MOVIMENTOS SOCIAIS E SUA DIMENSÃO EDUCATIVA: UMA REVISÃO DE LITERATURA E UM ENFOQUE TEÓRICO
A DIMENSÃO EDUCATIVA DA AÇÃO MOVIMENTALISTA E A LITERATURA SOBRE MOVIMENTOS SOCIAIS AGRÁRIOS
3.2. Do Surgimento da Nova República ao Final da Década de
Na verdade, mudanças conjunturais como a das Diretas-Já colocaram novos desafios para os movimentos sociais agrários. Diferentemente dos movimentos sociais urbanos, os agrários, por estarem assentados em relações sociais fundadoras da sociedade, tem como alvo não só o Estado quanto às respostas as suas reivindicações, mas também uma classe social de proprietários latifundiários, agro-industriais e agroexportadores com forte poder econômico e político. Ao mesmo tempo que tiveram que enfrentar derrotas e a expansão da violência dessa classe, sob recuos e avanços, pleitearam o reconhecimento e o status público de interlocutores válidos com a institucionalidade política e se fortaleceram em organização. Vejamos as interpretações correntes sobre os movimentos sociais agrários nos anos 80, ou seja, o período que vai das “Diretas-Já”, passando pela Constituinte, pelas eleições diretas para a Presidência da República, período de 84/85 à 1989/90. Repondo a necessidade de delimitação já colocada em prática e justificada nos capítulos precedentes, aqui vamos tratar à título de exemplos autores que de certa forma construíram análises que têm efeitos de balanço da ação movimentalista pelo fato de cobrirem toda a década. Tais contribuições sintetizam teses e compreensões de outras mais parciais ao enfocarem um determinado período, certo recorte ou por adotarem como perspectiva o estudo de caso e que foi a tendência da maioria dos estudos na década e anos seguintes. Para muitos autores os anos 80 foram a década da participação e da institucionalização dos movimentos sociais. Vejamos como dois autores de repercussão nacional avaliam a chamada década da participação e/ou da institucionalização dos movimentos sociais. Pelo enfoque da institucionalização a professora Ruth Cardoso faz um balanço da literatura sobre movimentos sociais em duas fases: a fase heróica de emergência dos movimentos (década de 70/início dos anos 80) e a fase tendente a institucionalização. Na primeira fase, os trabalhos enfatizaram os espontaneismo, algo no que iria substituir os instrumentos institucionalizados de participação (partidos, sindicatos, etc.). Era como fossem substituir um vazio; vazio, até então, explicado pelo bloqueio da Ditadura Militar a estes canais de representação. Os trabalhos enfatizaram a idéia de espontaneismo, autonomia e participação, implicando promessas de contribuição desses movimentos na mudança da cultura política, quebrando relações clientelistas e outros modos de atuação do sistema político. Se os movimentos e a literatura a eles colada enfatizaram a idéia de participação anti-Estado, visto como inimigo; outras dimensões, para a autora, deixaram de ser vistas (Cardoso,R., op. cit.: 82-3).
Se esta fase com estas crenças era justificadas até certo ponto numa época de canais de representação bloqueados e sob o governo da Ditadura Militar; a fase da institucionalização é marcada por outro contexto político. Começa a tomar corpo a
57 democratização, em curso com as eleições em 1982 e pelas quais ascende ao poder em vários estados importantes da federação governos de oposição ao regime militar. A própria ditadura começa a ceder quando o sistema político começa, em geral, a abrir espaços de participação e comunicação com a sociedade. Há, portanto, gestação de novas relações entre movimentos e partidos; movimentos com agências públicas, fenômeno chamado por muitos como cooptação. Mas para a autora, haveria na verdade outra forma de participação manifestada pelo fato dos movimentos relacionarem-se diretamente em agências públicas constituidoras da face provedora do Estado. Entretanto, esta relação começou de forma parcial, fragmentada, surgindo em algumas brechas que ia se abrindo; não era uma relação com o Estado enquanto uma política estabelecida, institucionalizada. Iam-se abrindo um conselho aqui, outro ali para gerir este ou aquele programa ou projeto. Há um novo modo de gerir áreas de políticas públicas que vai nascendo e tomando corpo institucional, mais de modo muito parcial. E isto vai se dando em outro contexto político e ideológico: pluripartidarismo, novas formas de gerenciamento de políticas públicas, um processo de institucionalização das relações destes movimentos com o Estado, de suas bandeiras de luta. O Estado mudou, aceitando modelos e idéias de participação dos movimentos. Daí as perplexidades que levaram a idéia de crise, refluxo, cooptação. Uma visão negativa quanto às promessas de mudança dos movimentos, face ao processo que se abriu de diálogo entre os movimentos e as agências públicas, de gestão participativa de políticas públicas que passou a ser implementada pela pressão da própria ação movimentalista (Cardoso, R.; op. cit.: 87).
Com isto a auto-imagem e própria imagem atribuída aos movimentos sociais constituídas sob idéias como autonomia, identidade e espontaneidade dificultaram a coadunação dos movimentos com esse processo de representação face ao Estado e órgãos públicos. Ambigüidades, problemas relacionais, intolerâncias, manipulações, traduziam as dificuldades que a ação movimentalista sofreu em aceitar um processo de socialização política que passava pela idéia de representação e até de representação de vários movimentos. Encontros e desencontros: há dificuldades que vem do próprio sistema político e que o coloca sob suspeita. Perplexidade, persistência e indignação de um lado, o lado da movimentação da sociedade civil. Do outro lado: acusações e atribuições de competição entre movimentos sociais e com tendências corporativistas próprias dos grupos de interesses, senão intolerância, frente ao processo difícil de equilibrar recursos escassos e o atendimento a diferentes interesses dos “de baixo”. Em tal processo de aprendizagem, que segundo Cardoso (idem, ibidem) foi extremamente difícil, com alguns casos malsucedidos e outros bem-sucedidos; formas e canais participativos como os conselhos criados, acabaram esvaziando-se. O esvaziamento essa forma de participação política, que embora continue latente, acabou mobilizando menos do que foi esperado, deixando um sentimento e uma visão de refluxo e um pouco derrotista. Houve, entretanto, uma troca de vocabulário, a questão de esfera privada e da pública continuou de pé, implicando que a participação diz respeito ao exercício da cidadania. Os movimentos não surgiram do nada e nem cidadania apareceu do nada, ela tem história. A cidadania, então, não é pura questão de consciência, mas diz respeito à relação entre esfera pública e privada. Como ela está sendo construída é a questão e que diz respeito a incorporação dos direitos coletivos pelo Estado. E aí, Cardoso adverte para o fato deste papel do Estado está legitimado, saldo político que é o patamar por onde podemos continuar a trajetória movimentalista pela vigência de tais direitos.
Nessa linha de interpretação, embora com matizes diferentes Gohn (op. cit. 285) afirma que no decorrer dos anos 80, os movimentos sociais, tanto no plano da ação concreta quanto no plano das análises deles feitas, saiu da fase do otimismo do início da década para a perplexidade e, depois, para descrença. Fatores que contribuíram para isto: mudanças com destaque para as alterações nas políticas públicas e na composição de agentes e atores responsáveis pela a sua implementação, gestão e avaliação; o consenso, a
58 generalização e posterior desgaste das práticas participativas; o enorme crescimento do associativismo institucional nos anos 80, absorvendo parcelas significativas dos desempregados do setor produtivo privado; o surgimento de grandes centrais sindicais; o aparecimento de entidades aglutinadoras dos movimentos populares e a expansão das chamadas organizações não-governamentais. Ao mesmo tempo em que houveram tantos ganhos organizativos, inclusive com o surgimento de muitos movimentos de expressão nacional, surgiu neste cenário a decepção da sociedade civil com a política, tanto com relação às elites dirigentes quanto com relação aos partidos políticos, que deixaram de articular as demandas das classes médias e populares em movimento. Os grupos organizados dessas classes foram enclausurando-se em guetos corporativos. O cenário no final de 80 é o de perda de capacidade de mobilização e dos esforços voluntaristas da sociedade civil nos anos 70. Militantes, assessores e simpatizantes deixaram de exercitar a política por meio da atuação nos movimentos sociais. Não mais movidos pela política, pela paixão e crenças em causas e valores gerais, foram constituir uma camada de dirigentes cada vez mais longe das bases dos movimentos sociais. Tudo isto, vai influenciar a literatura sobre os movimentos no curso final dos anos 80. Entretanto, vários movimentos se expandiram e se consolidaram. Outros surgiram com novas demandas e novas temáticas.
O dilema teórico dos anos 80, entretanto, esteve calcado de um lado, em enfatizar o aspecto das mudanças socioculturais e, do outro, as transformações políticas que os movimentos podiam gerar. A questão foi mais construir estratégias para a ocupação de poder, do que estratégias mercadológicas para obter recursos econômicos junto aos poderes públicos (Gohn, op. cit.: 284). Daí porque, talvez, o sentimento de derrotismo, a visão de refluxo e de perplexidade frente às mudanças experimentadas e em curso, nos finais da década e das quais nos adverte Cardoso (Idem, ibidem).
Mas, os mecanismos de cooptação utilizados pelo Estado, não são uma pura invenção dos movimentos sociais e nem das teorias sobre eles. O arcabouço populista que deu forma aos dois últimos governos da Ditadura estabeleceu canais de comunicação com as massas descontentes mediante programas sociais de cunho assistencialista e com forte retórica participativista. Tais programas, em busca de recuperar legitimação em erosão pela movimentação democrática da sociedade, foram instrumentos nas mãos dos governos militares para estabelecer nexos bonapartistas com o eleitoralismo clientelista e que infundiam a criação tutelada de redes de associações comunitárias de todos os tipos. Mediante este procedimento foi destoando e fazendo contraposição ao associativismo comunitário e os “grupos de base” organizados pelas instituições e movimentos sociais da sociedade civil. Exemplos são os setores progressistas da Igreja, as organizações não-governamentais e os próprios movimentos sociais, principalmente com relação ao contexto do mundo rural. Este contexto é conhecido pela presença forte da tradição política baseada do poder de mando das oligarquias locais. Sob a retórica participativista, a Nova República deu continuidade a esta política. Agora de maneira mais voraz e sob a mira dos movimentos e setores sociais organizados da sociedade civil que inscreviam em suas demandas os mais elementares direitos. Entre eles, o direito à vida como alimento, abrigo e outras condições básicas para a sobrevivência elementar de uma população cada vez mais submetida à barbárie e sob os efeitos dos impactos sociais da dilapidação do Estado e de sua incapacidade de atender ao “povão” com um arremedo de social-democracia. A depredação dos serviços de saúde, de educação etc. completou o quadro; depredação que começou com a Ditadura, continuou com Sarney e levou a gestação do voto do desespero que elegeu o Bismarck das Alagoas (Oliveira, 1995:25).
Esta tragicomédia foi o pano de fundo, que moveu a sociedade civil sob a perplexidade e a indignação, quando muitos cobravam de seus movimentos sociais tolerância com eco significativo nos analistas que lhe atribuíam sinais perversos contra a consolidação
59 da institucionalidade democrática. Sob essa contradição, tomaram corpo, especificamente, os movimentos sociais agrários com ímpetos organizativos nacionais e regionais; articulando as suas expressões locais, regionais, no intuito de mobilizar recursos de poder e resistência e superar as tão acalentadas, porém reais, fragmentariedades e diversidades. Sob este pano de fundo e sob a ótica da aprendizagem, vejamos o que dizem autores exemplares da literatura sobre tais movimentos sociais agrários.
Em Caminhos e Descaminhos dos Movimentos Sociais no Campo, Cândido Grzybowski (1987), procura realizar uma análise que cobre boa parte da ação movimentalista da década de 80, com conhecimento de causa e com auxílio de uma rica literatura sobre o tema. Começa a sua análise reportando-se a diversidade e fragmentação desses movimentos. Perseguiu a tendência da literatura anterior. Não está preocupado com movimentos enquanto identidades auto-referidas ou atribuídas, fala de movimentos sociais no sentido geral de lutas sociais como recurso heurístico. Analisa que apesar de não provocarem cisões importantes no bloco político-militar de forças e que continuou interferindo no poder de Estado, no Brasil da Nova República; certas lutas sociais, entretanto, assumem, pelos enfrentamentos armados, verdadeira guerra civil em estado larval. O UDR (União Democratico Ruralista) articulada em vários estados se constituiu num lobby junto ao centro do poder; leilões de gado é a forma pública de angariar recursos para financiar a sua campanha e formar/ampliar milícias privadas para enfrentar posseiros e sem-terra.
Mas, para Grzybowski (1987:16), os movimentos sociais e os enfrentamentos armados não são novos por causa da luta pela terra. Novos, portanto, são a amplitude das lutas e o fato dos assassinatos extrapolarem a esfera individual e assumirem um caráter de violência de classe. A importância, a extensão e a diversidades das lutas sociais no campo puderem ser avaliadas pelo autor segundo os conflitos registrados: só em 84 registrou-se 177 conflitos trabalhistas, envolvendo mais de 655 mil trabalhadores; 483 conflitos de terra, envolvendo 332 mil camponeses e seus familiares; os conflitos por causa de barragens atingiram 300 mil pessoas; o “grito do campo” que originou tantos “gritos” posteriores, em Porto Alegre, contra a política agrícola, mobilizou 80 mil agricultores gaúchos. Na luta pela terra até 85, a CPT registrou 42 acampamentos organizados, envolvendo mais de 11.500 famílias de sem-terra (grifos nossos).
Assim, o período inaugurado com a Nova República é caracterizado pelo autor pela generalização das lutas sociais no campo, a sua diversidade geográfica e social e, ao mesmo tempo, pela fragmentação em diferentes segmentos de trabalhadores rurais. A diversidade movimentalista, o autor explica pela diversidade de contradições existentes, modos de viver e enfrentá-las. As suas bases sociais estariam, portanto, implantadas nas diversas formas sociais de inserção dos diferentes segmentos de trabalhadores na estrutura agrária e no processo produtivo agropecuário. A sua origem, estaria relacionado, em conformidade com José de Souza Martins ( 1984: 75), com a variedade de formas assumidas pelas contradições do capital.
Entretanto, a inserção na estrutura agrária e no processo produtivo não seria suficiente para gerar os movimentos e lutas sociais:
“As estruturas precisam ser fecundadas pela vontade para gerarem movimentos. A percepção de interesses comuns, no cotidiano, nas condições imediatas de trabalho e vida, percepção produzida a partir de uma oposição com outros interesses, de outros agentes sociais; a identidade em torno dos interesses de outros agentes sociais; a identidade em torno dos interesses comuns, as ações coletivas de resistência etc. são um conjunto de condições necessárias ao surgimento dos movimentos. Só assim a tensão intrínseca às relações viram movimentos”. (Grzybowski, op. cit.; pp.18).
60 Para explicar as condições que dá origem aos vários movimentos sociais no campo, Grzybowski faz um exercício para qualificá-los e agrupá-los, de forma a salientar também a sua diversidade. Assim, a luta dos movimentos camponeses pela terra é uma luta contra a expropriação e se diversifica entre: a) Movimentos de posseiros são conflitos tanto numéricos quanto localizados e fragmentados. A sua amplitude é circunscrita à terra e às famílias de posseiros nelas instaladas. Está representada por três situações: nos conflitos localizados em áreas tradicionais de latifúndios e minifúndios, como no Nordeste e áreas do Centro Sul, a expulsão se dá pela grilagem de terras e pecuarização expulsando posseiros e moradores; - nos conflitos de áreas de fronteira agrícola, o móvel da luta é a expropriação de posseiros por empresas agropecuárias e reflorestadoras; - na região dos seringais (Acre), os seringueiros reagiram como posseiros á destruição dos seringais pelas empresas agropecuárias. Um fator importante assinalado por Grzybowski e que é comum as três e outras situações, é que estas lutas pela terra contrapõem a legitimidade da posse à legalidade da terra. A grilagem, a expulsão e o despejo judicial são os meios utilizados pelos pretensos donos e proprietários rurais. A violência é a característica predominante. As polícias militares, por ocasião dos despejos judiciais, tem se mostrado mais violentas que os jagunços. O Estado via o Conselho de Segurança Nacional vem intervindo em algumas áreas como Araguaia- Tocantins e Baixo Amazonas. Escaramuças e emboscadas tem sido uma arma cotidiana usada para eliminar lideranças e àqueles que apoiam os posseiros. A violência, estratégia para impedir a organização e a continuidade da luta.
As ações de resistência, organizações comunitárias, comunidades eclesiais de base etc., são decisivas. O sindicato, mediador dos posseiros junto aos tribunais é um instrumento importante, mas não é a base inicial da luta. A luta renova-os e até cria sindicatos onde não existiam. Além dos posseiros, sobre outros setores pobres do campesinato, de norte a sul do país, pesa a expropriação, transformando-os em trabalhadores rurais sem terra. A fragilidade dos posseiros sublevados está na sua fragmentação e localismo, o que facilita a estratégia dos agentes do latifúndio de isolá-los politicamente, tratando-os como casos específicos para combatê-los separadamente.
Já o movimento dos trabalhadores rurais sem terra para este autor, apresenta maior grau de articulação interna, revela maior homogeneidade. Nasceu articulado às “oposições sindicais”, tem estrutura própria e nasceu e se desenvolveu com apoio da Igreja. Disputa a direção dos sem-terra frente a CONTAG, a qual tem dificuldades de reconhecer um movimento amplo e que não se submeta à sua direção e disciplina. No seu I Congresso, em janeiro de 85, realizado em Curitiba, reuniram-se 500 representantes de 23 estados brasileiros. O seu potencial são os 12 milhões de sem-terra de todo o Brasil segundo dados da Campanha Nacional de Reforma Agrária. Na verdade o autor sugere que o surgimento dos sem-terra vem de longo aprendizado produzido desde as lutas condensadas em Ronda Alta (RS) com ocupações de fazendas e o Acampamento de Encruzilhada Natalino, um aprendizado social incorporado também pelo MASTRO (Movimento dos Sem-Terra do Oeste do Paraná, que foi um desdobramento das lutas dos expropriados pela barragem da hidroelétrica de Itaipu e certas ocupações de fazendas no Sudoeste do Paraná e em Santa Catarina. Estas lutas vão dar forma inicial ao movimento que as articulava. Seguindo a esteira do processo de migrações, com apoio da Igreja, o movimento se estende para o Oeste de São Paulo e Mato Grosso do Sul e em outras direções vai incorporando grupos de sem-terra de vários estados. A volta ao campo, como alternativa a crise econômica, alastra o movimento á periferias como a do Rio de Janeiro e constroem também a saga da volta dos brasilguaios, que migraram para o Paraguai na década de 70 ( Grzybowski, op. cit.; pp. 22-24).
Mas o que há de novidade neste movimento, além do sentido da volta ao campo como alternativa à exclusão social, ao desemprego e à própria violência na cidade e
61 nas áreas de concentração de “bóias-frias”? Para Grzybowski, uma das novidades é a autodeterminação do MST: os sem-terra tomam a iniciativa, ocupam áreas e, sobretudo, organizando acampamentos. Criam situações de fato, obrigam o Estado a intervir (juízes, policiais, INCRA, políticos). Estas formas de luta seriam, então, algo novo no repertório social das lutas de outros segmentos contemporâneos dos “rurais” e de movimentos das gerações passadas do campesinato. Pelo menos até 87, que demarca a contribuição do autor, a direção política e o apoio logístico do MST era constituída por certos setores da Igreja Católica, especificamente a CPT. Também tem apoio de outras igrejas. Dai a novidade de suas nítidas características politico-religiosas nas suas manifestações e na sua própria identidade. Para Grzybowski, a organização e a capacidade de intervenção dos Sem-Terra são indiscutíveis; embora a sua eficácia política na luta pela terra seja discutível face ao fato do movimento ter dificuldades de construir alianças com outras forças.
Os movimentos dos atingidos pelas barragens é uma luta contra a expropriação feita pelo Estado em nome da sociedade. A luta dos atingidos pelas barragens, conforme Grzybowski, coloca em apuros a própria legitimidade do Estado e a legalidade instituída. Envolve diretamente interesses agro-industriais quando a construção de barragens envolve projetos de irrigação como é o caso do Rio São Francisco, no Nordeste. Tais projetos de construção de barragens ao solapar as bases materiais de sobrevivência dos atingidos, fez com que as lutas sociais desdobrem-se para além das indenizações propostas pelo Estado. Um aspecto fundamental dos movimentos de luta dos atingidos por barragens diz respeito ao resgate dos fatores socioculturais, definidores de grupo atingido, associados à luta pela terra. Mas, para o autor, uma de suas características mais evidentes é a heterogeneidade social dos atingidos: posseiros, pequenos proprietários, parceiros e arrendatários, assalariados, médios e