MOVIMENTOS SOCIAIS E SUA DIMENSÃO EDUCATIVA: UMA REVISÃO DE LITERATURA E UM ENFOQUE TEÓRICO
A DIMENSÃO EDUCATIVA DA AÇÃO MOVIMENTALISTA E A LITERATURA SOBRE MOVIMENTOS SOCIAIS AGRÁRIOS
3.1. Do final da década de 70 ao surgimento da Nova República
Neste cenário que cobre o final dos anos 70 e início da década de 80, os temas embora entrecruzados pela atenção acadêmica recolocam o problema da questão agrária associado aos conflitos e lutas sociais pela terra. Mesmo os movimentos de saques das populações assoladas pela seca no Nordeste, são associados aos problemas de concentração da terra e ao descaso governamental com a problemática da seca. É neste contexto brasileiro (e nordestino) que a maioria dos estudos sobre movimentos sociais contemplaram predominantemente duas linhas de atenção: (a) lutas e conflitos sociais pela terra e (b) reconstituição histórica dos movimentos sociais no campo, tanto no passado recente (décadas de 50 e 60), quanto no passado mais remoto.
Na primeira linha de trabalho podemos identificar vários estudos. Com relação aos conflitos de terra na Amazônia, são exemplos os trabalhos de José de Souza Martins (1985, 1984, 1981, 1980), só para falarmos daqueles de maior circulação editorial. Podem ser citados ainda: Jean Habette (1986) Barth (1986), Foweraker (1982), Velho (1980, 1976), Kotscho (1982), Asselin (1982), Casaldátiga (1985, 1978). Todos dedicaram-se à reflexão sobre os conflitos e lutas sociais pela terra, entre o final da década de 70 e início da década de 80.
No sul/sudeste do Brasil, vários analistas também se preocuparam como a movimentação social do campo. Podemos destacar os trabalhos de Grzybowski (1981) sobre
51 os colonos de Ronda Alta, de Méliga (1982) e sobre o conflito de Encruzilhada Natalino. Já autores como Gehlen ( 1983 ) estudaram o caso da fazenda Sarandi; Scherer-Warren (1985), os atingidos pelas barragens do rio Uruguai; Germani (1982) e Mazzarollo (1986) analisaram os conflitos e lutas dos atingidos pela barragem de Itaipu; enquanto Carvalho (1984) e Éleres, preocuparam-se com a dimensão fundiária da problemática indígena. A problemática dos índios também é analisada por Tavares dos Santos (1982). Os movimentos sociais rurais no Paraná de 1978-1982, estudados por Ferreira (1982), tem sido uma bibliografia obrigatória para os estudos subsequentes sobre esta temática naquele estado.
Já no contexto do Nordeste, temos os trabalhos de Alfredo Wagner Berno de Almeida que se preocupou com conflitos e a luta pela terra no Maranhão. Exemplos de suas contribuições estão no trabalho publicado pelo IBASE (1984), “Os donos da Terra e a Luta pela Reforma Agrária”, e em outros publicados pela Comissão Pastoral da Terra, naquele Estado. Em estados como a Paraíba temos: Cantalice (1984, 1980) e Novaes (1985, 1984a, 1984b). Com relação aos conflitos dos atingidos pelas barragens do rio São Francisco: Andrade (1983) Duque (1984), Pandofi (1985), Barros (1984) e outros. No Ceará, temos autores preocupados com a luta e a resistência dos parceiros pela posse e uso da terra, como Cesar Barreira (1984). Já no estado da Bahia, formou-se um grupo de estudiosos, o Grupo de Estudos Agrários (GEA) a partir de personagens ligados à Associação de Engenheiros Agrônomos. Realizaram estudos sobre conflitos e grilagem de terras. Além dos documentos e estudos da CPT - Bahia, a revista do Centro de Estudos e Ação Social congregou um elenco de colaboradores e analistas da questão agrária e dos conflitos de terra não só na Bahia, mas também em outras partes da região. Seria um lapso também não mencionar a importância do Boletim Reforma Agraria da ABRA (Associação Brasileira de Reforma Agrária, que desde 1974, vinha veiculando contribuições de um amplo elenco de estudiosos sobre a questão agrária e aos conflitos e lutas sociais pela terra no país. Também o Boletim Terragente editado pelo Grupo de Estudos Agrários, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, tornou-se um importante veículo de debate e publicização dos conflitos sociais rurais na região Sul do País.
A segunda linha de trabalhos que predominou no final dos anos 70 e início da década de 80, deu continuidade aos estudos de caráter histórico-social de significativa tradição acadêmica no país, como são os de Antonio Callado (1965); Aspasia Alcântara (1973), Ataliba Nogueira (1974), Monteiro (1974a, 1974b), Muniz (1978), Garcia (1966), Mourão (1979), Barreto (1963), Maria Isaura Pereira de Queiroz (1957, 1965, 1976, 1977), Maurício Vinhas de Queiroz (1966), Muniz Bandeira (1977) Osvaldo Rodrigues Cabral (1979), Ralph Della Cava (1970), Rui Facó (1965), Valdemar Valente (1963), entre muitos outros. Reconstituir a história das lutas sociais no campo; escrever essa memória, mas na ótica dos “vencidos” ou dos espoliados da terra, realçar aspectos ou lacunas não resolvidas em movimentos como os das Ligas Camponesas, no Nordeste, ou de movimentos como o de Canudos na Bahia, Trombas de Formoso em Goiás etc. Desmitificar estereótipos sobre o messianismo e o banditismo social no país, já estudados por outros, foram as principais motivações dos novos pesquisadores.
Assim, Bernadete W. Aued (1980, 1981) estudou as ligas camponesas. As ligas também foram objeto de estudo de Azevedo (1982), de Bastos (1984), Conceição (1980) e outros. A reconstituição histórica de movimento sindical foi estudada por Cruz (1982), Andrade (1984) e outros. Sobre a Guerra do Contestado, Sudoeste do Paraná, podemos citar Rego (1979) e Auras (1984). O movimento de Trombas e Formoso, em Goiás foi estudado mais recentemente por Janaína Amado (1980), que estudou também a revolta dos “mucker” no Rio Grande do Sul 1868-1898. Canudos também passa a ser um tema revisitado a partir do trabalho de Edmundo Diniz (1978) e outros. Por seu turno Araújo (1982) estuda as lutas pela terra na Baixada da Guanabara, entre 1950-1964; Cordula Ekert (1984) o movimento de
52 agricultores sem terra do Rio Grande do Sul. A questão da reforma agrária no Brasil, entre 1955 e 1964, é resgatada por Leonilde S. de Medeiros (1983).
A primeira linha de estudo, Conflitos e Lutas pela Terra, motiva os estudiosos a verificar rupturas e continuidades com relação aos movimentos anteriores. Outros fatores, porém, parecem diferenciá-los dos seus antecessores como as Ligas Camponesas e Movimentos dos Agricultores Sem Terra do Rio Grande do Sul: primeiro a fragmentariedade das lutas em todo o país, segundo a diversidade de lutas e de atores sociais: sem terra; posseiros, índios, seringueiros, atingidos pelas barragens, etc., Terceiro a falta de uma direção unificada como foi a presença do PSB de Julião e PCB no caso das Ligas Camponesas e, no caso do MASTER, Brizola. Nos novos movimentos, a presença da Igreja é marcante, infundindo nas lutas o caráter político-religioso, o que remete ao messianismo dos movimentos do passado mais remoto. Também aparece a dimensão jacobina própria de todo movimento social que antagoniza as classes sociais. O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, MST, surgido em 1979, em Santa Catarina promete dar uma maior unicidade aos sem- terra do país. A sua novidade é uma nova modalidade de luta: acampar, ocupar a terra, resistir, produzir. Apoiado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e outros segmentos católicos e apesar de se articular com os Sindicatos a nível local, este movimento se organizou com estrutura própria, rejeitando tanto a direção da CONTAG, quanto o seu legalismo e, com os objetivos de contribuir para avançar a luta pela terra e pela reforma agrária no país. A forma movimentalista do MST buscando unificar lutas locais e regionais e articular apoios multilaterais de entidades, instituições, personagens e intelectuais e, mesmo setores do Estado, vai motivar o surgimento posterior de outros movimentos sociais com objetivos semelhantes.
Possivelmente pelo fato desses movimentos colocarem em causa a questão da concentração da terra e o elemento fundante da sociedade capitalista que é a propriedade privada, eles tendem a assumir caráter visível de classe já que se pautam numa relação social fundadora que lhes abrem os caminhos para tornarem-se efetivamente sujeitos de suas próprias ações (Oliveira, 1990 apud Doimo, op. cit. 18). Também, e talvez por isto mesmo, os estudos anteriormente citados tenderam não só a enfatizar conflitos e lutas sociais e apenas genericamente o termo movimentos sociais, mas porque é a noção de lutas sociais que possibilita a apreensão de sentido dessas manifestações coletivas e são interpretadas pela maioria dos analistas anteriormente citados pelo viés marxista, mesmo que matizado pela presença das contribuições de autores de alcance internacional e bastante presentes nos debates: Gramsci, Eric Hobsbawn, Samir Amin, Maurice Godelier, Alavi, Thompson e outros. Para termos uma idéia, além dos trabalhos de Lenin e Kaustsky sobre a questão agrária, Gramsci foi aos poucos ganhando posição de cidadania nos debates da esquerda afinada com os movimentos sociais. As suas idéias de que a luta pela terra dos camponeses do Sul da Itália só teria eficácia, quando essa luta se tornasse uma questão nacional, isto é, quebrasse o seu caráter isolado e, ao mesmo tempo a sua idéia de que, os jornaleiros daquele país, pela sua psicologia e pelo tipo de obrigação do assalariamento deveriam em sua maioria ser incluída entre os camponeses sem-terra e não entre os operários, influenciou não só o debate intelectual, mas também aqueles mais diretamente engajados nas lutas pela terra pós-anos 70 no Brasil7. Enquanto Maurice Godelier entra no Brasil pela via de cursos de pós-graduação
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Ver Antonio Gramsci. “O ressurgimento”, in Obras Escolhidas. São Paulo: Martins Fontes 1978, p. 288. Também Candido Grzybowski. Caminhos e Descaminhos dos Movimentos Sociais no Campo. Petrópolis, RJ: Vozes/Rio de Janeiro: Fase, 1987, p. 16. Principais obras de Gramsci publicadas no Brasil até 1985, além de Obras Escolhidas da Martins Fontes, citada acima: A concepção Dialética da História, publicada em 1966; Maquiavel, a Política e o Estado Moderno, em 1968; Os Intelectuais e a Organização da Cultura, em 1968; Literatura e Vida Nacional, 1968. Todas estas obras foram publicadas no Rio de Janeiro pela Editora Civilização Brasileira. As obras Pasado y Presente e El Risurgimento chegaram ao público brasileiro, através da Ediciones Granica, de Buenos Aires, Argentina; publicadas simultaneamente em 1974. Obras temáticas sobre Gramsci
53 em antropologia; Eric Hobsbawn introduz no debate entre nós não só a idéia de movimentos pré-políticos, mas também a idéia de que a consciência social comum entre os trabalhadores (identidade) não é constituída simplesmente a partir da polarização entre as classes, mas pelo estilo comum de pensamento e de vida. Apesar de uma visão de certa forma pessimista mais atravessada por uma espécie de realismo político marxista, este autor de certa forma sugere as noções de “novos” e “velhos” movimentos sociais, ressignificadas pelos autores e analistas brasileiros acima exemplificados (Hobsbawn, 1985; 1978:1721)8. Quanto à Thompson, a sua influência parece ter sido menor até o início da década de 80. Até 1984, com exceção de A Miséria de Teoria (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981), as suas obras chegou até nós em língua espanhola ou inglesa. Thompson (1987) sugere não só apreender as articulações e contradições sociais manifestadas pelos conflitos e lutas sociais, também a levar em consideração o cotidiano como dimensão que pode possibilitar mudanças e rupturas com o instituído, mediante pequenas mudanças, mas contínuas e significativas do ponto de vista de subjetividade dos sujeitos envolvidos, ou seja, um processo contínuo de aprendizagem (Dulce Silva, 1993: 26). É claro que estes autores também influenciaram os estudos de linha mais histórico-social de resgate de memória das lutas passadas e mesmo aquelas mais recentes e em curso.
Mas o que nos importa aqui é assinalar a dimensão educativa destes movimentos e lutas sociais assinaladas e sugeridas pelos vários autores mobilizados neste nosso diálogo. Uma idéia que parece comum a todos os analistas brasileiros anteriormente citados é a de que esses movimentos e lutas sociais que eclodem no campo são expressões da luta de classes, já que as classes se formam num processo não-linear, cheio de contradições e impasses, de retrocessos e recuos. Alguns como Cantalice (1984-1980), embora procurem enfatizar as lutas como processo conformador das classes em movimento, deixam-se levar por uma noção de certa forma economicista ou estruturalista de classes sociais, já que determinadas pelas transformações de base econômica num misto de conformismo e resistência. De qualquer forma, tanto nas contribuições destes autores que parte de um enfoque determinista quando daqueles que associam os conflitos que estudam enquanto um processo possível de expressões, de classes sociais com promessas de se constituírem em movimento; colocam a questão da socialização política a partir da idéia de que ela se constitui na luta, na ação, no ato de colocarem-se em movimento. Do ponto de vista dos mobilizados e das entidades que os apoiam, principalmente dos trabalhadores rurais, dada a pedagogia subjacente à ação, fala-se de caminhada. Se o caminho se fez ao caminhar, como ensinavam principalmente os agentes e ativistas ligados a Igreja Católica, abrem-se possibilidades de construção de um “nós” contra “eles”, dos “pobres” da terra na proclamação de seus direitos e desvendamento do poder de seus contrários, os donos da terra e aqueles que os apoiam, incluindo o Estado, e que tentam impedir a organização e a eficácia das lutas à todo custo, com os mais diferentes mecanismos de manipulação e violências. Destas identidades que se constituem em confronto, mesmo nos momentos de tréguas para negociações das partes em conflitos, vai forjando-se um aprendizado social de “um saber de experiência feito” que possibilita acordos e acertos entre partes antagônicas ou contrárias como parte de luta, luta que é uma categoria histórica e social. É também este “saber de experiência feito”, senso como a de Norberto Bobbio, O Conceito de Sociedade Civil, foi publicada no Brasil já em 1982, pelas Edições Graal, Rio de Janeiro. Outro tema importante sobre Gramsci publicado foi “Alguns Temas da Questão Meridional. Temas de Ciências Humanas, São Paulo: LGCCH, 1977.
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Ver obras de Eric Hobsbawn publicdas no Brasil até 1982: Rebeldes Primitivos - Rio de Janeiro, Zahar, 1970; Bandidos. Rio: Forense, 1970, Formações Econômicas Pré-Capitalistas, Rio: Paz e Terra, 1982 e Revolucionários. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1982.
54 comum, que abre possibilidades cognoscíveis para os trabalhadores rurais ultrapassarem crenças e valores que sustêm identidades deterioradas e estereotipadas introjetadas pelos mecanismos de moral social dominante, muitas vezes calcificadas na tradição (Paulo Freire, 1992: 83-84). Esta pedagogia da ação subjacente a interação de instituições, tradições e concepções, reveladora para muitos de “basismo”, “populismo”, “assembleísmo” e outros manifestações reais ou atribuídas, de certa forma revelou, parafraseando Florestan Fernandes (1990:25) a “modernidade” da Igreja como instituição social, num momento em que ela acordou para a sua missão de solidariedade ativa com os mais fracos, humildes e destituídos dos mais elementares direitos a uma vida digna. Mas, houve entre os estudiosos muitas controvérsias sobre esta ação da Igreja.
Tais controvérsias à prática renovadora da Igreja podem ser vistas em Paiva e outros (1984). Também certos meios de luta, de apoio pedagógico ao exercício de práticas e valores comunitários de solidariedade, de garantia de possibilidades de resistência e permanência na terra, utilizados pela Igreja e outras entidades de educação popular e apoio, foram colocadas em debate. Assim, mutirões, roças comunitárias e outras práticas associativas foram tema de controvérsias teóricas e políticas conforme pode ser vistas em Esterci e outro (1984). No prefácio à brochura que publicou as várias contribuições, José de Souza Martins procura desmistificar mal-entendidos, inclusive negando posições insinuadoras de que o seu caráter de luta e enfrentamentos de situações adversas pudesse ter raízes na tradição romântica e conservadora do século XIX.
Mas a produção científica sobre os movimentos sociais antes do surgimento da Nova República não se esgotou na análise de movimentos e lutas concretas pela terra e nem na produção teórica de resgate da memória das lutas do passado. A emergência das lutas dos trabalhadores assalariados do campo também chamou a atenção de intelectualidade.
A literatura sobre os assalariados rurais se estende desde aquelas contribuições preocupadas com as mudanças econômicas e seus impactos nas relações de trabalho até aquelas preocupadas com as lutas trabalhistas dos assalariados. Assim, trabalhos como os de Ianni (1984), Sorj (1980), Silva (1978), Velho (1976), Silva (1982), num misto de continuidade e mudança, observam o processo de expansão econômica do campo e seus impactos sobre a concentração da terra e na força de trabalho rural. Trabalhos como os de Maria Nazaré Wanderley (1979, 1981) colocou os problemas da identidade dos trabalhadores rurais relacionada a sua subordinação ao capital, sem precisar qual a forma social que distingue um camponês de um trabalhador assalariado, nos termos de Souza Martins (1986:198). Já autores como Silva (1982) procura estimar os contingentes assalariados. Trabalho volante (Gonzales e Bastos, 1977), percepção do salário pelos assalariados (Sigaud, 1977), segmentação e diferenciação dos assalariados (Grzybowski (1985), Sigaud (1979b), relacionada com as mudanças nas relações de trabalho (Sigaud, 1979b) (Silva, 1981) são a preocupação de outros diversos trabalhos tentando aprender o signo da mudança no campo.
Entretanto, o bóia-fria resultante de uma intensa modernização e intensa miséria (D’Incao, 1984, 1979); os clandestinos e os direitos (Sigaud, 1979a); os fichados e os clandestinos (Sigaud (1979b), os volantes e os que não são volantes (Gonzales e Bastos, 1977), trabalhador para o capital (Wanderley, 1979), a turma do caminhão (Martinez - Alier, 1977) e outras identificações e segmentações que anunciam mudanças em relação ao trabalho não deixam de ser, no plano simbólico, um reconhecimento da ruptura dos elos tradicionais que revestiam de reciprocidade moral a dominação do senhor e fazendeiro que escraviza o trabalhador. Não só o seu corpo, como espécie de semovente como foi o escravo, mas também a sua consciência por uma lealdade sacralizadora da violência costumeira própria do latifúndio, degradando este trabalhador (Souza Martins, op., cit.: 13). Essa ruptura, entretanto, dá seqüência à socialização que repõe em outros termos a exploração e a violência do latifúndio e das empresas capitalistas no campo. É um processo de socialização que forja
55 identidades atribuídas e estereotipadas que justificam a descriminação e a exclusão social e, ao mesmo tempo, a extrema exploração que degrada e mata precocemente a força de trabalho. Sob esta situação, os movimentos e lutas dos assalariados rurais, genericamente falando, é para autores como D’Incao (1985:201-422) e Perani (1984:17-23) uma possibilidade que eles mesmos estão construindo de rejeição desses tipos de identidades sociais deterioradas, pela construção, proporcionada pela sociabilidade das lutas, de uma identidade de trabalhadores cidadãos. Os “canavieiros” semelhante à “usineiros”, porque não; os trabalhadores da cana, não querem mais ser identificados como “direitos” ou “clandestinos” ou mesmo “volante”, pela não universalização do contrato de trabalho; mas pelos direitos decorrentes de sua função social de trabalhadores e cidadãos construtores da sociedade que lhes nega e os exclui. Da mesma forma os bóias-frias que, não muito longe de seus antepassados da senzala, vivem no caminhão, confinados em barracões e vigiados no eito pelos capatazes e gerentes dos canaviais, dos laranjais e plantação de florestas produtoras de energia e celulose. De bóias- frias à cortadores de cana ou outra identidade trabalhista significadora de direitos, vão tecendo na trajetória de suas lutas em aprendizado social de exercícios de seu direito a ter direitos e deles usufruírem9.
Com relação a dimensão dessa aprendizagem social, Weffort (1981) acredita que aos trabalhadores lutarem por seus direitos põem em prática processos de desligitimação dos limites legais e institucionais vigentes. E para este autor, a manifestação democrática desses processos concretiza-se na conquista e ampliação de direitos e, na afirmação desses trabalhadores como cidadãos. Nesta direção Ianni (1984) sugere que as lutas dos assalariados do campo revelam para a sociedade a existência de um proletariado agrícola, exprimindo o seu modo ser que, por sua vez, expressa-se nos conteúdos e nas formas de luta e na afirmação de direitos que revelariam uma outra faceta da questão agrária brasileira. Na verdade, um assalariamento que longe de ser expressão da tão sonhada modernidade e superação do “atraso”, produz.
“Gente de caminhão de turma... vira lata, uma vez aqui, uma vez ali”10 “... o trabalhador volante, ou boia-fria, também conhecido depreciativamente por brido ou pião” (Depoimento de uma boia-fria)11
As lutas e movimentos dos trabalhadores rurais possibilitam a construção de caminhos que não só provocam mudanças fenomênicas de conquistas de direitos; o exercício destes direitos também exige mudanças mais profundas; a superação de estigmas e sentimentos de autodesvalia profundamente arraigados, tornando os indivíduos capazes de coordenar a suas individualidades com os valores e pertenças coletivas que possam se constituir enquanto grupos de cidadãos organizados; portanto, mudanças profundas que exigem a construção de uma nova subjetividade, mas também, no plano objetivo de uma nova institucionalidade que regulamente a convivência social mais democrática e justa a partir da vida cotidiana - radicalização da democracia - a utopia não acabou. Ela continuará no período inaugurado pelo o que se chamou de Nova República. Vamos ver o que a literatura acadêmica deste período tem a nos dizer sobre a dimensão educativa desta utopia.
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Desde já, é bom que digamos o que entendemos por identidade uma noção bastante controvertida e que vem da antropologia. No nosso caso ela é relacional, porque a luta social antagoniza concepções, valores e interesses de classes e frações de classes. Sobre esta noção ver “consciência, identidade e Cultura” de Regina Célia Reyes Novaes. In: Igreja: comunidade e Massa/Ivo Lesbarepin (organizador) [et al]. São Paulo: Paulinas, 1996. (Estudos e Debates). Ver também La Burthe-Tolra, Philippe & Warnier, Jean-Pierre. Etnologia, Antropologia. Petrópolis: Vozes, 1997. Especialmente páginas 337-421.
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Depoimento de uma boia-fria.