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Do meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental

1.2 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 E O MEIO AMBIENTE

1.2.2 Alguns elementos constitucionais sobre a proteção do meio ambiente

1.2.2.2 Do meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental

Pode-se considerar que a previsão constitucional do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como um direito fundamental tenha sido inspirado no Princípio nº 1 da Declaração de Estocolmo167, segundo o qual o homem possui o direito fundamental à liberdade, à igualdade, e também, “[...] ao desfrute de condições de vida adequadas em um meio cuja qualidade lhe permita levar uma vida digna e

161 Art. 205, da Constituição Federal de 1988.

162 Benjamin, Antônio Herman V. Constitucionalização do Ambiente e Ecologização da Constituição Brasileira. In: CANOTILHO, José Joaquim Gomes; LEITE, José Rubens Morato (Org.). Direito

Constitucional Ambiental Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 105-106.

163 MACHADO, Paulo Affonso Leme, 2006, p. 116. 164 MORAIS, José Luis Bolzan de, 1996, p. 125.

165 Sobre o tema, cf. o item 1.2.2.2 da presente Dissertação.

166 BENJAMIN, Antônio Herman. Meio ambiente e constituição: uma primeira abordagem. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL, 6., 2002, São Paulo. Anais... São Paulo: Imesp, 2002, p. 93.

gozar de bem-estar e tem a solene obrigação de proteger e melhorar esse meio para as gerações presentes e futuras”. Este foi um marco de Direito Internacional que estendeu o conceito de Direitos Humanos para incorporar o direito a um meio com qualidade, possibilitando ao homem viver uma vida digna e com bem-estar e, ainda, protegendo não só a vida na sua dimensão presente como na sua concepção futura. Esse direito foi também reafirmado pelo Princípio nº 1 da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento168, o qual entendeu que os seres humanos “[...] estão no centro das preocupações com o desenvolvimento sustentável. Têm direito a uma vida saudável e produtiva, em harmonia com a natureza”.

E, por fim, sofreu influências do Princípio nº 4 da Carta da Terra, cujo conteúdo garante as “dádivas” e a “beleza da Terra” não só para as presentes, mas para as futuras gerações. Reconhece ainda que a liberdade de agir que cada geração possui deve ser limitada pelas necessidades das futuras gerações. E estabelece a obrigação de se transmitir às futuras gerações os valores, as tradições e as instituições que auxiliem na perpetuação da prosperidade das comunidades humanas e ecológicas do Planeta.169

No Brasil, o direito fundamental ao meio ambiente diz respeito a um direito formal e materialmente fundamental. A abertura material foi consagrada pelo art. 5º, § 2º da Constituição Federal de 1988, que, por ser cláusula pétrea, possui aplicabilidade direta. Assim, ainda que o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado não pertença ao catálogo do art. 5º, pois se optou por relacioná-lo dentro da “ordem social”, ele pode ser entendido como direito fundamental170. Para Sarlet, trata-se de direito

fundamental formal, por que faz parte da Constituição escrita, encontrando-se no ápice do ordenamento jurídico e por isso “[...] submetido aos limites formais (procedimento agravado) e materiais (cláusulas pétreas) de reforma constitucional (art. 60 CF)”171. É

168 Texto assinado durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento - CNUMAD, realizada na cidade do Rio de Janeiro, no período de 05 a 14 de junho de 1992.

169 Documento nascido das bases da humanidade e assumido pela UNESCO no ano de 2000.

170 Sobre o tema, cf. CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Estudos sobre direitos fundamentais. Coimbra: Coimbra Editora, 2004, p. 177-215; GAVIÃO FILHO, Anizio Pires. Direito fundamental ao

ambiente. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2005, p. 25- 52.

171 SARLET, Ingo. A eficácia dos direitos fundamentais. Porto Alegre: Livraria do advogado, 1998, p. 78.

material, por ser um direito fundamental que constitui a Constituição material, a qual contém decisões fundamentais da estrutura básica do estado e da sociedade172.

Segundo o autor, essa abertura faz com que não sejam restringidos os direitos fundamentais não inseridos no catálogo a direitos expressamente positivados nas demais partes da Carta Magna, por isso todos os direitos fundamentais estariam subordinados ao regime estabelecido pelo art. 5º, parágrafo 1º173. Ademais, a abertura permite que os Tratados Internacionais sobre a proteção ambiental, principalmente no que concerne ao direito fundamental ao meio ambiente, integrem a Constituição174. De acordo com posicionamento do Supremo Tribunal Federal, o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado integra a terceira geração de direitos fundamentais175, juntamente com o direito à paz, à autodeterminação dos povos, ao desenvolvimento, à conservação e utilização do patrimônio histórico e cultural e do direito de comunicação176.

A respeito do percurso das gerações de direito, ressalta-se que os chamados direitos de primeira geração seriam os direitos de liberdade, por estarem relacionados às liberdades negativas opostas à prestação estatal. Posteriormente, os direitos de segunda geração, direitos sociais, culturais e econômicos, estes relacionados justamente com a prestação estatal e ainda enfocando a questão da igualdade, almejando uma atuação estatal positiva. Ainda, os de terceira geração que estariam muito afastados dos primeiros, por agregarem um conteúdo universal, como são os direitos de solidariedade, relacionados ao desenvolvimento, à paz mundial, ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e à informação177. Também, já são mencionados

os direitos de quarta geração, que agregariam uma realidade inédita, como a

172 SARLET, Ingo, 1998, p. 79.

173 §1º - As normas definidoras dos direitos e das garantias fundamentais têm aplicação imediata. 174 SARLET, Ingo, 1998, p. 79.

175 Esse também é o posicionamento doutrinário de SARLET, Ingo, 1998, p. 52-53; FREITAS, Vladimir Passos de. A constituição federal e a efetividade das normas ambientais. 2. ed. São Paulo: RT, 2002, p. 25. (Apesar deste autor utilizar a nomenclatura “dimensão”) e FARIAS, Paulo José Leite.

Competência federativa e proteção ambiental. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris, 1999, p. 221.

176 Cf. MS 22164/SP, julgado em 30 de outubro de 1995, Tribunal Pleno, publicado no DJ em 17 de novembro de 1995, p. 39206, vol. 1809, Rel. Min. Celso de Mello e o Recurso Extraordinário 134.297-SP, Rel. Min. Celso de Mello, 1ª Turma, julgado em 13 de junho de 1996, publicado no DJ em 22 de setembro de 1996, ementário nº 1801-04.

relacionada à pesquisa genética178. Para Canotilho, o direito ao meio ambiente

ecologicamente equilibrado estaria inserido na quarta geração de direitos fundamentais179. Todavia, para ele não seriam gerações de direito, mas “dimensões”, por não haver a substituição de uma geração pela outra, os direitos pertenceriam a todas as gerações.

A reflexão acerca das “gerações” ou “dimensões” de direito traz consigo um caráter histórico das transformações ocorridas com os direitos humanos ao longo dos tempos. De acordo com Bobbio, os direitos não nascem todos de uma vez. “Nascem quando devem ou podem nascer. Nascem quando se dá o aumento do poder do homem sobre o homem – [...] – ou cria novas ameaças à liberdade do indivíduo, ou permite novos remédios para as suas indigências [...]”180. Ao analisar os direitos humanos de terceira geração, fica presente a idéia de que se está vivenciando uma realidade inovadora para os direitos fundamentais, já que agora objetiva-se atingir toda a humanidade.

Entende-se que o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado diz respeito a um direito-dever, cuja dimensão é erga omnes, pois há uma relação de solidariedade jurídica e solidariedade ética, na qual os sujeitos se encontram em pólos difusos181. Como o art. 225 da Carta de 1988, constitui-se em norma de caráter

teleológico, que exige a mesma orientação para o ordenamento infraconstitucional como um todo, restando consolidada a determinação do direito-dever ao meio ambiente, obrigando tanto os poderes públicos quanto a coletividade a defendê-lo e preservá-lo, sob pena de sofrer sanções, quando da conduta lesiva182. Neste sentido, a

preservação ambiental deveria passar a integrar todas as normas que compõem o ordenamento jurídico, não só as relativas ao meio ambiente em específico.

178 Sobre o tema, cf. NODARI, Rubens Onofre. Biossegurança, transgênicos e risco ambiental: os desafios da nova lei de biossegurança. In: LEITE, José Rubens Morato; FAGÚNDEZ, Paulo Roney Ávila. Biossegurança e novas tecnologias na sociedade de risco: aspectos jurídicos, técnicos e sociais. Florianópolis: Conceito Editorial, 2007, p. 17-44.

179 CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito constitucional e teoria da constituição. 3. ed. Coimbra: Almedina, 1999, p. 362. Na presente Dissertação será adotado o posicionamento que integra a terceira geração de direitos.

180 BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1992, p. 6.

181 BORGES, Roxana Cardoso. Direito ambiental e teoria jurídica no final do século XX. In: VARELLA, Marcelo Dias; BORGES, Roxana (org.). O novo em direito ambiental. Belo Horizonte: Del Rey, 1998, p. 21.

De acordo com Benjamin, esse é um dever constitucional “auto-suficiente” e com “força vinculante plena”, tanto que não necessita da atuação do legislador ordinário para a sua aplicação genérica. Também é um dever inafastável, no que diz respeito à vontade dos sujeitos privados abrangidos, e, por outro, no exercício de discricionariedade da administração pública. Portanto, está excluído da esfera de livre opção dos indivíduos. Além disso, trata-se de dever de caráter atemporal, transindividual e intrínseco ao direito de propriedade, o que obriga o exercício do domínio ou da posse em conformidade com a manutenção das qualidades ambientais essenciais.183

Por fim, o referido autor menciona que tais deveres têm um cunho “welfarista”, já que tomam como base um Estado intervencionista, ao qual são incumbidas novas e específicas responsabilidades para o enfrentamento de um antigo inimigo: a degradação ambiental. Mas a tarefa de construir um mundo mais sustentável é árdua e não pode ser exigida somente do Estado, mas de qualquer pessoa, em especial dos agentes econômicos. Neste sentido, é essencial que a defesa do meio ambiente seja dever de todos, o que restou evidenciado no art. 225, da Constituição Federal de 1988, que, aliás, reconheceu o caráter inseparável entre Estado e Sociedade civil. Assim, além de estabelecer o que o Estado não deve fazer (dever negativo) e o que deve fazer (dever positivo), este dispositivo constitucional estendeu seu âmbito de incidência a todos os cidadãos, cúmplices na tarefa de preservar o meio ambiente.184