Art. 1º Fica criado, junto à Presidência da República, o Departamento Administrativo do Serviço Público (D. A. S. P.) diretamente subordinado ao Presidente da República.
Art. 2º Compete ao D. A. S. P. :
a) o estado pormenorizado das repartições, departamentos e estabelecimentos públicos, com o fim de determinar, do ponto de vista da economia e eficiência, as modificações a serem feitas na organização dos serviços públicos, sua distribuição e agrupamentos, dotações orçamentárias, condições e processos de trabalho, relações de uns com os outros e com o público;
b) organizar anualmente, de acordo com as instruções do Presidente da República, a proposta orçamentária a ser enviada por este à Câmara dos Deputados;
c) fiscalizar, por delegação do Presidente da República e na conformidade das suas instruções, a execução orçamentária;
d) selecionar os candidatos aos cargos públicos federais, excetuados os das Secretarias da Câmara dos Deputados e do Conselho Federal e os do magistério e da magistratura;
e) promover a readaptação e o aperfeiçoamento dos funcionários civís da União; f) estudar e fixar os padrões e especificações do material para uso nos serviços públicos; g) auxiliar o Presidente da República no exame dos projetos de lei submetidos a sanção; h) inspecionar os serviços públicos;;
g) auxiliar o Presidente da República no exame dos projetos de lei submetidos a sanção; h) inspecionar os serviços públicos;
autoritária fornece os valores para legitimar o Estado forte e a supremacia da técnica sobre a política.” É através de uma estrutura vertical e hierarquizada, diretamente subordinada ao Estado, que se incorporam empresários industriais e trabalhadores urbanos ao sistema político, mas de forma assimétrica - “ admitindo os primeiros e excluindo os segundos”. (Diniz,1999: 257-8)
Esta será, segundo Martins (op.cit.:680,720), a estratégia de inclusão de novos atores, sem que seja ao sistema político, mas ao novo aparelho de Estado. É a forma pela qual se dá a mudança na composição da elite dirigente, com a criação de “grupos técnicos” na burocracia. No processo de expansão do aparelho do Estado que se dá ao longo da década de 1930, os setores médios em busca de inserção política se dará via expansão e transformação da burocracia .
Foi na esfera da economia que os conselhos técnicos constituiram a experiência mais efetiva. Segundo Ianni (1971), o Conselho Federal de Comércio Exterior, criado em 1934, pode ser considerado o primeiro órgão brasileiro de planejamento governamental. Reuniu técnicos, funcionários governamentais e empresários “ para estudar e propor soluções para vários problemas do sistema econômico-financeiro e administrativo nacional. Esta tecno-estrutura estatal se desenvolveu, segundo o autor, para responder às inadequações das superestruturas em vigor e à organização e mentalidade de “ tipo oligárquico” e para dar conta das complexidades do sistema econômico– financeiro do país.( Ianni,op.cit.: 28)
No campo do urbanismo a concretização do modelo de instituições, na perspectiva de privilegiar técnica, eficiência e racionalidade iniciada nos anos 1930, incorpora a separação entre as funções políticas e administrativas do estado ou município, situando o urbanismo no campo da técnica da administração. Esta separação é assumida no discurso dos urbanistas. Em 1935, Washington Azevedo afirma:
“quando não separadas as funções políticas e administrativas, a administração municipal está fadada às oscilações políticas. Além disso, a contratação dos funcionários passa a ser feita somente considerando-se dedicação e fidelidade partidária, o que, além de prejudicar a administração e o bom andamento dos serviços públicos urbanos, não garante que estes serviços sejam desenvolvidos por técnicos especializados e melhor capacitados. (Azevedo, 1935:2)
Atuam nos órgãos estaduais criados para o controle financeiro das administrações municipais – os Departamentos Administrativos, onde estruturam a assistência técnica aos municípios na esfera do urbanismo. No que se refere ao sistema de conselhos consultivos, os profissionais brasileiros introduzem na década de 1930 as comissões de planos. Tanto na criação de
uma esfera de urbanismo que atua em nível estadual para orientar os municípios, como nas comissões de planos, a experiência americana será a referência dos urbanistas, como veremos adiante. Nestes dois espaços de atuação, os urbanistas se aproximam, também, do ideário municipalista, na medida em que atuam na perspectiva de fortalecer e qualificar o município e a administração municipal - para e através das práticas do urbanismo.
Esta importância do município, ao longo da década de 1930, convive, com a legislação específica e as constituições profundamente centralizadoras, além da autonomia financeira restrita. Este paradoxo da Era Vargas se explica, segundo Melo(1993:91), pela concepção do município -“ orgânica e simbioticamente entrelaçado com o poder central” . Sem mediações de instâncias territoriais ou político-partidárias, ”a articulação entre os dois níveis está assegurada pela centralização, que aproxima e reúne os dois pólos”. O município é concebido como uma esfera comunitária - portanto pré-política - que acomoda apenas a coletividade das famílias e seus valores ainda não
distorcidos pelas instâncias de representação. Após a Revolução de 1930 e,
particularmente durante o Estado Novo, o município foi, segundo o autor, “elevado à condição de princípio programático das elites governamentais e de peça importante da estratégia de nation-building perseguida”. 13A Constituição
de 1937 elege o município "como órgão constituinte dos poderes".
Além do paradoxo centralização/ autonomia municipal, a Era Vargas contém o paradoxo da convivência entre o ideário anti-urbano e a construção da identidade urbana do país. Este se manifesta, segundo Mello (1993), em vários órgãos essenciais à estratégia de modernização administrativa implantado na era Vargas.Ou seja, o projeto de modernização envolveu um agrarismo modernizador. O Instituto Nacional de Estatística - INE (1934), o Departamento Administrativo do Serviço Público- DASP (1938), e mesmo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística- IBGE (1938) foram fortemente influenciados pelo ideário ruralista e municipalista. O IBGE- que foi uma instituição central nesse movimento - foi criado como órgão de administração colegiada, em cuja direção os estados, os municípios e a União tinham paridade de representação, numa clara estratégia de construir a nação a partir do município. (Valdemar Lopes, entrevista ao autor). Desses órgãos emerge a elite burocrática que formulou o municipalismo pragmático da década de 40. ( Melo,op.cit: 90).
As comissões de planos e a atuação dos urbanistas na década de 1930 são parte destes paradoxos. É o vínculo com o municipalismo que permite conferir às comissões de planos, além do caráter técnico, um caráter de campanha pelo urbanismo e pelo plano, em prol do município, nos moldes do que ocorria nos Estados Unidos. Este vínculo ajuda a explicar também a
13 O autor desenvolve a análise deste paradoxo a partir de PITKIN, Hanna F. (1967), The Concept
proliferação de comissões no país, a importância que assumem como espaço de debates nas capitais, agregando setores da sociedade, e o apoio que recebem dos prefeitos que, do ponto de vista jurídico- institucional estavam totalmente submetidos ao Interventor. Além disso, as comissões expressam a associação entre setores representativos do agrarismo e das elites urbanas – expressam a não ruptura apontada por Martins (1982) e o novo arranjo entre elites que se processa com a chamada Revolução de 1930.