6.2 DA ELABORAÇÃO DAS TRAJETÓRIAS TRAÇADAS
6.2.1 O tempo de ocupar: a tensão entre diversas ASDs
6.2.1.3 Dos processos imaginativos que construíram as trajetórias 01 e 02
É sabido que os processos imaginativos, prospectivos, em grande medida fazem uso das reconstruções do indivíduo sobre o passado, para então construir possíveis futuros (TATEO, 2015; ZITTOUN, 2013; VALSINER, 2012). Dessa forma, torna-se importante também demonstrar como os passados rememorados, cada um deles, promoveram um produto expresso pelo processo imaginativo. No caso de Douglas, exploraram-se como os passados rememorados aproximaram ou distanciaram possibilidades efetivas de futuro para sua trajetória de vida imaginada.
Como tal, o processo imaginativo promove um relativo afastamento do aqui-agora, enriquecendo-o, e permite que Douglas posicione-se frente à esfera de experiência proximal que habita, fazendo uso de rememorações e prospecções para construir possibilidades de ação para sua vida. Isso se dá, segundo Zittoun e colaboradores (ZITTOUN; CERCHIA, 2013; ZITTOUN, GILLESPE, 2016; ZITTOUN; GILLESPE 2010; ZITTOUN; DE SAINT- LAURENT, 2015) através de loopings que efetivamente ocorrem no aqui-agora e são influenciados pelos gatilhos e recursos que os alimentam. Dentre esses recursos pode-se citar, exemplificativamente, a influência das ASD, os direcionamentos sociais e outros signos presentes no ambiente. Essas ASDs perpassam o que esses mesmo autores nomeiam como plausibilidade, ou seja, como as decorrentes influências sociais apontam para tornar os significados construídos mais ou menos possíveis de efetivamente ocorrerem e que já foram inicialmente discutidos na elaboração das próprias trajetórias.
No entanto, o que se propõe aqui é explorar como isso se deu a partir dos conceitos desenvolvidos por Zittoun (ZITTOUN; CERCHIA, 2013; ZITTOUN, GILLESPE, 2016; ZITTOUN; GILLESPE 2010; ZITTOUN; DE SAINT-LAURENT, 2015; ZITTOUN, 2013). Para tal, inspirado no modelo teórico da autora, fez-se uma separação – hipotética – dos
loopings de cada uma das imaginações promovidas ao longo do primeiro momento de
sobrepostos em um único momento presente, mas em direção ao futuro) deslocando-as nesse tempo irreversível.
Essa notação visa uma melhor compreensão sobre os direcionamentos sociais em cada um desses afastamentos produziram passados rememorados (P0, P1 e P2) dispostos na figura
39 e que fazem alusão aos “tempo de fundação”, “tempo de abandono”, “tempo de planejar” e “tempo de ocupar”. Todos eles não seguem, no gráfico, uma disposição de uma sequência temporal, mas como signos-significados produzidos que interagem na produção de prospecções sobre futuro da região (F1, F2 e F3), que em sua essência condensam as prospecções de Douglas já referidas pela sua busca por um “lugar para pertencer” que se desdobra em vetores relacionados a “um lugar para viver” e “um lugar de sustento”.
Esses passados rememorados foram elaborados ao longo das entrevistas em decurso, e aqui foram explorados a partir não mais da prospecção de Douglas para si (como ocorreu em suas trajetórias), mas através do que irá acontecer com a região, circunscrevendo-se a unidade de análise participante<>cidade. Essa construção (figura 42), então, envolve os diferentes passados rememorados por Douglas na sua relação com a região, tentando-se conectá-las aos processos imaginativos (que fazem uso desse passado) posteriormente explorados pelo pesquisador, dado que objetivamente seria impossível, a qualquer tempo, analisar o fenômeno ocorrendo concomitantemente.
Figura 42 - Processos rememorativos e imaginativos do “tempo de ocupar”
Fonte: o próprio autor, 2018.
Rememorações do passado Zona de conflito entre as ASDs
Avenidas de Significados Dirigidos Produtos/Possibilidades de futuro
Tensão entre significações Gatilhos e recursos utilizados (pesquisador e
ambiente) F1 F2 F3 Início do processo Tempo Irreversível Presente P0 P1 P 2 S0’ S1 S0
Dito isso, ao reelaborar o seu passado durante o “tempo de fundação” (P0) em que
conseguia fazer uso da região, “um lugar pertencente à cidade”, a influência da ASD S0
permitiu que Douglas produzisse significados que se condensam efetivamente em áreas referentes a seu lazer e convívio, bem como se voltou a aspectos ligados a atividade de sustentação e laboral, esse último com alguma intencionalidade de minimizar riscos decorrentes da possibilidade do pesquisador ser um policial disfarçado. Delimitar essas duas frentes, permitiriam, a Douglas, conforto de entregar uma imagem de alguém acima de suspeitas, em tempo que evitaria falar – como fez – de qualquer outra pessoa que convive atualmente.
Por outro lado, já de uma maneira menos intensa, Douglas demonstrou como esse passado vivenciado no “tempo de fundação” (P0) foi ameaçado pelas transformações do
“tempo de abandono” (P1), quando passou a sentir os efeitos das novas maneiras que a
sociedade pernambucana explorava e dava significados próprios à região, retirando dela, as possibilidades de Douglas de seguir fazendo uso dela para sobreviver, elaborações vinculadas à influência da ASD S1. Esses signos-significados elaborados possuem também a marca social
ofertada e orientada, principalmente, pela imagem, genérica, de agentes representantes de instituições governamentais, policiais militares (representantes do poder executivo) e representantes de comunidades em interação com a Prefeitura e Governo do Estado. Todos eles, por sua vez, se contrapõem aos elaborados pela ASD S0 em uma zona de conflitos entre
os significados promovidos pelas ASDs.
Não menos importante os processos de rememoração que cunharam o passado rememorado recente do “tempo de planejar” e “tempo de ocupar” (P2), bem como os signos-
significados emergentes da influência da ASD S0’ (“lugar novamente pertencente à cidade”),
sustentam o contexto em que Douglas atualmente vive, sendo um importante momento de ruptura que levou Douglas a região e, como tal, tem forte influência do contexto e pertencimento atual que Douglas vive (no “tempo de ocupar”).
Esse emaranhado de significados promovidos pelas ASDs (S0, S1 e S0’) se transformou
em recurso para os processos imaginativos que, por sua vez, produziram futuros outros para Douglas e para região. Em outras palavras, as tensões entre os diferentes significados construídos através da elaboração dos passados rememorados resultaram numa síntese de significados que apontaram para futuros possíveis que acomodem todas as situações, sem necessariamente negá-las ou excluí-las.
Dessa forma, Douglas, ao pensar no futuro para si e para o Cais José Estelita, passou a imaginar a possibilidade de: a) haver uma obra na região (F1); b) construir residências (F2); e
c) cuidar da natureza e restaurar as linhas férreas e armazéns (F3). Cada uma dessas prospecções aportou-se em significados elaborados nas rememorações de Douglas e como a interação entre esses diferentes significados provocam uma tensão, sobre as possíveis elaborações de futuro, gerando uma zona de conflito de direcionamentos existentes na sociedade Pernambucana e pelas ASDs, e decorrentes significados, elaborados por Douglas.
Aparentemente, o futuro de que poderia haver uma obra na região (F1) foi construído a
partir da própria demanda do pesquisador que direcionou elaborações dessa ordem. Nesse ponto, Douglas, em um misto de assumir a posição de morador de rua em busca de emprego, prospectou futuros em que pudesse tornar-se alguém que retomar sua vida laboral, na construção civil (momento em que se afastou do CJE – P1) e fazer da região, novamente,
lugar de trabalho, existente no “tempo de fundação” (P0), apesar de imaginar que não teria
espaço para si dado que seria algo feito e edificado por pessoas que não são da região, “tempo de ocupar” (P2). Aqui, durante o “tempo de ocupar”, a plausibilidade decorrente dessa síntese
afasta a efetivação de que essa prospecção pudesse de fato, interferir na sua vida na região. Sua prospecção de futuro que envolveu a construção de residência na região (F2), mais
uma vez, remete a forte influência do pesquisador ao direcionar possibilidades distintas do que se via na região. Nesse ponto, Douglas prospectou um futuro que remetia a significados que orientavam, ao longo do “tempo de planejar” e do “tempo de ocupar” (P2), uma busca por
uma moradia para si, reforçado por significados produzidos por meio de rememorações do período em que outras pessoas residiam na região durante o “tempo de fundação” (P0). Não à
toa, expresso pelo próprio Douglas, caso houvesse alguma obra, imaginava como a opção mais plausiva de todas, que o mais provável de ocorrer seria a construção de residências para que nelas pudesse viver.
Nessas duas primeiras prospecções (F1 e F2), Douglas sinalizou a importância de haver
um registro histórico que referenciasse o que o Cais José Estelita foi um dia, destacando a importância que decisões como essa permitem guardar certa essência da região. Ou seja, Douglas, de outra forma, destacou a importância de aspectos materiais expressos na própria arquitetônica da cidade que servissem de guia para reforçar um passado importante e que está sendo colocado de lado. Assim, a caráter exemplificativo, Douglas recomendou o uso de um dos Galpões para que fosse montado um museu com maquinários e peças que representassem da história da região, “o que ela foi um dia” (sic). Para que quem lá chegasse, “soubesse que ali já foi um Cais” (sic).
Esse posicionamento de Douglas remete a forma como o ser humano, semioticamente, lida com o ambiente que o cerca, precisando construir sentidos sobre ele e, na nossa visão,
circunscrever a história do espaço do qual pertence. E, da mesma forma, também representa a importância de materiais que se relacionem com a sustentação de uma memória coletiva que permite circunscrever um senso de pertencimento e identidade, através desse reconhecimento histórico das coisas que um dia existiram.
Já a terceira prospecção de futuro possível para região (F3) envolveu o espaço que
circunscreve o local de pesquisa, região que desde sua infância Douglas visitava em busca de sustento ou confraternizar com amigos e irmãos. Dessa forma, os signos-significados emergentes ligados a esse passado (P0) durante o “tempo de fundação” são utilizados como
recurso para os processos imaginativos prospectivos que resultam na busca por um retorno ao que a região foi um dia, que voltasse a ser como fora em sua infância: “a maré era possível de pescar, as linhas de trem e armazéns voltassem a funcionar” (sic). Essa elaboração, de todas, sinalizou uma maior influência das elaborações produzidas a partir da ASD S0.
Em termos de conflitos entre esses significados produzidos através das influências das ASD S0 e S1, promovem tensões entre aqueles vinculados ao “tempo de abandono” (P1) e
aqueles referentes ao “tempo de fundação” (P0). No entanto, ambos não demonstram grande
plausibilidade para Douglas, mas fazem parte dos processos imaginativos, junto às influências dos significados emergentes da influência da ASD S0’ que remonta ao passado recente do
“tempo de planejar” e “tempo de ocupar” (P2), para então efetivar os vetores de ação possíveis
para o seguimento da história de vida de Douglas.
Ou seja, compreende-se que os passados rememorados tornam-se também recursos para o processo imaginativo na para construção de possíveis futuros imaginados. Cada um desses futuros, então, é atravessado por diversos direcionamentos sociais (políticas de rememoração e imaginação) e ASDs construídas pelo participante que juntos promoveram o surgimento de trajetórias plausíveis das quais o participante pode ou não seguir, a depender de como sua vida e suas influências se seguem.
Essas elaborações puderam ser exploradas a partir de um contínuo, ao longo das entrevistas, surgindo em momentos alternados ao longo da entrevista, sendo a ordem aqui expressa no gráfico para caráter de compreensão do fenômeno, em tempo que, vale destacar, o limita e simplifica.