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1. Clara Averbuck: as possibilidades da escrita na era da Internet

1.3. Do virtual ao literário – percursos e procedimentos de escrita

A produção literária de Clara Averbuck, como exposto anteriormente, sempre esteve ligada à internet e aos seus diferentes meios de circulação - o e-zine, o e-mail, o blog, o site - que acabaram sendo explorados pela autora à medida que surgiam e se expandiam como veículos de comunicação na sociedade brasileira entre os anos de transição do século XX para o XXI.11 Com o avanço tecnológico, as formas de divulgação através da internet também se aperfeiçoaram – as redes sociais e canais de vídeos, por exemplo, serviram para aproximar ainda mais leitores e autores, transformando os últimos em figuras midiáticas e, em alguns casos, “celebridades”.

Nas últimas décadas a internet tem funcionado como uma vitrine na qual o autor expõe seus textos com o objetivo de conquistar leitores, mas também dar-se a ver para editores interessados em novas vozes literárias. Como ressaltou a pesquisadora Ana Cláudia Viegas (2005):

[s]e, na virada do século XIX para o XX, o jornal é reconhecido como o caminho mais curto para chegar-se ao editor, atualmente a internet tem sido usada como uma espécie de vitrine do texto para o público em geral e/ou os editores [...]. Também os editores que desejam apostar em novos autores ou os organizadores de antologias que buscam mapear um perfil da ficção contemporânea têm essa ferramenta como fonte. (VIEGAS, 2005, p. 142).

Assim, as transformações tecnológicas e midiáticas acabaram por interferir no processo de publicação e reconhecimento de um jovem autor. Evidentemente, hoje torna-se mais rápido e fácil a criação de um blog ou uma página na internet do que a sua publicação em um jornal, por exemplo, e ainda há a possibilidade de que este texto, divulgado on-line, alcance rapidamente uma grande quantidade de leitores. Essa rapidez e facilidade para a publicação on-line tornou possível que tradicionais formas de mediação, como os veículos de comunicação impressa, as editoras e a crítica literária, tornassem-se prescindíveis; o escritor contemporâneo pode, a sua maneira, divulgar seus textos e conquistar os seus leitores mais “diretamente” e, por conseguinte, ele acaba

11 Vale destacar que, apesar de constituir um exemplo contundente do bom uso da internet para a divulgação

de seus textos e de sua figura autoral, Averbuck não foi a única a se valer das novas possibilidades de interação em rede para alcançar o público-leitor ou a oportunidade de publicação de seus escritos no suporte livro. Além dela, pode-se citar Daniel Galera e Daniel Pellizzari, autores que também iniciaram suas publicações no CardosOnline; mas também João Paulo Cuenca, Cecília Gianneti, Ivana Arruda Leite, Ana Paula Maia, entre outros nomes da cena literária atual, como exemplos daqueles que souberam utilizar a internet, ainda que de maneiras diferentes, como veículo para a divulgação e propagação de seus textos e de sua figura autoral.

assumindo novas funções: escritor, editor, divulgador, palestrante, agitador cultural, participante de reality-show,12 entre outras. No entanto, se aquelas formas de mediação

tradicionais deixaram de ser imprescindíveis para a conquista do público-leitor, a mediação estabelecida pelo próprio autor entre seu texto e seus leitores passou a ser cada vez mais evidente e constante.

Além disso, algo merece ser destacado: ainda que exista a fácil possibilidade de divulgação e publicação on-line dos textos, a edição em livro é almejada e, de um modo geral, um dos motivadores para a escrita em rede. Logo, a internet facilita e agiliza a publicação dos textos, divulga os seus autores e pode, na maioria das vezes, aproximá- los de seu objetivo central: a publicação em livro por uma editora e a posterior comercialização de seus textos impressos.

Examinando-se as postagens de Averbuck em seu blog, Brazileira!Preta, pode-se observar como este veículo, indo além da função de diário virtual, acabou sendo utilizado para a divulgação de sua escrita, de seu livro e a consequente publicação desse por uma editora. Assim, em uma das postagens de 26 de setembro de 2001 aparece a primeira referência da autora ao livro que está sendo escrito. Diz ela:

Ok então. O tédio é tanto que resolvi botar aqui um pedacinho do meu livro. Livro? É, livro. Máquina de Pinball.

II.

Give me a lover that won’t give me troubles, some sexy dreams to chew on these bubbles.

Perry Farrell

Incrível como as pessoas parecem interessantes quando você está casado e totalmente sem graça quando você está solteiro. Um horror. Parece até que fumei maconha. Quando fumo maconha todas as pessoas tornam-se escrotas, seus poros aumentam, elas suam, têm cheiro de cheetos e parecem caricaturas de si mesmas. Já perdi o tesão mais de uma vez por causa dessa erva maldita. Cada um com os seus problemas. O meu agora era achar alguém minimamente interessante, e não estou falando de sexo. Aquela história de comer pessoas é só um analgésico. Eu não quero isso, eu não quero isso. Eu definitivamente não quero isso. Groupie por groupie, prefiro um que me dê colo. Colo, preciso de colo.

[...] (AVERBUCK, 26 set. 2001, on-line)

A postagem prossegue divulgando aquele que viria a ser o segundo capítulo de Máquina de Pinball. Importa salientar que a publicação de um trecho do livro que ainda estava em processo de escrita resulta em algumas consequências; a principal delas

12 Em 2011, Clara Averbuck participou de um episódio do reality-show: Troca de família, exibido pela rede

seria a tentativa de Clara Averbuck se apresentar como uma escritora de livros distinguindo-se, assim, da imagem de blogueira ou escritora de blog apenas; em segundo lugar, já em seu primeiro mês de blog ela se apresentava como uma escritora com um romance em desenvolvimento, que em breve poderia ser publicado; e, por fim, ela aparentemente pretende despertar nos seus leitores o interesse no livro e no enredo que seria contado em Máquina de Pinball.

Em postagens posteriores Averbuck volta a repetir a ação de disponibilizar no blog trechos do romance. Até que, cerca de dois meses depois, ela anuncia a

conclusão do livro:

Informe brazileira!preta

Máquina de Pinball, o livro desta que vos posta, está pronto. Agora é só esperar.(AVERBUCK, 14 nov. 2001, on-line)

Presume-se que o anúncio tinha dois destinatários em potencial: os leitores que acompanharam via blog o processo de escrita do romance e, talvez, algum editor em busca de novos autores para a cena literária. A aspiração por conseguir algum profissional interessado em seu livro parece não ter sido alcançada, uma vez que em uma das postagens, de 29 de dezembro de 2001, Averbuck explica qual é o seu método para enviar os originais do seu livro a diferentes editoras. Mais uma vez, a internet modificou os procedimentos de envio de originais e facilitou o contato entre autor e editor, pois foi por e-mail que Averbuck distribuiu os arquivos com o livro recém-concluído, de acordo com o que lemos:

Eu disse que ia dormir? Mentirosa deslavada que eu sou. Sabe o que eu estou fazendo agora? Mandando meu livro pra editoras. POR EMAIL. Porque eu não tenho dinheiro pra imprimir, então ou eu dou e consigo um dinheirinho, ou mando assim. O que você acha? (AVERBUCK, 29 dez. 2001, on-line).

Embora a autora defenda a ideia de que o blog seja mais um meio para a publicação dos textos, não é possível ocultar que a valorização da publicação no formato livro ainda prevalece; é possível identificar ainda certo fetiche que cerca determinadas editoras, como, por exemplo, a Brasiliense, que havia publicado obras de autores que influenciaram Averbuck e são sempre mencionados como seus maiores ídolos (John Fante e Paulo Leminski, por exemplo). O que justifica a sua alegria ao encontrar a página da editora na internet:

a Brasiliense publicou metade dos livros que mudaram a minha vida. A outra metade era em inglês.

Sim, amiguinhos. Fante, Leminski, Kerouac, Burroughs, todos esses caras fodões foram publicados no Brasil pela Brasiliense, a editora mais foda de que já se teve notícia. Morro de felicidade de saber que eles estão de volta, mas

acho que a Conrad herdou o posto deles. A não ser que eles ainda tenham os direitos das obras publicadas e republiquem tudo. Eu não faço idéia de como isso funciona, pra falar a verdade. Mas vou mandar meu livro pra lá. Ah, vou (AVERBUCK, 29 dez. 2001, on-line).

Ao intuir que a Conrad tenha ocupado o lugar da Brasiliense no cenário editorial brasileiro, ela acaba revelando certa ingenuidade e sua grande expectativa em relação a atuação de uma editora para a carreira de um(a) jovem escritor(a). Desse modo, não são apenas as leis de direitos autorais que são desconhecidas, como reconhece Averbuck, mas também o funcionamento do mercado editorial não lhe é familiar. Além disso, a sua euforia em torno da Brasiliense é herança da ideia de uma editora vanguardista e com projeto editorial inovador, que foi alcançada, sobretudo, na década de 1980, sob a liderança de Caio Graco Prado. Pois, nesse período, a editora lançou uma série de coleções voltadas ao público jovem e apostou em nomes com pouca tradição, como foi o caso dos poetas marginais da década de 1970 (Ana Cristina Cesar, Chacal, Cacaso, Paulo Leminski, Waly Salomão) que tiveram muitos de seus livros independentes relançados pela editora no início daquela década, assim como os escritores beats (Burroughs e Kerouac) e seu precursor (Fante) que tiveram suas primeiras traduções lançadas pela editora no Brasil.

Em menos de dois meses após o envio do livro por e-mail para editoras, Averbuck fechava o contrato com a Conrad, como informa em postagem de 21 de fevereiro de 2002: “Máquina de Pinball, livro desta que vos escreve, vai sair pela Conrad até julho, se tudo der certo. Fechei o deal hoje. Podem contar pra todo mundo” (AVERBUCK, 21 fev. 2002, on-line). Isso evidencia o veloz e bom resultado alcançado por ela em se valer da internet para a divulgação dos seus textos e de sua figura autoral. Mas também permite que se observe a concepção da editora como um espaço de valoração do texto, dando-lhe a chancela literária; enquanto a internet, e especialmente o blog, ainda é encarado como o oposto disso: um espaço que seria marcado pela para a divulgação de textos pessoais, autorreferentes e sem valor estético. Demonstrando-se, assim, uma contradição deste novo cenário da produção escrita, a saber, por mais que antigas formas de mediação não sejam mais necessárias, elas ainda são desejadas e perseguidas pela maioria dos escritores de hoje.

O rápido percurso, aproximadamente cinco meses, que perpassa a escrita, a divulgação e a publicação de seu primeiro romance, está em sintonia com a rapidez e o fluxo constante de informações que a internet intensificou na sociedade deste século XXI

e ainda serve como evidência da urgência que Karl Erik Schollhammer (2009) diagnostica na ficção brasileira contemporânea. Segundo ele, a escrita se faz urgente, tanto no sentido de ser produzida e divulgada sem demora e de maneira imediatista quanto no sentido de ser uma escrita que se “impõe de alguma forma” (SCHOLLHAMMER, 2009, p. 11).

O senso de urgência dá a ver a dificuldade do escritor contemporâneo em lidar com o mais próximo a ele: o presente. Assim, por um lado o escritor sente a necessidade de se relacionar com o seu presente histórico, mas por outro, está consciente de sua impossibilidade de captar diretamente a realidade atual. A literatura é, portanto, utilizada por alguns escritores como um “caminho para se relacionar e interagir com o mundo nessa temporalidade de difícil captura” (SCHOLLHAMMER, 2009, p. 11).

Da consciente dificuldade em capturar o mais próximo e atual origina-se uma demanda pela estética realista, no entanto, salienta o crítico que tal demanda não se restringe às formas já conhecidas do realismo tradicional, mas diz respeito, sobretudo, às novas formas de lidar com a memória histórica e a realidade pessoal e coletiva. Logo, o passado se presentifica como memória do que já passou, o que se perdeu, “oferecendo seus índices desconexos, matéria-prima de uma pulsão arquivista de recolhê-lo e reconstruí-lo literariamente” (SCHOLLHAMMER, 2009, p. 12-13); enquanto, em muitos escritores contemporâneos observa-se a preocupação com a criação da própria presença, que em termos mais enfáticos, resulta da imposição de sua “presença performativa” (SCHOLLHAMMER, 2009, p. 13), caso no qual se analisa a produção de Clara Averbuck, nesta dissertação.

A internet e seus veículos virtuais (blogs, redes sociais, sites, entre outros) facilitaram a publicação dos escritores contemporâneos e ainda reforçaram o imediatismo e a urgência da produção, divulgação e compartilhamento. Contribuindo decisivamente para a criação e consolidação da figura autoral no presente, figura esta que se mostra midiatizada e responsável por novas formas de mediação no contato de seus textos com os seus leitores.

Cabe destacar ainda que a urgência contemporânea seria evidenciada no texto pelo uso de formas breves e híbridas, pela linguagem curta e fragmentada e pela proximidade com o gênero crônica (SCHOLLHAMMER, 2009, p. 14-15); características observadas tanto nas postagens feitas por Averbuck quanto em seus romances breves, de capítulos curtos e linguagem direta.

Além disso, a urgência pela escrita, que refletiria a preocupação com a criação de uma figura autoral, revela-se em Averbuck não apenas na rapidez com a qual o seu primeiro romance foi publicado ou pela quantidade de postagens que ela mantinha cotidianamente no blog, mas também na facilidade em partir para novos projetos. Uma vez que antes de começar a escrita do que viria a ser seu segundo romance, Averbuck afirma, no blog, já ter apagado as vinte e duas páginas que seriam a continuação de

Máquina de Pinball. Dois meses após a desistência daquela continuação e antes mesmo

do lançamento do livro de estreia, em postagem de 16 de maio de 2002, ela anuncia a escrita de Vida de gato:

Vida de Gato

Comecei outro livro.

O nome provisório é Vida de Gato. Só tem quatro paginazinhas. É nenê, ainda. Mas ei, vai ser legal. E eu adorei o nome.

Já avisei que Máquina de Pinball será lançado no dia 16 de agosto? Perdão, esqueci. Eu sei, eu sei, falta um tempão, ninguém agüenta mais ouvir falar desta droga de livro. Imagino a decepção do amigo leitor quando descobrir que ele vai ter mixurucas oitenta e poucas páginas. Vamos por partes, vamos por partes. Ou vocês pensam que ele não vai ter uma continuação? Vai. Aliás, acho que todos os livros seguintes serão continuação dele. E poxa, vale a pena esperar até agosto, porque o lançamento cai justamente no aniversário do Bukowski. Claro que não é uma coincidência. Aliás, registre-se: não existem coincidências. Quero que meu primeiro livro nasça junto com o Hank. Meu livro, meu Hank. [...] (AVERBUCK, 16 mai. 2002, on-line).

Assim como aconteceu com Máquina de Pinball, os leitores do blog acompanharam todo o progresso da escrita de Vida de gato, até a sua conclusão em outubro de 2002. Ao longo deste período as divulgações de trechos do novo livro voltaram a acontecer; assim como um procedimento que pode ser identificado tanto no processo de escrita deste romance quanto no romance de estreia, mas que ainda não foi aqui analisado, trata-se da inserção de textos do blog (postagens) nos romances. Uma leitura cotejando os textos publicados no Brazileira!Preta com os primeiros romances de Averbuck revela que há alguns intertextos que fizeram esta migração de suporte e contexto. E, ao contrário do que já se analisou anteriormente, não há nenhuma indicação ao leitor do blog de que aquela postagem reproduz ou divulga um trecho do livro.

Em algumas dessas postagens sem indicação clara de que se trata de um trecho do livro, ainda é possível que o leitor atento desconfie da voz narrativa com a qual se depara no ato da leitura, como no seguinte trecho:

Rock the shack

Não vai tocar. O telefone não vai tocar. Atirado no chão, inerte, inútil, mudo, sem propósito. Não vai tocar. Bagunça. Minhas botas, livros, dois

maços de cigarro pela metade, páginas traduzidas, meus discos preferidos. Mas o telefone não vai tocar. A guitarra enrolada nos lençóis, um sutiã atirado por cima. Minha carteira com uma nota que tenta fugir com a língua para fora. Silêncio. Cinzeiro cheio. Silêncio. O telefone não vai tocar.

Vem logo, meu querido, não demora, tenho sede, tenho sono, quero dormir ao teu lado. Acorda desse pesadelo e corre para mim. O mundo está vazio. Só você, em algum lugar. Escuto Zombies bem baixinho para ninguém saber que estou aqui. Eles sabem, evidente que sabem, onde mais eu estaria? Mas não quero ser notada. Eles não sabem de nada, são rasos, fazem barulho, invadem meus ouvidos como agulhas quando estou dormindo, sujam meu templo, maculam minha morada, estupram minha vida. Eu estou com você, eu estou perdida. Relendo e relendo e relendo e relendo de novo, tão lindo, tudo tão lindo, um livro pronto que vira monólogo no final. Não tem problema, não existem bons finais felizes. Na boa literatura, todos se fodem. Todos sofrem e morrem de amor ou de peste ou de tuberculose, todos são infelizes e se fodem. Me fodo também, como no poema do Leminski. Que tudo se foda, quero ficar com você. No céu imundo do amor perdido, no céu da cirrose, no inferno, na terra, na minha casa. Quero ficar com você. O vazio está apertando, quero muito te ver sorrindo, te ver bem, brilhando de novo. Você não nasceu para ser pano de chão. Não, você não fica bem nesses trapos, troque já de roupa, lave o rosto, calce as botas, beije a Esperanza e vamos abrir um vinho. De pé, agora. Pode pisar em mim para levantar, se quiser. Ninguém vai deixar o namorado da Camila atirado, devastado, debulhando-se em lágrimas. Avisa quando estiver pronto, vou estar esperando no carro, escutando um róque e fumando um cigarro. Não demora, meu querido. Não demora. [grifo meu] (AVERBUCK, 21 mai. 2002, on-line).

Nesse longo trecho em primeira pessoa, algo recorrente nos textos publicados em blogs, tende-se a associar a voz narrativa com a sua figura autoral; no entanto, uma única vez essa expectativa é desestabilizada, quando a narradora refere-se a si mesma na terceira pessoa, revelando a sua identidade: “Ninguém vai deixar o namorado da Camila atirado, devastado, debulhando-se em lágrimas” (AVERBUCK, 21 mai. 2002, on-line); ou seja, apesar de não haver nenhuma indicação externa ao texto, há esta pista de que se trata de uma experimentação literária, pista essa que se confirma quando estes dois parágrafos são encontrados no terceiro capitulo de Vida de Gato.

Em outros trechos, no entanto, não se nota nenhuma indicação para o leitor do blog de que aquela postagem se trata de uma divulgação ou de parte dos romances.13

Assim, o texto intitulado “Desert flower blues”, de 10 de agosto de 2002, assinado por Clara Averbuck, em que a autora faz uma exaltação passional ao amor que sente por Arturo, mesmo que ele não seja correspondido, aparecerá, praticamente, na íntegra no final do oitavo capítulo de Vida de Gato; as duas únicas alterações são: a omissão da

13 Este mesmo procedimento inserção de trechos do blog já acontecia em Máquina de Pinball. Uma das

postagens de 16 de novembro de 2001, por exemplo, sobre a festa dada por ela para arrecadar móveis, em um dia que havia jogo da seleção brasileira, a qual só compareceram cinco pessoas, assim como sobre o porre que ela tomou após saírem da festa fracassada para outra festa aparece, quase que integralmente, inserida nos três últimos parágrafos do décimo capítulo do livro.

conjunção explicativa porque que iniciava a postagem e a substituição do nome Arturo por Antônio, o amor não correspondido de Camila – narradora-personagem do romance.

É possível notar, ainda, que em alguns casos a relação de intertextualidade entre o blog e os romances se opera de forma implícita. Portanto, ainda que os textos se diferenciem, o leitor de ambos os suportes pode recuperar o contexto e estabelecer relações entre episódios reais e aqueles apresentados como ficcionais. Por exemplo, ao se mudar da casa da Rua Purpurina para, temporariamente, viver no apartamento de um amigo que ficaria fora por alguns meses, Averbuck escreve no blog:

A casa nova é foda. Me sinto na torre mais alta de um castelo. Olho pela janela, milhares de prédios e casinhas e crianças brincando no quintal das casinhas. Não tem sol. Só para elas, só na rua. [...]

Meus gatos logo se juntarão a mim. Meus filhos queridos que estão na creche da Tia Gisele. Eles estão bem e gordos. Ela disse que o Joo