CAPÍTULO 2 A FUNÇÃO SOCIAL DA EMPRESA
2.2 O ESTADO DO BEM-ESTAR SOCIAL E A FUNÇÃO SOCIAL
2.2.1 Do Estado liberal para o Estado do bem-estar social
Como todos os processos de transformação no curso da história, com exceção dos de caráter revolucionário, a passagem do Estado liberal para o Estado do bem-estar social ocorreu de forma gradual.
O advento do Estado liberal somente foi possível em razão da positivação dos direitos individuais como a liberdade e a propriedade e que, de conseqüência, possibilitou a implantação do sistema capitalista.
Um dos grandes autores do período liberal foi Adam Smith, que entendia que o Estado deveria garantir os direitos individuais e se manter afastado das relações comerciais, pois a economia tinha a capacidade de regular as forças do mercado. Sobre o mercado existia uma “mão invisível” que era responsável por ele se regenerar na medida em que ocorriam os desgastes naturais das atividades mercantis.
No âmbito jurídico, o resultado foi a promulgação das constituições-garantia, que visavam submeter o Estado a legislação, garantir os direitos individuais e mantê-lo afastado da esfera individual, principalmente na área econômica. Este perfil de Estado era denominado Estado mínimo.
Entretanto, apesar do Estado Liberal poder ser caracterizado como Estado mínimo, este jamais se afastou totalmente da esfera econômica. Durante o Estado Liberal diversas tentativas foram realizadas com objetivo de emendar as constituições visando instituir direitos sociais e intervencionista no âmbito da economia.
Por ocasião da Revolução Francesa, muitos dos revolucionários demonstraram preocupação com a absolutização do direito de propriedade por entenderem que tal poder poderia se mostrar equivocado, o que foi desconsiderado com a aprovação do texto em 1795.
Dallari apresenta uma interessante análise sobre os benefícios advindos do Estado Liberal e os motivos para a sua superação (2013, p. 273):
O Estado liberal, com um mínimo de interferência na vida social, trouxe, de início, alguns inegáveis benefícios: houve um progresso econômico acentuado, criando-se as condições para a revolução industrial; o indivíduo foi valorizado, despertando-se a consciência para a importância da liberdade humana; desenvolveram-se as técnicas de poder, surgindo e impondo-se a idéia do poder legal em lugar do poder pessoal. Mas, em sentido contrário, o Estado liberal criou as condições para sua própria superação. Em primeiro lugar, a valorização do indivíduo chegou ao
ultraindividualismo, que ignorou a natureza associativa do homem e deu
margem a um comportamento egoísta, altamente vantajoso para os mais hábeis, mais audaciosos ou menos escrupulosos. Ao lado disso, a concepção individualista da liberdade, impedindo o Estado de proteger os menos afortunados, foi a causa de uma crescente injustiça social, pois, concedendo-se a todos o direito de ser livre, não se assegura a ninguém o
poder de ser livre. Na verdade, sob pretexto de valorização do indivíduo e
proteção da liberdade, o que se assegurou foi uma situação de privilégio para os que eram economicamente fortes. E, como acontece sempre que os valores econômicos são colocados acima de todos os demais, homens medíocres, sem nenhuma formação humanística e apenas preocupados com o rápido aumento de suas riquezas, passaram a ter o domínio da Sociedade.
O sistema liberal puro sempre foi objeto de reflexão dos grandes pensadores, sendo que no final do século XVIII desenvolveu-se a teoria do sistema de natureza mista, também denominado sistema dual. Esta alteração decorreu da consciência de que o mercado não é um meio apto a solucionar as falhas do sistema econômico, o que permitiu uma maior aproximação do Estado no desenvolvimento de políticas econômicas.
Este retorno intervencionista na economia pelo Estado é analisado por Amaral (2008, p. 58) nos seguintes termos:
A passagem do Estado liberal ao Estado social se dá, portanto, a partir do instante em que o mercado se mostra incapaz de gerir os fatores econômicos por si só, os quais passam, ao longo da história, a caracterizar- se pela indubitável complexidade de suas relações. As mazelas verificadas na sociedade liberal, na não consecução do bem para todos, fez com que o Estado retomasse sua posição intervencionista, não para conduzir a nação tal qual um monarca, mas sim para garantir programas de desenvolvimento social que permitissem a continuidade do sistema capitalista.
A fragilidade do liberalismo frente ao aumento da complexidade social, possibilitou a implementação do Estado social, também denominado de Estado do
bem-estar social, com o objetivo de implantar o bem-estar da sociedade e garantir a manutenção do capitalismo.
Após a Primeira Guerra Mundial, o Estado passa a intervir na economia, objetivando atender as necessidades da população e diminuir as desigualdades sociais.
Com a finalidade de assegurar a reconstrução equilibrada numa sociedade abalada pela situação deixada pela guerra, foi promulgada na Alemanha a Carta Constitucional de 1919, conhecida como Constituição de Weimar, que melhor tratou as questões dos direitos sociais. Na Europa, de todos os países capitalistas, a Alemanha foi o que mais ousou ao da tratar da propriedade, pois estava interessada em promover a distribuição de riqueza.
A Constituição mexicana de 1917 também foi importante, pois passou a questionar o caráter absoluto da propriedade, que era um dos pilares do liberalismo, demonstrando preocupação com a destinação que o particular dava a terra, com o escopo de evitar condutas contrárias aos interesses da sociedade.
A Constituição de Weimar iniciou a disseminação do Estado social, bem como o conceito das constituições-programa, pois estabelecia os programas, os objetivos e os instrumentos para proporcionar o equilíbrio da sociedade e a sua prosperidade. Além dos direitos individuais, deveriam ser garantidos os direitos sociais por meio de políticas sociais e econômicas a serem implementadas pelo Estado.
No Estado liberal o indivíduo ocupava o papel central na vida política, econômica e jurídica, sendo que no Estado social este papel é da sociedade. Evidencia-se a mudança do foco como motivo para nortear as ações estatais, o que possibilitou a passagem do Estado liberal para o Estado social, que preconiza que os direitos individuais devem preservar o indivíduo perante o Estado e serem exercidos em benefício da coletividade.
As Constituições alemã e mexicana não tiveram como objetivo eliminar a propriedade privada, mas sim impor o uso correto deste direito individual.
No sistema dual, característicos dos Estados sociais, o Estado intervém na economia com a finalidade de orientar os agentes econômicos para alcançar resultados que favoreçam a prosperidade da sociedade, sem que isso implique na perda dos direitos individuais.
No Estado social, todos os institutos e instituições têm uma função a ser exercida devendo ser direcionada ao bem-estar coletivo, atendendo o interesse público. As condutas que contrariam o bem-estar social, mesmo que importem em benefício ou proveito individual, são contrárias as idéias do Estado social.