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CAPÍTULO 2 Interacção verbal on-line: incidências sobre

5. Intertextualidade e afastamentos genéticos

Muitos são os textos que se debruçam sobre a distinção entre alguns dos géneros electrónicos aqui abordados (cf. ANIS: no prelo, para comparação entre chat e SMS; MANGENOT: 2005, para comparação entre fórum de discussão, chat e e-mail; MONDADA: 1999 e VAYREDA: 2000 para distinção entre fórum e e-mail; WARD: 2004 para alguns elementos de distinção entre blogue, fórum e e-mail), privilegiando diferentes constituintes da interacção. Neste sentido, alguns investigadores centram-se nas características linguísticas, outros em aspectos relacionados com a sequencialidade das mensagens e outros com as suas condições de emissão e recepção.

Tentaremos, aqui, uma abordagem mais integrada destes fenómenos, com uma preocupação de síntese dos principais aspectos que foram referidos ao longo deste capítulo, tentando, na medida do possível, encontrar traços comuns e distintivos entre os géneros analisados ou melhor, tentando compreender como cada um deles se integra na "ecologia dos géneros da Internet" (cf. HERRING, SCHEIDT, BONUS & WRIGHT: 2005). O objectivo será, na verdade, melhor compreender o que aproxima e afasta os chats dos restantes géneros electrónicos, evidenciando as suas especificidades.

Comecemos por observar algumas distinções e aproximações destes géneros partindo da adaptação de uma proposta de Jacques Anis (2000), a que acrescentámos algumas categorias de D. Crystal (2001) e de F. Yus (2001). É interessante proceder a esta sistematização por considerarmos, com Bakthine, que as nossas representações acerca dos géneros influenciam os processos de produção e de recepção dos enunciados (cf. 1979), de leitura e de escrita, no nosso caso.

Correio electrónico Blogue Fóruns de discussão Chats SMS / MMS Nível enun ciativo Carácter da comunicação Privado / público

Público Público Privado / público

Privado

Remetente Indivíduo Indivíduo Indivíduo Indivíduo Indivíduo

Remetente anónimo? Geralmente

não Geralmente não Geralmente não Geralmente sim Geralmente não

Mediador - Moderador Moderador / - Animador / - -

Quem lê? Indivíduo /

Grupo

Grupo Grupo Grupo / Indivíduo

Indivíduo

Leitor anónimo? Geralmente não Geralmente sim Geralmente sim Geralmente sim Geralmente não

Quem responde? Indivíduo Indivíduo Indivíduo Indivíduo Indivíduo

Quem lê as respostas?

Indivíduo / Grupo

Grupo Grupo Grupo / Indivíduo

Indivíduo

Dispositivo de comunicação

Internet Internet Internet Internet GMS

Temporalidade Quase directo

/ Diferido

Diferido Diferido Quase directo Diferido

Meio Texto (anexos

de diferentes tipos) Texto / multimédia Texto Texto/ Multimédia Texto / Imagem/ Multimédia Instrumento de leitura

Ecrã do computador Ecrã do

telemóvel

Suporte de leitura Ecrã do computador Ecrã do

telemóvel

Metáforas associadas

Correio Página Diário

Fórum Sala Mensagem

Nível discur

s

ivo-tex

tual

Tipo de interacção Próximo do diálogo Próximo do monólogo Próximo do poliálogo Próximo do poliálogo Próximo do diálogo

Espontaneidade Variável Não Não Sim Sim

Formalidade Variável Variável Variável Não Não

Tamanho admitido Livre Livre Livre 3/4 linhas 160/140

caracteres

Pode ser revisto depois de editado sem deixar marcas?

Não Sim Sim Não Não

Continuum oral/escrito

Predominan- temente escrito

Escrito Escrito Escritoral Escritoral

Nível do uso

das linguage

ns

Carácter plurisemiótico

Sim Sim Geralmente não

Sim Geralmente

não

Multicanalidade Sim Sim Geralmente

não Sim Geralmente não Uso lúdico da linguagem Variável Geralmente não Geralmente não Geralmente sim Geralmente sim

Verbos associados Enviar, receber, responder, reenviar Editar, criar, publicar, comentar Participar, comentar, discutir Participar, teclar, enviar Enviar, receber

Algumas destas invariâncias, ou marcas de regulação do género (cf. LOPEZ ALONSO: s/d), que dão conta de algumas condições de emissão e de recepção dos textos, desde logo nos permitem concluir que alguns deles se incluem numa esfera mais pública (fórum de discussão e blogue) e outros numa esfera mais privada (correio electrónico e SMS) de comunicação. Apenas as SMS não se enquadram no que se convencionou chamar "comunicação mediatizada por computador", uma vez que não é suportado por esse meio, e daí algumas das suas peculiaridades (embora seja possível enviar SMS através de serviços da Internet).

Podemos também afirmar que todos estes géneros são mediatizados pelo ecrã (do computador ou do telemóvel), espaço virtual em que se organiza um sistema enunciativo espacio-temporal próprio (cf. LOPEZ ALONSO: 2002) e na sua construção participam sempre ecos polifónicos: na maioria das vezes, escreve-se para se ser lido, envia-se uma mensagem para se receber outra, num movimento dialógico entre emissor/receptor(es) que aparece recriado na leitura dos textos. Além disso, nas palavras da autora anteriormente referida, originalmente aplicadas à descrição do correio electrónico, mas que aqui chamamos para dar conta do discurso polifónico que todos estes géneros produzem:

"le sens du text n'est presque jamais unique ni stable mais il se construit peu à peu dans cet espace conflictuel de l'intervention des différentes voix puisque, finalement, chaque réponse change le cadre de référence et, ce faisant, les présupposés partagés entre les co-énonciateurs." (LOPEZ ALONSO: 2003b, 120).

Como ficou explicitado, pela listagem de diferentes subcategorias destes géneros, os textos produzidos podem ser agrupados de acordo com as suas finalidades temáticas e, transversalmente, poderíamos falar de fóruns, chats, e-mails, blogues e SMS de conteúdo político, pessoal e institucional, por exemplo. Seria interessante, nesta perspectiva, analisar os tratamentos e as variações em torno de um tema de acordo com as características de cada um destes géneros textuais, das variações culturais e do tipo de utilizadores, para melhor compreender as suas potencialidades e as suas limitações.

Tratando-se de interacção e de géneros tipológicos que nela se baseiam, não podemos esquecer que estamos diante da construção de relações interpessoais, sendo que, em qualquer um deles, se podem observar comportamentos verbais e para-verbais de cortesia e de preservação da face (de que os smileys são um exemplo), bem como formas rituais de iniciação e fecho das sequências das intervenções/sequência de intervenções, eles próprios sujeitos a variação cultural, como evidencia H. Atifi acerca da diferença destes rituais nos chatantes marroquinos (2004). Além disso, todos estes géneros permitem jogar a mascarada do anonimato, um anonimato incompleto de que muitas vezes os interlocutores prescindem e que, em alguns casos, poderá não fazer sentido (SMS).

De um ponto de vista preferencialmente orientado para a textualidade, podemos referir que estes géneros se situam, de forma desigual, num continuum tipológico entre a oralidade e a escrita (cf. YUS: 2001). A este propósito, Marcoccia fala de "oralité des écrits médiatisés par ordinateur" (2004b, 1), devido à "fréquence de procédés langagiers permettant l’expression des émotions ou la représentation plus ou moins codée de marques non

verbales" (idem). Esta característica parece-nos a consequência do uso de um suporte electrónico em que os sujeitos não se encontram na presença física uns dos outros e em que os canais visuais e auditivos estão ausentes, mas, em vez de servir como simples instrumento de compensação, serve para alimentar a expressividade da comunicação e para facilitar a interpretação do texto que dela resulta.

Se é verdade que alguns dos géneros que aqui descrevemos se orientam mais para o monólogo (blogue), para o diálogo (SMS e e-mail) e outros ainda para o poliálogo (chat e fórum de discussão), não devemos esquecer que, na sua essência, todos permitem a interacção. Mais ainda, as marcas dialógicas visíveis nos textos de natureza assíncrone foram construídas através de um processo de acumulação de intervenções e, por isso, os diálogos que adivinhamos nos fóruns, nas SMS e, eventualmente, nos blogues bem como o "polylogue" nos fóruns de discussão são construídos, sempre, a posteriori, de forma imprevisível, uma vez que, tendo em conta o carácter assíncrono das interacções, não é possível saber se terão impacto sobre os (eventuais) leitores e até se serão algum dia lidas.

Ao pensarmos nas tipologias discursivas, podemos acrescentar que algumas tipologias são mais frequentes em alguns destes géneros. Assim, nos fóruns de discussão é comum encontrar momentos argumentativos, enquanto que a narração tende a ser mais frequente no e-mail e nos blogues. O discurso informativo-explicativo, por seu turno, não parece ser característica distintiva de nenhum destes géneros, aparecendo com frequência em todos eles (de forma mais breve nas SMS), de acordo com as necessidades pragmáticas dos utilizadores.

Uma característica que parece ser comum a todos os géneros, conferindo-lhes um "código genético comum" é o acto de citar (YUS: 2001, 160) ou, conforme designações de S. Herring, "linking" e "quoting", o que contribui para criar a ilusão de pares adjacentes e, assim, de interacção (cf. 2001). Geralmente estes procedimentos são conseguidos através de um botão/tecla "responder", o que, por si só, serve como procedimento de criação de coerências discursivas.

Do ponto de vista das características da linguagem assumidas nestes géneros e nas suas manifestações textuais (bem como do formato e as condições de enunciação e de recepção dos textos), somos levados a caracterizá-los como familiares, afectivos, lúdicos e socializantes. Na verdade, raramente se adoptam processos de releitura e o carácter formal habitualmente associado à escrita é desmistificado (à excepção da maioria dos blogues). Além disso, a linguagem recria-se através do uso de neografias e de jogos de palavras (ao nível dos nicknames dos fóruns e dos chats, dos endereços de e-mail, das designações dos blogues, …), que, para além de acentuar a afectividade e a ludicidade das interacções que se estabelecem, promovem a criação e a disseminação de comunidades de utilizadores.

Além disso, estes géneros assumem uma escrita com normas aproximáveis da conversação (à excepção, em alguns casos, do blogue e do fórum de discussão), sem que isso signifique falta de planificação ou de normas, mas antes a emergência de preceitos linguísticos distintos e distintivos, que podem ser sistematizados (ANIS: s/d) e que revelam preocupações comunicativas e expressivas mais prementes que a expressão e correcção sintáctica.

Terminamos esta reflexão com as palavras de L. Alonso & Séré Olmos acerca da emergência e propagação de novos géneros comunicativos:

"Desde hace unos años, la evolución de la sociedad y la revolución informática han creado estilos diferentes de comunicación en donde Internet forma parte de nuestro quehacer diario, sin duda, por su fácil acceso, por sus poderosas técnicas de integración de documentos y por la pluralidad de servicios que ofrece. Estas nuevas tecnologías de la información y de la comunicación (TIC) permiten intercambios continuos e instantáneos porque las informaciones pueden aparecer en la pantalla de cualquier ordenador de manera inmediata, anulando las fronteras físicas y abriendo espacios compartidos, sin que, por ello, esa globalización virtual implique una pérdida de identidad" (2003, 15).