Ainda no bloco das "Peças Psicológicas" inclui-se Viúva, Porém Honesta (1957) — farsa irresponsável em três atos.
Nesta peça existem muitos tópicos abordados em outras do autor, ainda que disfarçados sob outro contexto. Assim, numa sátira ao casamento, temos a exaltação do adultério e da figu ra do amante.
As solteironas, sempre ã espera de um homem, são atormen tadas por sonhos eróticos.
Mais uma vez é ressaltada a relação marido-mulher, que deve ser casta, respeitosa, sem nenhum prazer.
A novidade nesta peça é o abuso da caricatura, numa ati tude premeditada do autor para revidar as vaias e críticas sofridas pelã peça anteriormente encenada (Perdoa-me por me Traíres).
Ivonete — a filha de eminente empresário da área jorna lística — viuvou e não consegue sentar. Na noite de núpcias traíra o marido quatro vezes, porém com ele morto apaga-se es sa possibilidade, uma vez que, para Nelson, é inconcebível trair alguém que já morreu, que já não tem defesas.
Um homossexual, foragido de uma instituição de menores, é personificado como "crítico de teatro" (outra vingança do autor). Diagnosticada a gravidez de Ivonete pelo médico da fa mília e diante da afirmação desta de que só tem afeição por uma amiga, Dorothy Dalton (o crítico) é escolhido para ser o marido e "pai de araque" do neto do Dr. J.B.
Para completar a "farsa", o marido morre atropelado "se gundo uns, por um papa-fila, segundo outros, por uma carroci- nha de chica-bom."
Gravidez, casamento, morte são aqui tratados como comé dia, quando em outras peças são explorados dramaticamente. Por
isso justifica-se o subtítulo de "farsa", que permite a abor dagem diversificada de temas reconhecidamente trágicos, como a
insistência da viuvez enlutada de Ivonete, só interrompida pe la ressurreição do marido por um "Belzebu". Com o marido vivo, pode ela recomeçar a trair.
Para resolver os problemas (sexuais) da filha, Dr. - J.B. requisita um psicanalista, um otorrino,umai ex-cocote e ainda o "Belzebu", atraído pelo "cheiro da viúva" — sua preferên cia. Todos profissionais ãs avessas, caricaturizados, como o psicanalista cujos clientes falam e pagam sem que ele se mani feste, "cobrando seu silêncio pelo taxímetro".
Pouca coisa acontece no plano da realidade, ressaltan do-se a memória, como sempre mesclada ã alucinação.
Conforme observa-se nas peças do autor, há um cuidado extremo na linguagem, e nos signos referenciais a determinadas pessoas ou condições sociais das mesmas. Assim, a ex-cocote não dispensa o sotaque estrangeiro (senhorra); o otorrino usa barriga postiça para impressionar os maridos das clientes e ganhar-lhes a confiança e o psicanalista contribui apenas com o divã para o tratamento de seus doentes. Todos satirizados, caricaturais, ressaltando as peculiaridades de cada profissão no seu lado mais negativo.
As mazelas e falcatruas conhecidas entre personalidades importantes, empregados, profissionais corruptos e : relapsos são evidenciadas no texto. Pardal, redator do jornal, na pre sença do chefe — Dr. J.B. —- é servil ao ponto de admitir atê mesmo ser montado pelo chefe, desde que não haja testemunhas. Numa conversa particular com Diabo da Fonseca — o Belzebu — refere-se ao Dr. J.B. como "um cavalo de 28 patas"; sobre a esposa falecida do chefe como "uma Messalina" e da filha diz que "não respeita nem poste".^^
Ivonete é a personagem feminina controvertida para a situação e a idade. Tem a mesma idade de Sõnia (Valsa n? 6 ) — quinze anos — "uma idade criminosa"; todavia, mesmo grá
vida, vive agarrada ã saia da tia solteirona e comporta-se co mo uma criança bem pequena na consulta médica com o Dr. Lam- breta — um "velhinho de óculos, um ar de avô de todo o mun do". Nisso assemelha-se ã Silene (Os Sete Gatinhos), menina ingênua, de colégio interno e também grávida.
O pudor — sempre presente na dramaturgia rodriguiana — aqui também se manifesta em Ivonete. Ã pergunta do médico: "Ela tem pudor?", tia Assembléia responde "— Demais, doutor! Também é natural: viveu, até ontem, no colégio interno, e
32 praticamente nunca viu um homem!"
Como pode-se perceber, era um pudor forjado, uma vez que sobre a ihocinha recaía, inclusive, a suspeita de gravidez.
A "inocência" de Ivonete também não passa de uma carica tura, porque aos quinze anos presume-se que uma jovem saiba como teria engravidado e de quem, ao passo que a personagem afirma só ter beijado a amiguinha. De outro lado, ela tem ar ranques repentinos de tirar a roupa ou dizer palavrões. Que ria casar com a amiga Luci, mas acaba por escolher o efemina do Dorothy Dalton -- "crítico de teatro, foragido do SAM"— em
mais uma sátira do autor, confirmada pela opinião de Madame Cri-Cri -- "Oh, mulher sempre escolhe mal o marido... Mulher só escolhe bem o amante..."^^
Numa confirmação da sátira fica a dúvida sobre a gravidez de Ivonete, quando o médico faz o mesmo tipo de exame no padre e diagnostica-lhe uma gravidez de seis meses. Por volta de 1957, as meninas engravidavam mais, por desinformação; os pais viviam aterrados e cabia aos médicos diagnosticar e notificar a família sobre o "mau passo" das filhas.
A profundidade maior fica por conta das opiniões da ex- cocote, que teve "três mil e quinhentos amantes... fora os
avulsos". É ela quem diz ao Dr. J.B.: "— Todas casam erra-
,
34do! Facil encontrar um marido — difícil encontrar um homem!"
É na memória que se encontram os maiores referenciais da trama. Para explicar ou julgar cada situação, o Dr. J.B. re porta-se ao passado, onde encontra e relata fatos ocorridos, com o devido acréscimo da alucinação.
Na encenação, os personagens da realidade interferem no passado, dando sugestões, fazendo críticas, participando da cena (provavelmente resquícios de Vestido de Noiva ). Como no seguinte diãlogo, travado entre o psicanalista e o noivo
(que ele nem chegou a conhecer);
"— Beije tua noiva! —- Onde?
— Na boca! — Beija você!
— Aproveita, seu burro! •— Na boca, não beijo!
A farsa prossegue até o fim da peça, quando a noiva "in gênua" nega-se ao marido, porque quer um amante. E a traição é oficializada com palavras idênticas às proferidas pelo padre na cerimónia do casamento.
No entrelaçamento do universo dramatúrgico rodriguiano, muitos signos são repetidamente usados, mesmo que nem sempre com a mesma finalidade. Em A Falecida, Zulmira, no banheiro, responde a Tuninho (com dor de barriga): "— Tem gente! "O me^ mo signo aqui utilizado é assim explicado por Diabo da Fonse ca: Pode não ser científico, mas é batata! Eu disse que
o amor morre no banheiro e provo. Quando um cônjuge bate na porta do banheiro e o outro responde lá de dentro: "Tem gen te!" não há amor que resista!
A farsa torna-se bem explícita ao final do terceiro ato, quando Diabo da Fonseca expõe o objetivo da mesma, simulando uma batida policial. "— ... E vou provar o seguinte, querem ver? Que é falsa a família, falsa, a psicanálise, falso o jor nalismo, falso o patriotismo, falso os pudores, tudo falso!
(põe-se no meio do palco e berra) Olha o rapa!" Corre todo mundo.
Nesta peça, Nelson Rodrigues não privilegia a mulher co mo na maioria de seu teatro, muito embora o enredo gire em tor no de Ivonete e o próprio título a ela se refira.
A última peça desse bloco é Anti-Nelson Rodrigues, a pe núltima do autor (1974), escrita após quase dez anos de silên cio, onde, por motivos de ordem prática e questões de saúde, Nelson dedicou-se mais ã produção jornalística e a livros de crônicas, contos e romances.
Apesar do título, o próprio autor, em entrevista a Sábato Magaldi, reconheceu na peça muito dele próprio.
"— Agora que a vi (a peça) no palco em ensaios sucessi vos, realizada cenicamente, sinto que ela teima em ser Nelson Rodrigues. Há no texto uma pungência, uma amargura, uma cruel dade e ao mesmo tempo uma compaixão quase insuportáveis. 0 grande elemento novo de Anti-Nelson Rodrigues é, a meu ver, a profunda e dilacerada piedade que nem sempre as outras pe ças extrovertem. Realmente, nunca tive tanta pena de meus personagens. Há um momento em que Oswaldinho, o possesso, ouve de Joice: "Você ainda vai beijar o chão que seu pai pisou".
AÍ está toda a chave do personagem e da própria peça. Isso quer dizer que há em cada um dos homens e das mulheres que sofrem no texto uma violenta nostalgia de pureza. É como se eu dis sesse: o degradado absoluto não existe e em cada um de nós há um santo enterrado como sapo de macumba. Esse santo pode ex plodir a qualquer momento. No fim, o espectador sai certo de que Oswaldinho é um falso canalha. 0 seu momento final é esse instante de São Francisco de Assis que todos nós levamos nas
38 entranhas."
Nesta peça encontramos desvendadas muitas crenças do au tor,, mais dissimuladas no geral da sua dramaturgia. O amor- eterno, a fidelidade, a viuvez casta, o "santo" que cada um possui dentro de si, o moralismo entranhado, tudo vem ã tona e explode, surpreendentemente, num final feliz.
Os incestos são amenizados numa inclinação mãe-filho e conseqüente oposição pai-filho.
A frustração feminina mais uma vez se faz presente na personagem Tereza. No apego excessivo ao filho ela compensa o vazio deixado pelo marido, sempre ocupado e cheio de aman tes. "(...) Oswaldinho, eu não tenho nada. Fracassei como mu lher. Teu pai não gosta de mim, nem gostou nunca. Meus namora dos não gostavam de mim. Eu não tenho nada, mas tenho meu fi lho. Não me interessam os outros, teu pai pode ter as aman-
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