20 DESCUBRO O OUTRO-IMIGRANTE
21 DO LIMÃO À LIMONADA VOU CHEGANDO AO FINAL DESTA CAMINHADA
Voltei para o Brasil certa de que havia feito uma excelente escolha ao decidir por Murcia. Pisei no Rio de Janeiro dia 31 de julho de 2017, trazendo 60 quilos nas mãos e uma vastidão de vivências pessoais e profissionais de peso inestimável! Naqueles dias, só pensava em sentar e escrever, contar tudo isto que concretizo nestas páginas (e assim foi feito!). Em um sopro de determinação, foco e inspiração, comecei, continuei e venho terminando hoje, 18 de novembro de 2017, a escrita desta tese. É claro que alguns fragmentos e acessos a páginas virtuais datam de outros períodos, porque as ideias aqui expressas vinham sendo alimentadas faz tempo, algumas das quais tendo sido apenas redesenhadas ao estilo autoetnográfico.
Sentia-me segura para escrever, na certeza de estar criando um estilo próprio de escrita, cumprindo um dos propósitos do Doutorado: aprender um jeito novo de fazer e divulgar a pesquisa e retornar ao trabalho na UFV com possibilidades outras de investigação que me permitissem ampliar os caminhos para descobertas sobre o ensino e a aprendizagem de Espanhol.
Trazia também na bagagem o início de uma parceria com Antonia, que começou a tomar corpo na minha participação no I Seminario de Educación para la salud y sus ámbitos, realizado em outubro na UM. Apresentei, via gravação em vídeo e comunicação online por
Skype, minhas experiências na Cruz Vermelha e refleti com os alunos sobre o Espanhol para
imigrantes e os determinantes sociais da saúde. Outra parceria recém-iniciada foi o projeto Experiencia de Innovación Educativa Sociocultural: cruzando fronteras de conocimiento:
España-Brasil, entre a UM e a UFBA. Trata-se de um projeto de ensino desenvolvido com
alunos voluntários de uma disciplina de Antonia e de duas de Marcia, para compartilhar espaços de aprendizagem entre alunos das duas instituições nos âmbitos da saúde e da educação. Planejamos ampliar nossa parceria para a UFV quando de meu retorno.
Parceria semelhante também foi estabelecida com Adrián, desde minha estada de pesquisa em Buenos Aires. Traduzi para o Português parte de seu livro de metodologia de pesquisa em Ciências Sociais a ser lançado no próximo ano no Brasil. Também estamos trabalhando em uma pesquisa sobre o amor como prática intersticial, especialmente, identificada em coletivos fundados sobre o amor filial. A pesquisa vem sendo desenvolvida
concomitantemente com investigadores de diferentes países da América Latina, cabendo a mim a responsabilidade pelos estudos brasileiros.
Ao concluir esta etapa de minha formação como professora e como formadora de professores de Espanhol, percebo como minha pesquisa de Doutorado mostrou-se extremamente útil, assim como foi a de Mestrado. Essa constatação se dá não apenas pelos projetos colaborativos que acabo de citar, mas por tudo o que significou o Doutorado em termos de aprendizagem.
Pude observar minhas experiências de aprender e ensinar Espanhol a partir de diferentes perspectivas teóricas, o que considero como maior ganho desta tese. As autoetnografias revelaram, portanto, seu potencial transformador, já que esta estratégia metodológica e relato de resultados de pesquisa permitiram-me a descolonização de velhas maneiras de realizar estudos científicos e a fartura de descobertas acerca de mim mesma, aprendiz, professora e ser humano, bem como acerca dos grupos dos quais fiz parte ao longo da trajetória narrada.
Observo esta tese, portanto, sob dois aspectos: como processo de construção e como texto acadêmico. No primeiro caso, avalio muito positivamente o que vivi em cada etapa da elaboração deste trabalho. As dificuldades para a definição dos caminhos de pesquisa e as muitas tentativas fracassadas de escrever uma autoetnografia estimularam-me a experimentação para chegar à performance que ora apresento. Como estudo acadêmico, igualmente, avalio de forma positiva o trabalho. Noto que as narrativas baseadas em minhas experiências demonstraram o quanto os processos de aprender e ensinar Espanhol no Brasil estão envolvidos política, social e culturalmente, conforme se verá nos próximos parágrafos.
Neste momento, tento responder à pergunta de pesquisa: Como o Espanhol me afeta e me afetou e como eu afeto e afetei as pessoas com o Espanhol? Começo dizendo que o Espanhol mudou meus planos de vida, afinal, quando ainda não o conhecia como disciplina acadêmica ou componente curricular, planejava seguir a carreira de professora universitária de Português. Devo advertir que a mudança não consistiu apenas em variação na língua de trabalho, mas na percepção do mundo ao meu redor. Passei a enxergar e valorizar realidades outras, próximas ou não no espaço, que antes não conhecia, como culturas de grupos socialmente marginalizados e a latino-americanidade, o que modificou para melhor a percepção sobre mim mesma e sobre meus contextos socioculturais. Meu
engajamento nas atividades da APEMG também retrata o envolvimento político que me moveu desde quando assumi meu papel como professora de Espanhol.
Meus alunos, professores e colegas de trabalho são as pessoas diretamente envolvidas por mim através do Espanhol. Com efeito, a relação professora e alunos pode influenciar no vínculo destes com a matéria de estudo. Minhas vivências como aluna de Português, no ensino fundamental II, estimularam-me a querer ser professora de Português; posteriormente, já na vida adulta, tirei várias lições da convivência com cada uma das minhas professoras de Espanhol, seja de como me tornar uma incentivadora de meus alunos, seja de como fazer de minhas aulas momentos dinâmicos de aprendizagem, seja de como ser disciplinada e organizada, seja ainda de como estimular a percepção crítica diante de textos e da própria realidade sociocultural.
Penso não ser possível dizer com clareza quando fui afetada ou afetei meus professores, afinal, essa é uma relação dialógica em que se aprende e se ensina a um só tempo. As palavras de Francyanne demonstraram como os alunos também me afetam. Ora, se vejo estudantes estimulados e um grupo de interessados pela língua-cultura e o que a ela se refere, reforço minhas convicções e minha busca pelo melhor, tanto em qualidade de ensino quanto em trabalho político de luta e resistência diante da situação de implantação do Espanhol como componente curricular nas escolas brasileiras.
Se todo encontro entre indivíduos ou grupos possibilita diálogo, e eu procurei fazer desses momentos oportunidades de crescimento, as breves experiências vividas em Murcia, junto aos imigrantes atendidos pela Cruz Vermelha são uma prova disso. Senti-me imensamente afetada pela força e perseverança que via nessas pessoas, mas também os envolvi de alguma maneira, pois fui plenamente acolhida em todos os grupos em que entrei, ainda que apenas por um dia, tendo recebido demonstrações de atenção e afeto que me impressionaram.
O exame do objetivo geral de minha investigação – analisar como as sensibilidades influenciam na formação do professor intercultural de Espanhol – mostra-me, mais uma vez, o papel das emoções nos processos de aprender e ensinar. Cada vez que me expresso acerca de minhas vivências com o Espanhol, afloram emoções positivas ligadas, em geral, ao prazer e à curiosidade daquela que conhece. Assim, alegria, estímulo, euforia, entusiasmo, tranquilidade, respeito, confiança, bem estar, contentamento, comoção são expressões recorrentes nesta tese. O que significa isso? Minha relação com o Espanhol significou uma linha em ascensão em minha vida profissional e, por que não dizer, pessoal.
Meus corpos estavam preparados biológica, social e culturalmente para viver essas emoções e eu, simplesmente, segui o fluxo, entreguei-me às oportunidades que surgiam.
O conhecer levou-me a buscar o outro e a encontrá-lo – ou enxergá-lo. A abertura ao outro, a suas experiências, a suas histórias, a sua língua, a seu saber possibilitou-me aproximar-me de pessoas singulares que me inspiraram e me fizeram com elas crescer: as ex-alunas da UFV e tantos outros cujas histórias dariam mais uma tese, cada colega professora e professor, cada pessoa com quem me encontrei dentro e fora do Brasil (falando ou não o Português, mas constituída de um mundo de identidades, iguais ou diferentes das minhas). A cada contato, vejo ascenderem em mim as chamas da reciprocidade e o ensejo do diálogo, da conversa entre culturas, entre as muitas que me habitam e as muitas que habitam o outro.
Entre meus objetivos específicos, busquei relacionar o biográfico, o afetivo, o cognitivo e o intercultural em minhas experiências de ensino e aprendizagem de Espanhol. Na escrita de meu corpo, através das autoetnografias aqui apresentadas, encontram-se os programas televisivos da infância a me colocarem em contato com aquela que seria meu objeto de atenção pela vida laboral, a Língua Espanhola. Complementar a esse fato, estão a ligação afetiva com a música que me fez encantar-me pela expressão oral da língua e a chance de estudar Espanhol na UFJF e seguir minha formação como professora, estudando e vivendo a interculturalidade a partir da Pós-Graduação.
Outro objetivo específico era articular sociabilidades, vivencialidades e sensibilidades em contextos de aprendizagem e ensino de Espanhol. Minhas vivências individuais e coletivas com a língua, em família, inicialmente, e em grupo de estudos e pesquisa, no Brasil e fora do país, posteriormente, fizeram-me desenvolver sensibilidades específicas para criar essa relação tão estreita entre a paixão pelos sons da língua e seus processos de ensino e aprendizagem. Meu acervo de disposições corporais físicas, sociais e culturais cedeu ao encanto das novelas da Rede Globo e eu me apaixonei por Alejandro Sanz. Porém, fiz do limão a limonada: da situação de dominação de corpos constituí um meio de resistir à subjugação do capital depredatório, tornando minha atividade pedagógica um caminho contrário – na medida do possível, já que estar totalmente contra a correnteza é deveras difícil – ao da submissão, incentivando meus alunos a serem sujeitos críticos em meio às dominações que lhes são impostas.
Um terceiro objetivo específico era identificar as emoções como facilitadoras do ensino e da aprendizagem em minhas vivências com o Espanhol. Ao longo das narrativas e