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Dos professores das Escolas

No documento Tese Karina Pereira Pinto (páginas 95-100)

Capítulo 2. Espírito sadio e cultura profissional

2.3. Da Escola de Professores

2.3.1. Dos professores das Escolas

Como dissemos anteriormente, as Escolas Secundária e de Professores do Instituto de Educação eram organizadas em seções, possuindo estas seus respectivos professores- chefe e professores assistentes. De acordo com o Decreto 3.810, de 19 de março de 1932, os professores da Escola Secundária e os da Escola de Professores do Instituto de Educação tinham obrigatoriedade de cumprir 6 e 12 horas semanais de trabalho, respectivamente, “incluindo o tempo gasto em trabalhos de laboratorio e conferencias,

com os alumnos”. Os professores da Escola Secundária seriam escolhidos entre os

11 Neste documento há referência de ter sido publicado no Boletim de Educação Pública, no número de janeiro-junho de 1933.

professores assistentes, “por merecimento”, sendo este submetido aos seguintes critérios:

“O merecimento será apurado por uma commissão de quatro professores, sob a presidencia do director da Escola, levando-se em conta:

a) publicação de trabalhos originaes, didacticos ou de pesquizas, sobre a materia ensinada;

b) assiduidade no exercício do magisterio;

c) attitude dos alumnos para com o professor, verificada em classes; d) comportamento social” (Distrito Federal. Decreto 3.810, 19/03/1932).

Já os professores da Escola de Professores seriam escolhidos e contratados por períodos de dois a cinco anos, desde que preenchessem as seguintes condições:

“I – Idoneidade profissional especializada, attestada por diplomas escolares, títulos scientificos, trabalhos publicados de reconhecido valor, commissões cabalmente desempenhadas;

II – Idoneidade moral attestada por directores de estabelecimentos officiaes de ensino”. (Distrito Federal. Decreto 3.810, 19/03/1932).

Em relação aos professores assistentes, há uma diferença maior entre as Escolas Secundária e de Professores, apontada no decreto. Os professores assistentes da Escola Secundária preencheriam as vagas mediante concurso. Neste, constariam as etapas de prova escrita, prática e oral, sendo requisito para a inscrição no concurso, dentre vários aspectos, comprovada “idoneidade moral attestada por quatro professores de

estabelecimentos officiaes de ensino secundario ou superior, de preferencia do Instituto” e

“idoneidade profissional especializada para a materia em concurso, attestada por diplomas escolares, titulos scientificos ou trabalhos publicados e commissões cabalmente desempenhadas”. Já em relação aos professores assistentes da Escola de Professores haveria uma seleção “entre os professores primarios da Directoria de Instrucção ou de

entre professores diplomados por escolas normaes officiaes que tenham cursos especializados”, não constando nada mais específico sobre os critérios do processo seletivo. No entanto, nos ofícios do Diretor Geral do Instituto de Educação, há várias seleções mediante concurso para preenchimento de vagas de professores assistentes das seções da Escola de Professores. No ofício nº 120, de 31 de março de 1934, o professor-

chefe da seção de Biologia Educacional e Higiene propõe a abertura de um concurso para contratação de um assistente para a seção:

“Propoz o Sr. Chefe da Secção acima referida, que ao concurso só possam concorrer professores de ambos os sexos, diplomados por este instituto ou pela antiga Escola Normal (...).

Propoz ainda que a escolha se faça por meio de prova de habilitação que permita verificar possuirem os candidatos conhecimentos fundamentais de Biologia Geral, Anatomia e Fisiologias Humanas, Higiene da Criança, Psicologia e Estatística aplicada à Educação e à Biologia” (Ofício do Diretor nº 120, 31/03/34).

Em relação às professoras primárias que ocupariam os cargos de assistente nas seções de Matérias de Ensino e de Prática de Ensino, o processo seletivo envolve uma parte prática:

“Exmo. Sr. Diretor Geral do Departamento de Educação

1. Tenho a honra de transmitir a V. Ex. o relatório e parecer da Sra Professora Chefe de Matérias de Ensino da Escola de Professores, referente ao estagio das Sras. Professoras Alfredina de Paiva e Souza e Mathilde Cirne Bruno, candidatas ao concurso para provimento de um logar de assistente na referida Secção.

2. Conforme V. Ex. verificará, o parecer da Sra. Professora chefe conclue pelo aproveitamento das duas candidatas, ambas na secção de Matérias, ou a professora Alfredina nessa Secção, e a professora Mathilde na Secção de Prática de Ensino.

3. Tendo acompanhado os trabalhos de estagio dessas professoras, cumpre-me declarar que estou de inteiro acôrdo com o parecer da Sra. Professora-Chefe, julgando acertado o aproveitamento, por contracto, das duas candidatas, como está aviltado na segunda hipótese, isto é:

Professora – Alfredina de Paiva e Souza, para a Secção de Matérias;

Professora – Mathilde Cirne Bruno, para a Secção de Prática. Reitero a V. Ex. protestos de elevada estima e distinta consideração. Lourenço Filho, Diretor” (Ofício do Diretor nº 52, 06/02/34).

Havia ainda, além dos professores e professores assistentes, a categoria dos professores-chefe das seções das Escolas Secundária e de Professores. Aos professores- chefe cabia:

“a) promover a unidade e a articulação do ensino das diferentes materias da secção, entre si;

b) organizar, além dos cursos ordinários, outros de revisão e de gráos mais avançados, que se tornem necessarios;

c) superintender e acompanhar a execussão dos programmas, suggerindo a melhoria dos processos didacticos” (Distrito Federal. Exposição de Motivos, 1932).

A nomeação dos professores-chefe se realizava por designação do Diretor Geral de Instrução Pública, a partir de indicação dos diretores da Escola Secundária e da Escola de Professores do Instituto de Educação. Estes professores-chefe deveriam atuar de maneira integrada, constituindo, para isso, um conselho técnico que “promoverá, em um cyclo mais

elevado, a unidade cultural de todos os cursos” (Distrito Federal. Exposição de Motivos, 1932), devendo se reunir “quando fôr necessário, por convocação e sob a presidencia do

director da respectiva Escola, para discutir e approvar os programmas e verificar a execussão dos mesmos” (Distrito Federal. Decreto nº 3.810, 19/03/32). Os diretores das Escolas Secundária e de Professores tinham autonomia em relação ao Diretor Geral do Instituto de Educação, ao mesmo tempo em que estavam sob a coordenação deste. Segundo o artigo “O Instituto de Educação”, “a cada uma das Escolas, que compõem o

Instituto, é dada organização autônoma e direção privativa; a coordenação geral dos trabalhos e superintendência administrativa cabe ao diretor da Escola de Professores, diretor-nato do conjunto, por força da lei” (O Instituto de Educação, 1934, p. 05). Mario de Brito, diretor da Escola Secundária, comenta a autonomia das Escolas do Instituto, ressaltando o papel de Lourenço Filho:

“É preciso explicar aqui que a legislação declarava o segundo diretor independente do primeiro, mas fácil foi verificar que o sistema não funcionaria se tomado ao rigor da letra. Minha associação com Lourenço Filho provou que dispositivos legais, porventura inconvenientes, não são óbices a uma administração eficaz.

Lourenço Filho era pedagogo de carreira, que fôra, também, tipógrafo e revisor de jornais, aliando a isso uma prática administrativa, no terreno da educação, não pequena, exercida em São Paulo e no Ceará, onde dirigia a instrução pública. Eu era, apenas, o autodidata, que, por acaso, também possuía alguma prática como homem de jornal, já que trabalhara em dois dêles, por dois anos, como adição às minhas atividades de professor. Eu nunca estudara psicologia, que era a especialidade do diretor do Instituto de Educação, e via as tarefas escolares à luz da mentalidade do

engenheiro e do homem de laboratório, embora uma incursão no campo da política já me houvesse revelado a extrema importância daquela ciência. Creio que é à Psicologia que devemos o sucesso com que foi conduzida minha integração na gerência conjunta do Instituto de Educação” (Brito, 1959, p. 70).

Este texto de Mario de Brito é uma homenagem a Lourenço Filho, publicada no

livro jubilar organizado pela Associação Brasileira de Educação. As palavras de Mario de Brito, portanto, são elogiosas, como convém a um livro de homenagens, mas delas podemos extrair algo do funcionamento e coordenação das Escolas do Instituto de Educação. Apesar de afirmada a autonomia pela legislação, Mario ressalta a estreita relação das Escolas através da figura central de Lourenço Filho. Esta centralidade, no entanto, se faz presente não explicitamente através da legislação, mas através da organização das Escolas do Instituto em seções, pois, uma vez que as diretrizes de trabalho do Instituto de Educação deveriam estar voltadas para a formação profissional do professor, todas as atividades ali realizadas deveriam tomar como parâmetro a seção de Prática de Ensino, “eixo central” da “preparação profissional do professor”, “a que se

devem subordinar, e a que devem servir, todos os demais cursos do programa” (Anísio Teixeira, Como ajustar os ‘cursos de matérias’, 1933). Sendo a seção de Prática – seja de ensino elementar ou secundário – uma seção da Escola de Professores, de certa forma, cabia a esta Escola a direção geral dos trabalhos das demais Escolas do Instituto: a Escola Secundária, ao mesmo tempo em que era requisito à formação de professores, organizando sua grade curricular neste sentido, no momento em que passa a funcionar a formação de professores secundários, torna-se uma escola de demonstração e prática de ensino, devendo estar subordinada à seção de Prática da Escola de Professores; e a Escola Primária e o Jardim de Infância do Instituto teriam suas organizações diretamente articuladas aos objetivos da Escola de Professores, uma vez que serviriam de local de demonstração e prática de ensino das futuras professoras primárias12.

Lourenço Filho, que assumia os cargos de Diretor Geral e Diretor da Escola de Professores, ocupava o lugar central de poder na organização e funcionamento não só do Instituto de Educação – onde estava presente no conselho técnico como professor-chefe e diretor da Escola de Professores, logo, responsável pela indicação dos nomes de quem

12 O Jardim de Infância não será abordado com mais detalhes nesta tese por dois motivos interligados: por não se constituir num elemento essencial para compreender a prática de ensino da formação de professores primários; e pela escassez de documentos relativos ao seu funcionamento.

compõe o conselho –, mas das novas diretrizes implementadas na formação de professores do Rio de Janeiro, capital do país, assumindo um lugar definido e importante numa reforma da instrução pública que trazia como principal objetivo transformar a instrução primária pela reforma na formação de professores.

No documento Tese Karina Pereira Pinto (páginas 95-100)