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DO PROCESSO DE ENSINO DO CONTEÚDO “AS ORIGENS DA

Conversando com o professor regente da turma, ficou explícita sua metodologia de ensino para esse conteúdo. Analisando teoricamente seu próprio

“jeito de fazer”, o professor diz

“Para trabalhar o surgimento da Filosofia, eu começo com um processo de problematização, partindo dos próprios alunos. Vendo já qual o grau de conhecimento que eles possuem sobre aquele assunto e depois algumas categorias que eu trabalho com eles no sentido de texto ou então com exposição oral em sala de aula, e na seqüência eles vão relacionar esses conteúdos com a vida deles, ou então demonstrar a compreensão desses conteúdos”.

(PROFESSOR DE FILOSOFIA)

Cabe frisar a importância dada a uma espécie de diagnóstico das experiências prévias dos alunos, visando compreender o nível de entendimento em que os mesmos situam-se em relação ao conteúdo que será proposto, preocupação válida, até porque estamos falando de um colégio central, tradicional, cuja clientela é diversificada e, pelo menos em parte, conta com alunos cujo perfil difere do encontrado nos colégios considerados “da periferia” da cidade.20 Quanto aos objetivos que se pretende alcançar por meio do estudo desse conteúdo, o professor menciona como principal objetivo “que os alunos consigam definir, de uma maneira mais ou menos possível para o Ensino Médio, o que é a Filosofia e como surgiu a Filosofia”. (PROFESSOR DE FILOSOFIA)

Pode-se perceber uma concepção do que seja a Filosofia do ponto de vista desse professor, observando a intrínseca relação destacada por ele entre o surgimento da Filosofia e o que ela seja, isto é, o próprio trabalho de procurar ensinar de onde a Filosofia surge faz sentido quando entendido como um esforço para entender o que é a Filosofia. Se não sabemos, ou se preferimos não determinar

20 Nas palavras do professor: “O aluno aqui do Colégio Estadual do Paraná é bastante diverso, temos alunos que são filhos de classe média, que o pai é advogado, que o pai é professor da rede pública, da rede universitária, pública e particular, temos alunos que são filhos de pessoas que têm cargo em comissão no Estado, ou seja, são pessoas de classe média, que já tem uma leitura, que já têm acesso ao capital cultural, que têm um acúmulo de leitura. E temos algumas pessoas também que vêm da periferia, que vêm com as dificuldades que é a questão da periferia ao acesso à biblioteca, a livros, à leitura e até com uma formação anterior bastante precária. Então nós temos um público bem diverso, desde alunos que leram ‘O Mundo de Sofia’, isso já no primeiro ano do Ensino Médio, e alunos que nunca ouviram falar na palavra ‘Filosofia’”. (PROFESSOR DE FILOSOFIA)

taxativamente o que é a Filosofia, ao menos verificamos qual é a sua natureza, nos termos do seu nascimento. A origem de um campo determinado do conhecimento traz informações muito úteis para a compreensão da própria especificidade desse mesmo conhecimento. Isso é especialmente verdadeiro para o caso da Filosofia, na medida em que não se define o que ela é. A concepção do que seja a Filosofia e como ela se origina para esse professor é determinante quando lembramos que é essa concepção que vai nortear o seu processo de ensino e as posteriores avaliações por meio das quais coloca em xeque se sua metodologia de ensino causou os resultados pretendidos. Perguntamos ao professor qual a sua experiência anterior em relação a esse conteúdo, ou seja, como o entende. Eis sua resposta:

“A filosofia surge no contexto dos mitos, e ela aparece no sentido de dar uma outra explicação, racional, para o surgimento das coisas, embora depois continue existindo o mito e a Filosofia, inclusive o mito da ciência, o mito do cientificismo, sempre essa relação entre mito e Filosofia que vem até os dias atuais e os alunos também aprendem a fazer essas relações”. (PROFESSOR DE FILOSOFIA)

Interessante notar que um dos principais objetivos do ensino desse conteúdo revela na fala do professor não só o desejo, mas a expectativa de que o aluno aprenda a relacionar o Mito e a Filosofia. A expectativa pela apreensão de um determinado conteúdo e, por que não dizer, a apreensão de uma determinada forma de expressão ou entendimento desse conteúdo revela a tentativa de controle não apenas do processo de ensinar, mas também do processo de aprender. Há uma expectativa pela compreensão exata do que foi ensinado, se possível da forma como foi ensinado ou, pelo menos, no limite daquilo que se entende como correto para ser aprendido. Tal preocupação é louvável, mas salutar? Há um modo esperado e até certo ponto previsto para a apreensão desse conteúdo, expresso pelas palavras do professor, quando fala sobre do que é aceitável que o aluno apresente como compreensão desse conteúdo; espera-se que tal conteúdo seja

“Compreendido no sentido de ele conseguir identificar os mitos atuais, compreender, identificar a explicação racional, conseguir separar o que é a mitologia, o que é a racionalidade, mas não no sentido de ele abandonar a mitologia, saber que a mitologia tem também um sentido de explicação, uma importância, isso na psicanálise, até no sentido da crítica da ciência, no mito do cientificismo, e que ele saiba relacionar isso com a questão da realidade em que ele vive”. (IDEM)

A fala do professor revela também a preocupação de que a Filosofia feita no nível médio tenha uma abordagem mais prática do que a Filosofia feita na Universidade, ao nível acadêmico. Essa abordagem “prática” corrobora a assertiva da diferenciação entre a Filosofia feita na academia, da Filosofia feita na escola. 21 Há todo um cuidado para que a Filosofia não se apresente, no nível médio, como destituída de materialidade, ou pura abstração. Disso depreende-se porque é preciso relacionar os conteúdos e questões filosóficas com as problemáticas do mundo atual – o que infelizmente deu parâmetros para que o ensino da Filosofia fosse cogitado para compor elementos de transversalidade em alguns currículos.

As expectativas do professor em relação ao seu processo de ensino para esse conteúdo determinado, como apresentamos acima, é bastante clara. Mas as expectativas dos alunos em relação a esse mesmo conteúdo não vão apresentar a mesma clareza para o professor, quando ele afirma que o aluno, em geral, não tem muito comprometimento com o estudo desse conteúdo, já que, segundo ele

“Uma parte dos alunos evidentemente consegue acompanhar de maneira ideal. Outra parte aprende o mínimo necessário, outra parte aprende em geral, mas todos os alunos, de alguma forma, ficam sabendo que existe filosofia, explicação racional, e que existe explicação mítica, de algum jeito, de alguma forma, ele é tocado para essa discussão, mesmo que ele esteja preocupado com outras questões, com namoricos, brincadeiras, o jogo de futebol daqui a pouco, mas pelo menos em algum momento ele vai ficar sabendo que houve essas explicações sobre essas temáticas”.

(PROFESSOR DE FILOSOFIA)

Apesar de o professor não acreditar que o aluno em geral vai à escola para aprender, admite o quanto esse mesmo aluno aprende. Paradoxalmente, os mesmos alunos que não demonstram grande interesse pelo assunto trazem uma bagagem cultural a respeito desse tema, em variados níveis. Segundo o professor,

“É mais fácil dar aula no Colégio Estadual do Paraná do que num colégio de periferia. Quando você fala de um mito grego, eles já sabem do que se trata, acontece de alguns alunos até já terem lido.

Uma parte já leu, até alguns conteúdos de Filosofia. Alguns, não todos, não vamos sonhar. Alguns nunca leram nada. Mas numa escola de periferia, por exemplo, às vezes os alunos nunca ouviram falar num mito grego, às vezes repudiam, não conseguem entender;

eu já trabalhei com esse público e também foi possível fazer isso, mas é um trabalho mais árduo”. (IDEM)

21 Ainda falaremos mais sobre o papel da Filosofia no Ensino Médio no último capítulo desse trabalho.

O trabalho do professor pesquisado vive da esperança de que seu aluno aprende, a despeito das expectativas do aluno. O professor entende como um obstáculo a mais a falta de expectativas do aluno, considerando ser exatamente o papel do professor o despertar do aluno para o tratamento das questões filosóficas.

Perguntamos como o professor percebe que seja a relação do aluno com esse conteúdo. A resposta foi que

“Durante as aulas há uma mudança. Ele já conhecia o mito, às vezes, como informação, mas passa a entender o sentido do mito, a função do mito, de que é uma explicação racional que vem substituir, de alguma forma, as explicações mitológicas”.

(PROFESSOR DE FILOSOFIA)

Porém, não deixa de sinalizar:

“As minhas expectativas são bastante realistas, já de antemão eu sei que alguns são ótimos alunos, aprendem fácil, quase nem precisam de professor, pois estudariam por conta própria. E outros que vêm pra estudar, querem estudar, mas têm outras coisas que também chamam a atenção, imagens, celular, tecnologias, jogos, um namorico do lado, mas isso faz parte, esse é o aluno real, é com esse aluno que o professor deve trabalhar no sentido de propiciar e fazer com que ele avance”. (IDEM)

A idéia do ensino de Filosofia como um processo ou “atitude”, encontra aí forte ressonância. No caso desse professor, a metodologia busca o sentido do fazer filosófico, nas possibilidades materiais concretas de ensino. Sobre os processos de avaliação, ele afirma, ainda que “Tudo é produção escrita. Todas as provas são escritas, nenhuma é objetiva, no sentido de marcar “X”“. (IDEM)

Podemos afirmar, portanto, a concepção de aluno enfatizada por esse professor: um aluno real, não idealizado, com suas fraquezas e virtudes, defeitos e capacidades. O que nos leva a afirmar a possibilidade de corroboração do quanto o planejamento de ensino desse conteúdo específico foi pensado levando em conta não apenas o rigor metodológico próprio da Filosofia e cobrado em seu ensino, mas também a realidade do educando enquanto ser humano de corpo e alma. Grata surpresa é verificar um professor de Filosofia concordar que “ou descemos de nosso pedestal e de nosso intelectualismo abstrato, incorpóreo, ou nossa docência entrará em um beco sem saída”. (ARROYO, 2004, p. 130)

Miguel Arroyo destaca a constatação de que atualmente vem crescendo a produção de estudos sobre a relação entre os saberes escolares e conhecimento social. De fato, é significativo, sobretudo para os objetivos da disciplina de Filosofia ao nível médio, pensar nos alunos como sujeitos integrais, e

Reconhecer que carregam para as salas de aula vivências pessoais e grupais dos grandes dramas humanos e que se interrogam por seus significados afeta a concepção de currículos e de conhecimento escolar, afeta nossas competências e tratos do conhecimento. (ARROYO, 2004, p. 115)

3.3 RELAÇÃO COM O OBJETO DE ESTUDO – QUESTÃO DE ESPAÇO E TEMPO