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Do meio ambiente como bem de uso comum do povo

1.2 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 E O MEIO AMBIENTE

1.2.2 Alguns elementos constitucionais sobre a proteção do meio ambiente

1.2.2.3 Do meio ambiente como bem de uso comum do povo

No que concerne ao meio ambiente como “bem de uso comum do povo”, já o Código Civil de 1916, em seu art. 66, inciso I, havia incluído os mares, os rios, as estradas, as ruas e praças como bens desta categoria. Posteriormente, o atual Código Civil185, manteve este mesmo conceito em seu art. 99, inciso I. Com o advento da Lei

da Política Nacional de Gerenciamento Costeiro, as praias também passaram a

183 Benjamin, Antônio Herman V., 2007, p. 70. 184 Idem,ibidem, 2007, p.112-113.

185 BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Disponível em <

compor esta categoria. Todavia, considera-se que foi com a Carta de 1988 que o conceito de meio ambiente recebeu uma nova dimensão, ampliando o conceito anterior, consolidando a sua autonomia jurídica e demonstrando o interesse público primário em que a qualidade ambiental seja conservada. Para Silva, tanto a qualidade ambiental quanto o equilíbrio ecológico foram classificados como bem de uso comum do povo186. Conforme o autor, de maneira geral, pode-se entender que

[...] esses atributos do meio ambiente não podem ser de apropriação privada, mesmo quando seus elementos constitutivos pertençam a particulares. Significa que o proprietário, seja pessoa pública ou particular, não pode dispor da qualidade do meio ambiente a seu bel-prazer, porque ela não integra a sua disponibilidade.187

Existem também elementos físicos do meio ambiente que não podem ser privadamente apropriados, como o ar que, em si, já é “bem de uso comum do povo”. Da mesma forma, a qualidade ambiental, que não é nem bem público nem privado, é “bem de interesse público”, dotada de regime jurídico especial, pois essencial à qualidade de vida. Desta qualificação como “bem de uso comum do povo” origina-se uma duplicidade de regimes jurídicos sobre determinados bens corpóreos, por exemplo, uma mata nativa poderá estar localizada dentro de uma propriedade privada e, ainda assim, será considerada como de “uso comum do povo” e, portanto, deverá ser preservada, já que indisponível ao proprietário do bem imóvel onde ela está localizada.

Com a finalidade de servir de base na gestão do meio ambiente em casos como o exemplo mencionado, se pode extrair o “princípio da função social da propriedade”, em conformidade com o art. 1.228, parágrafo 1º, do Código Civil188. Segundo Ayala, o direito de propriedade, o qual pressupõe a propriedade, diz respeito a uma das formas em que a apropriação sobre os bens é exercida, num modelo de economia de mercado. É nesta modalidade que a proteção ao direito individual de apropriação e exploração do valor econômico referente ao bem é priorizada. Ademais,

186 SILVA, José Afonso da, 1997. 187 Idem, ibidem, p. 84.

188 Este artigo deve ser interpretado em consonância com os arts. 5º, inc. XXIII, 170, incisos II, III e VI, 182, 186, inc. II e 225, caput, todos da Constituição Federal de 1888.

esta forma de apropriação se relaciona com a obrigação do exercício da função social da propriedade, cuja apropriação do bem não pode ser limitada a atender exclusivamente ao interesse do proprietário. Portanto, os usos do bem admitidos pela Constituição não podem ser desviados, já que são o principal objeto da função social da propriedade.189

Nesse sentido, é como se esse direito do proprietário estivesse disposto em dois níveis, o primeiro dizendo respeito a um direito de propriedade, ao mesmo tempo público e privado, já o segundo nível, a um direito coletivo de sua preservação como garantia sócio-ambiental. Esses dois níveis de direito não são excludentes e, sim, complementares. Quanto ao proprietário desse bem ambiental, não poderá dispor do segundo nível do direito, deverá, de outro turno, preservá-lo, uma vez que suas características são de titularidade difusa, como prevê a Carta Magna. Entretanto, ainda pode ser evidenciada a lógica de prevalência do direito patrimonial. Para Steigleder, “[...] no art. 1.228 do Código Civil Brasileiro de 2002: o direito civil é – excluído o direito das pessoas – um direito dos bens, um direito do patrimônio, que propicia e regula o acesso às coisas (direito das obrigações) e que regula diretamente esta utilização das coisas (direitos reais)”190.

Ainda assim, a função social da propriedade aparece superposta à autonomia privada regulamentadora das relações econômicas, desta forma protegendo os direitos da coletividade a um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Ou seja, é privilegiada a atribuição de “obrigações constitucionais, solidárias e comunitárias”, com relação à proteção do meio ambiente como um todo e, por outro lado, algumas

189 AYALA, Patryck de Araújo. Deveres ecológicos e regulamentação da atividade econômica na Constituição Federal. In: CANOTILHO, José Joaquim Gomes; LEITE, José Rubens Morato. Direito

Constitucional Ambiental Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 269. Sobre o tema, cf.

COMPARATO, Fábio Konder. Direitos e deveres fundamentais em matéria de propriedade. In: AMARAL JÚNIOR, Alberto do; PERRONE-MOISÉS, Cláudia (orgs.). O cinqüentenário da

Declaração Universal dos Direitos do Homem. São Paulo: Edusp, 1999, p. 377-384; GRAU, Eros

Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988. 5. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p. 253; DERANI, Cristiane. Tutela jurídica da apropriação do meio ambiente e as três dimensões da propriedade. Revista Brasileira de Direitos Difusos, Rio de Janeiro: ADCOAS, v. 20, p. 2820, jul./ago. 2003.

190 STEIGLEDER. Annelise, Monteiro. Responsabilidade Civil Ambiental: As dimensões do dano ambiental no direito brasileiro. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004. p. 39. Apesar do movimento de “despatrimonialização” do Direito Civil. Sobre o tema, cf. PERLINGIERI, Pietro.

Perfis do direito civil: Introdução ao direito civil constitucional. 3. ed. Rio de Janeiro: Renovar,

1997; SILVA, José Robson da. Paradigma biocêntrico: do patrimônio privado ao patrimônio ambiental. 2. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2002; BENJAMIN, Antônio Herman V., 2007, p.70-73.

espécies que compõem a biodiversidade e até algumas áreas da natureza que não podem ser privadamente apropriados.191

Quanto à expressão “meio ambiente ecologicamente equilibrado”, não significa que se deva buscar uma situação sem qualquer mutação das condições ambientais, mas um estado de equilíbrio entre os mais diversos elementos que compõem um ecossistema, suas cadeias de alimentação, sua vegetação, seu clima, seus microorganismos, seu solo, o ar e a água192, condições que podem ser alteradas pela ação antrópica, seja pela poluição, por introdução de espécies ao meio ambiente, ou qualquer tipo de atividade que possa modificar este estado de equilíbrio dinâmico. De acordo com Silva, o uso da expressão “[...] ecologicamente apresenta valor teológico mais aberto e mais amplo do que o sentido finalístico concreto [...]. O termo empresta sentido especial ao equilíbrio ambiental, que não há de ser estático, mas também não puramente natural”193.

Em verdade, a própria idéia de equilíbrio deve ser encarada com olhar mais complexo. Os processos naturais não devem mais ser vistos de acordo como modelo de equilíbrio linear, conforme a perspectiva que vigorou durante muito tempo, quando se considerava que os diversos elementos dos ecossistemas194 ajustavam-se

reciprocamente para atingir um ideal de estabilização195, de acordo com a idéia de

“auto-regulação homeostática”. Conforme Ost, esse ideal de clímax com vistas à estabilização, no sentido de que uma população animal ou vegetal tiraria o máximo proveito dos recursos do seu ambiente, deve ser posta em causa, ou, no mínimo, concebida como relativa, local e temporária, pois a idéia de estabilidade da natureza deve levar em conta que seus equilíbrios são frágeis e plurais196.

E, para frustração dos juristas que freqüentemente buscam certezas absolutas, ou que acreditam que a ciência produz certezas, ao contrário, a ecologia científica

191 AYALA, Patryck de Araújo, 2007, p. 269-271. Sobre as áreas protegidas é o que ocorre com as unidades de conservação pertencentes ao grupo de proteção integral, assim classificadas pela Lei nº 9.985 de 2000, Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza – SNUC. 192 GIOVANETTI, Gilberto; LACERDA, Madalena. Melhoramentos - Dicionário de Geografia. São

Paulo: Melhoramentos, 1996, p. 70. 193 SILVA, José Afonso da, 2002, p. 88.

194 Cf. Glossário. Ao longo da presente Dissertação, os vocábulos ecossistema(s) e sistema(s) ecológico(s) são empregados indistintamente.

195 OST, François, 1995, p. 110. 196 Idem, ibidem, p. 110.

atual cria mais questionamentos do que propriamente respostas infalíveis. Para Morin, a busca da totalidade é a busca da verdade e o reconhecimento da inexistência da totalidade é uma importante verdade197. Segundo ele, toda e qualquer organização, assim como todos os fenômenos físicos, organizacionais vivos, sofrem uma tendência à degradação e à degeneração. Assim, o normal é que as coisas nunca permaneçam como são ou estão, não existindo nenhuma receita de equilíbrio, e a melhor maneira de se valer contra a degenerescência é a regeneração permanente, é a atitude do conjunto da organização em regenerar-se198.

Quanto ao termo “ecologicamente”, também empregado pelo legislador constitucional, diz respeito à harmonia das relações e interações estabelecidas entre componentes do ecossistema, mas com intuito específico de destacar as qualidades do meio ambiente mais adequado à qualidade da vida199. E, para a manutenção desta qualidade, o texto constitucional determinou que tanto o poder público quanto a coletividade devem buscar este estado de harmonia e de sanidade entre os diversos elementos integrantes da ecologia - populações, comunidades, ecossistemas e biosfera200.

Assim, a Constituição de 1988 apresenta uma conexão entre o meio ambiente ecologicamente equilibrado e a saúde da população. Ou seja, entende que, para que o homem viva com qualidade, é essencial que o meio ambiente encontre-se em equilíbrio ecológico. Para Leme Machado, ter sadia qualidade é viver em um meio ambiente não-poluído. Esta Constituição introduziu o “direito à sadia qualidade de vida”, trouxe a base constitucional para este direito que, a partir de então, precisa ser regulamentado por normas infraconstitucionais e assumido como meta de políticas públicas condizentes com as necessidades da população. A qualidade do meio ambiente e de seus elementos, como a água, o ar e o solo são fundamentais para proporcionar à comunidade uma vida digna.201

A opção constitucional pela “qualidade de vida” e a magnitude que sua noção alcança se justapõem às inúmeras situações jurídicas que a priori eram consideradas

197 MORIN, Edgar, 2007, p. 97. 198 Idem, ibidem, p. 89.

199 OST, François, 1995, p. 110.

200 MACHADO, Paulo Affonso Leme, 2006, p. 119. 201 Idem, ibidem.

desligadas deste pressuposto. Este privilégio é conseqüência de uma “[...] percepção de que são interesses difusos aqueles que assumem tal transcendência em razão de refletirem o conteúdo dos problemas fundamentais dos dias atuais, particularmente todos aqueles que se refletem sobre a qualidade de vida das pessoas”202.

A proteção trazida pela Constituição Federal de 1988 à qualidade de vida pode ser entendia como um “corolário da dignidade da pessoa humana”, a qual pressupõe um meio ambiente em equilíbrio. Nesta lógica, entretanto, mais uma vez fica evidente a subsistência do paradigma antropocêntrico, ou seja, o fim último da norma continua sendo o bem-estar humano. Trata-se da tutela de um direito de personalidade, mesmo que de titularidade difusa, uma vez que a qualidade ambiental é um bem jurídico indisponível e que não pode ser apropriado203. Sendo assim, denota-se uma transformação do conceito de “direito de personalidade”, pois a proteção da vida humana é evidenciada juntamente com a proteção do meio ambiente, cuja manutenção é essencial para a qualidade de vida do homem. Portanto, este “novo direito da personalidade” abriu caminho para a concepção do paradigma antropocêntrico alargado, que convive com valores ecológicos.