pequenos para os pescadores do BBV, barcos pequenos, bateiras. Eu fiz muito barcos pesqueiros para Santos, Cananéia, [São Paulo]. Eu já fiz muitos barcos. O barco que eu estou fazendo agora é para pescar camarão, ele terá um motor grande. Na época em que eu vim para o BBV havia bastante casa, tinha muita roça [plantio] de mandioca em cima do morro, depois já foram fazendo casas. Naquela época, algumas pessoas trabalhavam no porto e outras pescavam. Hoje em dia, muitos trabalham em obras, no cais do porto e a noite pescam (ENTREVISTA REALIZADA PELO AUTOR, 2010).
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Uma outra questão de fundamental importância que abordaremos aqui é a certa igualdade social que predomina no BBV. Sabemos que nem todas as pessoas da comunidade reproduzem as suas vidas do mesmo modo, contudo, todos se inserem no mesmo dinamismo societário. Os que gozam de uma certa estabilidade financeira são aqueles empregados em empresas públicas, empregos efetivos no porto, mas pertencentes à mesma classe social. Aliás, adverte Diegues (Ibidem, p. 225) o mar, enquanto, objeto de trabalho, pode ser explorado por qualquer um dos habitantes, com instrumentos de produção relativamente simples. Além disso, “a própria natureza da atividade pesqueira dificultava, no interior das praias e comunidades de pescadores, a acumulação do excedente e do capital”.
É mister ressaltar que há no BBV pequena diferenciação de status econômico, contudo não existe diferenciação de classes106. Podemos afirmar que o nivelamento social é produto da própria atividade produtiva com a qual as pessoas estão inseridas. No caso dos pescadores artesanais, notamos que a reduzida atividade pesqueira, a
Os serviços por ela realizados são: desembaraço aduaneiro, operação portuária, armazenagem geral, agenciamento marítimo, afretamento de navios e angariamento de cargas.
106Capital para nós é a relação social privada de quem se apropria da riqueza social sem nada
dar em contrapartida, por serem proprietários privados da riqueza social. É nesta relação social que entendemos as classes sociais cuja distinção se manifesta no modo de produzir a vida entre as pessoas. Na sociedade burguesa moderna a apropriação mediante a qual as pessoas fazem do capital é determinada: a) pelos proprietários dos meios de produção (capitalistas) e b) pelos não proprietários dos meios de produção (proletários – assalariados modernos).
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inexistência de atrativos locais para a ampliação de capital, a tecnologia reduzida na captação dos recursos pesqueiros e os baixos níveis de ocupação profissional desenham este quadro. Em outros casos, notamos profissionais com baixa remuneração nas empresas públicas, portuárias e profissionais de empregos instáveis. Esse quadro não é só atual ele corresponde a toda a história do BBV, como percebemos ao longo deste trabalho de pesquisa.
IV.8 Os pescadores artesanais do Bairro Bela Vista (BBV): nexos, relações e mediações com o porto
A nossa intenção, neste ítem, é nos afastarmos da visão idealizada na qual o pescador artesanal ao se relacionar com as conquistas modernas tende a se tornar vítima delas. Ou seja, de que é preciso conservar o modo de vida mais íntegro do pescador, ainda que a vida moderna supere as suas mazelas. Em outras palavras: não concordamos com a idéia de que o porto de São Francisco do Sul, ao se espraiar, isola e impede os pescadores artesanais de reproduzir as suas vidas em melhores condições. Na pesquisa que fizemos no BBV a maioria dos pescadores artesanais entende que o porto ao longo da sua história fez com que os pescadores e as pessoas da cidade, em geral, pudessem expandir a sua vida material. No BBV a dependência ao porto é estrutural. Para o presidente da Colônia Z-2, Ismael da Costa:
Aquela comunidade sempre dependeu da pesca. Hoje o nível de poder aquisitivo, deste bairro, melhorou um pouquinho, não é o mesmo de vinte anos atrás. A Edésia, uma pescadora do BBV, já esteve muito dentro do mar, mas hoje 80% da renda, não é da pesca, vem da costura. Nós temos cadastradas umas 8 pessoas e o restante são trabalhadores que ainda pescam. Para a pesca, o empreendimento não impactua, em função do porto ocupar uma área da pesca. Os peixes que fazem parte do habitat, são badejos, meros e por lei não estão liberados para a pesca (ENTREVISTA REALIZADA PELO AUTOR, 2010).
O que aparentemente seria um conflito com a pesca, em função da magnitude portuária, é, historicamente, para os pescadores um meio de conquistar melhores condições de vida. Aliás, essa dependência
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não é só no BBV. No bairro dos Paulas107, uma das maiores concentrações de pescadores de São Francisco do Sul, observamos que os números comprovam esta afirmação. Dos 278 estivadores registrados no Órgão de Gestão de Mão-de-Obra (OGMO), 30%, cerca de 80 moradores, são do Bairro dos Paulas, desses, 20% são pescadores artesanais. Já entre os 235 “arrumadores”, cerca de 50 são dos Paulas e 35% são pescadores artesanais, conforme dados do próprio OGMO de São Francisco do Sul108.
Rodrigues (2000), em sua pesquisa de mestrado, aponta que 76,3% dos 215 pescadores entrevistados da Colônia Z-2, em 2000, tem na pesca seu sustento principal. E que a maioria desses pescadores tem apenas um salário mínimo (referente ao ano de 2000) como renda e dividem a profissão com outras alternativas de trabalho como: a) construção civil; b) comércio; e, c) no setor de serviço, causando um forte impacto nos hábitos culturais destas comunidades.
Não estamos defendendo aqui as atividades portuárias sem levar em consideração a complexidade (contradição) com a qual esta mesma atividade manifesta para a cidade de São Francisco do Sul, especificamente para os pescadores do BBV. Não abandonamos os problemas que o avanço portuário produziu (e produz), no entanto, é mister apreender que, ao se expandir, o desenvolvimento portuário cria novas oportunidades de trabalho e supera as velhas109.
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Citamos o Bairro dos Paulas em função da proximidade com o Bairro Bela Vista. Para que se entenda ainda a influência do porto em São Francisco do Sul, a praia dos Ingleses, no Bairro dos Paulas é exatamente ao lado da praia do bairro Bela Vista.
108Os gráficos que apresentamos, mostram que no BBV a relação da comunidade com o porto é
quase que umbilical, ou seja, o porto tem a mesma influência, como em toda a cidade.
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A industrialização do transporte de cargas é um exemplo da dimensão da transformação operada nos portos do mundo. A introdução de contêineres criou uma capacidade sem precedentes e motivou uma perda volumosa de postos de trabalho, criando outras altamente especializadas, com mão de obra qualificada. DEECKE & LÄPPLE (1999, apud, SILVA & COCCO, 1999) mencionam que “... a integração à cadeia de transporte multimodal, resultante da difusão do uso de contêineres e computadores, habilita o denominado transporte door-to-
door (porta a porta), que trabalha com carga empacotada em contêineres desde o local de
origem até o destino final. Isto elimina a necessidade de atividades tradicionais, ou bem as localizam fora dos portos. A perda de funções causadas pela difusão dos serviços door-to-door afetou ainda mais as regiões próximas do porto, porque as atividades perdidas ou (re)localizadas estavam associadas ao porto como ponto de partida/chegada das mercadorias e lugar de armazenagem e fiscalização”. Em São Francisco do Sul, por exemplo, cresceu, nos últimos dez anos, o número de “pátios de conteineres” à caminho do porto e nas áreas circunvizinhas. A vida nos bairros passa a ser determinada pela dinâmica portuária, cada vez mais agressiva. A capacidade de aplicação de mão de obra neste novo processo portuário aumenta proporcionalmente na medida que a relação da cidade influencia o dinamismo portuário. O crescente nível de investimentos em tecnologias portuárias, agora em grande
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A relação dos pescadores artesanais com o Porto de São Francisco do Sul expressa a contradição de ser de um lado a possibilidade de uma vida social mais ampla e intensa, não em função somente de salário, férias remuneradas, feriados e domingos, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), aposentadoria e melhores escolas, mas como uma vida inserida em uma base produtiva mais diversificada e desenvolvida. E, do outro, intensifica a transformação das práticas dos pescadores artesanais. Essa contradição tange a vida da pesca artesanal em São Francisco do Sul.
A sociedade burguesa moderna separa o pescador artesanal da sua condição objetiva de trabalho; ela mostra a história enquanto expropriação ou separação do homem em relação à natureza e à comunidade, “a história da progressiva ampliação do domínio tecnológico e produtivo sobre a natureza” (QUAINI, 1979, p. 67).
Em todas estas formas em que a propriedade fundiária e a agricultura representam a base da organização econômica e, portanto, a finalidade econômica é a produção de valores de uso, a reprodução do indivíduo nas relações determinadas com a sua comunidade, nas quais ele representa a base da própria comunidade, - nós temos: 1) a apropriação, devida não ao trabalho mas pressuposta pelo próprio trabalho, da condição natural do trabalho, da terra, quer como
medida mecanizadas e parcialmente automatizadas, conduziu a uma brecha sempre ampliada entre, por um lado, a despesa regional em recursos como terra, potencial natural e dinheiro e, por outro lado, os efeitos regionais sobre o emprego e o valor agregado, lembram os autores acima mencionados. Precedentemente advertimos que o porto ao se expandir cria novos empregos, de fato isso acontece, no entanto, são empregos onde o uso da ciência é imprescindível. Isso pode explicar porque os pescadores, historicamente marcados por baixos níveis de escolaridade, são relegados a outras áreas de empregos. Na entrevista, que segue em anexo, com o Raul, pescador artesanal do Bairro Vila da Glória, leremos que já em 1950 ele dividia a pesca com os trabalhos portuários, mas naquela época a natureza do seu trabalho era alimentar os navios a vapor com lenhas. Ou seja, a “malha social” mediante a qual os homens produziam a sua existência permitia esse tipo de atividade. Hoje, os filhos dos pescadores ao se inserirem neste novo cenário portuário terão que ter como base a ciência. Estimamos que em São Francisco do Sul exista 10 pátios de conteineres espalhados por toda a cidade. Esses pátios movimentam uma grande quantidade de trabalhadores, são pessoas que estão ligadas as atividades de transporte, descarga, organização de conteineres em navios e em terra e serviços gerais. Esses pátios são uma mostra de como os portos vão se ampliando e decompondo todo um modo de vida tradicional na cidade. Ainda sobre o tema, cabe mencionar os trabalhos realizados pelos chamados Terminais de Cargas, os Portos Secos. Eles manifestam a capacidade portuária de ampliação de suas atividades, os portos hoje estão espraiados por toda a cidade, mas sobre isto falaremos em seguida.