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Catarina Liane Araújo1, Ana Paula Martins1, António José Osório1 [email protected], [email protected], [email protected]

1 Instituto de Educação, Universidade do Minho/CIEd, Portugal

Resumo

Os professores assumem um papel determinante na decisão das atividades desenvolvidas em sala de aula. Nesse sentido, realizou-se um estudo descritivo sobre as opiniões dos professores do 1.º Ciclo do Ensino Básico (CEB) relativamente aos documentos orientadores do processo de ensino-aprendizagem e de que modo estes influenciam as suas práticas em sala de aula. Participaram 46 professores do 1.º CEB, a lecionar em doze Agrupamentos de escolas públicas da região norte de Portugal continental. Os resultados evidenciaram que a maior parte dos professores utilizam os documentos oficiais de orienta- ção da prática pedagógica, contudo não concordam com as metas curriculares atuais, considerando-as desajustadas à realidade. Este estudo revelou-se pertinente por reforçar a necessidade de os professores serem ouvidos numa futura elaboração ou adequação destes documentos.

Palavras-Chave: opiniões; professores do 1.º CEB; documentos oficiais; práticas pedagógicas.

1 Introdução

O professor é um elemento essencial na definição das práticas pedagógicas em sala de aula. As suas perceções quanto ao seu conhecimento, suas atitudes e sua autoeficácia podem influenciar a sua prática profissional e, em parte, condicionar a motivação e envolvimento dos alunos no processo de ensino- aprendizagem (Harris & Graham, 2016; Mastropieri & Scruggs, 2002).

Nesse sentido, os documentos reguladores das práticas profissionais como as Metas Curriculares ou o Programa Nacional de Português do 1.º CEB (Buescu, Morais, Rocha & Magalhães, 2015) são algumas das ferramentas legais que devem orientar as práticas dos professores portugueses em sala de aula. Apesar disto, socialmente é reconhecido algum descontentamento e dificuldade dos professores no cumprimento das metas, objetivos e competências atualmente em vigor (ex.: notícias na comunicação social, manifestações).

Ressalva-se, contudo, por um lado a importância dos professores compreenderem as influências das práticas políticas no seu exercício profissional (Berninger, Nagy, Tanimoto, Thompson & Abbott, 2015; Harris & Graham, 2016; Kennewell, Parkinson & Tanner, 2000). Por outro lado, evidencia-se a necessidade de compreender como os professores portugueses realmente percecionam estes documen- tos, clarificando as potencialidades e fragilidades dos mesmos para melhorar o processo de ensino- aprendizagem.

2 Metodologia

Através de uma metodologia descritiva, procedeu-se à recolha das opiniões de professores do 1.º CEB, da região norte de Portugal, relativamente aos documentos orientadores do processo de ensino- aprendizagem e ao modo como estes influenciam as suas práticas em sala de aula. Participaram nesta investigação 46 professores, seis do género masculino e quarenta do género feminino, na maioria com idades compreendidas entre 46 e 55 anos (56,5%) e com licenciatura. A média de tempo de serviço no ensino foi de 24 anos (desvio-padrão de 6,65).

Os participantes responderam a uma versão, traduzida e adaptada pelos autores deste artigo, do questionário “Teacher Survey about their Writing Practices”, de Cutler e Graham (2008). Neste

artigo, destaca-se os resultados obtidos relativamente às opiniões dos professores quanto à influência das Metas Curriculares e Programas Nacionais de Português do 1.º CEB na organização do processo de ensino-aprendizagem da escrita.

Para a análise dos dados recolhidos, procedeu-se à descrição dos mesmos, visto que o reduzido número de respostas não permitiu a validação e consequente análise inferencial dos dados recolhidos junto dos professores.

3 Resultados

Os resultados obtidos indicam que 51% dos respondentes afirmam organizar o processo de ensino- aprendizagem com base nas Metas Curriculares para o 4.º ano e no Programa Nacional de Português do 1.º CEB. Contudo, verifica-se uma grande proximidade entre a percentagem de respostas afirmativas e negativas, o que indica uma variedade de respostas apresentadas pelos professores.

Analisando as justificações apresentadas para as respostas dadas, verificaram-se referências quanto ao facto de serem documentos oficiais do Ministério da Educação (10 referências); quanto à importância destes documentos para a realização do exame final de ciclo (que antigamente existia no fim do 4.º ano de escolaridade), quer por indicar os conteúdos que eram explorados quer por familiarizar os alunos com os conteúdos e a organização, o que, na perspetiva dos professores que responderam afirmativamente, é favorável para a confiança e sucesso dos alunos (14 referências). Com 4 referências, alguns professores identificam o documento como organizador e orientador de práticas pedagógicas e consideram que a introdução de novas metodologias e a abordagem de tipologias de textos mais diversificados constitui um elemento importante para o desenvolvimento académico dos alunos (4 referências).

Por outro lado, aqueles que afirmam não orientar as suas práticas por estes documentos oficiais consideram que estas são exigentes para a faixa etária e nível de maturidade dos alunos do 1.º CEB, referindo em algumas situações um sentimento de frustração face ao insucesso demonstrado por alguns alunos, que apresentam grandes dificuldades em alcançar os objetivos indicados.

Ainda que os professores tenham referido, como observado anteriormente, o uso dos documentos oficiais na orientação das práticas pedagógicas em sala de aula, foi possível constatar que a maior parte dos professores respondentes, 67,3%, não concorda com as metas atualmente definidas, ou seja, a sua implementação resulta de uma norma do Ministério. Contudo, existe unanimidade nos respondentes, mesmo aqueles que responderam afirmativamente, em considerar as metas exigentes e desadequadas para o desenvolvimento dos alunos nesta faixa etária e no 1.º CEB, considerando que são imaturos (em termos cognitivos e emocionais), o que compromete a assimilação dos conteúdos e competências trabalhadas no contexto de sala de aula (14 referências). A título de exemplo, alguns professores especificaram a capacidade de abstração e a manutenção da atenção nas tarefas com competências que os alunos apresentam dificuldades (5 referências). Referem ainda a falta de tempo para a sistematização das aprendizagens e a evidência de um desrespeito pelo ritmo de aprendizagem individual dos alunos (3 referências). Paralelamente, os professores consideram que as metas curriculares foram desenhadas “para alunos excelentes e não para a maior parte dos alunos” (P20).

Em geral os professores respondentes afirmam que as metas estão mais organizadas e orientam as atividades, o processo de ensino-aprendizagem (para alunos e professores) e o que é esperado que os alunos saibam em cada ano letivo (6 referências). A maior parte dos professores que concordam com as metas consideram que estas devem ser seguidas por serem do Ministério da Educação (também com 6 referências). Salienta-se que um professor concordou com as metas atuais por considerar que “estão mais direcionadas ao gosto pela leitura e pela escrita” (P41).

4 Conclusão

Foi possível concluir que as opiniões dos professores sobre a influência das Metas Curriculares e do Programa Nacional de Português do 1.º CEB não são unânimes, destacando-se os aspetos positivos e negativos observados pelos professores questionados sobre estes documentos, definidos com o principal objetivo de regular as práticas profissionais dos professores. Contudo, atendendo que pouco menos

de metade dos professores refere que não organiza o processo de ensino-aprendizagem de acordo com estes documentos, parece-nos óbvio que estes documentos não estão a cumprir o seu papel.

Posto isto, considera-se relevante que no futuro os professores sejam ouvidos para a elaboração de novos ou adaptados documentos reguladores, no sentido de permitir ajustar estas diretrizes à realidade vivenciada por professores e alunos nas escolas (ex.: exigência, maturidade, focos de ensino).

Importa referir que a maior parte dos professores utiliza os documentos oficiais de orientação da prática pedagógica, ainda que com uma diferença mínima para os que não os utilizam como referên- cias e a maior parte dos professores não concorda com as metas curriculares atuais, considerando-as desajustadas à realidade, pelo que se revela fundamental que os professores possam ser ouvidos numa futura elaboração ou adequação destes documentos. Especialmente porque é importante reforçar o papel das diretrizes políticas nas práticas dos professores, como defendido por vários autores (Bernin- ger et al., 2015; Harris & Graham, 2016) e contribuir para que estas se ajustem às necessidades dos alunos e professores, o que, segundo os professores inquiridos, não acontece, dado que a maior parte dos professores não concorda com elas (ex.: novas metas para o 1.º CEB).

Por fim, espera-se que esta investigação contribua para a discussão e reflexão por parte das entida- des políticas governamentais, em particular, e comunidade educativa, em geral, sobre a importância de uma escuta ativa e constante das opiniões e necessidades dos professores e alunos, bem como o papel preponderante da sua participação nas decisões relativas ao processo de ensino-aprendizagem.

Agradecimento

Esta investigação foi desenvolvida no Centro de Investigação em Educação, da Universidade do Minho, e recebeu financiamento pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), através da bolsa de doutoramento recebida pela primeira autora deste artigo e com a referência: SFRH/BD/86175/2012.

5 Referências

Berninger, V., Nagy, W., Tanimoto, S., Thompson, R., & Abbott, R. (2015). Computer instruction in handwriting, spelling, and composing for students with specific learning disabilities in grades 4-9.

Computers & Education, 81, 154-168. doi: 10.1016/j.compedu.2014.10.005.

Buescu, H. C., Morais J., Rocha M. R., & Magalhães, V. F. (2015). Pro-

grama e metas curriculares de português do ensino básico. Acedido em http://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Basico/Metas/Portugues/pmcpeb_julho_2015.pdf. Cutler, L., & Graham, S. (2008). Primary grade writing instruction: a national survey. Journal of Educational

Psychology, 100(4), 907-919.

Harris, K. R., & Graham, S. (2016). Self-regulated strategy development in writing: policy implications of an evidence-based practice. Policy Insights from the Behavioral and Brain Sciences, 3(1), 77-84. doi: 10.1177/2372732215624216

Kennewell, S., Parkinson, J., & Tanner, H. (2000). Developing the ICT Capable School London. Londres: Routledge Falmer.

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