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3.2 As “lentes” de análise

3.2.2 Da polifonia (sempre) presente nos documentos

3.2.2.1 Do olhar de pesquisadora

Qual a postura que o pesquisador, num caso como esse, deve tomar para que consigamos ultrapassar os relativismos ou dogmatismos com relação ao Projeto? Essa preocupação é latente, pois aqui, pensar sobre o Projeto representa pensar sobre uma vivência da qual participei, na qual estive profundamente envolvida e que foi responsável

107 pelas decisões profissionais tomadas dali em diante. De que maneira observar esse “outro” que é, na verdade, a união de pessoas, de instituições e, portanto, de lugares e valores sociais tão distintos? De que maneira o pesquisador se relaciona com seu objeto e, ainda assim, consegue produzir a sua pesquisa?

Em “O autor e o herói”30 Bakhtin apresenta uma reflexão que pode colaborar para esse questionamento.

O que na vida, na cognição e no ato, designamos como objeto determinado, não recebe sua designação, seu rosto, senão através da nossa relação com ele: é nossa relação que determina o objeto e sua estrutura e não o contrário [...]” (p. 26).

Os sujeitos do Projeto que possuem falas nesse texto estão representados de modo a expor ao máximo a fidelidade em relação à sua fonte enunciadora. No entanto, é possível que tais falas sejam enunciados de uma relação que é dominada, quase exclusivamente, pelo autor – nesse caso, pela pesquisadora. Nesse sentido,

O pesquisador não nega, naturalmente, sua inserção social e histórica, mas tem a obrigação de manter com relação a ela e ao seu objeto (que podem ser ‘sujeitos’!) uma atitude exotópica.” (Sobral, 2005, p. 116).

O princípio da exotopia é descrito por Bakhtin devido à existência de um excedente

de visão que o autor possui em relação a seu herói31. Diz Bakhtin:

O autor não só vê e sabe tudo quanto vê e sabe o herói em particular e todos os heróis em conjunto, mas também vê e sabe mais do que eles, vendo e sabendo até o que é por princípio inacessível aos heróis [...]” (p.32).

No nosso caso, não temos um autor de obra literária ou um herói. Temos uma doutoranda buscando compreensões do seu objeto. No entanto, a minha visão é sempre inacabada, por motivos que são muitos e variados. Mas esse inacabamento é desconhecido para mim mesma.

30

Esse é um dos primeiros escritos de Bakhtin datado de 1922-1924.

31 Nesse texto, Bakhtin propõe uma análise estética da obra literária, jogando com fatores que são determinantes a partir dessa análise, a saber, a própria questão ética. É por isso que estamos a falar da relação do autor com seu herói em determinada obra.

108 “ [...] estamos expostos e quem nos vê, nos vê com o ‘fundo’ da paisagem em que estamos. A visão do outro nos vê como um todo com um fundo que não dominamos. Ele tem, relativamente a nós, um excedente de visão. Ele tem, portanto, uma experiência de mim que eu próprio não tenho, mas que posso, por meu turno, ter a respeito dele.” (Geraldi, 2003, p. 44).

Essa tensão evidencia um princípio de inacabamento do ‘eu’ perante mim mesmo, mas, evidencia também, o domínio do ‘outro’ perante o meu ‘eu’, na base de uma completude que, no fundo, é impossível.

O objeto será analisado com esse cuidado e essa consideração de que o “outro/eu- pesquisadora” é/sou autorizado(a) a ver algo que é inacessível para outros sujeitos.

Enquanto pesquisador, minha tarefa é tentar captar algo do modo como ele se vê, para depois assumir plenamente meu lugar exterior e dali configurar o que vejo do que ele vê” (p. 14).

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CAPÍTULO 4

Rastros como sentidos produzidos no Projeto

Liberation 1955, M. C. Escher (extraído de http://www.mcescher.com/)

O diálogo fora difícil, com alçapões e portas falsas surgindo a cada passo, o mais pequeno deslize poderia tê-lo arrastado a uma confissão completa se não fosse estar o seu espírito atento aos múltiplos sentidos das palavras que cautelosamente ia pronunciando, sobretudo aquelas que parecem ter um sentido só, com elas é que é preciso mais cuidado. Ao contrário do que em geral se crê, sentido e significado nunca foram a mesma coisa, o significado fica-se logo por aí, é directo, literal, explícito, fechado em si mesmo, unívoco, por assim dizer, ao passo que o sentido não é capaz de permanecer quieto, fervilha de sentidos segundos, terceiros e quartos, de direcções irradiantes que se vão dividindo e subdividindo em ramos e ramilhos, até se perderem de vista, o sentido de cada palavra parece-se com uma estrela quando se põe a projectar marés vivas pelo espaço fora, ventos cósmicos, pertubações magnéticas, aflições. (José Saramago, Todos os nomes).

111 No projeto Geociências, as reuniões semanais foram necessárias para a instauração do processo formativo. Nessas reuniões, nomeadas pela equipe de coordenação como Práticas

de Debate e Reflexão, havia o encontro do grupo completo, sempre verbalizando as

ocorrências da escola, as leituras, as práticas desenvolvidas com as salas de aula de aplicação do projeto. Ocorriam orientações nessas práticas, ocorriam conflitos e discussões, ocorriam trocas de experiências. Tais reuniões estabeleceram-se como o local do praticum

reflexivo de que fala Schön. Os encontros deram a tonalidade do processo formativo pois

era um local consagrado para a tutoria, para o encaminhamento, para a escuta, para o aprendizado. Era o lugar em que “o outro” ganhava importância. Parece ter sido nas reuniões que o referencial teórico metodológico da prática reflexiva ganhou contornos práticos, produzindo uma metodologia de trabalho de formação continuada.

A análise das Práticas de Debate e Reflexão parte de uma observação menos focada, mais ampla, que não se desconecta de uma análise mais particular, que pode ser representada pelos “produtos” do projeto, isto é, pelos materiais que hoje reconhecemos como registros de um processo e que, ao menos formalmente, são individuais. Trata-se dos relatórios das professoras e dos coordenadores e de artigos escritos pelos atores do projeto. Essa análise produziu um conhecimento mais voltado para o aprendizado do professor no processo de formação.

Projeto Geociências

Artificiais se tratadas separadamente, essas possibilidades de análise surgiram como um “equalizador de importância” das ações grupais e individualizantes e que parecem conformar processos formativos de filiação colaborativa. A importância dessas duas observações é que cada qual configura informações, reflexões e observações de maneira diferente. Auxilia-nos na produção de reflexão acerca da formação continuada a partir de óticas distintas (indivíduo e grupo), mas igualmente privilegiadas.

Visão mais ampla: grupo

Visão mais específica: produções individuais

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4.1 “Práticas de Debate e Reflexão” em foco

Essa visão geral que proponho está relacionada à possibilidade de buscar uma referência que consiga (ou chegue perto de) abranger o Projeto Geociências nas suas dinâmicas práticas de trabalho, quando ocorria a união do grupo todo. Em outras palavras, buscar relatar e compreender as práticas de debate e reflexão traz as vivências do grupo desse Projeto.

Essa visão geral implica “olhar de fora”, conhecer as pessoas envolvidas, suas produções e seu envolvimento com o grupo; implica, sobretudo, ressaltar alguns momentos em que o grupo se reunia, o que será auxiliado pelo diário de iniciação científica.

O “olhar de fora” ou “excedente de visão” procuram por um certo “acabamento” na compreensão desse grupo e possibilitou termos a clareza desse primeiro recorte, muito embora reconheçamos que o próprio recorte já é, em si, o inacabamento ou a impossibilidade do acabamento.

A orientação metodológica seguida nos encontros era a prática reflexiva que foi concebida a priori e se fortaleceu durante a ocorrência do Projeto:

Adotamos para o projeto a prática de debate e reflexão (o praticum reflexivo segundo Schön, 1992). É um tipo de prática de aprender fazendo, em que os professores começam a praticar, juntamente com os que estão em idêntica situação sem ter uma compreensão mais racional do que estão fazendo. Espera-se praticar o conhecimento na ação manifestada no saber-fazer e tendo relações com a experiência passada.” (Compiani et al, 1997, p. 23).

Formalmente, essa prática ganhou o nome de “Espaço de Debate e Reflexão”, cuja pretensão era a de que ele fosse um palco privilegiado de discussões de tudo aquilo que levasse à prática crítico-reflexiva (Compiani et al, 2001, p. 31).

Esse Espaço representou o espaço do diálogo formal do Projeto, ou seja, aquele diálogo voltado para a comunicação em voz alta. Hoje, reconhecemos que esse diálogo foi importante para o estabelecimento de outro tipo de diálogo a que se refere Bakhtin (2004): “ ... isto é, não apenas como a comunicação em voz alta, de pessoas colocadas face a face, mas toda comunicação verbal, de qualquer tipo que seja” (p. 123).

113 Nesse espaço, as conversas seguiam diversos rumos, característicos dos processos de formação continuada com o escopo do Projeto Geociências. Antes de mostrar tais rumos, uma discussão sobre o referencial teórico da epistemologia da prática foi destacado para que, em seguida, pudesse apresentar a análise das ressignificações possibilitadas pelo Projeto a partir desse referencial. Contudo, é importante destacar dois aspectos: essa discussão é, na realidade, uma apresentação sintética das idéias de Schön e não uma revisão acerca do assunto.