CURSO DE GRADUAÇÃO EM DIREITO
LARISSA NAIARA ALVES DE OLIVEIRA BILLÉ GONÇALVES
O INSTITUTO DO IMPEACHMENT NO BRASIL E O CASO DILMA ROUSSEF
VOLTA REDONDA - RJ 2019
LARISSA NAIARA ALVES DE OLIVEIRA BILLÉ GONÇALVES
O INSTITUTO DO IMPEACHMENT NO BRASIL E O CASO DILMA ROUSSEF
Monografia Jurídica apresentada ao Curso de Direito do Instituto de Ciências Humanas e Sociais de Volta Redonda, pertencente à Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Direito.
Orientador(a):
Profa. Dra. Ana Alice De Carli
VOLTA REDONDA - RJ 2019
O INSTITUTO DO IMPEACHMENT NO BRASIL E O CASO DILMA ROUSSEF
Monografia Jurídica apresentada ao Curso de Direito do Instituto de Ciências Humanas e Sociais de Volta Redonda, pertencente à Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Direito.
Aprovada em 27 de novembro de 2019.
BANCA EXAMINADORA
Ana Alice De Carli– Orientadora – UFF Orientador(a)
Pedro Curvello Saavedra Avzaradel – UFF Examinador
Bruno de Paula Soares – UFF/PRJ Examinador
Primeiramente agradeço aos meus pais, pois sem o apoio deles, mesmo em meio a tantas dificuldades que passamos no percurso da vida, a graduação em direito não teria sido possível.
Agradeço aos meus mestres, que foram chave-de-ouro durante essa caminhada.
Agradeço também àminha orientadora, professora Ana Alice De Carli, pela paciência, apoio e cuidado de sempre.
Agradeço à minha vozinha, Elza, que fora minha inspiração e incentivo enquanto esteve em vida.
Além disso, agradeço às minhas amigas Nicole Ermida e Marília Coutinho por terem me acolhido como irmã em Volta Redonda.
Agradeço, ainda,“a minha tia” Kelly Ermida, que me acolheu em tantos momentos difíceis durante a graduação.
Sonho que se sonha sozinho é só um sonho, sonho que se sonha junto é realidade.
Sozinho eu não dou conta. Eu ando em bando.
(Cazuza) Sempre em frente Não temos tempo a perder Nosso suor sagrado É bem mais belo que esse sangue amargo (Renato Russo)
RESUMO
A presente pesquisa buscou examinar o instituto do impeachment, a partir de um contexto histórico, seguindo para o estudo dos crimes de responsabilidade, o papel e o envolvimento dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário no processo de abertura de um impeachment.
Assim, adotou-se a pesquisa descritiva e com estudo de caso, amparada na literatura do tema e na legislação brasileira. Para fins de recorte do estudo, o objeto limitou-se a analisaro processo de impeachment da ex- Presidenta Dilma Roussef, ocorrido em 2016 e, bem assim, mensurar a repercussão socialpor conta do caso, objeto de estudo.
Palavra-chave: impeachment;presidenta Dilma Roussef; crimes de responsabilidade
ABSTRACT
The present research sought to examine the impeachment institute, from a historical context, following the study of liability crimes, the role and management of the Executive, Legislative and Judiciary Powers in the process of opening an impeachment. Thus, a descriptive research and case study was adopted, comparing literature with Brazilian theme and legislation. For the purposes of the study, or limited object to analyze the impeachment process of former President Dilma Roussef, which took place in 2016 and thus measure a social repercussion that occurred because of the case, object of this study.
Keyword: impeachment; President Dilma Roussef; liability crimes
1. INTRODUÇÃO...
2. CAPÍTULO I - O IMPEACHMENT NO BRASIL...
2.1 Aspectos históricos, semânticos e normativos do impeachment...
2.2 O papel do Senado Federal e do Supremo Tribunal Federal no processo de julgamento do impeachment...
2.3. A separação dos três poderes ...
2.4 O crime de res ponsabilidade e seus consectários...
3. CAPÍTULO II – O CASO DILMA ROUSSEFF...
3.1. As “pedaladas fiscais” ...
3.2. O crime de responsabilidade cometido pela ex-presidenta Dilma Rousseff ....
3.2. O processo de impeachment da ex-presidenta e seus desdobramentos no âmbito do STF e do Senado Federal...
4. CONCLUSÃO...
5. REFERÊNCIAS...
10 12 12 16 16 24 28 32 32 38
46 53 56
INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem por principal objetivo estudar o instituto do impeachment, sua origem, aspectos históricos, semânticos e normativos em solo brasileiro. Além disso, buscar- se-á examinar as funções institucionais do Senado e do Supremo Tribunal Federal no processo de julgamento do impeachment.
A Constituição Federal de 1988, em seu art. 52, estabelece a competência do Senado para “processar e julgar o Presidente e o Vice-Presidente da República nos crimes de responsabilidade”.
No plano infraconstitucional o instituto do impeachment é regulamentado pela Lei nº 1.079/50, a qual traz regras acerca da deflagração do processo. Ainda, os Regimentos Internos da Câmara dos Deputados e do Senado Federal também trazem regras disciplinadoras deste instrumento.
Como será demonstrado ao longo desta pesquisa, o processo de impeachment poderá ser aberto em desfavor do Presidente da República, dos Ministros de Estado, dos Ministros do Supremo Tribunal Federal e do Procurador Geral da República.
A questão nuclear da pesquisa gira em torno doprocesso de impeachment daex- presidenta Dilma Roussef, ocorrido no ano de 2016, o qual teve grande repercussão social na conjuntura política e social atual.
Desse modo, o estudo será dividido em capítulo e tópicos da seguinte forma: no primeiro capítulo tratar-se-á dos aspectos históricos, semânticos e normativos do instituto do impeachment em solo brasileiro.
Também será objeto de análiseo papel do Senado Federal e do Supremo Tribunal Federal no processo de impeachment, além do estudo detalhado sobre o crime de responsabilidade e seus consectários.
Já no segundo capítulo objetiva-se perfilar todos os principais elementos do processo de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff.
Sob a perspectiva metodológica, adotou-se a pesquisa descritiva e com estudo de caso, amparada na literatura do tema, na legislação brasileira e em decisões do Supremo Tribunal Federal.
Assim, para nortear a presente pesquisa, as perguntas chaves são: a ex- Presidente Dilma cometeu ou não crime de responsabilidade? Qual a importância dos três poderes no processo de impeachment? Quais foram os papéis desempenhados pela Câmara dos Deputados, pelo Senado Federal e pelo Supremo Tribunal Federal? Qual o impacto do impeachment da ex- presidente Dilma na política atual?
CAPÍTULO I – O INSTITUTO DO IMPEACHMENT
I.1. CONTEXTO HISTÓRICO
Aspectos históricos, semânticos e normativos do instituto do Impeachment em solo brasileiro e o reflexo da história
Oinstitutodoimpeachment surgiu nas civilizações mais antigas daInglaterra1. O primeiro caso de impeachment ocorreu na Inglaterra, no final da Idade Média, em 1376, com o Lord Latimer. Realizou-se um processo na Câmara dos Comuns - termo que se referia ao Parlamento Inglês na época. Nesse processo fora definido os padrões que seriam utilizados para esse procedimento no decorrer dos próximos séculos2.
Outro fator a ser mencionado é que o desenvolvimento do instituto do Impeachmentocorreu de maneira diferente na Europa e nos Estados Unidos da América. Com efeito, no Brasil adotou-se um modelo próximo do adotado em solo norte-americano, o qual serviude parâmetro para a legislação brasileira3.
Conforme o procedimento do instituto do Impeachment. Adotadona Inglaterra, há o castigo da autoridade. Já nos Estados Unidos há apenas o afastamento da autoridade do cargo e o governante fica imune.
Cumpre ressalvar que o contexto histórico em que surgiu o processo de Impeachment fora o da monarquia, no referido período, os poderes eram todos concentrados nas mãos de um só governante, o rei.
Nesse sentido, na conjuntura do momento no Brasil, a Constituição Imperial brasileira de 1824baseava o processo de Impeachment de acordo com o Impeachment inglês. Eram aplicadas sanções de natureza criminal que atingiam a
1 BRASIL. Artigos. DiteitoConstitucional. Enciclopédia Jurídica. Disponível em:
http://www.srbarros.com.br/pt/estudo-sobre-o-impeachment.cont. Acesso em: 08 de agosto de 2019.
2 BRASIL. Politize. Disponível em: https://www.politize.com.br/4-autoridades-que-sofreram- impeachment-mundo-afora/. Acesso em: 09 de agosto de 2019.
3 BRASIL. Estudo sobre impeachment. Disponível em: http://www.srbarros.com.br/pt/estudo-sobre-o- impeachment.cont. Acesso em: 09 de agosto de 2019.
liberdade e os bens do monarca. O Brasil é um sistema misto no que se refere ao procedimento do processo do impeachment, portanto4.
Dado relevante, o processo de impeachment político, que se diferencia do Impeachment utilizado durante o período monárquico, surgiu com a Constituição de 1891. Nesse ano, o Brasil se tornou uma República ecom a promulgação da primeira Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil adotou-se o sistema de responsabilização dos governantes. Nesse contexto o Impeachment político surge em solo brasileiro5.
A Constituição de 1934, elaborada na Era Vargas, estabeleceu um sistema de julgamento do instituto do Impeachment por meio de um tribunal especial, o qual era composto por nove juízes, três senadores, três deputados e três ministros da Corte Suprema, os quais, decretariam a decisão final6.
Já na Carta Outorgada de 1937 o impedimentonão abordou sobre dissolver o Congresso.
Já a Constituição de 1946, 67, 69 e 88 regularizou o impeachment, relacionando-o com os crimes de responsabilidade praticados pelo Presidente da República. Além disso, é necessário esclarecer em todas as Constituições ao longo dos anos, há a suspensão do Presidente de suas referidas funções, vez que seja concretizada a acusação por 2/3 da Câmara dos Deputados7.
Outro fator importante a ser mencionado é que, de acordo com as expressões constitucionais e no significado do termo impeachment (impedimento, denúncia, acusação), há doutrinadores atuais que acreditam ser o impeachment o afastamento provisório do agente político do cargo ocupado8. Nesse sentido, preceitua TitoCosta9:
Não resta nenhuma dúvida que, com o impeachment, objetiva-se o afastamento provisório da autoridade política, pelo órgão político correspondente (as assembleias populares), a fim de preservados o
4BRASIL. Enciclopédia Jurídica. PUC SP. Disponível em:
https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/103/edicao-1/impeachment. Acesso em 06 de agosto de 2019.
5 Ibid.
6 Ibid.
8 BRASIL. Câmara dos Deputados. Centro de documentação e informação. Constituições brasileiras. 2005.
Disponível em: https://www2.camara.leg.br/acamara/visiteacamara/cultura-na
camara/copy_of_museu/publicacoes/arquivospdf/Constituicoes%20Brasileiras-PDF.pdf. Acesso em: 10 de agosto de 2019.
9 Ibid.
cargo e as funções políticas que lhe são inerentes, possa responder criminalmente pelas falhas cometidas, perante o Poder Judiciário.
Hoje, o processo de impedimento tem viés político, que começa e termina no Poder Legislativo, ocasionando o impedimento em definitivo do agente público.
Um fator histórico que pode ser mencionado é o impeachment do ex- presidente Fernando Collor de Melo,em 1992. Vale lembrar que assim que assumiu o cargo máximo do Poder Executivo, Collor tomou uma medida drástica, que foi o confisco das poupanças bancárias por meio de uma medida provisória, com o objetivo de frear a inflação, a qual chegou ao patamar de 1700% no período. Não precisa nem dizer que tal medida trouxe prejuízos à suapopularidade.
Essa foi a medida provisória de maior relevância nacional, instaurada por um período de dezoito meses. Cada cidadão ficou em conta com apenascinquentamil cruzeiros (hoje, cerca de seis mil) disponíveis e muita gente empobreceu da noite para o dia. Entretanto, a inflação continuou crescendo e, em 1991, já passava dos 400% acumulados no ano, quando surgiram os primeiros escândalos de corrupção ligados a Collor10.
Nesse contexto surgiu o movimento estudantil denominado de caras-pintada, promovido pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e pela União Brasileira dos Secundaristas (UBES), com o objetivo de destituir o presidente do poder.
Uma das manifestações mais marcantes desse movimento ocorreu no dia 16 de agosto de 1992, dois dias depois de Collor aparecer em cadeia nacional para pedir que o povo fosse às ruas de verde e amarelo para defender seu governo. Mas, na verdade o ocorrido foi que manifestantes apareceram de preto, em sinal de luto pelos escândalos de corrupção do governo.
As manifestações só foram crescendo e o movimento foi apoiado por inúmeros setores da sociedade, culminando com a deflagração do processo de impeachment naCâmara dos Deputados, tendo sido aprovada a sua abertura por maioria absoluta.
10BRASIL. Câmara Legislativa. 20 anos do impeachment. Disponível em:https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/plenario/discursos/escrevendohistoria/destaque- de- materias/20-anos-do-impeachment. Acesso em: 10 de agosto de 2019.
Uma vez aberto o processo, o vice-presidente Itamar Franco assumiu a presidência do país enquanto o Senado apurava se o ex-presidente Collor havia cometido algum crime de responsabilidade. O referido processo perdurou por cento e oitenta dias e com a iminente condenação do Senado Federal, Collor então decidiu renunciar. Ocorre que mesmo após a sua renúncia, o Congresso Nacional votou no sentido de o ex-presidente perder os direitos políticos11.
A Constituição Federal de 1988, em sua Seção III, define os crimes de responsabilidade Presidente da República, nesses termos:
SEÇÃO III
DA RESPONSABILIDADE DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA Art. 85. São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição Federal e, especialmente, contra:
I - a existência da União;
II - o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação;
III - o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais;
IV - a segurança interna do País; V - a probidade na administração; VI - a lei orçamentária;
VII - o cumprimento das leis e das decisões judiciais.
Parágrafo único. Esses crimes serão definidos em lei especial, que estabelecerá as normas de processo e julgamento.
Art. 86. Admitida a acusação contra o Presidente da República, por dois terços da Câmara dos Deputados, será ele submetido a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal, nas infrações penais comuns, ou perante o Senado Federal, nos crimes de responsabilidade.
§ 1º O Presidente ficará suspenso de suas funções:
I - nas infrações penais comuns, se recebida a denúncia ou queixa-crime pelo Supremo Tribunal Federal;
II - nos crimes de responsabilidade, após a instauração do processo pelo Senado Federal.
§ 2º Se, decorrido o prazo de cento e oitenta dias, o julgamento não estiver concluído, cessará o afastamento do Presidente, sem prejuízo do regular prosseguimento do processo.
11BRASIL. Guia do estudante. Processo de impeachment Collor. Disponível em:
https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/como-foi-o-processo-de-impeachment-de-collor/. Acesso em: 11 de agosto de 2019.
§ 3º Enquanto não sobrevier sentença condenatória, nas infrações comuns, o Presidente da República não estará sujeito a prisão.
§ 4º O Presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções.
Por oportuno, cabe observar que o parágrafo único do artigo 85, da Carta Magna de 1988, menciona que os crimes de responsabilidade serão definidos por lei especial. Desse modo tem-se aLei n. 1.079/50, que dispõe:
Art. 1º São crimes de responsabilidade os que esta lei especifica.
Art. 2º Os crimes definidos nesta lei, ainda quando simplesmente tentados, são passíveis da pena de perda do cargo, com inabilitação, até cinco anos, para o exercício de qualquer função pública, imposta pelo Senado Federal nos processos contra o Presidente da República ou Ministros de Estado, contra os Ministros do Supremo Tribunal Federal ou contra o Procurador Geral da República.
Art. 3º A imposição da pena referida no artigo anterior não exclui o processo e julgamento do acusado por crime comum, na justiça ordinária, nos termos das leis de processo penal.
Art. 4º São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentarem contra a Constituição Federal, e, especialmente, contra:
I - A existência da União:
II - O livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário e dos poderes constitucionais dos Estados;
III - O exercício dos direitos políticos, individuais e sociais:
públicos;
IV - A segurança interna do país:
V - A probidade na administração; VI - A lei orçamentária;
VII - A guarda e o legal emprego dos dinheiros
VIII - O cumprimento das decisões judiciárias (Constituição, artigo 89).
Pela normativa acima supra transcrita é possível constatar que o crime de responsabilidade tem por finalidade o processo de impeachment do Presidente da República. Nesse sentido, buscando se inspirar na Constituição Americana, o principal objetivo do referido processo é a defesa do patrimônio público e não a punição do mandatário do país, conforme o modelo inglês.
I. 2. O papel do senado federal e do supremo tribunal federal no processo de impeachment
É necessário salientar que o Senador é um agente político, eleito por eleições diretas para um mandato de oito anos e representa um Estado da federação a fim de compor o parlamento.
O parlamento é composto pelo Senado Federal e pela Câmara dos Deputados. Nesse seguimento, o Brasil é formado pelas esferas municipais, estaduais e da União e o Senador é o mandatário que trabalha no Poder Legislativo da esfera federativa da União.
A Constituição Federal de 1988 prevê que os poderes legislativo, executivo e judiciário são independentes e não existe relação de subordinação dentre eles. Ocorre que é de competência privativa do Senado Federal processar e julgar o presidente e o Vice-Presidente da República nos crimes de responsabilidade, assim como os Ministros de Estado e os Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica nos crimes da mesma natureza que sejam relativos aos seus cargospor crimes de responsabilidade, nos termos do artigo 52 da Carta Magna Brasileira.
O Presidente não pode recorrer a qualquer outra instância da decisão do Senado, observa-se, então, a aplicação do princípio dos contra pesos de um poder sobre o outro.O mecanismo dos freios e contrapesos fora criado por Montesquieu, sob o argumento de que o indivíduo abusa do poder que possui e por tal motivo, existe a separação dos poderes, para que um poder supervisione o outro12.
O ex-ministro Paulo Brossard em sua obra relata que no exercício de suas atribuições especificas, cada Poder é, de certo modo, soberano, incontestável e, portanto, superior aos demais.
Mas somente naquilo que lhe é especifico, exclusivo, peculiar”. (Brossard, 1992 Pág. 131)13.
O Senado Federal é de suma importância para o processo de impeachment, uma vez que seu papel neste caso é ser o tribunal do referido processo e com isso ser o defensor da Constituição Federal.
O impeachment é de responsabilidade do Senado Federal, mas é a Câmara dos Deputados que autoriza a instauração do processo. Tal instauração precisa ter o
12BRASIL. Politize. O papel do Supremo Tribunal Federal na democracia brasileira. Disponível em:
https://www.politize.com.br/6-coisas-para-saber-sobre-o-stf/. Acesso em: 30 de outubro de 2019.
13 PINTO, Paulo Brossard de Souza. O impeachment. Ed. Saraiva, São Paulo, 1992.
apoio de no mínimo 342 deputados e 54 senadores. Caso haja a aprovação da instauração do processo de impeachment, o Presidente da República ficará inabilitado por 8 anos para praticar o exercício de função pública.Parecer nº 475, de 2016 do Senado Federal14.
José Cretella menciona entrevista de Alfredo Buzaid – ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, indicado pelo Presidente João Figueiredo - sobre oimpeachment,o qual afirmou15:
Oimpeachmentperante o direito brasileiro não tem caráter jurisdicional. É substancialmente administrativo, valendo como uma defesa da pessoa jurídica de direito público político, de existência necessária, contra o improbus administrador.
O rito utilizado pelo Senado Federal para o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff foi definido na ADPF 378 e é o mesmo que foi utilizado para o impedimento do ex- Presidente Collor em 1992.
A decisão para que o processo de impedimento seguissedeveria ser votada por maioria absoluta de dois terços dos deputados ou 342 votos na Câmara dos Deputados.Uma vez aprovada a abertura do processo em tela pela Câmara, o Senado Federal passa a deliberar para seu desenvolvimento.
De acordo com a ADPF 378, o Senado monta uma comissão com um total de 42 senadores, sendo 21 titulares e 21 suplentes, que terão o prazo de 10 dias para elaborar um parecer sobre a denúncia, que é lido pelo presidente do Senado e votado pelo plenário16.
Tendo o plenário decidido no sentido de instaurar o processo, o presidente será intimado e afastado e terá 10 dias para elaborar sua defesa. Tal defesa não terá
14 BRASIL. Senado Federal. Parecer nº 475, DE 2016 do Senado Federal. Disponível em:
https://www25.senado.leg.br/web/atividade/sessao-plenaria/-/pauta/3835. Acesso em: 02 de novembro de 2019.
15 CRETELLA JR. José. Curso de Direito Administrativo. 7ª ed. São Paulo: Ed. Método,1992, p. 18.
16 BRASIL. Notícias. Senado Federal. ADPF 378. Processo de impeachment. Definição da legitimidade Constitucional do rito previsto na lei nº 1.079/50. Voto do Ministro Luís Roberto Barroso. Disponível em:
http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADPF 378 Ementa_do_voto_do_ministro _Roberto_Barroso.pdf. Acesso em: 30 de novembro de 2019.
muitos efeitos na prática, pois a partir do momento em que o plenário vota a favor da instauração do processo, nada mais há para ser admitido. Esse processo todo tecnicamente deveria durar 126 dias, entretanto, há 32 dias de recesso parlamentar que o faz durar de 158 a 160 dias17.
Descriminando o processo para a instauração do impeachment, e desconsiderando o recesso parlamentar, segundo o procedimento do Senado, o rito será da seguinte forma: no primeiro dia o Senado recebe o processo da Câmara dos deputados; no segundo, é quando é lida a autorização da Câmara para que haja a instauração do processo e ocorre a eleição da comissão especial para analisar a autorização da Câmara; comissão esta que terá por formação 42 senadores indicados pelos partidos ou blocos partidários. Essa comissão terá o prazo de 10 dias úteis, conforme o novo CPC/15, para elaborar um parecer concluindo pela instauração ou não do processo18.
Partindo dessa premissa, no décimo segundo dia, o relator apresenta o parecer pela admissibilidade e a comissão vota no sentido de aceitar ou não. Nesse parecer, os senadores não podem apurar culpa ou inocência do presidente, é impreterível que se atentem aos requisitos de admissibilidade. No décimo terceiro dia o parecer elaborado pela comissão é lido e ocorre a distribuição do mesmo em sede de Plenário. No décimo quarto dia ocorre a votação da admissibilidade do processo que é decidido por maioria simples. Após esse procedimento, caso o Senado entenda ser admissível, o presidente é afastado, abre-se o prazo de 10 dias para apresentação de defesa e o vice-presidente assume19.
17 BRASIL. Distrito Federal. Plenário. Medida cautelar na arguição de descumprimento de preceito fundamental
378. Disponível em
http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=10444582. Acesso em: 30 de outubro de 2019.
18JUSBRASIL. Artigos. Crime de responsabilidade. Disponível em:
https://diegoprezzisantos.jusbrasil.com.br/artigos/323414840/infracao-crime-de-responsabilidade-e- impeachment. Acesso em: 30 de outubro de 2019
BRASIL. Senado Federal. Parecer nº 475, DE 2016 do Senado Federal. Disponível em:
https://www25.senado.leg.br/web/atividade/sessao-plenaria/-/pauta/3835. Acesso em: 02 de novembro de 2019 e CONJUR. Seção. Notícias. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2016-abr- 17/rito-discussao-senado-preve- defesa-dilma-afastamento. Acesso em: 02 de novembro de 2019.
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BRASIL. Notícias. Senado Federal. ADPF 378. Processo de impeachment. Definição da
legitimidade Constitucional do rito previsto na lei nº 1.079/50. Voto do Ministro Luís Roberto Barroso. Disponível em:
No vigésimo quarto dia preclui o prazo de 10 dias para a apresentação da defesa e é a primeira vez que o presidente tem direito de se defender durante o processo, mas não pode se manifestar oralmente nem indicar ninguém. Nesse sentido, abre-se novo prazo de 10 dias para o presidente do Senado indicar um defensor dativo. No trigésimo quarto dia esgota-se novo prazo para apresentação da defesa, o processo volta para a comissão especial e dá início a instrução, quenão possui prazo certo para ocorrer. No referido período, tanto os senadores quanto a defesa da presidente pode requerer oitiva das testemunhas ou perícia e diligências que entender cabíveis.
Esses pedidos seguem o rito de prazo do processo penal, mas no geral são 60 dias para que ocorra toda a instrução.
No nonagésimo quarto dia, o presidente apresenta alegações finais e é aberto o prazo de 10 dias para a discussão do mérito da acusação pela comissão especial. No centésimo quarto dia, vota o parecer do relator conforme o mérito e o presidente tem prazo de 5 dias para recorrer do parecer ao Plenário do Senado. O decurso do prazo ocorre no centésimo nono dia e no centésimo décimo primeiro, o Plenário realiza uma análise e vota o recurso contra o parecer da comissão especial. No centésimo décimo terceiro é que o Supremo Tribunal Federal começa a realizar seu papel, que é quando o Plenário começa a ser presidido pelo referido órgão. Logo em seguida, dois dias depois da votação do recurso contra o parecer, o presidente é intimado para oferecer o libelo acusatório.
No centésimo décimo quinto dia o denunciado (o presidente) é intimado a se manifestar sobre o libelo acusatório e indicar as testemunhas e no centésimo décimo sexto dia os autos serão remetidos ao presidente do Supremo para que ele designe uma data para julgamento. Destarte, no centésimo vigésimo sexto dia, o Plenário vota o libelo acusatório que é quando vai será prolatada a sentença de mérito e decidido se
o presidente vai ser punido ou não com o impeachment. Caso optem pela condenação, será deposto de seu mandato e ficará inelegível por oito anos, passando o cargo ao vice, Michel Temer, no caso Dilma Roussef que já estará em exercício.
O Supremo Tribunal Federal é o órgão do Estado que detém soberaniaejurisdicionalidade e, por tal motivo, deve assegurar a Constituição Federal.
http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADPF 378 Ementa_do_voto_do_ministro _Roberto_Barroso.pdf. Acesso em: 30 de novembro de 2019.
Nesse sentido, conforme salienta o princípio do devido processo legal no artigo 5º, inciso, LIV, da CF, que ninguém será prejudicado sem o devido processo legal, o papel do STF noprocesso de impeachment é assegurar que o referido princípio será aplicado. Logo, sendo o órgão de competência soberana maior do Estado, é o que possui competência para examinar em aspecto formal e material, a decisão condenatória da (do) Presidente da República à perda de seu mandato20.
Encerrado o processo do Congresso Nacional, o STF inicia seu protagonismo e a primeira etapa do papel do STF se inicia no julgamento, pois o Presidente do Supremo que comanda a sessão de julgamento. Caso o Presidente do Supremo seja o julgado, a lei abre uma exceção para um ministro substituto presidir a sessão. O presidente da Corte, ou caso tenha um substituto se o mesmo for o acusado, estabelece um julgamento no Senado com as presenças de denunciado, denunciante e testemunhas. As partes envolvidas devem ser notificadas em até 48 horas e haverá prazo mínimo de 10 dias para se instalar o julgamento e é necessário que haja quórum suficiente para instalar a sessão21.
Na primeira parte do julgamento os Senadores responderam as questões que lhes foram suscitadas, a exemplo de:“cometeu o acusado o crime que lhe é imputado e deve ser condenado à perda de seu cargo?” Caso dois terços dos Senadores respondam positivamente, é determinada a perda do cargo do presidente da República. Já na segunda parte do julgamento, a questão que deve ser respondida é em relação ao impedimento do condenado de exercer a função pública pelo tempo máximo de cinco anos. De acordo com o mesmo parâmetro da primeira parte do julgamento, se dois terços dos senadores responderem sim, a pena é imposta ao condenado.
20BRASIL. Notícias. Senado Federal. ADPF 378. Processo de impeachment. Definição da legitimidade Constitucional do rito previsto na lei nº 1.079/50. Voto do Ministro Luís Roberto Barroso. Disponível em:
http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADPF 378 Ementa_do_voto_do_ministro _Roberto_Barroso.pdf. Acesso em: 30 de novembro de 2019.
21 CONJUR. Seção. Notícias. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2016-jun-05/constituicao- protagonismo-stf-processo-impeachment-presidentes. Acesso em: 12 de agosto de 2019 e CONJUR. Seção.
Notícias. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2016-abr-17/rito-discussao-senado-preve- defesa-dilma- afastamento – Acesso em: 02 de novembro de 2019
Por sua vez, a defesa da ex-presidenta Dilma alegou que os decretos de abertura de crédito suplementar seriam atos rotineiros realizados pelos presidentes há mais de uma década.
Ainda, pontuou a defesa, que a partir do momento em que a Lei de Responsabilidade Fiscal de 2001 entrou em vigor no país, todos os presidentes realizaram práticas similares, sendo certo que nenhum deles fora denunciado ou destituído do poder.
Nesse sentido, salienta o advogado que realizou a defesa da ex-presidenta, José Eduardo Cardoso22:
No caso dos atrasos de pagamento das subvenções devidas ao Banco do Brasil, no âmbito do denominado Plano Safra, impropriamente chamados de
“pedaladas fiscais” a situação é idêntica. Nunca se entendeu que o procedimento adotado para o estabelecimento destas subvenções fosse ilegal, nem que eventual demora de repasses, mesmo sem prazo determinado, pudessem ser entendidas como “operações de crédito” proibidas pela lei.
Nunca se imaginou que supostos atrasos de pagamento em prestações de serviços pudessem vir a ser interpretados como formas de empréstimo. Um crime de responsabilidade onde não há ilícito, segundo o Ministério Público Federal que arquivou o inquérito que cuidava da questão. Um crime, onde não há ato da acusada, posto que ela nada determinou a respeito. Um crime, sem ilícito e sem autoria, mas em que pode haver condenação.
O fato é que todos os presidentes desde a vigência da Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2001, utilizaram-se dos meios que a Dilma usou para manipular a economia brasileira, mas nenhum deles fora denunciado, destituído do poder.
Em seu depoimento, afirma ex-presidenta Dilma Rousseff à Comissão Especial do Senado:
Por isso, sigo ainda, como no passado, conclamando a todos os que acreditam na soberania nacional, na Democracia, no Estado de Direito e na justiça social, para que jamais esmoreçam ou se afastem dessa luta justa que não admite retrocessos. Independentemente da
22 BRASIL. Senado Federal. Alegações finais da denúncia. Disponível em:
https://www12.senado.leg.br/noticias/arquivos/2016/07/28/alegacoes-finais-da-denunciada. Acesso em: 12 de novembro de 2019.
simpatia ou não pelo governo eleito no final de 2014, essa é uma luta da qual todos os que acreditam honestamente nesses valores não podem transigir, recuar por medo, por comodismo ou pela busca de vantagens pessoais. Os que forem dignos e honrados, se nessa luta capitularem, não deixarão, cedo ou tarde, de sentir o terrível peso da vergonha, ao vislumbrarem seu próprio rosto no espelho da história. Nunca poderão afastar das suas mentes a lembrança dos que morreram e foram torturados, para que pudéssemos ser um país soberano, livre e regido pelo Estado Democrático de Direito.
Acerca do impeachment de Dilma Rousseff, acentua Ricardo Westin23:
A queda de Dilma traz uma interpretação inédita e reveladora da crise política que paralisou o Brasil e culminou com o impeachment da presidente da República. O livro demonstra que, em essência, Dilma Rousseff foi derrubada por não colocar em prática O Príncipe, o manual do poder escrito por Maquiavel. Na obra de 1513, o pensador italiano listou os mandamentos – alguns moralmente questionáveis – que o político precisa seguir para conquistar o poder e governar sem sobressaltos, como “faz as maldades de uma só vez e as bondades a conta-gotas” e “torna os teus aliados dependentes de ti”. A queda de Dilma esquadrinha todos os movimentos da presidente desde a reeleição até o impeachment e constata: ela fez exatamente o oposto de tudo aquilo que Maquiavel ensinou. Sem tomar partido na disputa ideológica que rachou o Brasil, A queda de Dilma analisa através do prisma de Maquiavel a briga entre a presidente e o deputado Eduardo Cunha, as maquinações do vice Michel Temer, a influência do ex-presidente Lula e os escândalos descobertos pela Operação Lava Jato. Também lança luzes sobre o lado sombrio do poder, revelando as regras violentas e os interesses ocultos que giram as engrenagens da política, e mostra que, mesmo passados quinhentos anos, o velho manual de Maquiavel permanece assustadoramente atual.
A operação Lava Jato, segundo estudiosos, foi a maior operação já realizada pela Polícia Federal e, por conta da mesma, alguns esquemas de corrupção foram descobertos.
Essa operação teve início no ano de 2009 e ainda continua produzindo efeitos. Repise- se, trata-se da maior investigação de lavagem de dinheiro já existente no país24. E, tem uma relação fundamental com o Impeachment, uma vez que é no
WESTIN, Ricardo. A queda da Dilma, contracapa. 1ª Ed. São Paulo. Ed. Universo dos Livros, 201723.
24 “O nome do caso, “Lava Jato”, decorre do uso de uma rede de postos de combustíveis e lava a jato de automóveis para movimentar recursos ilícitos pertencentes a uma das organizações criminosas
mínimo contraditório, uma presidenta que sofrera impeachment não ter sido investigada pela maior Operação de corrupção já vista no país.25
I. 3Da Separação dos Poderes
Ao longo da história houve inúmeras discussões sobre a separação dos poderes.
Aristóreles, um dos grandes pensadores e filósofos, que viveu entre o ano de
384 a.C.-322 a.C, em seu livro intitulado A Política, fora um defensor da corrente tripartite, a separação dos poderes deve ser efetuada em três, tais quais, o poder Deliberativo, o poder Executivo e o judiciário. Nesse contexto, houveram os grandes filósofos da época com suas teorias divergentes: Montesquieu eLocke26.
Montesquieu acredita que todo homem que possui o poder, abusa dele. Partindo dessa premissa, cria a corrente dos freios e contrapesos, a qual, consagra que não haveria funcionamento caso o poder de elaborar as leis, executar e punir fosse concentrado nas mãos de um só homem, o considerado Déspota da época27.
O princípio da Separação dos poderes é uma forma de descentralização do poder e uma maneira de evitar eventuais abusos de autoridade. É uma forma de controle entre si. É por isso, diz-se, que no Distrito Federal, as três principais casas de representação da democracia, por conseguinte, do Estado Democrático de Direito, o Congresso Nacional, composto pela Câmara dos Deputados e por Senadores, e o
inicialmente investigadas. Embora a investigação tenha avançado para outras organizações criminosas, o nome inicial se consagrou.As empreiteiras - Em um cenário normal, empreiteiras concorreriam entre si, em licitações, para conseguir os contratos da Petrobras, e a estatal contrataria a empresa que aceitasse fazer a obra pelo menor preço. Neste caso, as empreiteiras se cartelizaram em um “clube” para substituir uma concorrência real por uma concorrência aparente. Os preços oferecidos à Petrobras eram calculados e ajustados em reuniões secretas nas quais se definia quem ganharia o contrato e qual seria o preço, inflado em benefício privado e em prejuízo dos cofres da estatal. O cartel tinha até um regulamento, que simulava regras de um campeonato de futebol, para definir como as obras seriam distribuídas. Para disfarçar o crime, o registro escrito da distribuição de obras era feito, por vezes, como se fosse a distribuição de prêmios de um bingo”. BRASIL. Ministério Público. Disponível em:
http://www.mpf.mp.br/grandes-casos/caso-lava-jato/entenda-o-caso. Acesso em 14 de novembro de 2019.
25 BRASIL. Editoria Política. Lava Jato e Impeachment. Disponível em:
https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/-Lava-Jato-e-Impeachment/4/35936. Acesso em: 14 de novembro de 2019.
26 BRASIL. Artigos. O princípio da tripartição dos poderes. Disponível em: https://www.univel.br/ojs- 3.0.2/index.php/revista/article/download/14/16/. Acesso em 02 de novembro de 2019. acertar
27 BRASIL. Artigos. Considerações sobre a teoria dos freios e contrapesos. Disponível em:
https://www.tjdft.jus.br/institucional/imprensa/artigos-discursos-e- entrevistas/artigos/2018/consideracoes-sobre- a-teoria-dos-freios-e-contrapesos-checks-and-
balances-system-juiza-oriana-piske. Acesso em: 02 de novembro de 2019.
Supremo Tribunal Federal, estão uma do lado da outra, para que haja a fiscalização dentre os três referidos poderes28.
Esse princípio éprimordial no processo de impeachment e na legislação brasileira,porquanto, na teoria, é a junção perfeita para a consagração de um estado democrático de direito, o qual, visa que a lei deve ser cumprida e o povo ter seus direitos tutelados. Nesse sentido, o poder Executivo possui a função de administrar, poder esse que é atribuído ao Estado, conforme salienta o artigo 2º da Constituição Federal29: “Art. 2º São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário”.
O poder executivo tem por finalidade exercer a administração do Estado em consonância com as normas legais válidas no país, é o fiel governante do povo, considerando que os representantes do poder Executivo são escolhidos pelo povo por meio do voto direto, cláusula pétrea da Constituição, cumpre as leis, programa os planos de ação. Além disso, o princípio primordial da administração pública, é a supremacia do interesse público e é por isso que o poder executivo detém tanto poder.
Os representantes desse poder são o Presidente da República, eleito por meio de voto direto e secreto, os Ministros indicados por ele, os Secretários, os Conselheiros de Políticas Públicas e os órgãos da administração pública. Os atos de chefia do Estado são exercidos por eles.
Ocorre que conforme dito alhures, na teoria é de verdade perfeita. Entretanto, esse livre arbítrio do Presidente indicar os ministros, Secretários e Conselheiros, por exemplo, formaliza uma espécie de democracia disfarçada, uma vez que nem todos os membros do poder executivo são eleitos pelo povo.
28 BRASIL. Artigos. Considerações sobre a teoria dos freios e contrapesos. Disponível em:
https://www.tjdft.jus.br/institucional/imprensa/artigos-discursos-e- entrevistas/artigos/2018/consideracoes-sobre- a-teoria-dos-freios-e-contrapesos-checks-and-
balances-system-juiza-oriana-piske. Acesso em: 02 de novembro de 2019.
29POLITIZE. Seção. Notícias. Separação dos poderes. Disponível em: https://www.politize.com.br/separacao-dos- tres-poderes-executivo-legislativo-e-judiciario/. Acesso em: 01 de novembro de 2019.
MONTESQUIEU. O espírito das leis. Tradução de José Afonso de Freitas. 2. ed. São Paulo: Ed. Martin Claret, 2010.
A função do poder legislativo é legislar, criar e aprovar as leis, nenhuma lei é sancionada sem primeiro ser passar pela fiscalização desse poder. O legislativo exerce a função de fiscalizar os atos exercidos pela administração pública por meio do poder de polícia.Tal poder é exercido pelos deputados federais e senadores no contexto federal, pelos deputados estaduais no âmbito estadual e pelos vereadores na circunjacência municipal30.
O poder judiciário possui como pilar principal a interpretação e o julgamento das leis, em plena consonância com as que foram criadas pelo poder legislativo, executando-a no caso concreto. A composição do poder judiciário é feita por ministros, desembargadores, promotores de justiça e juízes. O ingresso para fazer parte desse poderé por meio de concurso público, geralmente.
No Brasil, a legitimação da República desencadeou com que esses três poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário - emergissem para formar o governo, cabendo a cada um deles o exercício de determinadas funções específicas, com o objetivo final da realização da vontade do Estado31.
Dessa forma, José Afonso da Silva pormenoriza as funções dos poderes que compõem o governo, atestando que apenas está apto para exercer a função específica o respectivo órgão competente32:
Vale dizer, portanto, que o poder político, uno, indivisível e indelegável, se desdobra e se compõe de várias funções, fato que permite falar em distinção das funções, que fundamentalmente são três: a legislativa, a executiva e a jurisdicional. A função legislativa consiste na edição de regras gerais, abstratas impessoais e inovadoras da ordem jurídica, denominadas leis. A função executiva resolve os problemas concretos e individualizados, de acordo com as leis; [...]. A função jurisdicional tem por objeto aplicar o direito aos casos concretos a fim de dirimir conflitos de interesse.
30POLITIZE. Seção. Notícias. Separação dos poderes. Disponível em: https://www.politize.com.br/separacao-dos- tres-poderes-executivo-legislativo-e-judiciario/. Acesso em: 01 de novembro de 2019.
31BRASIL. Politize. Seção. Notícias. Separação dos poderes. Disponível em:
https://www.politize.com.br/separacao-dos-tres-poderes-executivo-legislativo-e-judiciario/. Acesso em: 01 de novembro de 2019.
32 SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 7ª ed. São Paulo: Ed. Malheiros, 2016.
Acerca do tema em comento, José Gomes Canotilho entende da seguinte maneira33: Em geral, afirma-se que a nenhum órgão podem ser atribuídas funções das quais resulte o esvaziamento das funções materiais especialmente atribuídas a outro. Quer dizer: o princípio da separação, exige, a título principal, a correspondência entre órgão e função e só admite exceções quando não for sacrificado o seu núcleo essencial. O alcance do princípio é visível quando com ele se quer traduzir a proibição do “monismo do poder”, como o que resultaria, por ex., da concentração de “plenos poderes“ no Presidente da República, da concentração de poderes legislativos no executivo ou transformação do executivo em órgão soberano executivo e legiferante.
Todavia, permanece em aberto o problema de saber onde começa e onde acaba o núcleo essencial de uma determinada função.
Para que haja o fiel cumprimento de um estado democrático de direito, é necessário que a separação de poderes seja efetiva, para que um poder sempre esteja fiscalizando outro, a fim de que não incorra em um possível erro. Ocorre que, mesmo com essa fiscalização, há falhas. Dessa forma, para que os atos do Presidente da República sejam fiscalizados efetivamente, é imprescindível a presença dos poderes legislativo e judiciário. E, ainda sim, tem-se a corrupção, conforme verifica-se o cenário político atual.
O Presidente da República deve ser responsabilizado pelos seus crimes. Portanto, cabe ao poder legislativo e ao poder judiciário fiscalizar o executivo e o Presidente da República é o representante do poder Executivo no país. Nesse sentido, o crime de responsabilidade e seus aspectos entram em foco no presente.
I.4. Do crime de responsabilidade
Para se estudar o instituto do impeachment, se faz necessário estudar as infrações que resultam no impedimento de exercer o cargo da presidência da república no Brasil, como o crime de responsabilidade, por exemplo, definido da seguinte maneira por Alexandre Moraes34:
33 CANOTILHO, J. J., Gomes. Direito Constitucional e teoria da constituição. 7 ed.reimp. Coimbra: Almedina, 2003, p. 559-560.
34 MORAES, Alexandre. Direito Constitucional. 13 ed. reimp. Coimbra, 2007, p. 458.
Para Alexandre de Moraes (2007, p. 458), crimes de responsabilidade são infrações político-administrativas definidas na legislação federal, cometidas no desempenho da função, que atentam contra a existência da União, o livre exercício dos Poderes do Estado, a segurança interna do País, a probidade da Administração, a lei orçamentária, o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais e o cumprimento das leis e das decisões judiciais.
O crime de responsabilidade é um crime de natureza jurídica política, vez que não há que se falar que nessa normacomo uma sanção penal, considerando que o objetivo do direito penal brasileiro é a punição para um posterior combate por meio da mesma, o que não ocorre no crime de responsabilidade. O objetivo do crime de responsabilidade é resguardar a Constituição Federal. Nesse sentido, Celso Ribeiro Bastos salienta35:
Pode-se dizer que os objetivos do impeachment são diversos dos da lei penal.
Esta visa, sobretudo à aplicação de uma medida punitiva, como instrumento de serviço de repressão ao crime. O processo de impeachment almeja antes de tudo a cessação de uma situação afrontosa à Constituição e às leis. A permanência dos altos funcionários em cargos cujas competências, se mal exercidas, podem colocar em risco os princípios constitucionais e a própria estabilidade das instituições e a segurança da nação, dá nascimento à necessidade de uma medida também destinada a apeá-los do poder.
O impeachment é a sanção sofrida pelo presidente da república quando comete crimes que atentem contra a Constituição Federal, além das condutas tipificadas na Lei nº 1.079/50, lei que regulamenta o processo e o julgamento dos crimes de responsabilidade. Esses crimes de responsabilidade são os mesmos que dão ensejo à abertura do processo de impeachment.
Os crimes de responsabilidade só podem ser cometidos pelo Presidente da República, Ministros de Estado, Ministros do Supremo Tribunal Federal, Procurador Geral da República, pelos Governadores dos Estados e seus secretários, na vigência do exercício das suas respectivas funções.
Logo, ocorrendo a prática de um dos crimes de responsabilidade elencados na Constituição Federal e na Lei nº 1.079/50, a autoridade praticante irá ser
35 BASTOS, Ribeiro Celso. Elementos de Direito Constitucional. 6ª ed. São Paulo: Ed. R.T, p. 168
processada e julgada ante o órgão legislativo competente, em âmbito nacional ou federal.
Ocorre que nos casos em que o Presidente da República comete crime comum, não sendo crime de responsabilidade, o responsável pelo seu julgamento é o Supremo Tribunal Federal.
Insta dizer que na Justiça Comum o processo é diferente dos processos dos órgãos legislativos. Na Justiça Ordinária, praticado um crime prenunciado na legislação penal, o réu consequentemente é submetido a um processo criminal, é processado e julgado de acordo com as normas previstas no Código de Processo Penal.
Entretanto, nos casos de ocorrência dos crimes de responsabilidade o procedimento é diametralmente diverso. O procedimento dos referidos crimes depende da admissibilidade, processamento e julgamento por órgãos legislativos e por tal motivo, sua natureza é política.
Partindo dessa premissa, salienta José Afonso da Silva36:
O processo dos crimes de responsabilidade e dos comuns cometidos pelo Presidente da República divide-se em duas partes: juízo de admissibilidade do processo e processo e julgamento. A acusação pode ser articulada por qualquer brasileiro perante a Câmara dos Deputados. Esta conhecerá, ou não, da denúncia; não conhecendo, será ela arquivada; conhecendo, declarará procedente, ou não, a acusação; julgando-a improcedente, também será arquivada. Se a declarar procedente pelo voto de dois terços de seus membros, autorizará a instauração do processo (arts. 51, I, e 86), passando, então, a matéria: (a) à competência do Senado Federal, se se tratar de crime de responsabilidade (arts. 52, I, e 86); (b) ao Supremo Tribunal Federal, se o crime for comum (art. 86). Recebida a autorização da Câmara para instaurar o processo, o Senado Federal se transformará em tribunal de juízo político, sob a Presidência do Presidente do Supremo Tribunal Federal. Não cabe ao Senado decidir se instaura ou não o processo. Quando o texto do art. 86 diz que, admitida a acusação por dois terços da Câmara, será o Presidente submetido a julgamento perante o Senado Federal nos crimes de responsabilidade, não deixa a este possibilidade de emitir juízo de conveniência de instaurar ou não o processo, pois que esse juízo de admissibilidade refoge à sua competência e já fora feito por quem cabia. Instaurado o
36SILVA (2016), op. cit. p. 490
processo, a primeira consequência será a suspensão do Presidente de suas funções (art. 86, §1º, I). O processo seguirá os trâmites legais, com oportunidade de ampla defesa ao imputado, concluindo pelo julgamento, que poderá ser absolutório, com o arquivamento do processo, ou condenatório por dois terços dos votos do Senado, limitando-se a decisão à perda do cargo, com inabilitação por oito anos, para o exercício de função pública, sem prejuízo das demais sanções judiciais cabíveis (art. 52, parágrafo único). É isso que caracteriza o chamado impeachment.
Dessa forma, a Constituição Federal de 1988, em seus artigos 85 e 86, é clara ao definir as responsabilidades do Presidente da República, conforme se verifica na transcrição dos artigos abaixo:
DA RESPONSABILIDADE DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Art. 85. São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição Federal e, especialmente, contra:
I - a existência da União;
II - o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação;
III - o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais; IV - a segurança interna do País;
V - a probidade na administração; VI - a lei orçamentária;
VII - o cumprimento das leis e das decisões judiciais.
Parágrafo único. Esses crimes serão definidos em lei especial, que estabelecerá as normas de processo e julgamento.
Art. 86. Admitida a acusação contra o Presidente da República, por dois terços da Câmara dos Deputados, será ele submetido a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal, nas infrações penais comuns, ou perante o Senado Federal, nos crimes de responsabilidade.
§ 1º O Presidente ficará suspenso de suas funções:
I - nas infrações penais comuns, se recebida a denúncia ou queixa- crime pelo Supremo Tribunal Federal;
II - nos crimes de responsabilidade, após a instauração do processo pelo Senado Federal.
§ 2º Se, decorrido o prazo de cento e oitenta dias, o julgamento não estiver concluído, cessará o afastamento do Presidente, sem prejuízo do regular prosseguimento do processo.
§ 3º Enquanto não sobrevier sentença condenatória, nas infrações comuns, o Presidente da República não estará sujeito a prisão.
§ 4º O Presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções.
Cumpre ressaltar que a Lei nº 1.079/1950 consagra que pode configurar como crime de responsabilidade os crimes cometidos pelo Presidente da República contra a guarda e o emprego dos dinheiros públicos em seu artigo 4º, VII, in verbis37:
Art. 4º São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentarem contra a Constituição Federal, e, especialmente, contra:
(...)
VII - A guarda e o legal emprego dos dinheiros públicos.
Insta salientar que a legislação acerca dos crimes de responsabilidade é clara, a lei tipifica expressamente quais as condutas podem ou não ser cometidas pelos governantes, os quais, além de perder o mandato, ficam impossibilitados de exercer função pública em outro cargo por um determinado período estipulado em lei.
37BRASIL. Poder Legislativo. Lei nº 1.079, de 10 de abril de 1950. Disponível em www.planalto. gov.br.
Acesso em 11 de novembro de 2019.
CAPÍTULO II - O CASO DILMA ROUSSEFF
II.1. As pedaladas fiscais
Pedalas fiscais são operações atípicas, não previstas no ordenamento jurídico pátrio e são utilizadas para disfarçar o resultado das contas públicas. Um exemplo típico das pedaladas fiscais são os benefícios sociais do governo para a população que possui menor poder aquisitivo.
A população adquire esses benefícios em agências da Caixa Econômica Federal e em contrapartida, o Governo Federal possui um contrato com a Caixa estipulando uma remuneração ao banco em contraprestação dessas operações realizadas38.
Considerando que tais beneficiários recebem o dinheiro dos programas sociais pela Caixa, o Governo Federal deve manter uma conta dessa instituição financeira com saldo positivopara que o banco realize os pagamentos. Conforme esses pagamentos vão sendo realizados, o Governo Federal tem que ir depositando mais dinheiro nessas contas, pois o saldo deve ser sempre positivo e linear, conforme imagem ilustrativa extraída do Tribunal de Contas da União39:
Fonte: Tribunal de Contas da União. Disponível em: http://mercadopopular.org/wp- content/uploads/2015/10/caixa.png. Acesso em: 02 de novembro de 2019.
No entanto, a partir do final de 2013, o Governo Federal passou a acumular inúmeras dívidas com a Caixa Econômica Federal, acarretando em um desequilíbrio econômico,conforme segue:
38JUSBRASIL. Seção. Notícias. Disponível em:
https://mercadopopular.jusbrasil.com.br/artigos/241550408/o-que-e-pedalada-fiscal-um-manual-para- nao- economistas. Acesso em: 02 de novembro de 2019.
39 Ibid.
Fonte: Tribunal de Contas da União. Disponível em: http://mercadopopular.org/wp- content/uploads/2015/10/pedaladasfiscais.png. Acesso em: 02 de novembro de 2019.
Cumpre salientar que quando o governo deixa de transferir esse dinheiro para a Caixa, os governantes permeiam o resultado primário do governo uma vez que mesmo que o gasto social tenha ocorrido, o dinheiro não saiu das contas do Governo Federal, mas da Caixa. Nesse sentido, considerando que o Governo quitou suas dívidas de 2013 com a Caixa em janeiro de 2014, o resultado de 2013 fora alterado. O gráfico do primeiro semestre de 2014, usado como alusão para as eleições, aconteceu a mesma coisa. Esse fato traz impressão diversa da situação fiscal do Governo, mostra que o ano terminou aparentemente melhor do que realmente estava acontecendo.
A lei de Responsabilidade Fiscal impossibilita que um banco público custeie os gastos do governo que o controla, em seu artigo 36:
Art. 36. É proibida a operação de crédito entre uma instituição financeira estatal e o ente da Federação que a controle, na qualidade de beneficiário do empréstimo.
Parágrafo único. O disposto no caput não proíbe instituição financeira controlada de adquirir, no mercado, títulos da dívida pública para atender investimento de seus clientes, ou títulos da dívida de emissão da União para aplicação de recursos próprios.
O objetivo principal do legislador nessa norma é incitar os diferentes níveis de governo a possuírem orçamentos de diversos níveis de racionalidade
diferentes, com gastos primários financiados por receitas primárias, tudo para que não incorra em dívidas para administrações futuras40.
Até o final do regime ditatorial no Brasil, em 1984, a causa de maior potencialidade para a elevada taxa de inflação no país era o fato dos governos estaduais e federal conseguirem financiar gastos por meio de bancos públicos. Após a ocorrência desse refinanciamento, os bancos eram recapitalizados pelo Banco Central através do conta-movimento, criados pelos militares na ditatura fator utilizado na época. Os políticos estaduais e federais poderiam gerar a quantidade que quisessem de moeda. O Bacen compensava o que faltava na caixa do Banco do Brasil por meio dessa conta-movimento.
Dessa forma, a Lei de Responsabilidade Fiscal proíbe tal prática41.
De acordo com o atraso constante dos repasses públicos para a Caixa no ano de 2014, o Tribunal de Contas da União cogitou que tal atraso era homólogo a um financiamento de gastos públicos pela Caixa, gastos estes que eram de obrigação do Governo Federal. A imagem ilustrativa extraída do site do Tribunal de Contas é clara:
Fonte: Tribunal de Contas da União. Disponível em: http://mercadopopular.org/wp- content/uploads/2015/10/credito.png. Acesso em: 02 de novembro de 2019
40JUSBRASIL. Seção. Notícias. Disponível em:
https://mercadopopular.jusbrasil.com.br/artigos/241550408/o-que-e-pedalada-fiscal-um-manual-para- nao- economistas. Acesso em: 02 de novembro de 2019.
41JUSBRASIL. Seção. Notícias. Disponível em:
https://mercadopopular.jusbrasil.com.br/artigos/241550408/o-que-e-pedalada-fiscal-um-manual-para- nao- economistas. Acesso em: 02 de novembro de 2019.
O papel da Caixa era ser uma prestadora de serviços, espécie de terceirizada que utiliza suas agências para repassar benefícios financiados pelo Governo Federal. Ocorre que com os atrasos constantes, a Caixa precisou utilizar dos seus recursos próprios para realizar tal repasse aos beneficiários dos programas sociais. Esse repasse realizado pela Caixa, considerado ilegal pela legislação vigente, é o que caracteriza as pedaladas fiscais.
A Lei de Responsabilidade Fiscal tem por principal objetivo evitar o endividamento em excesso dos Estados e do Governo Federal. A não incidência de dívidas futuras, que cresce com o decorrer do tempo, é importante pois, a existência dessas dívidas, é sinal de impostos mais caros e menos serviços públicos. No decorrer dos últimos anos, as pedaladas se fizeram mais presentes em decorrência da falta de verba do governo, tal ato interferiu diretamente no PIB do Brasil, conforme demonstra imagem ilustrativa retirada do site do Banco Central do Brasil:
Fonte:Tribunal de Contas da União. Disponível em: http://mercadopopular.org/wp- content/uploads/2015/09/6.png. Acesso em: 02 de novembro de 2019.
Dessa forma, ao realizar a autorização ou a não propiciar o cancelamento de operações de crédito ilegal ante as instituições financeiras públicas como: Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, BNDES, FGTS, a ex-presidente teria contrariado os seguintes dispositivos legais do ordenamento jurídico pátrio: Lei n° 1.079/50: art. 10, incisos VII, VIII e IX; art. 11, inciso III; - Lei Complementar nº 101/2000: art. 29, III; art. 32, § 1°; art. 36, caput e art. 38, caput, e inciso IV, b, que salientam:
Art. 10. Integram esta Lei os seguintes Anexos, incluindo os mencionados nos arts. 2º, 3º, 5º e 6º desta Lei:
VII - quadros orçamentários consolidados;
VIII - discriminação das receitas dos Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social;