4.1.1 Os documentos oficiais
Durante as décadas de 1950 e 1960, ocorreram profundas mudanças no Ensino de Biologia. Dentre essas mudanças, três merecem destaque:
- a seleção e organização dos conteúdos biológicos: os conteúdos passaram a ser selecionados de acordo com sua “relevância” e “atualidade” e foram organizados como temas unificadores;
- a utilização de procedimentos usuais de investigação: visando possibilitar que os alunos redescobrissem de forma simulada determinados conhecimentos biológicos;
- a introdução das modificações previstas em projetos de ensino, constituídos por livro-texto para o aluno, livro guia para o professor e material de laboratório.
Estes materiais seriam utilizados conforme orientações detalhadas presentes nos guias para professores.
Na década de 1980 foram implementadas as propostas curriculares, por exemplo, do Estado de São Paulo, que enfatizavam abordagens construtivistas, um enfoque ecológico e evolucionista e a discussão das implicações sociais da Ciência.
Atualmente, as aulas de Biologia e, consequentemente, o trabalho com conteúdos da genética, são orientadas pelas diretrizes dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio – PCNEM – (BRASIL, 1999). O PCN+EM (BRASIL, 2002) ressalta a importância do trabalho com temas da engenharia genética1, para desenvolver entre os alunos a competência de avaliar riscos e benefícios dessas manipulações à saúde humana e ao meio ambiente, possibilitando que se posicionem diante dessas questões.
Segundo Xavier et al (2006), o PCNEM (BRASIL, 1999) sugere reformas educacionais de acordo com a LDB 9394/96 (BRASIL, 1996), inserindo novas visões atualizadas da Biologia (especificamente no tocante à Genética) relacionando-a ao estudo e aplicabilidade de novas tecnologias associadas ao DNA, com o objetivo de trabalhar: a participação da engenharia genética na produção de alimentos, herbicidas, produtos farmacêuticos, hormônios, de vacinas e de medicamentos; as técnicas moleculares utilizadas para a detecção precoce de doenças genéticas; a importância dos
1Uma discussão mais ampla sobre o ensino de genética na escola média é apresentada em BONZANINI
testes de DNA para determinação da paternidade, investigação criminal ou identificação de indivíduos e a compreensão da natureza dos projetos genomas, especialmente dentro do país.
Esse documento ressalta a importância do ensino de Biologia despertar o interesse dos alunos em relação aos temas contemporâneos desenvolvidos pelas pesquisas científicas, a fim de solidificar as relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade (PSCHISKY, 2003). Assim, de acordo com Rifkin (1999, p. 248):
“Essas tecnologias tão pessoais merecem, certamente, ser amplamente discutidas e debatidas pelo público em geral antes de se tornarem partes de nossa vida diária. A Revolução Biotecnológica obrigará cada um de nós a espelhar seus valores mais íntimos, levando-nos a ponderar sobre a questão máxima da finalidade e sentido da existência.”
Observa-se, então que os PCNs (BRASIL, 1999) demonstram uma preocupação em unir temas e abordagens que funcionem como elementos no entendimento de questões atuais referentes aos aspectos científicos que envolvem os assuntos da genética. O documento insiste na inserção de temas diversos da genética molecular nas aulas, a fim de tornar mais eficaz a apropriação do conhecimento pelos estudantes.
No entanto, apesar das recomendações desse documento, que muitas vezes é indicado como principal fonte para elaboração dos planos e programas de ensino, pesquisas (XAVIER et al., 2006; BONZANINI, 2005, NETO e FRACALANZA, 2003) constatam que os docentes baseiam suas aulas em livros didáticos que, de modo geral, não sofreram atualização nos aspectos essenciais.
Além da indicações acima citadas, considerou-se oportuno descrever nesse trabalho a nova Proposta Curricular do Estado de São Paulo, tendo em vista a abrangência desse documento, já que é utilizado por todas as escolas da rede estadual de ensino, além de configurarem o mais recente material produzido para o trabalho em sala de aula.
4.1.2 A nova Proposta Curricular do Estado de São Paulo
A Secretaria de Estado da Educação de São Paulo lançou, em 2008, uma proposta curricular para ser implementada de forma imediata em todas as escolas da rede pública do Estado de São Paulo. O projeto, de acordo com a então Secretária da Educação do Estado de São Paulo, Professora Maria Helena Guimarães Castro, seria ousado e inovador (SEE/SP, 2008).
Essa nova proposta foi enviada a todas as escolas da rede estadual de ensino na forma de apostilas ou cartilhas, para diretores, vice-diretores, coordenadores pedagógicos, professores e alunos, acompanhadas de DVDs com orientações específicas sobre sua utilização na unidade escolar (SEE/SP, 2008).
No texto de apresentação, assinado pela referida Secretária, encontra-se uma justificativa para a necessidade de uma Proposta Curricular da seguinte forma:
“A criação da Lei de Diretrizes e Bases (LDB), que deu autonomia às escolas para que definissem seus próprios projetos pedagógicos, foi um passo importante. Ao longo do tempo, porém, essa tática descentralizada mostrou-se ineficiente.” (SEE/SP, 2008a, s/p.)
Sendo assim, diante do apontamento sobre a ineficiência do ensino descentralizado, a Secretária da Educação do Estado de São Paulo salientou na ocasião que se fazia necessária uma “[...] ação integrada e articulada [...]”, que também subsidiasse os profissionais da rede, afirmando: “Mais do que simples orientação, o que
propomos, com a elaboração da Proposta Curricular e de todo o material que a integra, é que nossa ação tenha um foco definido.” (SEE/SP,2008a, s/p.).
Essa nova Proposta Curricular foi dividida em áreas, a saber: Ciências da Natureza e suas Tecnologias, – Biologia, Química, Física e Matemática; Ciências Humanas e suas Tecnologias – História, Geografia, Filosofia, Sociologia e Psicologia; e Linguagens, Códigos e suas Tecnologias – Língua Portuguesa, Língua Estrangeira Moderna, Arte e Educação Física. Sendo sua apresentação dividida em dois tópicos: “Uma educação à altura dos desafios contemporâneos” e “Princípios para um
currículo comprometido com o seu tempo”. Este segundo tópico apresenta os seguintes
itens: I) Uma escola que também aprende; II) O currículo como espaço de cultura; III) As competências como referência; IV) Prioridade para a competência da leitura e da escrita; V) Articulação das competências para aprender e VI) Articulação com o mundo do trabalho. Assegura, ainda, que esta iniciativa procura “[...] garantir a todos uma
base comum de conhecimentos e competências, para que nossas escolas funcionem de fato como uma rede [...]” priorizando a competência de leitura e escrita (SEE/SP,
2008a).
Nesta apresentação são citados também outros materiais que darão suporte à Proposta Curricular, como por exemplo, as “Orientações para a Gestão do Currículo na Escola” dirigido à equipe gestora, e os “Cadernos do Professor” dirigidos aos professores, organizados por bimestre, série e por disciplina (SEE/SP, 2008a).
Como a presente pesquisa enfoca o ensino de Ciências e Biologia, cabe realizar alguns apontamentos sobre o que sugere tal proposta para o trabalho com essas disciplinas.
4.1.2.1 O ensino de Ciências e Biologia de acordo com a nova Proposta Curricular do Estado de São Paulo
A nova Proposta Curricular do Estado de São Paulo (SEE/SP, 2008a) justifica o trabalho com a área de Ciências da Natureza diante da múltipla presença, a intensa produção e a divulgação de conhecimentos científicos e tecnológicos que demanda de todos nós uma alfabetização científico-tecnológica, por exemplo:
“... para entender argumentos a favor e contra a produção de grãos transgênicos demanda-se um domínio conceitual científico básico, mesmo em se tratando de informações usuais presentes em jornais diários, equipamentos domésticos e embalagens de alimentos. Dessa forma, poderão compreender e se posicionar diante de questões gerais de sentido científico e tecnológico, e empreender ações diante de problemas pessoais ou sociais para os quais o domínio das ciências seja essencial.” (SEE/SP, 2008a, p. 35)
Além disso, o documento aponta também que, se a área de Ciências da Natureza por um lado, faz uso de inúmeras linguagens e códigos, por outro produz uma linguagem própria:
“Hoje, não é sequer possível compreender muitas notícias sem que se entendam terminologias científicas como “materiais semicondutores”, “substâncias alcalinas” e “grãos transgênicos”. Essa dimensão das ciências como linguagem precisa, assim, ser explicitada e trabalhada na sua aprendizagem escolar, pois constituirá a qualificação mais continuamente exercida pelos educandos ao longo de sua vida, qualquer que seja sua opção profissional e cultural.( SEE/SP, 2008a. p. 37)
Entende-se, portanto, que para qualquer cidadão interpretar os novos conhecimentos produzidos e anunciados pela mídia em geral, é preciso, anteriormente, dominar determinados conteúdos e conceitos, que devem ser abordados pela escola. Os conhecimentos biológicos precisam orientar os jovens em posicionamentos diante de assuntos e debates contemporâneos.
Ao tratar o ensino de Biologia, a nova Proposta Curricular afirma que essa disciplina promove avanços tecnológicos no sistema produtivo, na saúde pública, na medicina diagnóstica e preventiva, na manipulação gênica, e alguns desses assuntos são controversos e permeados por inúmeras questões éticas:
“Autorizar ou não a manipulação genética? Consumir ou não alimentos transgênicos? Expandir até que ponto a cultura da cana-de-açúcar para obter biocombustíveis? Plantar ou não soja na região Pantaneira e cana na Amazônia? Esses são apenas alguns dos dilemas que o cidadão deve enfrentar e não é factível
que opinem exclusivamente com base em fatores como a tradição, a religião ou a confiança em decisões do senso comum.” (SEE/SP, 2008b, p. 41)
Nesse sentido, o texto enfatiza que o professor deve promover situações de aprendizagem que tenham sentido para o aluno, permitindo a ele adquirir um instrumental para agir em diferentes contextos e, principalmente, diante de questões polêmicas e controversas. Para isso, recomenda o trabalho com temas de estudo. Entre eles, o quarto tema seria: Transmissão da vida e mecanismos de variabilidade genética, em que seriam tratados os fundamentos da hereditariedade com destaque para a transmissão dos caracteres humanos. Enfatiza-se que a compreensão desses fundamentos é essencial para que os alunos possam conhecer e avaliar o significado das aplicações que têm sido feitas dos conhecimentos genéticos, no diagnóstico e tratamento de doenças, na identificação de paternidade e de indivíduos, em investigações criminais, ou após acidentes. Além disso, tais conhecimentos permitiriam aos alunos uma introdução no debate das implicações éticas, morais, políticas e econômicas das manipulações genéticas, analisando-as e avaliando os riscos e benefícios para a humanidade e o planeta (SEE/SP, 2008b).
O quinto tema, que envolve as Tecnologias de manipulação do DNA: a receita da
vida e seu código, apresenta o programa genético como controlador de todas as
atividades vitais ocorridas no interior das células, afirmando que são conteúdos que permitem aos alunos se familiarizar com as tecnologias de manipulação do material genético – os transgênicos, por exemplo –, e com o debate ético e ecológico a elas associados e, nesse caso, contribuem para o desenvolvimento de competências de avaliar os riscos e os benefícios dessas manipulações à saúde humana e ao meio ambiente e de se posicionar diante dessas questões (SEE/SP, 2008b, p.46).
A proposta apresenta ainda como temas:
Tema 1: A interdependência da vida
Tema 2: Qualidade de vida das populações humanas Tema 3: Identidade dos seres vivos
Tema 6: Diversidade da vida
Analisando-se os materiais, tanto o caderno do aluno, como o caderno do professor, verificou-se a presença de textos e exercícios que visam promover o trabalho com os avanços recentes da genética (anexo 4), porém os mesmos não apresentam conceitos, cabendo ao professor expô-los aos alunos. Assim, o professor deve dispor de
determinados conhecimentos para selecionar um conteúdo adequado que contribua para a aprendizagem dos assuntos privilegiados pelos exercícios do referido material.
Como a referida proposta é utilizada pelo sistema público estadual e outros sistemas de ensino, como o particular e o municipal, utilizam outros materiais, é importante revelar o que as pesquisas sobre o ensino dos avanços recentes da genética apontam.