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Do cuidado do juiz ao tentar conciliar as partes

3. A “Fase de Saneamento”

3.7. Da conciliação (autocomposição)

3.7.3. Do cuidado do juiz ao tentar conciliar as partes

O primeiro ato da audiência preliminar é a tentativa (efetivo estímulo) de autocomposição das partes. Para isso, os juízes devem estar devidamente preparados (treinados) e devem efetivamente conhecer o processo, não podendo se limitar a indagar às partes se há acordo, mas sim efetivamente estimulá-las.

304

CORDEIRO, Maria de Fátima Rodrigues Travassos. Op. Cit., p. 49.

305

WAMBIER, Luiz Rodrigues. Op. Cit..

306

Há muitos poderes do juiz que, ou não são usados, ou deles não se tem feito o melhor uso. Tal é o poder conciliatório que, para ser utilizado, está na dependência, quase que somente da boa vontade do juiz. E para ser exercido exitosamente exige habilidade de conciliador, que se for o próprio juiz, deverá agir com especial cuidado, a fim de não se antecipar quanto ao mérito, despertando a desconfiança de alguma das partes. Os poderes conciliatórios já estão no código; dispensam, para serem usados, de edição de novas leis, salvo para generalizar a utilização de conciliador.307

O juiz, profundo conhecedor da causa, deve estimular a autocomposição, deve envidar esforços para o fim almejado, sem, contudo, impor às partes sua vontade nem antecipar posição a fim de compelir uma das partes a transigir. Valiosa, sobre o ponto, a lição de Barbosa Moreira:

É de extrema delicadeza o papel do juiz nesse momento: cabe-lhe envidar esforços no sentido da composição amigável da lide, abstendo-se, porém de fazer pressão sobre qualquer das partes para que aceite um acordo em termos a que não se mostra disposta a anuir. Deve o juiz, especialmente, evitar que transpareçam de sua intervenção indícios de um prejulgamento da causa. A lei não minudencia a disciplina da tentativa de conciliação. Compreende-se que seria difícil fixar a priori normas rígidas. A condução da tentativa, a cargo do juiz, dependerá, caso por caso, da reação que tiverem as partes. Com elas deve o órgão judicial entender-se diretamente, e interpor-se toda vez que surja o risco de agastamento entre os litigantes. Os advogados podem presenciar a tentativa de conciliação, e as partes é lícito consultá-los reservadamente sobre quaisquer pontos a cujo respeito desejem esclarecer-se; não é necessária, porém, a mediação dos advogados no diálogo entre cada uma das partes e o juiz, que há de atender pessoalmente a todo pedido de esclarecimento que alguma delas prefira dirigir-lhe.308

Trata-se de fase do procedimento em que o juiz se distancia de sua posição hierárquica, de representante do Estado, e colocando-se em posição simétrica às partes, dialoga em prol da solução consensual do conflito, devendo ter um papel ativo, que se espera do juiz do processo pautado pela comparticipação.

É importante lembrar que muitas vezes o cidadão estará aquela única vez diante de um juiz, sendo natural certo desconforto. O juiz, para as partes, é uma figura estranha, muitas vezes um temido soberano. Por isso, deve partir dele a atividade inicial em busca da conciliação, “quebrando o gelo” inicialmente existente. Conseguindo isso e ultrapassando-se a tensão inicial, os litigantes ficarão naturalmente mais abertos ao almejado diálogo, aumentando a probabilidade de êxito da conciliação.

307

CASTRO FILHO, Sebastião de Oliveira. Op. Cit., p. 321.

308

O juiz não pode ser um simples mediador, mas verdadeiro conciliador309, postura que melhor se adequa ao processo de estrutura democrática. Deve se lançar a encontrar pontos de equilíbrio entre as pretensões das duas partes, sugerindo propostas contrabalançadas a fim de atingir a solução consensual do conflito, que poderá ir reformulando de acordo com a maior ou menor receptividade pelos litigantes. O modelo de processo cooperativo impõe essa postura mais ativa ao magistrado, que não pode ser mero espectador.

Para o desiderato, impõe-se que o julgador propicie condições que estimulem a conciliação, através de um ambiente de diálogo, confiança e cooperação. Eis o tripé da conciliação. Atuando dessa forma, mas sempre se mantendo dentro do limite da imparcialidade, o juiz valoriza sobremaneira a função pacificadora do processo.

É dever do juiz esclarecer as partes sobre os benefícios da conciliação, advertir (sem antecipar mérito) os riscos de qualquer demanda judicial (pois o direito é incerto no processo), mas “sem insistir em demasia, nem forçar as partes a uma recalcitrante transação quanto estiverem elas desejosas de lutar pela realização integral de que

consideram como o seu direito”310.

Daí exsurge, também, a importância da presença dos patronos das partes na audiência, como já ressaltado, bem como a gravação em áudio e vídeo do ato, o que poderia demonstrar, a qualquer momento e com precisão, eventual constrangimento sofrido pela parte para celebração do acordo.

O novo CPC estabelece logo em seus primeiros artigos, dentre as normas fundamentais do processo civil, que “o Estado promoverá, sempre que possível, a solução consensual dos conflitos” e que “a conciliação, a mediação e outros métodos de solução consensual de conflitos deverão ser estimulados por juízes, advogados, defensores públicos e

membros do Ministério Público, inclusive no curso do processo judicial”311.

309

“O mediador limita-se a aproximar as partes, procurando que estas se conciliem, mantendo-se, porém, em descomprometimento quanto ao resultado, ou seja, são-lhe indiferentes os termos da eventual conciliação. Por sua vez, o conciliador não deseja apenas que as partes se conciliem. Deseja que a conciliação a encontrar seja justa e razoável, seja equitativa. Por isso, diligencia no sentido de ser obtida a solução mais adequada para o caso, responsabilizando-se pelo desfecho alcançado. É seu encargo e compromisso contribuir para a realização da justiça pela via da conciliação” (PIMENTA, Paulo. Op. Cit., p. 222).

310

CARNEIRO, Athos Gusmão. Op. Cit., p. 81.

311

Mais do que “tentada”, a solução consensual dos conflitos deve ser estimulada por todos aqueles que participam do processo, pois essa é a mais eficiente das formas para

“que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva”312.

A solução consensual dos conflitos é tratada como prioridade pelo legislador do NCPC,

criando-se, para tanto, a figura dos conciliadores e mediadores judiciais313, dentre os

auxiliares da justiça.

Por tudo isso, é indubitável que a fase de saneamento do processo, e mais especificamente a atividade conciliatória nela desenvolvida, se bem conduzida, pautada pelo diálogo, pode propiciar a justa solução do litígio, prestigiando a razoável duração do processo. Não há porque, nesse contexto, colocar sobre ela (audiência preliminar) a culpa pela morosidade do processo, porquanto pode ser a solução.