As bases teóricas e os conceitos relacionados
2.2 O DOCUMENTO E O DOCUMENTO MULTIMODAL
Uma vez definidas as noções de texto, discurso e gênero textual, vamos discutir nesta seção conceitos menos correntes que permeiam nossa abordagem do PowerPoint Educativo. Trata-se dos conceitos de documento e
é um documento? Como reconhecemos um documento? Qual a razão de se fazer uma distinção entre documento e documento multimodal? Antes de empreendermos essa tarefa, no entanto, há uma questão que requer certa prioridade de resposta: nos estudos do texto, há um “espaço” teórico para o conceito de documento?
Compreendemos que sim. Caso contrário, ao que estaríamos nos referindo, por exemplo, quando enviamos um envelope para uma empresa ou um escritório de advocacia ou, ainda, para uma Comissão de Seleção de concurso público, nos seguintes termos: “Seguem, no envelope, os documentos solicitados”. Acreditamos que ninguém escreveria, por exemplo, “seguem os textos solicitados” ou “seguem os gêneros solicitados”. E o que poderíamos encontrar dentro do envelope? Certidão de nascimento, CPF,
curriculum vitae, carta de recomendação, título de propriedade de imóvel, título
de eleitor, Edital de Concurso, diplomas, certificados, cheque etc. Daí que, para os usuários da língua, um currículo, por exemplo, é um documento.
Neste estudo, consideramos que o currículo é um documento entre um sem-número de documentos inseridos em nossas práticas sociais. Mas saber que o currículo é um documento não nos diz muita coisa quando queremos produzir um currículo. Quando uma pessoa quer se candidatar a uma vaga de emprego, por exemplo, vai precisar produzir um texto verbal escrito específico e, para isso, se baseia nas convenções dessa categoria particular de discurso que a sociedade estabeleceu e que configura o gênero currículo. Os gêneros, e não os documentos, “servem como chave para a compreensão de como participar nas ações de uma comunidade” (MILLER, 2009, p. 44). O documento é um conceito mais geral, o gênero mais particular. Quando particularizamos nossa ação discursiva, estamos usando o gênero textual. Nessa linha de raciocínio, consideramos que o texto produzido com o software PowerPoint® que os usuários chamam de Apresentação em PowerPoint ou, simplesmente, PowerPoint, emergiu como gênero textual e já foi tratado como tal, por exemplo, em trabalhos como os de Yates e Orlikowski (2007) e Myers (2000).
No Dicionário Eletrônico Houaiss (2006), um documento seria, por exemplo, “qualquer escrito usado para esclarecer determinada coisa”; ou, “cada uma das escrituras que se referem à vida de uma pessoa, a um objeto
ou a uma instituição”; ou ainda, por extensão de sentido, “qualquer registro escrito”.
Quando aqui falamos de documento, estamos falando, sim, do documento como registro escrito, dos mais diversos tipos e para os mais diversos usos, que se alastraram na sociedade na esteira da penetração sem precedentes de uma nova tecnologia, a escrita.
O medo do esquecimento obcecou as sociedades [...]. Para dominar sua inquietação, elas fixaram, por meio da escrita, os traços do passado, a lembrança dos mortos ou a glória dos vivos e todos os textos que não deveriam desaparecer. A pedra, a madeira, o tecido, o pergaminho e o papel forneceram os suportes nos quais podia ser inscrita a memória dos tempos e dos homens. No espaço aberto da cidade, no refúgio da biblioteca, na magnitude do livro e na humildade dos objetos mais simples, a escrita teve a missão de conjurar contra a fatalidade da perda (CHARTIER, 2007, p. 9).
De tecnologia a bem social muito desejado pela maioria das pessoas, a escrita também foi validada pela sociedade – não à toa reconhecidamente grafocêntrica – como símbolo de educação, desenvolvimento e poder, o que se deu, ressalta Marcuschi (2001, p. 16), “não por virtudes que lhe são imanentes”. Daí que os documentos escritos se tornaram cada vez mais frequentes, essenciais à sociedade moderna e espalhados pelos quatro cantos do mundo, em quantidades e variedades impossíveis de se calcular.
Paradoxalmente, seu sucesso poderia criar, talvez, outro perigo: o da proliferação textual incontrolável [...]. O excesso de escrita, que multiplica os textos inúteis e abafa o pensamento sob o acúmulo de discursos, foi considerado um perigo tão grande quanto seu contrário. Portanto, embora temido, o apagamento era necessário, assim como o esquecimento também o é para a memória. Nem todos os escritos foram destinados a se tornar arquivos cuja proteção os defenderia da imprevisibilidade da história. Alguns foram traçados sobre suportes que permitiam escrever, apagar e depois escrever de novo (CHARTIER, 2007, p.10).
Toda tecnologia surge para permitir que o homem construa artefatos ou instrumentos para seu uso cotidiano e para determinados fins. E assim foi com a tecnologia escrita, que, não por acaso, emergiu da premente necessidade que o homem sentiu, vivendo em sociedades cada vez mais complexas, de buscar meios de representar a realidade e de se comunicar em novos cenários. Alfabética, ideográfica, iconográfica ou de outros tipos, a depender da
tecnologia envolvida, a escrita firmou-se como uma modalidade de uso da língua complementar à fala, ou seja, “um modo de produção textual-discursiva para fins comunicativos, que requer materiais específicos e se caracteriza por sua constituição gráfica, em contraste com a realização sonora da fala” (MARCUSCHI, 2001, p. 26).
Partindo do pressuposto de que os artefatos produzidos pelo homem com o uso de diferentes tecnologias emergem como artefatos semióticos dentro das práticas sociais, os artefatos escritos integram e circulam nas práticas discursivas da sociedade e, desta feita, pertencem ao domínio da significação, deixando de ser simples artefatos para emergirem como artefatos semióticos. A esses artefatos semióticos produzidos com a tecnologia escrita damos o nome de documentos.
No contexto mais amplo das práticas sociais, restrições físicas, de produção e de consumo atuam sobre a produção de documentos, imprimindo- lhes características particulares. A partir da percepção dos usuários de que determinado documento mostra-se eficaz e apropriado em situações particulares, naturalmente, haverá uma tendência para o uso de tipos similares de documentos em situações similares, pois, “com o passar do tempo e com as repetições, os padrões e expectativas socialmente compartilhadas emergem para guiar todos na interpretação de circunstâncias e enunciados”, afirma Bazerman (2005, p. 27), ou seja, ocorre o fenômeno da tipificação:
Este processo de mover-se em direção a formas de enunciados padronizados, que reconhecidamente realizam certas ações em determinadas circunstâncias, e de uma compreensão padronizada de determinadas situações, é chamado tipificação (BAZERMAN, 2005, p. 29).
Nos termos de Lemke (1999), quando reconhecemos uma determinada espécie de texto estamos na realidade construindo significados a partir de um “padrão semântico” particular, ou seja, estamos vinculando esse documento a um determinado gênero.
Entretanto, defendemos que nem todo documento constitui um gênero, porque compreendemos que os gêneros “tipificam muitas coisas além da forma textual” e se constituem historicamente nas atividades humanas como modos sociais de agir e de dizer. Ainda que alguns documentos apresentem traços de
regularidade na forma ou na substância e que, em determinadas circunstâncias, viabilizem a comunicação, a sua emergência como gêneros está necessariamente atrelada ao resultado bem-sucedido de um processo de
tipificação sociocognitiva, a partir do qual esses documentos passam a
configurar-se, verdadeiramente, como “formas de comunicação reconhecíveis e autorreforçadoras” (BAZERMAN, 2005, p. 29).
Reportamo-nos a Carolyn Miller e Charles Bazerman para apoiar essa nossa compreensão:
Em um estudo das Declarações de Impacto ambiental (Miller, 1980)39 durante seus primeiros cinco anos, concluí que essa classe
claramente definida de documentos não constituiu um gênero retórico
porque não realizou uma fusão racional de elementos – apesar das similaridades em forma e substância, e apesar duma situação retórica recorrente que era, de fato, definida por lei. Esses documentos não tinham nenhuma força pragmática coerente [...]. Dizer que um gênero não existe não implica que não haja regras interpretativas naquele nível de hierarquia (do significado). Significa que as regras não formam um todo normativo que podemos considerar um artefato cultural, isto é, uma representação do raciocínio e propósitos característicos da cultura (MILLER, 2009, p. 43, grifo nosso).
Ainda,
Essa identificação de gêneros através de características é um
conhecimento muito útil para interpretarmos e atribuirmos sentido a documentos, mas isso nos dá uma visão incompleta e enganadora de gênero. Ao ver os gêneros apenas caracterizados por um número fixo de elementos, estaremos vendo os gêneros como atemporais e iguais para todos os observadores. [...] Podemos chegar a uma compreensão mais profunda de gêneros se os compreendermos como fenômenos de reconhecimento psicossocial que são parte de processos de atividades socialmente organizadas (BAZERMAN, 2005, p. 31, grifo nosso).
Em suma, se entendermos gênero como uma ação social recorrente e significativa, só poderemos afirmar que uma classe de documentos constitui um gênero se:
a) apresentam um “padrão semântico” (similaridades em vários níveis de realização: substância, forma, restrições etc.);
39 Refere-se a Miller, C. R. 1980. Environmental Impact Statements and rhetorical genres: An
application of rhetorical theory to technical communications. Doctoral Dissertation Rensselaer
b) está associada a uma situação retórica recorrente no âmbito das práticas sociais (baseada em considerações adequadas de todos os seus elementos: exigência, retor, audiência, motivo etc.); e
c) incorporam componentes pragmáticos que viabilizam a ação social. Isso porque estamos baseando toda nossa compreensão na prática retórica da sociedade, nas convenções de discurso que uma sociedade cria para agir conjuntamente, e, assim, reconhecendo a força pragmática do gênero. Com outras palavras, mas no mesmo sentido, assevera Bazerman (2005, p. 31) que os gêneros “emergem nos processos sociais em que pessoas tentam compreender umas às outras suficientemente bem para coordenar atividades e compartilhar significados com vistas a seus propósitos práticos”.
Daí que o gênero como ação retórica “adquire significado da situação e do contexto social em que essa situação se originou”, afirma Miller ([1984] 2009, p. 41), e atende a uma exigência recorrente – que não é causa da ação retórica tampouco intenção, mas entendida como motivo social:
Basear uma classificação de discurso na situação recorrente ou, mais especificamente, na exigência entendida como motivo social, significa baseá-la nas ações retóricas conjuntas típicas disponíveis num dado momento da história e da cultura (MILLER, 2009, p. 33).
Imbricado nas práticas sociais e em seu ambiente cultural, o gênero possui natureza flexível e dinâmica, pois emerge – vindo de algum lugar, segundo Schryer (1993) – muda, evolui e decai, assim mesmo, como acontece com as espécies biológicas, exigindo daqueles que o investigam uma perspectiva darwiniana. Além disso, “emerge inicialmente como uma resposta retórica “apropriada” e oportuna, no tempo-espaço socialmente percebido (kairos), podendo passar a ser uma resposta recorrente, e, portanto, genérica, se o kairos perdurar ou se tornar recorrente” (MILLER, 2009, p. 64).
Assim posto, reconhecemos que os dois conceitos, de documento e de gênero, não se excluem, mas complementam-se na dinâmica das práticas
sociais, e nos ajudam a entender nossa relação – privada e coletiva – com os textos, como também a relação dos textos entre si. Resta-nos compreender melhor, em que medida esses conceitos se aproximam e se afastam.
Na seção seguinte, vamos definir documento multimodal e, de saída, essa discussão já vai de encontro ao argumento (aliás, já uma questão polêmica e central nas discussões sobre análise do discurso multimodal40 há aproximadamente uma década) que sendo o discurso inerentemente multimodal, não faz sentido falarmos em análise de documentos multimodais, uma vez que, com base nessa perspectiva, todos os documentos seriam também inerentemente multimodais.
Nesta tese, usamos e defendemos o uso dos dois termos, ancorando nossa decisão no resgate sócio-histórico da página multimodal apresentado por Matthiessen (2007), em que faz referência a um “tipo de multimodalidade” já presente na Antiguidade, por exemplo, em registros egípcios:
Textos escritos e imagens coexistem em muitos registros desde a emergência da escrita, e as inscrições são característica inerente a objetos esculpidos e artefatos arquitetônicos (por exemplo, estelas erguidas por governantes na Mesopotâmia para registrar suas conquistas). Na Suméria, registros de transações e outros tipos de contabilidade mudaram de registros de imagens para o registro escrito; mas, no Egito, a escrita era mais diversificada em termos de registros desde seus estágios iniciais e existiam expressões que eram totalmente multimodais, com palavras e imagens como constituintes integrados da apresentação. [...] Esse
tipo de multimodalidade com imagem e texto escrito parece uma
característica das culturas “letradas” em geral. (MATTHIESSEN, 2007, p. 29, grifo nosso).
Quando faz a ressalva de que “no entanto, houve períodos em que a divisão do trabalho entre texto e imagem mudou de forma significante”, o autor aponta exatamente para o aspecto que orienta a distinção que fazemos entre documentos e documentos multimodais: a divisão do trabalho entre as diferentes semioses:
Essa mudança na divisão de trabalho (palavra-imagem) é anterior em várias décadas à Internet e à criação da rede mundial de computadores; mas esses desenvolvimentos tecnológicos mais recentes estão, é claro, contribuindo para a mudança, ajudadas
40 Referimo-nos, por exemplo, à GURT 2002 (Georgetown University Round Table on Language and
Linguistcs) – cujos artigos foram reunidos em LeVine, P.; Scollon, R. 2004. Discourse and Technology: multimodal discourse analysis. Washington, D.C.: Georgetown University Press.
pelas tecnologias multimídia. Essas mudanças afetam em primeiro lugar as modalidades (p. 30).
Ao definirmos documento, vinculamos esse conceito a uma tecnologia específica, a escrita, usada para produzir documentos baseados na palavra (escrita verbal). Quando outras tecnologias entram em cena, nas últimas décadas numa intensidade tal que nos obriga a sempre relativizar o que vemos como “novo”, mudam substancialmente as formas de produzir, distribuir e consumir documentos e emergem os documentos multimodais.
Imagem e palavra mantêm uma relação cada vez mais próxima, cada vez mais integrada. Com o advento de novas tecnologias, com muita facilidade se criam novas imagens, novos layouts, bem como se divulgam tais criações para uma ampla audiência (DIONISIO, 2005, p.159).
Os documentos multimodais se distinguem exatamente neste sentido, ou seja, na sua intrínseca relação com novas tecnologias, e, principalmente, porque marcam a integração e cooperação de múltiplas semioses que desempenham uma função retórica na construção de sentidos na página. Não são ditos multimodais pela mera presença de semioses diferentes ou pela quantidade delas.
Os modos de comunicação que um ator social utiliza não podem ser contados e não deveriam ser contados. O número de modalidades usadas é de pouca importância (ainda que alguém conseguisse contá-las); o que é importante é a complexidade da interligação entre as modalidades comunicativas ou a intensidade de uma em particular ou das várias modalidades empregadas pelo ator social (NORRIS, 2004, p. 104).
Se reconhecemos a inerente multimodade da linguagem, é incoerente admitirmos a existência de algo como um documento monomodal. Contudo, é preciso também reconhecer que a multimodalidade se manisfesta em diferentes graus nos documentos.
Historicamente, a modalidade escrita da língua assumiu nos documentos o papel central de informar e fazer a comunicação. Ainda no início do século XX, exibiam muito pouco além de blocos de linhas impressas com um ou outro realce tipográfico (letra capitular, título com fonte de tamanho maior etc.). Mas o tempo e o aparecimento de outras
tecnologias trataram de mudar esse status quo: a escrita passou a ser apenas um dos modos de representação da mensagem na forma de apresentação bem mais complexa desses documentos, que incorporaram aspectos visuais “sem emendas visíveis” no entorno do texto verbal e, muitas vezes, no lugar desse texto verbal:
Referimo-nos a todos esses aspectos visuais como modos de apresentação da informação. Ao combinar esses modos dentro de um mesmo artefato – no caso da impressão, unindo, grampeando ou dobrando, ou, da mídia online, ‘lincando’ com uma variedade de
hyperlinks – nasce nosso principal objeto de estudo: o documento multimodal. Em tais artefatos, uma variedade de modos de base
visual são posicionados simultaneamente para cumprir uma coleção orquestrada de objetivos comunicativos entrelaçados (BATEMAN, 2008, p. 1).
Hoje, sob o impacto da tecnologia digital emergem ambientes virtuais extremamente versáteis que competem em importância nas atividades comunicativas ao lado do papel e do som. É importante observar, e sobre isso também nos chama atenção Marcuschi (2004), que desde sempre as tecnologias comunicacionais novas geram ambientes e meios novos:
Assim foi a invenção da escrita que gerou um sem-número de ambientes e necessidades para seu uso, desde a placa de barro, passando pelo pergaminho, o papel, até a invenção da imprensa com tipos móveis. O mesmo ocorreu com a invenção do telefone, do rádio e da televisão (MARCUSCHI, 2004, p. 26).
Da mesma forma que a ascensão da palavra escrita e do documento escrito empoderou a linguagem e a comunicação, o que vemos hoje em termos de disseminação da informação se deve em grande parte à ascensão dos documentos multimodais e, em particular, à expansão do caráter multimodal dos documentos. Em outras palavras, o galopante desenvolvimento tecnológico que vivenciamos e a facilidade de acesso das pessoas às novas tecnologias por meio das quais os documentos multimodais são produzidos, distribuídos e consumidos não apenas impulsionam a disseminação de tais documentos, mas imprimem-lhes uma complexidade estonteante em relação ao que existia no passado e até mesmo ao que reconhecíamos como novidade há bem pouco tempo atrás. Uma complexidade maior tanto em termos da multiplicidade de modos que se combinam em um único documento quanto em termos da
amplitude dos laços que os unem, da forma como se acham imbricados em
layouts sofisticados.
Multimodalidade – como veio a ser chamada – é uma característica inerente a todos os aspectos de nossas vidas, como vem sendo, acredito eu, ao longo da evolução humana. Podemos interpretar essa condição de multimodalidade ubíqua “de cima”, em termos da organização estratificada dos sistemas semióticos, em referência ao contexto da cultura na qual os sistemas semióticos operam. [...] Em sua essência, a linguagem expressa os significados que compõem e definem a cultura – as informações que constituem o sistema social (MATTHIESSEN, 2007, p. 1).
Bateman (2008) relaciona a extensão à qual os modos presentes em um documento encontram-se ligados entre si ou entrelaçados ao conceito de
densidade multimodal, que Singrid Norris, numa abordagem heurística de
modalidade comunicativa, define como “a intrincada interação de várias modalidades de comunicação ou a intensidade de uma determinada modalidade que um ator social emprega” (NORRIS, 2004, p. 102). Dessa forma, quanto mais intensos e/ou complexamente interligados os modos com os quais um ator social realiza suas ações discursivas, maior a densidade multimodal. Bateman sugere que a simples constatação de um drástico incremento dessa densidade nos documentos que circulam na sociedade atual já teria levado a um consenso em torno de um “letramento multimodal” e da necessidade dele, de uma “guinada visual” na comunicação e, finalmente, de um crescimento, “talvez ameaçador”, na orientação visual e não-verbal da cultura de uma forma geral.
Além desses sinais de inquestionável mudança na forma como percebemos o documento multimodal – sua natureza, o papel que desempenha, sua configuração complexa, sua aparente vantagem em relação aos documentos eminentemente verbais, sua contribuição na construção de novos significados por meio de componentes não-verbais etc. –, cresce também o interesse investigativo sobre tais documentos na tentativa de responder às questões que emergem naturalmente, na medida em que nos envolvemos com eles em nossas práticas sociais diárias.
Acreditamos que essa distinção inicial entre documentos e documentos multimodais é útil nesse momento em que apresentamos um conceito menos corrente, mas pode se tornar desnecessária em outros
momentos se compreendermos que “todos os textos com base numa tela do computador e numa página são visuais e seus elementos visuais e arranjos podem ser analisados”, como afirma Wysocki (2004, p.123). Seria, portanto, reconhecer o parágrafo, o recuo, as margens, o espaçamento, a pontuação etc. que o documento apresenta como fontes de informação utilizadas pelo leitor para construir significados, aliás, os primeiros recursos acessados pelo leitor no primeiro contato visual com o texto. Assim, nos alinhamos com van Leeuwen (2004, p.14) quando afirma que “a tipografia e a escrita manual não são mais apenas veículos para o significado linguístico, mas modalidades semióticas em si” e com Wysocki (2004) e Dionisio (2005) quando afirmam que a apresentação visual constitui-se em um dos fatores para a identificação do gênero.
O estudo sobre tipografia na perspectiva linguística, Text structure
and graphic design, de Steven Bernhardt, publicado em 1985, pode lançar
algumas luzes neste sentido. O autor propôs que os vários tipos de textos com os quais nos deparamos em nossas práticas sociais, que ora