4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
4.4 DO MATERIAL DISCURSIVO AOS PROCEDIMENTOS DE
Nesta pesquisa, buscamos identificar e analisar as produções de masculinidades no âmbito da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), analisando a mídia oficial da PNAISH, especialmente, o material publicitário de suas campanhas, todo ele veiculado pela página oficial da saúde do homem do Ministério da Saúde (MS) e por sua página da rede social Facebook®.
O processo de seleção do material empírico que compõe nosso corpus de análise teve início no mês de abril de 2016. Partimos, nesse momento, da seguinte meta: fazer um mapeamento de todos os materiais de campanha da PNAISH veiculados pela mídia. Com vistas a atender tal objetivo, utilizamos nesse processo inicial a seguinte estratégia de busca: identificar na página oficial da Área Técnica de Saúde do Homem (que atualmente tem sido denominada de Coordenação Nacional de Saúde dos Homens), através do seu endereço eletrônico: www.portalsaude.saude.gov.br, todas as produções publicitárias sobre o tema de investigação desta pesquisa.
Em relação à segunda busca, optamos por selecionar os materiais encontrados apenas na página oficial da saúde do homem na sua fanpage do Facebook®. Tal escolha pode ser justificada por duas razões: a) a primeira delas refere-se à multiplicidade de campanhas veiculadas pelas diversas páginas encontradas no processo de busca e b) pela centralidade que as redes sociais têm assumido nos últimos anos, sendo consideradas um tipo de mídia de veiculação rápida e de acesso mais igualitário entre as diversas camadas sociais.
Todavia, mesmo na sua página oficial, observamos que produtos de outras campanhas e postagem de outros temas (direitos da população LGBTI e indígena, por exemplo) eram publicados por essa página e não apenas aqueles que fizessem referência, exclusivamente, à política de saúde do homem, tal como supúnhamos. Partindo dessa constatação, optamos em selecionar apenas os materiais que compusessem, de maneira explícita, as campanhas e outros produtos midiáticos produzidos e distribuídos pela Área Técnica de Saúde do Homem,
vinculados ao MS do Governo Federal. Com isso, identificamos que os produtos que faziam referência à política em questão eram marcados por um selo (Figura 5) que parece distinguir tais produções dos outros produtos veiculados pela página.
Figura 1 - Selo oficial do material produzido pela Área Técnica de Saúde do Homem, na sua página
do Facebook®
Fonte: Facebook®
Em relação ao perfil da Saúde do Homem no Facebook®, este foi criado em 08 (oito) de janeiro de 2015, conforme os dados fornecidos pela própria página, e suas postagens foram sendo identificadas de acordo com a ordem cronológica (decrescente) de apresentação. Ressaltamos, aqui, que trabalhar com uma política tão recente e, mais ainda, com os materiais midiáticas produzidos por ela, não permite ao pesquisador um maior distanciamento para a análise do contexto de produção desses materiais, o que torna mais difícil tal exercício, muito embora não inviabilize e/ou mesmo diminua a qualidade da análise proposta e empreendida nesta pesquisa.
Além disso, optamos por selecionar os materiais de veiculação nacional e ligados diretamente ao Ministério da Saúde, por duas razões: 1) a sua maior abrangência e 2) a possibilidade de traçarmos um panorama mais geral acerca dessas produções e suas especificidades no contexto nacional. Contudo, esta escolha não inviabiliza a possibilidade de, em pesquisas futuras, delimitarmos esse tipo de análise num contexto mais local, como, por exemplo, a região Nordeste ou o estado de Pernambuco. Ao todo, foram selecionadas 44 peças publicitárias, distribuídas entre cartazes lançados para as campanhas (9) e cartazes virtuais (35).
Com vistas ao melhor delineamento do material empírico utilizado nesta pesquisa, dividimos esta etapa em três momentos:
a) No primeiro momento, realizamos um mapeamento dos materiais publicitários das
campanhas da PNAISH nas suas páginas do MS e do Facebook®, etapa anteriormente descrita;
b) Depois de selecionados e excluídos aqueles que não fossem produzidos pela Área
Técnica da Saúde do Homem do MS, montamos um grande quadro com todas as produções (banners, cartazes, folders, panfletos etc.), com dados relativos ao título da campanha, tema, tipo de material, fonte e endereço eletrônico. Tal distribuição pode ser ilustrada no quadro a seguir:
Quadro 2 - Distribuição do material empírico por tipo de produção (tanto na página do MS como na fanpage do Facebook®)
CAMPANHAS OFICIAIS DA PNAISH Nº Título da campanha Tema Tipo de material Fonte Endereço eletrônico
c) Depois de feita essa distribuição, realizamos uma descrição detalhada do material
de análise. Por se tratar de um material de campanha e, quase sempre, seu conteúdo apresentar imagens, esse momento de aproximação com o material mostrou-se imprescindível para orientar o pesquisador acerca do contexto de produção desses materiais. Assim, no processo de descrição do material, buscamos identificar todos os elementos das imagens e dos textos (verbais) que, nessa situação, apareceram quase sempre associados. Cores, sujeitos da imagem, ambiente, perspectiva, ângulos e impressões, inclusive, afetivas, foram alguns dos elementos descritos pelos pesquisadores. Cabe ressaltar que esse processo não ocorreu de maneira solitária, já que nele contamos com a participação de outro pesquisador13, colega de orientação e doutorando no mesmo programa de pós-graduação.
A seguir, apresentaremos mais um quadro com o detalhamento das campanhas, o tipo de material produzido e o período de veiculação.
Quadro 3 - Distribuição dos materiais de campanha, materiais produzidos e período de veiculação
Materiais de Campanha
Título Tema Tipo de material Período de
veiculação “Homem que se cuida
não perde o melhor da
Folder, Cartaz, Mobiliário Urbano,
Agosto e Setembro de 2009
13 Trata-se do aluno do doutorado Túlio Romero Lopes Quirino, cuja colaboração foi imprescindível para este processo.
vida”
(Incluindo a versão específica para a festa de Barretos 2009) PNAISH (Lançamento) Vinheta em Vídeo (TV) e Vinheta em áudio (Rádio) “Não importa que tipo
de homem você é. Seja do tipo que cuida da Saúde”
PNAISH Cartazes e Folder Março de 2013
“Pai: Uma nova vida precisa de você”
Paternidade Cartazes e Folders Agosto e Novembro de 2013
“Amigo, gravidez, parto e cuidado também são coisas de homem. Seja pai, esteja presente”
Paternidade
(Lei do
Acompanhante)
Cartazes e Folders Novembro de 2013 e Março de 2015
Depois de realizada tal descrição, tivemos alguns encontros que oportunizaram a troca de informações e a compreensão de algumas questões que, por vezes, colocavam-se como nós a serem desfeitos durante esse processo, seja pela pouca familiaridade do pesquisador com esse tipo de material, seja realmente pelo esforço exaustivo de todos os envolvidos em organizar da melhor forma e da maneira mais clara possível o material empírico aqui coletado. Além disso, esses encontros serviram para potencializar a nossa aproximação com o campo-tema, na medida em que nos possibilitava uma discussão potente acerca das impressões e afetos por nós apreendidos durante esse momento. A partir disso, podemos afirmar que a nossa inserção já ocorria no campo, na medida em que discutíamos os impasses e as observações realizadas sobre o material coletado.
Sobre a noção de campo-tema, Peter Spink (2003) amplia o conceito ao sugerir que a nossa inserção nele não se dá ou, pelo menos, não é autorizado apenas quando estamos posicionados do lugar do ofício científico. Nas negociações diárias, nas discussões realizadas nos diversos contextos e no processo, cotidiano, de produção de sentidos já estamos, sim, imersos nos nossos campo-temas. Tal postura, defendida por Spink, coloca-nos a pensar na nossa implicação como pesquisador. Trocando em miúdos, a questão que se coloca é: “O que estamos fazendo quando nos propomos a pesquisar determinado tema?” Estamos direcionando-nos para uma reflexão crítica do fazer científico e da contribuição do pesquisador ao se comprometer com sua pesquisa.
Com isso, chega-se à seguinte conceituação: “Campo, entendido como campo-tema, não é um universo ‘distante’, ‘separado’, ‘não relacionado’, ‘um universo empírico’ ou um ‘lugar para fazer observações’. Todas estas expressões não somente naturalizam, mas também escondem o campo; distanciando os pesquisadores das questões do dia a dia” (SPINK, 2003,
p. 28). O autor ressalta, portanto, que a noção de campo-tema extrapola a compreensão clássica de campo, ressaltando que os próprios contextos de inserção, as buscas realizadas pelo pesquisador sobre o seu objeto de estudo e as suas incursões em outros ambientes, que não aqueles estritamente científicos, já constituem a sua entrada no campo de pesquisa.
Com relação à análise de documentos de domínio público, Spink (2004) indica que os psicólogos sociais por muito tempo negligenciaram a pesquisa social que se debruçava sobre documentos, em contraposição, por exemplo, aos historiadores, que sempre estiveram às voltas com esse tipo de análise. Desse modo, o autor discute a hegemonia, na Psicologia Social, de certa tradição de pesquisa que valoriza mais as pesquisas empíricas, empreendidas a partir de entrevistas e questionários, do que as pesquisas documentais, e ressalta que: “Esquecem [os psicólogos sociais] que as práticas discursivas, como linguagem em ação, estão presentes de forma ubíqua tanto nas imagens e artefatos como nas palavras” (p. 126).
Em outras palavras, o autor alerta para a necessidade de que ampliemos as nossas investigações para além dos métodos e instrumentos clássicos. Mais ainda, ressalta que assim como na entrevista, no material discursivo documental a produção de sentidos também acontece e, portanto, precisamos estar atentos, como pesquisadores, aos processos de construção desses materiais. Podemos ampliar a concepção de documentos para a noção, também, de imagens. A seguir, faremos uma breve discussão da análise de imagens, tarefa empreendida nesta dissertação, seguindo os pressupostos aglutinados pela perspectiva discursiva.
4.5 ANÁLISE DE IMAGENS: ALINHANDO O DISCURSO IMAGÉTICO À