CAPÍTULO 1 Da Didáctica da Língua Estrangeira à Didáctica
3. O Encontro Intercultural Plurilingue: um conceito na encruzilhada de eixos de evolução da
3.2 Do exolinguismo monolingue ao exolinguismo plurilingue
De notar que os EIP que analisaremos se enquadram naquilo a que se chama exolinguismo (cf. BANGE: 1991 e 1992; COLLETTA: 1991a; MATTHEY: 2003; PORQUIER: 1984; PORQUIER & ROSEN: 2003) e que aqui designaremos por "exolinguismo de geometria variável", já que a situação de comunicação se caracteriza pelo facto de todos os intervenientes serem nativos de uma LR e falantes estrangeiros das restantes, numa situação de "aloglotas" nas três outras línguas.
Na acepção de Porquier, uma situação de comunicação é exolingue quando "les interlocuteurs n'ont pas de langue maternelle commune, en sont conscients, et la communication exolingue est structurée pragmatiquement et formellement par cet état de choses et donc par la conscience et les représentations qu'en ont les participants" (1984, 8). Uma outra concepção é proposta por Py, para quem "exolingue" remete para "une interaction en face à face entre un locuteur alloglotte et un locuteur natif" (1990, 82; ainda VASSEUR: 1990). Em ambos os casos, a situação de comunicação caracteriza-se por uma importante diferença nas competências linguísticas dos locutores e por uma recorrente tematização dessas diferenças, sobretudo quando se tenta resolver dificuldades, como malentendidos e incompreensões. Ora, essas diferenças entre os locutores, frequentemente designadas por assimetrias, não são só visíveis conforme este autor, ao nível linguístico:
"L'asymétrie linguistique est généralement prolongée par des asymétries dans les règles de l'intéraction et des conventions culturelles (par exemple dans la manière d'identifier et d'interpréter les indices de contextualisation)" (PY: 1990, 82; ver também NOYAU & PORQUIER: 1984)
Essa noção tem sido reformulada e estendida a outras situações de desequilíbrio ao nível dos papéis discursivos, dos repertórios linguístico-comunicativos, afectivos e culturais, sendo proposto o termo "exocomunicação" para marcar a especificidade de encontros entre línguas e culturas (cf. COLLETTA: 1991a), na sequência da tradição dos estudos anglo- saxónicos que vão para além dos factos de língua, tendo em consideração que "ces échanges impliquent l'usage d'autres signes que les signes linguistiques, d'autres stratégies d'emploi de la langue, et en conséquence que les compétences communicatives toutes entières des interlocuteurs (…) peuvent diverger" (COLLETTA: 1991b, 96).
A comunicação exolingue implica, pois, que os locutores sejam levados a utilizar de forma específica o seu repertório linguístico e usem estratégias de comunicação específicas (estratégias de comunicação em LM ou não-materna). Este sentido aproxima-se da proposta de Oesch-Serra, ao explicar que a situação é exolingue quando os fenómenos de mudança de língua e as marcas transcódicas são tematizados e os sujeitos entram em processos de ajustamento recíproco, como a auto- e a hetero-facilitação (cf. 1991, 24).
Na sequência destas definições, e considerando a autora que este tipo de interacção é mais propício à ocorrência de incidentes e de rupturas comunicativas, Colletta (1991b: 97- 100) aponta as especificidades discursivas e interaccionais da conversação exolingue:
• os sujeitos não nativos da língua de comunicação falam mais e as conversas são mais longas que as endolingues (isto porque, para lembrar MÜLLER: 1991, a conversa avança recuando, devido a uma constante orientação retrospectiva e negociação da continuação);
• os sujeitos não nativos hesitam mais;
• as "reprises" e as "repetições" (dois marcadores exolingues a que diante nos referiremos) são da responsabilidade principal do não-nativo, que se apoia no seu parceiro de comunicação, num esforço de auto-correcção e, como cremos, de participação activa na interacção;
• as elisões são maioritariamente feitas pelos nativos, mas são duas vezes mais frequentes em conversas endolingues, o que mostra a capacidade do nativo se adaptar à situação comunicativa exolingue, tentando fazer-se entender junto do seu interlocutor;
• nos enunciados não nativos, são abundantes os empregos incorrectos e o esquecimento e/ou desconhecimento de constituintes dos sintagmas nominal e verbal;
• os papéis assumidos pelos falantes nativo e não nativo são nitidamente assimétricos mas complementares: cabe ao primeiro a orientação temática, a pilotagem interaccional e o suporte à compreensão e expressão do interlocutor não nativo e a este alimentar o co- discurso, aceitando as orientações do primeiro (cf. COLLETTA: 1991b, 99);
• os reguladores metadiscursivos e interaccionais e o discurso metalinguístico são mais frequentes neste tipo de conversação, sendo, na maioria, produzidos pelos nativos, no que se poderia designar por tentativa de manter o canal de comunicação em aberto (a chamada "função fática" da linguagem). Esta característica mostra que "un mécanisme visant à assurer l'intercompréhension complète la panoplie des stratégies de régulation synchronisation en conversation exolingue. Il s'agit d'un mécanisme de contrôle de l'intercompréhension17
" (COLLETTA: 1991b, 99).
Adoptaremos, aqui, o conceito original de exolinguismo com a formulação teórica de que o enche Colletta, concordando com Araújo e Sá quando diz que: "a noção de exolinguismo refere-se às divergências no repertório comunicativo e sócio-simbólico dos participantes, encaradas como consubstanciais à troca interpessoal" (1996, 180), permitindo compreender as relações dinâmicas que se estabelecem entre a existência e manutenção desses repertórios e a aprendizagem de línguas em situações de comunicação. Neste sentido, não pensamos que a comunicação exolingue seja apenas questão de gestão de
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lacunas linguísticas e de resolução de problemas de compreensão e de expressão (ênfase colocada por BERTHOUD & PY: 1993, 35; COLETTA: 1991b), mas sobretudo de co- construção progressiva da intercompreensão e das condições de existência e de manutenção dessa intercompreensão.
Enquanto situação de comunicação exolingue e relembrando as suas características antes evocadas, a interacção nos EIP que estudaremos é linguística e comunicativamente singular, já que os diferentes códigos linguísticos são desigualmente partilhados, com possibilidade de co-ocorrência de 4 situações combinatórias, ou movimentos constantes no eixo unilingue-plurilingue (cf. ARAÚJO e SÁ: 1996, 149) ou "bilingue/exolingue" (cf. OESCH- SERRA: 1991, 24), cujas designações a seguir propomos:
• exolinguismo monolingue sem nativo(s) – uma lingua franca é utilizada enquanto língua de comunicação entre locutores não nativos, sendo que todos os intervenientes são aloglotas. Esta designação e hipótese expande a definição de Bange quando pretende que exolingue remete para um "type de situation qui met en jeu au moins un locuteur natif de la langue qui sert de véhicule à la communication en cours" (1992, 55), e amplia as possibilidades de estudo, permitindo aproximar a comunicação que decorre exclusivamente em LE da comunicação tradicionalmente apelidada de exolingue18;
• exolinguismo monolingue com nativo(s) – uma língua funciona como única língua de comunicação, diferenciando-se, ao nível dos utilizadores, os falantes nativos e os não nativos, estes últimos aloglotas, aproximando-se das situações unilingues descritas, por exemplo, em Lüdi (2005b) ou Rebelo (2006), esta em chats em que o Português é a LM do professor e LE dos alunos;
• exolinguismo bilingue – duas línguas (maternas ou não dos sujeitos) funcionam como línguas de comunicação, sendo que aqueles são nativos e/ou aloglotas, o que permite uma multiplicidade de combinações de uso, num espaço de variação bilingue, situação bastante comum em aula de LE;
• exolinguismo plurilingue – várias línguas funcionam como línguas de comunicação, sendo que os sujeitos são simultaneamente modelos de locutores nativos da sua LM (quando esta é admitida no contrato de comunicação) e locutores aloglotas das LM dos seus interlocutores (ver descrição de uma situação deste tipo em OESCH-SERRA: 1991), num espaço de variação plurilingue.
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É o caso, por exemplo, das conversas em aula de línguas, em que professor e alunos interagem numa língua que é estrangeira para ambos e em que o uso da LM é banido.
Consideramos que estas quatro possíveis situações de comunicação exolingue ocorrem e/ou co-ocorrem nos EIP, num continuum que se situa também entre os pólos endolingue e exolingue19 (ROSEN: 2003). De acordo com os continuums exolingue- endolingue, bi-/plurilingue-unilingue, o corpus sob o qual nos debruçaremos exemplifica um espaço de variação entre o exolinguismo unilingue e o endolinguismo plurilingue, já que várias línguas são permitidas entre locutores com diferentes repertórios linguístico- comunicativos.
Devido ao número instável de interlocutores, num contexto onde a liberdade de escolha de línguas é total e nunca imposta – como acontece no nosso corpus de análise – , ocorre uma constante flutuação dos tradicionais papéis atribuídos "nativo" e de "não nativo", assim como ambiguidades nestas designações: na verdade, se no nosso estudo estamos perante situações de exolinguismo plurilingue, todos os sujeitos são, de acordo com as designações que nos chegam da literatura, nativos e/ou não nativos. Por este motivo, será mais conveniente, no nosso estudo, abandonar a ideia de que os sujeitos possuem competências assimétricas da(s) língua(s) de comunicação, reconhecendo antes que possuem repertórios plurilingues divergentes ou ainda, como nos parece mais adequado, repertórios plurilingues diferentes (diferentes instrumentos linguístico-comunicativos e cognitivo-verbais, diferentes atitudes e motivações face à situação de comunicação, …), que tendem a convergir no momento de co-construir a interacção. Assim, a ideia de deficiência e de assimetria linguística, que aparece na literatura acerca do exolinguismo monolingue (geralmente com a presença de sujeitos apresentados como “nativos”), deixa de ser pertinente para explicar a natureza plurilingue da interacção (à luz da definição que apresentámos de CP e dos repertórios que a constituem), mantendo-se, no entanto, as características que promovem a emergência de sequências com potencial aquisitivo (cf. MATTHEY: 1996; ver ainda ARDITTY: 2003; voltaremos a este assunto na secção 3.3 deste trabalho).
De qualquer modo, qualquer uma daquelas situações se inscreve na esfera do exolinguismo porque se caracteriza "por uma série de estratégias de compreensão (reformulações, simplificações, explicitações), assim como por estratégias de ajuda à expressão" (ANDRADE: 1997, 134), estratégias essas que se aproximam das características da comunicação didáctica, encerrando, por isso, potencial de aprendizagem.
Na nossa opinião, a situação comunicativa plurilingue sobre a qual nos debruçamos é "nitidamente orientada para a intercompreensão de carácter cooperativo" (ibidem, 133), que se traduz na forma como todos os interlocutores se implicam na aprendizagem-comunicação e se envolvem na configuração e manutenção da situação de comunicação. No mesmo sentido, Araújo e Sá refere que a comunicação exolingue é o cenário em que os sujeitos exercem as suas competências linguístico-comunicativas em diversas línguas ao mesmo
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A este propósito a autora esclarece que as flutuações no eixo exolingue e endolingue e bi/unilingue (a que acrescentamos o plurilingue) ocorrem, por vezes, ao longo de uma mesma conversação (cf. ROSEN: 2003, 93).
tempo que se envolvem em processos de aprendizagem que, recursivamente, alimentam os seus repertórios (cf. 1996, 181).
Para além disso, Bange considera que a comunicação exolingue é o lugar de excelência para a emergência de situações de bifocalização: "focalisation centrale de l'attention sur l'objet thématique de la communication; focalisation périphérique sur l'éventuelle apparition de problèmes dans la réalisation de la coordination des activités de communication" (1992, 56; PY: 1990). Neste sentido, essa bifocalização torna-se uma marca da comunicação exolingue (bastante observada na comunicação de sala de aula) já que, para assegurar a intercompreensão, os sujeitos devem mobilizar uma vigilância acrescida (ou monitorização) sobre o que é dito, a quem, como e para quê, para diminuir os riscos de má interpretação das intenções, dos comportamentos e das mensagens verbais, no sentido de conservar as condições de existência do EIP.
Conforme defendido por Colletta (1991b), importa levar ainda em conta as variações etno-culturais da comunicação exolingue, nomeadamente as que regem as manifestações não-verbais e para-verbais da comunicação, questão de extrema relevância no âmbito deste trabalho, onde a variação cultural está sempre presente. Neste sentido, o autor recorda que:
"des domaines clés de la compétence communicative comme la régulation et la signalisation interactionnelle, l'expressivité et l'illustration-connotation du discours par les moyens non-verbaux constituent des domaines propices à la variation interculturelle, car ils s'appuient sur des conduites (configurations de signaux voco-verbaux et non verbaux) apparemment codées et conventionnelles, et intégrées à des stratégies elles-mêmes normées" (1991b, 104).
Além disso, tendo em conta que toda a comunicação interindividual é variacional e sujeita também a problemas comunicativos, o autor afirma a necessidade de analisar a comunicação exolingue como qualquer interacção social, sendo que naquela as rupturas, as ambiguidades, os desencontros de sentido, a incompreensão e os mal-entendidos, bem como as tentativas de os prevenir e resolver são vistos como se de uma lupa se tratasse.