3 REGIÃO CENTRAL DO RIO GRANDE DO SUL E A QUARTA
3.3 Os municípios da pesquisa
3.3.1 Dona Francisca
O município apresenta origem distinta em relação aos demais municípios da Quarta Colônia, pois sua ocupação ocorreu sobre terras particulares e não devolutas. Na atual sede do município, funcionava a sede da Fazenda Santo Antônio, de propriedade do Senhor José Gomes Leal, o qual, por volta de 1880, vendeu a propriedade à Família Mostardeiro, de Porto Alegre, uma vez que havia contraído dívida com a mesma e não possuía suficiente dinheiro para quitar o débito. Em 1881, Manoel José Mostardeiro ali fixou residência e contratou um agrimensor para estabelecer as bases da colonização, implementada através dos imigrantes alemães e italianos. Segundo dados da EMATER (2005), o núcleo da atual sede do município foi delineado já naquele ano, pois o agrimensor elaborou um projeto de vila, contando com ruas e lotes delimitados.
Os colonos alemães e italianos estabeleceram-se em pontos distintos do município. O rápido desenvolvimento econômico fez com que Cachoeira do Sul25, no primeiro quarto do século passado, instalasse em Dona Francisca a sede do 5º distrito, constituído pelas localidades de Dona Francisca, Faxinal do Soturno e São João Polêsine. Em 1965, conquista sua emancipação política administrativa de Faxinal do Soturno. O município limita-se geograficamente ao norte com Nova Palma, a oeste com Faxinal do Soturno, com Agudo a leste e ao sul com Restinga Seca e São João do Polêsine.
A principal base da economia municipal é a agricultura. O número total de estabelecimentos rurais é 438, sendo que 4.028 hectares são de lavouras temporárias (IBGE, 2006b), distribuídas sobre um relevo composto por morros e várzea. Segundo a EMATER local, a área de morro e meia encosta (com dificuldades para o desenvolvimento da agricultura mecanizada) são predominantes no município. Conforme Neumann (2003), a diferenciação do relevo influencia nos sistemas produtivos praticados pelas famílias: nas áreas serranas pratica-se uma agricultura de pequena escala, basicamente dependente do fumo de galpão, milho, feijão e demais cultivos de subsistência, além de pequenas criações, já as áreas de várzea são intensamente utilizadas para o cultivo do arroz irrigado, geralmente como monocultura e produzido em propriedades mais mecanizadas. De maneira mais detalhada, Neumann (2003) apresenta as principais atividades agrícolas e o tamanho das propriedades do município de Dona Francisca:
Î 15% das propriedades dependem da renda da aposentadoria rural, com tamanho médio de 15 hectares, com baixo desenvolvimento de atividades agrícolas, mas com áreas de potreiro para criação de gado de corte;
Î 38% das propriedades têm área média de 20,9 hectares divididos entre fumo e milho;
Î 31% das propriedades têm área média de 23 hectares e cultivam arroz;
Î 16% das propriedades têm área média de 22,3 hectares e cultivam arroz e fumo. Segundo informações da EMATER local, é possível estabelecer, a grosso modo, uma diferenciação social entre os agricultores: os situados na várzea são mais capitalizados e especializados em uma cultura, produzem com alta tecnologia, com boa estrutura de produção, mão-de-obra familiar e eventual contratada, já os situados no morro ou com áreas mescladas entre morro e várzea são geralmente mais descapitalizados, produzem com mão-
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de-obra familiar, com algum nível tecnológico e uma estrutura de produção normalmente deficiente.
De acordo com os dados da Produção Agrícola Municipal de 1990 - 2006 do IBGE, a principal atividade econômica é o arroz irrigado, com uma área de 2.300 hectares com colheita de 17.489 toneladas, com produtividade média do ano de 7.950 kg/hectares (uma das maiores do Rio Grande do Sul). A seguir vem o fumo, com área de 420 hectares. Atualmente a soja, que perdeu espaço para o arroz irrigado, representa 90 hectares. Há também milho (750 hectares), feijão (180 hectares) e trigo (184 hectares) (IBGE, 2006).
De acordo com a EMATER local, a descapitalização do meio rural está levando os agricultores a procurarem outras alternativas de renda como produção leite, agroindústria (massas, açúcar mascavo, aguardente), piscicultura, fruticultura e atividade leiteira. O estudo de Silveira et al. (2007) registra a presença de agroindústrias em Dona Francisca, tanto no meio rural como urbano. Neunamm (2003) observa que cerca de 40% das unidades produtivas comercializam produtos processados, na época de menor trabalho agrícola, seja nas unidades produtivas que se dedicam ao arroz ou fumo.
Destaca-se, também, por iniciativa da EMATER local, a produção artesanal (pinturas em tecido, bordados) das mulheres rurais, através da organização de grupos nas comunidades. O município também apresenta iniciativas na área de turismo ecológico, patrimônio cultural e religioso fomentadas pelo PRODESUS, além de atividades como a fruticultura (20 hectares em formação e produção) e hortigranjeiros (EMATER, 2005).
Além da geração da renda, essas novas atividades vêm estimulando a organização dos agricultores através da criação de distintos grupos e/ou associações específicas. Pode-se citar: Grupos de Produtores de Agroindústria; Grupo de Produtores de Arroz Pré-germinado; Grupo de Produtores de Leite; Grupo de Produtores do Feijão; Associação de Criadores de Peixe; Grupo de Produtores do Projeto 1026 e Associações de Comunidades Religiosas.
O objetivo desses grupos e/ou associações é atender a própria demanda dos agricultores, seja para comercialização da produção, para captação de recursos junto a fontes financiadoras seja para qualificação ocupacional. Os agricultores ainda participam de organizações cooperativas como é o caso da cooperativa agropecuária local (CAMNPAL) e do sindicato dos trabalhadores rurais.
A comercialização da produção agrícola é feita basicamente pela CAMNPAL, que possui uma unidade na sede do município. Os agricultores comercializam principalmente
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arroz, feijão e milho. As outras opções para a comercialização da produção agrícola são os atravessadores, com exceção do fumo, comercializado pelas empresas fumageiras.
Dona Francisca está situada entre dois pólos regionais: Cachoeira do Sul, a 90 km, e Santa Maria, a 57 km de distância. O município depende basicamente destes pólos nos seguintes aspectos: educação superior e técnica, comércio em geral, implementos agrícolas, medicina especializada, lazer, equipamentos de irrigação, entre outros (EMATER, 2005).
A população é formada por descendentes de italianos, de alemães, de portugueses e de afros, sendo que os residentes no meio rural se distribuem em 20 comunidades. As formas de sociabilidade nas comunidades e a sua infra-estrutura são semelhantes ao descrito no item da Quarta Colônia.
A dinâmica populacional do município é baseada no crescente esvaziamento do meio rural, conforme apontam os dados censitários do IBGE de 1970 a 2000. A TAB. 01 ilustra o comportamento populacional rural e urbano.
TABELA 01
Distribuição percentual da população por situação domiciliar no município de Dona Francisca, período de 1970 - 2000.
Ano Urbana Rural 1970 30% 70% 1980 32% 68% 1991 54% 46% 2000 60% 40%
Fonte: Censo demográfico da população, IBGE, 2000.
Pode-se observar que, entre o período de 1980 e 1991, ou seja, durante uma década, este município apresentou um decréscimo27 da população rural, revertendo à proporção rural e urbana.
O número de habitantes atualmente no município, considerando a população total (urbana e rural) dividida segundo a faixa etária - jovens e idosos com 60 anos ou mais, está descrito na TAB. 02.
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O grupo da Quarta Colônia ao qual pertence Dona Francisca tem o menor crescimento rural em relação aos demais, conforme destacado anteriormente através do estudo de Neunamm (2003).
TABELA 02
Distribuição da população total, jovem e com 60 anos ou mais por situação domiciliar e o percentual sobre a população rural total do município de Dona Francisca.
População Urbana Rural Número total Percentual sobre a população rural
Total 2.324 1.527 3.902 -
Jovem 424 205 629 12
60 anos ou mais 285 285 570 18
Fonte: Censo demográfico da população, IBGE, 2000.
Há 205 jovens residindo no meio rural de Dona Francisca, 75 são moças (37%) e 130 são rapazes (63%). Estes 205 jovens representam 12 % da população rural do município e 4% da população rural jovem da Quarta Colônia (IBGE, 2000).
A população rural de 60 anos ou mais representa 18% do total da população rural de Dona Francisca, sendo 172 mulheres (60%) e 110 homens (40%). Neste município, há 6% da população rural com 60 anos ou mais da Quarta Colônia (IBGE, 2000).
Em síntese, os dados mostram que há maior número de pessoas (em termos proporcionais) vivendo no meio urbano comparativamente ao rural, uma taxa de masculinização (quase o dobro de rapazes em relação ao número de moças) e um índice significativo de pessoas com 60 anos ou mais (18%), quando comparado ao total da Quarta Colônia (14%). O município tem 6,1% da população da Quarta Colônia.
No referente à educação, o município tem três escolas municipais de ensino das séries iniciais (1º a 4º séries) e uma escola estadual com Ensino Básico e Médio. Das escolas municipais, duas estão no meio rural e uma na sede. A escola estadual situa-se na sede e recebe alunos de todo o município. Para freqüentarem as aulas, os alunos contam com transporte escolar, pois, com a nucleação ocorrida no município, os alunos do meio rural passaram a freqüentar as escolas-núcleo situadas na sede, tanto na rede municipal quanto estadual.
Considerando os indicadores sociais, observa-se que o valor do IDH passou de 0,72 (em 1991) para 0,76 em 2000 (PNUD, 2000), e a taxa atual de analfabetismo é de 11% (FEE, 2007).