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3 REGIÃO CENTRAL DO RIO GRANDE DO SUL E A QUARTA

3.2 Quarta Colônia de Imigração Italiana

3.2.1 Perspectivas ocupacionais e sucessórias da juventude rural local

Neste item, objetiva-se destacar estudos que tratam diretamente ou indiretamente da temática da sucessão na Quarta Colônia. São estudos localizados, realizados em distintos municípios e, por isso, não servem para estabelecer uma generalização para toda a microrregião, apesar da proximidade geográfica e sócio-econômica entre os municípios. No entanto, são úteis para compreender as perspectivas de permanência dos jovens no meio rural, com inferências sobre a sucessão local. São três os estudos analisados: Froehlich (2002), Spanevello (2003) e Weisheimer (2007).

O estudo de Froehlich21 (2002) não aborda propriamente a sucessão na agricultura familiar, entretanto, é possível destacar do seu trabalho as perspectivas de jovens rurais de 14 a 19 anos, estudantes da escola estadual do distrito de Vale Vêneto, município de São João do Polêsine. O autor constata que, dos 21 jovens (10 moças e 11 rapazes) que responderam ao questionário, 71% não pretendem se estabelecer no meio rural na condição de sucessores das unidades produtivas familiares. Os jovens dão preferência à continuidade dos estudos e formação no Ensino Superior. Das profissões mais citadas, apenas duas (Medicina Veterinária e Zootecnia) se relacionam diretamente com a área rural, as demais (Enfermagem, Química Industrial, Administração, Comunicação Social, Biologia, Educação Física, Nutrição e Psicologia) estão mais diretamente associadas ao meio urbano.

Considerando a divisão por sexo, todas as moças pretendem continuar estudando até o nível superior e sete não desejam permanecer morando em Vale Vêneto. Sobre a possibilidade de associar a profissão almejada e continuar residindo no meio rural, 13 dos jovens entrevistados por Froehlich (2002) afirmam que essa alternativa é inviável, seis responderam que sim, e dois que talvez seja possível. Uma hipótese provável para os jovens que responderam ser possível continuar no meio rural é o fato de escolherem profissões ligadas diretamente ao rural. Outra é o fato do distrito ser um dos pontos turísticos22 mais conhecidos da Quarta Colônia, com inserção freqüentes de visitantes e de fácil acesso aos municípios maiores e até mesmo a Santa Maria.

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O estudo é o resultado da tese de doutorado do autor intitulada Rural e Natureza: a construção social do rural contemporâneo na região central do Rio Grande do Sul, defendida em 2002, no Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Sociedade e Natureza - CPDA, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRJ.

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O turismo é cultural, religioso e ecológico. Destaca-se o Festival de Música de Inverno, promovido pela UFSM, um evento que traz músicos de todo o Brasil, mas também do exterior.

Nos questionamentos referentes à herança, o autor coloca para os entrevistados a perspectiva de receber a propriedade. Do total, três não responderam, um afirmou que não herdará, dois talvez herdem e 15 responderam que sim. Entre os que pretendem herdar, há distinções quanto ao destino da propriedade: quatro pretendem vender, sete desejam continuar trabalhando nela, quatro pretendem tornar a propriedade um ponto turístico.

No estudo de Spanevello23 (2003), é possível visualizar as possibilidades de permanência no meio rural dos jovens rurais (com idade entre 16-24 anos) em Nova Palma. Observa-se que as perspectivas são distintas entre os sexos: as moças expressam o desejo de permanecer no meio rural de maneira menos intensa que os rapazes. Uma das razões que levam as moças a sair do meio rural é o maior investimento ou tempo de estudo. É possível constatar esse investimento ao comparar com os rapazes: é maior a proporção de moças concluindo o Ensino Médio, enquanto os rapazes estão concluindo o Ensino Fundamental. As moças vislumbram a possibilidade de sair do meio rural em busca de profissão urbana, não desejando permanecer no meio rural e nem ser agricultoras, entretanto a maioria dos rapazes pretende ficar e se estabelecer na atividade agrícola. A exemplo do trabalho de Froehlich (2002), alguns jovens optam por cursos com ligação no rural, tais como Engenharia Agronômica, Medicina Veterinária, além de cursos como o Técnico em Agropecuária, enquanto outros optam por cursos voltados à profissão urbana.

A pesquisa24 recente de Weisheimer (2007), intitulada “Jovens agricultores familiares do RS”, é outra fonte de dados utilizada. O autor analisa, entre outras questões, as perspectivas de permanência de 681 jovens agricultores de sete mesorregiões do Rio grande do Sul caracterizadas pela presença da agricultura familiar. No entanto, para atender ao objetivo de retratar as perspectivas dos jovens da Quarta Colônia destacam-se os dados coletados pelo autor no município de Agudo, com 32 jovens - 10 moças e 22 rapazes.

As questões analisadas dizem respeito ao local pretendido para moradia, possibilidade de casar-se com um agricultor (a) e perspectivas de continuar os estudos. Além disso, apresentam-se outras questões relacionadas mais diretamente com a sucessão da propriedade: projeto ocupacional atual do jovem, possibilidade de estabelecer-se no meio

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Trata-se da dissertação de mestrado elaborada pela autora, intitulada Jovens rurais do município de Nova Palma - RS: situação atual e perspectivas, defendida em 2003, pelo Curso de Pós-Graduação em Extensão Rural, UFSM.

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A pesquisa coordenada por Weisheimer (2007), com o apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA e da Fundação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - FAURGS, foi realizada no primeiro semestre de 2007. A coleta de dados ocorreu em sete mesorregiões (Centro Ocidental, Noroeste, Metropolitana de Porto Alegre, Centro Oriental, Nordeste, Sudeste e Sudoeste), envolvendo 32 municípios do Rio Grande do Sul.

rural como agricultor familiar, pretensão de suceder o pai e as expectativas de herdar a propriedade paterna.

As perspectivas de permanência no meio rural são distintas por sexo. O local de moradia pretendido por 75% dos jovens é o meio rural. Na divisão por sexo, a intenção de residir no meio rural é maior entre os rapazes (82%) do que entre as moças (60%). Uma hipótese explicativa para essa perspectiva de residência é o fato de quatro rapazes e quatro moças já serem casados com cônjuges do meio rural. Em relação às demais moças da pesquisa, 40% consideram a possibilidade de casar-se com um agricultor e 20% não sabem ou não responderam. Quanto aos rapazes, 18% já são casados com agricultoras, outros 23% casar-se-iam com agricultoras, oito rapazes (36%) não sabem ou não responderam, três (13%) são indiferentes e dois (10%) namoram moças da cidade.

Entre os que desejam continuar, 23% dos rapazes e 30% das moças pretendem prosseguir até concluir o Ensino Médio e 14% dos rapazes e 30% das moças pretendem concluir o Ensino Superior.

Segundo os dados de Weisheimer (2007), a maioria dos jovens não tem um projeto relacionado com a agricultura. Considerando os 32 jovens, 23% rapazes e 10% das moças demonstraram ter um projeto nessa direção.

Apesar da maioria dos jovens não apresentarem um projeto destinado ao exercício da atividade agrícola, a possibilidade de permanecer no meio rural e se estabelecer profissionalmente como agricultor familiar é positiva para 70% das moças e 59% dos rapazes. As moças, em maior proporção que os rapazes, visualizam a perspectiva de estabelecer-se no meio rural como agricultoras. Deve-se considerar que essa situação é distinta dos dois estudos citados anteriormente. No entanto, conforme apontado anteriormente, metade das moças são casadas e já estabelecidas no meio rural. Essa condição certamente reforça o argumento de permanecer como agricultora.

Na questão referente à possibilidade dos jovens sucederem seus pais na gestão da propriedade, 60% dos rapazes afirmaram que sim e 50% das moças deram a mesma resposta.

Com relação às expectativas de herdar a propriedade dos pais, 23 dos jovens, sendo 17 (77%) rapazes e seis moças (60%), afirmam que todos os filhos herdarão de maneira igual.

As demais situações são as seguintes: as moças serão herdeiras únicas, rapazes sabem que não vão herdar, mas serão recompensados de outra forma, rapazes e moças não sabem ou não responderam sobre a expectativa de herdar ou não a propriedade dos pais.

Apesar de distintos, os estudos permitem traçar alguns pontos em comum sobre as perspectivas de permanência do meio rural e sobre a sucessão local. O aspecto central é a permanência dos rapazes de forma mais intensa do que as moças. No caso de Agudo, a hipótese da maior permanência das moças pode ser o fato de 50% já estarem casadas e estabelecidas no meio rural. Outro aspecto que perpassa os três trabalhos é o fato de as moças almejarem de maneira mais intensa que os rapazes prosseguir os estudos até o Ensino Superior, formando-se em profissões voltadas ao meio urbano, além da preferência pelo local de moradia ser a cidade. Embora as possibilidades de suceder a propriedade dos pais sejam ressaltadas pela pesquisa de Weisheimer (2007) e pelo estudo de Froehlich (2002), o trabalho do segundo autor mostra que, entre os que herdarão a propriedade familiar, mais da metade dos sucessores podem dar a ela um destino não-agrícola.

Nas condições apontadas pelos trabalhos citados sobre a Quarta Colônia, a sucessão parece ser pouco atrativa para os jovens, especialmente para as moças. É preciso considerar a possibilidade dos impactos dos processos sociais como a masculinização e envelhecimento no campo na Quarta Colônia, afinal sua população é predominantemente rural (57%) e a base econômica dos municípios é a agricultura. A dificuldade dos jovens em permanecer no meio rural local na condição de agricultores pode afetar o desenvolvimento rural da microrregião, especialmente o centrado nas atividades agrícolas.