para chegar a uma derivação essencial do narcisismo: a constituição de um ego ideal, como uma imagem que tem todas as excelências do si, que passa a exercer pressão e controle sobre o ego real e suas possibilidades concretas de ser. Sem ainda ter formulado a segunda tópica do aparelho psíquico (ego, id e superego), Freud identifica aí uma censura constante ao ego real, algo que mais tarde será pensado como superego, precipitado das identificações principais na dissolução do complexo de Édipo. Talvez esteja aqui o aspecto mais surpreendente do encadeamento das idéias do autor a respeito do tema. Se já se assinalavam paradoxos na afirmação do narcisismo como condição de toda e qualquer relação, quanto mais agora quando, por um desvio da direção da libido para uma imagem de si, faz-se uma idealização que cerceia os movimentos do próprio ego.
Assim, dos primeiros investimentos na relação com o mundo até a criação de uma censura a reprimir o ego real, em princípio onipotente, temos a ação da libido, ora localizada no ego, ora no objeto, ou seja, temos a ação do narcisismo, esse modo de funcionar que da erotização do ego parte para a erotização das relações e para o manejo de uma censura voltada para si, apoiada em imagens, representações da relação, identificações.
2. Do inconsciente do sonho (e) de narciso à morte (do)
experiência clínica e por longos textos a bico de pena. Todo ele fundado numa teoria da pulsão sexual de investimentos em relações amorosas significativas, desde o início da vida.
Façamos uma retomada da intrincada teorização sobre as pulsões, para que melhor se justifiquem os pressupostos.
A primeira versão da teoria apresenta a divisão entre pulsões de autoconservação e pulsão sexual. Passando pelos estudos introdutórios ao narcisismo, que buscamos demonstrar ser uma poderosa vertente para também pensar as pulsões, Freud aposta na sexualidade como esse universo de representantes psíquicos que registram o movimento em direção ao fora e aos objetos do mundo que se colocam no campo do exercício da força pulsional. Eros é aproximação e a vida erótica supõe inevitavelmente o encontro com um objeto, no caminho da satisfação.
Um organizador importante dos conteúdos fantasmáticos e dos processos e mecanismos que respondem pelo nome de inconsciente é o complexo de Edipo. Nele, cruzam-se fantasias sexuais abandonadas em favor de identificações com figuras parentais, angústia de castração e seu correlato, a inveja do pênis; cruzam-se, ainda, a instauração de uma repressão exemplar, aquela do triângulo amoroso filho/pai/mãe, e a decorrente criação do superego, herdeiro de toda essa trama. Uma supertrama que envolve um corpo erógeno, fantasias e circunstâncias concretas; é considerada a pedra angular da psicanálise, radicialmente relacionada com o universo das produções psíquicas, do desenvolvimento normal às neuroses.
Pois bem. Bem indicado o lugar da sexualidade na garantia vida, como demarcar o de seu antagonista, a morte? Em Além do...
(FREUD, 1920/1976) munindo-se, em princípio, de “evidências”
psicológicas como a compulsão à repetição, os sonhos e as neuroses traumáticas, Freud busca, em estudos biológicos, suporte para a afirmação de um princípio, tão originário quanto o da pulsão de vida, que deixado à própria sorte, por uma ação interna ao organismo, o levaria à morte. No sentido oposto ao da sexualidade, não tem vocação à saída para os objetos do mundo e sequer se representa. Em dado momento, no referido texto, afirma que é a vida que atrapalha a morte e não, como se costuma pensar, o inverso. A possibilidade de investimento de energia fora do próprio organismo, de enlaçar objetos e de se representar, de fantasiar, esse enlace, faz da pulsão de vida
(segunda teoria das pulsões que opõe pulsão de vida e pulsão de morte), uma tensão constante a impedir a realização de um caminho automático para a morte, pelo princípio da inércia.
Assim pensado o jogo das pulsões, faz sentido considerar que o psíquico é da ordem da sexualidade e da vida; a morte não dirige a qualquer formação psicológica. E desse modo que mesmo a repressão, mecanismo (psíquico) aparentemente tão contrário à sexualidade, não se alista entre as ações da morte; isto, por uma única razão: ela supõe o tempo todo o jogo ideia/afeto e, com isto, estamos na ordem do psicológico.
Como Freud resolve o impasse? Afirmando, como o fizera na primeira teoria, que as pulsões se exercem sempre como uma mescla e não isoladamente. Isto quer dizer que sempre que a pulsão de vida é investida, carreia consigo um tanto de pulsão de morte; o que se mostra na ação que satisfaz a pulsão (agora, desejo) é o sadismo (entendido na primeira teoria como uma pulsão parcial, agressiva, que se desviaria da corrente principal, para se desenvolver com relativa independência). Seu correlato, o masoquismo, é referido ao que, apesar de enlaçado à vida, permanece no sujeito (FREUD, 1924/1976).
Pela última teoria, portanto, o sadismo e o masoquismo, resultam da mescla e não da satisfação isolada da sexualidade ou da “morte nossa de cada dia”.
A expressão, empregada no texto Problema económico do masoquismo (FREUD, 1924/1976), pode parecer curiosa: masoquismo do ego e sadismo do superego. É no Mal-estar na civilização (FREUD, 1930/
1976), entretanto, que ela se esclarece: já no interior da segunda tópica do aparelho psíquico, pode-se dizer que é no ego que o masoquismo se constitui e desse lugar tende a carregar as tintas da auto-destruição;
por sua vez, pela ação da morte, no sadismo, a relação com os outros se pauta pelo exercício da destruição desses outros; no rebote, o que essa destrutividade produz volta ao sujeito, pela ação da civilização como garantia de sua preservação (da civilização); nesse retorno, a agressividade se localiza no superego e, daí, exerce-se com força redimensionada contra o próprio ego.
O sujeito psicanalítico, aquele que o discurso teórico da psicanálise formula, é o da mescla das pulsões de vida e de morte que, no limite da autodestruição, se salva pela capacidade de amar e se ligar aos objetos, seja qual for a qualidade dessa ligação.
É assim que Freud marca o traçado da morte na vida psíquica.
E, uma vez mais, o criador sustenta, no discurso da teoria e da metapsicologia bem como no exercício argumentativo de coerência interna ímpar, sua criatura. Mesmo que, ao Final do minado texto Além do Princípio do Prazer (FREUD, 1920/1976), tenha afirmado que o que escrevera não passava de especulações, como não passa de especulações, a metapsicologia. E seu discurso retoma sua preciosa indeterminaçao...