos órgãos legislativos. Na Justiça Ordinária, praticado um crime prenunciado na legislação penal, o réu consequentemente é submetido a um processo criminal, é processado e julgado de acordo com as normas previstas no Código de Processo Penal.
Entretanto, nos casos de ocorrência dos crimes de responsabilidade o procedimento é diametralmente diverso. O procedimento dos referidos crimes depende da admissibilidade, processamento e julgamento por órgãos legislativos e por tal motivo, sua natureza é política.
Partindo dessa premissa, salienta José Afonso da Silva36:
O processo dos crimes de responsabilidade e dos comuns cometidos pelo Presidente da República divide-se em duas partes: juízo de admissibilidade do processo e processo e julgamento. A acusação pode ser articulada por qualquer brasileiro perante a Câmara dos Deputados. Esta conhecerá, ou não, da denúncia; não conhecendo, será ela arquivada; conhecendo, declarará procedente, ou não, a acusação; julgando-a improcedente, também será arquivada. Se a declarar procedente pelo voto de dois terços de seus membros, autorizará a instauração do processo (arts. 51, I, e 86), passando, então, a matéria: (a) à competência do Senado Federal, se se tratar de crime de responsabilidade (arts. 52, I, e 86); (b) ao Supremo Tribunal Federal, se o crime for comum (art. 86). Recebida a autorização da Câmara para instaurar o processo, o Senado Federal se transformará em tribunal de juízo político, sob a Presidência do Presidente do Supremo Tribunal Federal. Não cabe ao Senado decidir se instaura ou não o processo. Quando o texto do art. 86 diz que, admitida a acusação por dois terços da Câmara, será o Presidente submetido a julgamento perante o Senado Federal nos crimes de responsabilidade, não deixa a este possibilidade de emitir juízo de conveniência de instaurar ou não o processo, pois que esse juízo de admissibilidade refoge à sua competência e já fora feito por quem cabia. Instaurado o
36SILVA (2016), op. cit. p. 490
processo, a primeira consequência será a suspensão do Presidente de suas funções (art. 86, §1º, I). O processo seguirá os trâmites legais, com oportunidade de ampla defesa ao imputado, concluindo pelo julgamento, que poderá ser absolutório, com o arquivamento do processo, ou condenatório por dois terços dos votos do Senado, limitando-se a decisão à perda do cargo, com inabilitação por oito anos, para o exercício de função pública, sem prejuízo das demais sanções judiciais cabíveis (art. 52, parágrafo único). É isso que caracteriza o chamado impeachment.
Dessa forma, a Constituição Federal de 1988, em seus artigos 85 e 86, é clara ao definir as responsabilidades do Presidente da República, conforme se verifica na transcrição dos artigos abaixo:
DA RESPONSABILIDADE DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Art. 85. São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição Federal e, especialmente, contra:
I - a existência da União;
II - o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação;
III - o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais; IV - a segurança interna do País;
V - a probidade na administração; VI - a lei orçamentária;
VII - o cumprimento das leis e das decisões judiciais.
Parágrafo único. Esses crimes serão definidos em lei especial, que estabelecerá as normas de processo e julgamento.
Art. 86. Admitida a acusação contra o Presidente da República, por dois terços da Câmara dos Deputados, será ele submetido a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal, nas infrações penais comuns, ou perante o Senado Federal, nos crimes de responsabilidade.
§ 1º O Presidente ficará suspenso de suas funções:
I - nas infrações penais comuns, se recebida a denúncia ou queixa- crime pelo Supremo Tribunal Federal;
II - nos crimes de responsabilidade, após a instauração do processo pelo Senado Federal.
§ 2º Se, decorrido o prazo de cento e oitenta dias, o julgamento não estiver concluído, cessará o afastamento do Presidente, sem prejuízo do regular prosseguimento do processo.
§ 3º Enquanto não sobrevier sentença condenatória, nas infrações comuns, o Presidente da República não estará sujeito a prisão.
§ 4º O Presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções.
Cumpre ressaltar que a Lei nº 1.079/1950 consagra que pode configurar como crime de responsabilidade os crimes cometidos pelo Presidente da República contra a guarda e o emprego dos dinheiros públicos em seu artigo 4º, VII, in verbis37:
Art. 4º São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentarem contra a Constituição Federal, e, especialmente, contra:
(...)
VII - A guarda e o legal emprego dos dinheiros públicos.
Insta salientar que a legislação acerca dos crimes de responsabilidade é clara, a lei tipifica expressamente quais as condutas podem ou não ser cometidas pelos governantes, os quais, além de perder o mandato, ficam impossibilitados de exercer função pública em outro cargo por um determinado período estipulado em lei.
37BRASIL. Poder Legislativo. Lei nº 1.079, de 10 de abril de 1950. Disponível em www.planalto. gov.br.
Acesso em 11 de novembro de 2019.