A formação de professores (Nóvoa & Vieira, 2017) constitui-se como âmbito da reflexão e da partilha que justifica a organização da Mesa Redonda do INCTE, que teve a nossa moderação. O encontro científico em que participamos tem como essência estruturante a (re)construção e problematização de saber académico que (e se) fundamenta (n)a formação de professores, afirmando a dialética entre teoria e prática que caracteriza ontológica, teleológica e epistemologicamente este campo de ação- reflexão-teorização. Nesta dimensão de relação permanente e entre o fazer, o dever fazer e saber e o fazer acontecer conhecimento, define-se a docência. Nesta medida, pensar a formação de professores é perspetivar um espaço de desenvolvimento profissional contínuo em que quem é professor não se pode nunca afastar do seu estatuto de formando, no sentido em que tem de ser o agente transformador de si e de quem com ele aprende e, simultaneamente, dar resposta a exigências de um mundo em permanente mudança, com novos desafios, novas ameaças e também novas oportunidades. Pensar a formação de professores e educadores é, por todas estas razões, uma tarefa complexa que exige questionamento e problematização.
Na afirmação da necessidade de questionamento é importante realçar que a Mesa Redonda, en- quanto locus de problematização e partilha de diferentes perspetivas sobre a formação docente, é um espaço privilegiado que procura ilustrar pontos de vista distintos (mais ou menos convergentes) sobre este domínio. No primeiro INCTE, o tema central, à volta do qual se processou o debate, foi “Formar professores no século XXI: práticas, perspetivas e desafios” (Mesquita, Pires & Lopes, 2016) e, na sequência deste caminho de reflexibilidade, a proposta para a atual edição do INCTE foi “Formação de professores e educadores: reflexões sobre o currículo e a pedagogia”. A intencionalidade deste per- curso tem, na sua matriz, a preocupação com a qualidade da formação de professores e educadores de infância e com a consequente promoção da qualidade da educação.
A este respeito, o relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico Teachers matter: attracting, developing and retaining effective teachers (OCDE, 2005) salienta alguns aspetos que consideramos imprescindíveis para a discussão sobre o que é e deve ser a formação dos professores, a saber: (1) a ideia de que a formação deve combinar o domínio de conhecimentos centrados na(s) área(s) de docência com a capacidade de interpretar e agir de modo reflexivo e investigativo ao longo do exercício profissional; (2) a perspetiva de que a formação inicial de professores deve ser vista como a primeira etapa num processo de desenvolvimento profissional; (3) a defesa de uma sólida relação entre as instituições de formação e as escolas; (4) a valorização da complementaridade entre as experiências contextuais dos formandos e a sua formação académica; e, por fim, (5) a garantia de que os professores que acompanham os formandos tenham as condições adequadas para o fazerem, designadamente, formação e tempo que permita fazer adequadamente este acompanhamento. Passada mais de uma década desta publicação, a formação de professores e educadores continua na agenda política, académica e também social. Importa, neste sentido, pensar como é que esta mudança de paradigma apresentada (e aceite) como necessária se atualiza nas práticas educativas de formação de professores. A última década tem, do ponto de vista da política educativa, transformado a oferta formativa no que concerne à formação de professores (Cachapuz, 2016), pelo que é necessário, agora, refletir sobre as alterações organizacionais e praxiológicas que estas mudanças trouxeram ou ainda exigem.
Neste sentido, o INCTE pretende, com a Mesa Redonda “Formação de professores e educadores: reflexões sobre o currículo e a pedagogia”, proporcionar um espaço de reflexão e partilha de experiên- cias relacionadas com a formação de professores e educadores de infância a nível internacional. Para dar cumprimento a este objetivo participaram no debate três professores/investigadores, de países dife- rentes, que se têm dedicado à investigação neste domínio: Professora Doutora Rosa Novo, de Portugal, Professor Doutor Leoncio Veja Gil, de Espanha, e Professora Doutora Sandra Soares, do Brasil. Sob a nossa moderação, e para enquadrar e dinamizar a discussão, foram lançados quatro temas centrais: (1) transformações da formação de professores e educadores na última década, designadamente no que refere ao currículo da formação; (2) perfil de professor/educador resultante da formação atual; (3) organização do processo formativo de modo a que responda aos desafios atuais da escola; e, por fim, (4) a necessidade de afirmar um modelo pedagógico específico para o ensino superior no domínio da formação de professores.
A primeira questão, referente à análise das transformações curriculares da formação de profes- sores/educadores na última década, teve como objetivo enquadrar e apresentar as especificidades nacionais, a forma como o Processo de Bolonha se efetivou (ou não) nos diferentes contextos e identi- ficar as alterações produzidas no sentido de analisar as vantagens desvantagem inerentes às mudanças recentes. A segunda questão procurou aprofundar as consequências da efetivação das mudanças polí- ticas enunciadas e analisar o perfil de professores e educadores que a formação proposta preconiza. E, neste sentido, impôs-se como relevante refletir sobre os saberes que se consideram na formação, assim como sobre a importância e características ideais da formação desenvolvida em contexto profissional. Inerente a toda a reflexão sobre as exigências que se colocam à formação de professores e educadores emerge a relevância da consideração da organização de um processo formativo que prepare os pro- fessores e educadores para os desafios atuais e futuros da escola, de forma a responder a (eventuais) exigências específicas locais ou nacionais e, simultaneamente, aos desafios que as sociedades globais colocam, o que configura o terceiro eixo de reflexão proposto. Por fim, para terminar a troca de ex- periências de formação de docentes, convocou-se a interpretação dos intervenientes sobre a exigência da reflexibilidade enquanto especificidade do desenvolvimento profissional (na área da docência) e das transformações que estas especificidades impõe ao modelo pedagógico específico para o ensino supe- rior na formação inicial de professores e educadores. Relativamente a estas questões foram propostos alguns tópicos de discussão como a necessidade de clarificar a(s) filosofia(s) da educação para a for- mação de professores e educadores, as orientações metodológicas que lhe(s) dão forma e o papel do formador e do formando num processo de aprendizagem que se pretende transformativo e, sobretudo, transformador.
A pertinência e atualidade do tema proposto e, especialmente, a qualidade do painel reunido nesta mesa redonda, permitiram a partilha de diferentes perspetivas, cada uma das quais marcada pela especificidade nacional, mas com assinaláveis convergências no que toca à reivindicação de um espaço de formação de qualidade que se constrói na interação entre as instituições de formação de professores e os contextos em que o ser professor se efetiva e, no qual, o formando/(futuro)professor participe ativamente como principal ator do seu próprio percurso formativo.
2 Referências
Cachapuz, A. (2016). Bolonha 2015: o estado das coisas. Revista Internacional de Formação de Professores,
1(2), 36-50.
Mesquita, C., Pires, M. V., & Lopes, R. P. (Eds.). (2016). Livro de atas do 1.º Encontro Internacio-
nal de Formação na Docência (INCTE). Bragança, Portugal: Instituto Politécnico de Bragança.
http://hdl.handle.net/10198/11435.
Nóvoa, A., & Vieira, P. (2017). Um alfabeto da formação de professores. Crítica Educativa, 3(2-Especial), 21-49. DOI: http://dx.doi.org/10.22476/revcted.v3i2.217
Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico. [OCDE] (2005). Tea-
chers matter: attracting, developing and retaining effective teachers. Acedido em: https://www.oecd.org/edu/school/34990905.pdf