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Doutor, PUC Minas,

No documento http://conpdl.com.br/conpdl anais (páginas 96-116)

Palavras-chave: subjetividade – poder – história dos sistemas de

pensamento

1 Introdução

Busca-se uma reconstrução das condições de possibilidade para a afirmação da identidade dos sujeitos de direito no Brasil contemporâneo. Para tanto, parte-se da metodologia da história dos sistemas de pensamento, proposta por Foucault, em que a indagação sobre o que somos em nosso próprio tempo e lugar é respondida por meio de uma análise transdisciplinar em que os poderes políticos, os saberes científicos e as subjetividades conformam os fatos de discurso determinantes para a produção e reprodução da normalização social.

A contribuição metodológica de Foucault se apresenta como um amplo eixo de reflexão sobre as ciências humanas, ou seja, sobre o que é o sujeito moderno e sobre como esse mesmo sujeito se tornou objeto de um saber que alcançou o status de verdade. Portanto, tal metodologia emerge como apta para uma problematização que envolva o Direito, a Psicanálise e a Literatura, três aspectos das ciências humanas que permanentemente constroem e reconstroem subjetividades por meio de um saber-poder. O romance Vidas secas, de Graciliano Ramos, desponta neste

trabalho como referencial para a reconstrução da identidade do sujeito de direito no Brasil. A estética do sertão, as metáforas do silêncio e da seca, o contexto paradoxal de estagnação e fugacidade, sintetizados pela escassez material e imaterial, tudo isso culmina em uma análise das relações de poder historicamente hegemônicas na sociedade brasileira, relações que confirmam a prevalência das estratégias de dominação frente às estratégias

entre liberdades, enquanto tecnologias de governo que conformam uma sociedade específica (FOUCAULT, 2004b).

Busca-se, assim, sustentar a hipótese de que o déficit de cultura política e de direitos nesta sociedade deve-se ao processo sistemático de normalização das subjetividades. Esse processo de fabricação do povo brasileiro se funda, segundo a metodologia da história dos sistemas de pensamento, em estratégias de dominação, ou seja, em tecnologias de governo de si e dos outros que impossibilitam o processo de livre afirmação das identidades individuais e coletivas.

O paradoxo das sociedades de normalização mostra que a norma como medida de controle e correção sintetiza a crueza da força. A sociedade de normalização simboliza uma ruptura entre o sujeito e a subjetividade: emerge um tipo de sujeito, submetido a uma série de tecnologias que, com seus distintos instrumentos de medidas, se apropriam da vida e determinam (objetivam) a subjetividade, forjando (normalizando) a identidade do indivíduo-sujeito.

Objetiva-se, assim, consolidar a tese da relevância da metodologia da história dos sistemas de pensamento para o empoderamento social, buscando-se alcançar alternativas para a situação de naturalização da marginalização e da exclusão social no Brasil contemporâneo.

Sustentando-se a posição institucional do discurso constitucional dos direitos humanos e fundamentais no Brasil atual, reconhece-se em tal discurso o escopo para relações de poder em que sujeitos e grupos se afirmem como cidadãos, ou seja, como sujeitos de direito, por meio de uma identidade em permanente formação, constitucionalmente fundada na cultura política e de direitos, para o governo de si e dos outros.

2 Foucault e sua contribuição para uma análise transdisciplinar sobre o que somos, o que podemos ser e o que devemos ser

A metodologia da história dos sistemas de pensamento possibilita a constatação da estrutura paradoxal dos fatos de discurso que, com seus jogos de verdade e seus efeitos de saber e de poder, objetiva (determina) subjetividades por uma dúplice perspectiva: estratégias entre liberdades e estratégias de dominação (FOUCAULT, 2004b). Sustenta-se que a tríplice e relacional tematização – envolvendo os aspectos do poder, do saber e da subjetividade –, que permeia a reflexão foucaultiana, se apresenta como uma metodologia apta a mostrar a relevância de uma postura ética no processo de livre afirmação das identidades individuais e coletivas em um Estado Democrático de Direito.

Em termos conceituais, importa salientar que a constatação de que a paradoxalidade que atualmente permeia o discurso dos direitos subjetivos deve-se, em boa medida, ao posicionamento dos atores individuais que compõem uma sociedade específica. Para Foucault (2004b), o nível de complexidade atingido pelas sociedades contemporâneas demanda, quando se busca uma resposta para a indagação sobre o que somos em nosso próprio tempo e espaço, uma metodologia que agregue diferentes níveis de análise.

Foucault propicia uma análise do discurso dos direitos e dos sujeitos de direitos sob a tríplice perspectiva dos poderes políticos, dos saberes científicos e das relações de si para consigo. Portanto, torna-se insuficiente dizer, tendo como referencial a metodologia da história dos sistemas de pensamento, que o Estado de Direito brasileiro é o resultado de uma longa construção teorético-racional, que a Constituição Brasileira de 1988 recepcionou sob a forma de direitos fundamentais.

A proposta de uma análise das práticas discursivas que culminam em um sistema de direitos pretende mostrar que, segundo a metodologia da história dos sistemas de pensamento, atualmente só faz sentido pensar os direitos subjetivos em termos de efeitos produzidos nas pessoas e no que estas reproduzem em uma sociedade específica.

Assim, justifica-se a necessidade de situar esta pesquisa em um campo de análise histórico-pragmático, em que os diferentes usos ou jogos de linguagem objetivam as subjetividades, sob a capa espessa dos direitos subjetivos. Tal espessura se percebe quando Foucault alerta para a ambigüidade característica das sociedades contemporâneas, marcadas por relações de poder que se desdobram em estratégias entre liberdades e em estratégias de dominação. Quer dizer que o discurso dos direitos subjetivos dinamiza condições de possibilidade normalizadoras e emancipatórias.

Foucault (2004b) considera que a objetivação e a subjetivação não são independentes, uma vez que do seu desenvolvimento mútuo e da sua ligação recíproca emergem “jogos de verdade”, ou seja, as regras segundo as quais, a respeito de certas coisas, aquilo que um sujeito pode dizer decorre da questão do verdadeiro e do falso. Os jogos de verdade abrem um campo de experiência em que sujeito e objeto são ambos constituídos apenas em certas condições simultâneas, mas que não param de se modificar um em relação ao outro e de modificar o próprio campo de experiência.

Para Foucault (2004b), não há sociedade sem relações de poder. Tais relações, contudo, não devem ser concebidas como alguma coisa má em si mesmas, mas como estratégias pelas quais os indivíduos tentam conduzir e determinar a conduta dos outros.

Nesta perspectiva, Foucault (2004b) indica que, ao invés de tentar dissolver as relações de poder na utopia de uma comunicação perfeitamente transparente, deve-se atentar para os princípios jurídicos, as técnicas de gestão, a moral, o êthos e a prática de si, que permitirão, nesses jogos de poder, jogar com um mínimo possível de dominação. Este seria o ponto de articulação entre a preocupação ética e a luta política pelo respeito dos direitos subjetivos, a convergência entre a reflexão crítica contra as tecnologias normalizadoras e a investigação ética que permite instituir a liberdade individual.

Sustenta-se, no rastro de Foucault, a necessidade de um posicionamento crítico dos atores sociais para que a prática discursiva dos direitos subjetivos, antes de objetivar (determinar) subjetividades, zele pela permanente busca da livre afirmação das subjetividades/identidades. Para tanto, demanda-se o que Foucault (2005) chamou de atitude de modernidade, ou seja, uma ação ética e crítica em que o eu e o outro buscam se afirmar como um povo livre e responsável.

Foucault concebe a ética como prática refletida da liberdade, ou seja, como conseqüência do cuidado de si (2004a). Sustenta-se, a partir desta mirada, uma relação estrutural-pragmática entre a ética do cuidado de si e a cultura política e de direitos. A contribuição da metodologia da história dos sistemas de pensamento para a ressignificação das condições de possibilidade do discurso dos direitos é clara: a reconfiguração do discurso dos direitos pela história dos sistemas de pensamento pode acarretar uma significativa alteração na dinâmica de uma sociedade específica. Isso porque o governo de si e dos outros, a partir do cuidado de si, densifica a atitude de modernidade em uma atitude de transfiguração através de estratégias entre liberdades, em que o alto valor do presente se mostra

indissociável da obstinação de imaginar e transformar (FOUCAULT, 2005). Nesta perspectiva o homem moderno é aquele que busca inventar-se a si mesmo, ainda que para tanto seja necessário reinventar a dinâmica social e, conseqüentemente, contar uma outra história dos sujeitos de direito e de si mesmo.

3 A literatura como filtro estético para a história dos sistemas de pensamento

Vidas secas foi publicado em 1938. Em termos de estrutura literária, a

poesia e o romance brasileiros da década de 1930 se destacam pela tematização da difícil realidade política gerada pela ditadura Vargas, a partir de 1930 (CAMPEDELLI & SOUZA, 1999: 252 et seq.).

A cena literária daquele momento foi tomada por uma perspectiva estética mais madura e socialmente comprometida, voltada para um mundo transformado e desconcertante, que precisava ser compreendido (CAMPEDELLI & SOUZA, 1999: 252 et seq.). Assim as poesias de Drummond e os romances de Graciliano Ramos, por exemplo, por sua preocupação social e, simultaneamente, por seu intimismo, caracterizam o realismo crítico na literatura brasileira.

Ramos, em carta de 1937 endereçada a sua mulher, considera um dos capítulos que compõem a novela: “[...] É a quarta história feita aqui na pensão. Nenhuma delas tem movimento, há indivíduos parados. Tento saber o que eles têm por dentro” (FELINTO, 2006: 129).

Segundo Felinto (2006), o ar de indivíduos parados advém do mutismo de origem social, de classe, que acomete o vaqueiro e sua família. Neste sentido a seca e a pobreza calam e embrutecem aquela família, como se ela não tivesse direito nem a um pedaço de terra nem a uma linguagem.

A repressão, o autoritarismo, o silêncio, a desigualdade e a escassez são constantes do diagnóstico que acusa a imposição de um imaginário que reproduz e normaliza a exclusão e a desigualdade social no Brasil. Um imaginário em que o povo não é homem nem bicho, mas “[...] vagabundo empurrado pela seca” (RAMOS, 2006: 19); e em que “[...] o governo é coisa distante e perfeita, que não pode errar” (RAMOS, 2006: 33).

Vidas secas toca diretamente na questão da identidade constitucional

e de seus problemas constitutivos. A identidade constitucional como algo complexo, fragmentado, parcial e incompleto, é produto de um processo dinâmico, um processo que considera o sujeito e a matéria constitucionais como uma ausência mais do que como uma presença, pois a identidade do sujeito constitucional se desenvolve em um hiato, onde o sujeito constitucional é o sujeito do discurso constitucional (ROSENFELD, 2003: 23

et seq.).

No romance os personagens intuem que somente o domínio de uma linguagem pode levá-los a compreender a natureza hostil e a enfrentar de modo menos desigual os problemas de seu ambiente.

A idéia de justiça, enquanto perspectiva ética do discurso dos direitos, no sentido de uma técnica de existência que implique no governo de si e dos outros, é apenas intuída pelos personagens do romance. Mas estes encontram-se impossibilitados de nomear o que está errado, ou de reivindicar a concretização de seus direitos fundamentais.

Faltava-lhes linguagem, o que equivale a ter subtraída a possibilidade de construção da identidade, que se desenvolve em um hiato que é também projeção. Isso porque a semântica da cidadania, ou seja, a condição de sujeito de direito, se mostra como atributo dos sujeitos em construção, que encontram suas principais ferramentas de afirmação na

linguagem, não no “povo” que sofre a naturalização da situação de “cabra”.

Mas por que exatamente a auto-identidade constitucional não se aplica aos brutos que não têm o direito de ter direitos? A partir da análise das concepções de povo e de cidadania no contexto brasileiro da década de 1930, pode-se comprovar que o imaginário da sociedade brasileira em relação a tais concepções insinua algo como um mecanismo de frustração à construção da auto-identidade constitucional.

Percebe-se um processo estrutural de estigmatização que culmina na desmobilização de procedimentos de constituição de capital humano e social: uma perversa microfísica do poder disciplinar aliada ao poder regulamentador dos saberes clínicos, em que o discurso dos direitos subjetivos é reproduzido para a manutenção de privilégios por meio da multiplicação e da naturalização das tecnologias de dominação (dispositivos de subjetivação/assujeitamento), e não para a promoção de uma cultura política condizente com o paradigma do Estado Democrático de Direito.

O diagnóstico do déficit de cultura política de direitos humanos na semântica de cidadania no Brasil é apresentado por Wanderley Guilherme dos Santos (2006), ao investigar os determinantes estruturais da sociedade brasileira. O autor pretende responder à questão paradoxal da coexistência pacífica de um país que se moderniza e enriquece materialmente, e dá tratamento relapso a enorme contingente de pobres e miseráveis.

Adotando a concepção de História como narrativa pseudo-repetida (SANTOS, 2006), de onde emerge uma dramaturgia original de cada diferente olhar, Santos se posta no paradigma epistemológico da complexidade, condizente com a problematização da identidade do sujeito de direito brasileiro a partir da história dos sistemas de pensamento.

Santos questiona por que a instabilidade criadora e produtiva da democracia representativa não capturou e subverteu, no Brasil, as práticas de estagnação e de rotinas conservacionistas, que se mostram como poderosos obstáculos a transformações na estrutura das desigualdades (2006: 13 et seq.).

A resposta, segundo o autor, está na assimetria do poder entre sociedades centrais e periféricas, uma vez que garante-se a difusão das opiniões características dos centros e sua adoção por “subcoletividades da periferia”, que passam a considerar patológico tudo que lhes é específico (SANTOS, 2006: 36).

Buscando indicadores da infra-estrutura da política no Brasil, Santos constata que o crescimento populacional, a urbanização, a diferenciação setorial da economia e o aprofundamento da divisão social do trabalho são movimentos que determinam o ritmo de variáveis superestruturais (2006: 39). Consequentemente, quanto maior a velocidade desses fluxos, mais instáveis e temporários serão os ajustamentos.

Assim as estratégias de comportamento orientadas para o futuro incorporam uma taxa de risco elevada, devido ao caráter movediço da infra-estrutura social e aos sucessivos reajustamentos nas demais estratégias (SANTOS, 2006: 45).

A ebulição da infra-estrutura transmite transitoriedade a tudo que nela se sustenta, como a ocupação, as relações comunitárias e a pauta de demandas e conexões políticas. Nesta perspectiva a resposta das instituições converte-se em acordos precários, “[...] em rotatividade de elites e de candidatos a elite a ritmo vertiginoso” (SANTOS, 2006: 46).

Logo, em uma sociedade como a brasileira – cuja infra-estrutura se move em sensível velocidade, na qual o impacto das mudanças atinge

igualmente as instituições de superestrutura como partidos, parlamentos e Judiciário, e em que a taxa de aversão ao risco dos indivíduos é alta –, seus membros operantes não podem deixar de preferir o risco da instabilidade produtiva ao caráter letal da estabilidade de um diagnóstico de lesões sistemáticas aos direitos subjetivos.

Em tal quadro, o exercício ético-político da cidadania implica em aceitar riscos, e omitir-se significa frustrar as possibilidades de afirmação identitária.

Santos (2006) afirma que o Brasil de hoje, em termos políticos, em nada tem a ver com o Brasil de 1930, e a insatisfação da população revela não tanto uma insatisfação com a democracia, mas com o subdesenvolvimento das instituições democráticas.

O autor indica que nos últimos 15 anos o Brasil ingressou em um processo de subdesenvolvimento institucional, posto que a diversidade e a complexidade, características de qualquer pretensa cultura política de direitos humanos, não se encontram adequadamente expressas nas instituições nacionais, especialmente em suas rotinas de decisão.

Segundo Santos, não tem sido explorada a possibilidade de que a imaginária alienação das massas, cativas em seu exaustivo papel de fábrica de representações, derive de uma estratégia de sobrevivência em um contexto de constitucionalidade precária como a do Brasil (2006: 128).

Assim o “horizonte do possível”, na sociedade brasileira, representa o paradoxo de trazer em si o progresso e a mobilidade junto com a promoção da privação relativa (SANTOS, 2006: 174 et seq.). Neste sentido Santos considera que as mudanças necessárias na sociedade brasileira precisam ultrapassar certo limiar de sensibilidade social, para que o hiato

de privação que conforma o povo brasileiro seja publicamente percebido e devidamente tratado como um problema a ser superado.

Aquém dessa divisória, prossegue Santos, o “horizonte do desejo” é ainda muito medíocre para que uma precária mudança marginal seja interpretada como estímulo a demandas ulteriores.

A população pouco informada e em boa medida carente de qualquer noção de direitos fundamentais, como é o caso de expressiva parcela da sociedade brasileira, indica certa indiferença para com as instituições políticas. Mas a escassa participação política do povo brasileiro, segundo Santos, não indica necessariamente alienação. Trata-se da circunstância de que os riscos, nas “subsociedades brasileiras”, são consideravelmente superiores às expectativas de possíveis ganhos.

O custo do fracasso e a falta de organização resultam da apatia característica da sociedade brasileira, onde se revela um evidente descompasso entre a magnitude das carências sociais e o empenho da própria sociedade em resolvê-las. Segundo Santos (2006), não sobra tempo para isso, uma vez que a alocação prioritária de tempo e recursos dos indivíduos vai para a solução de urgentes problemas pessoais e familiares.

Santos conclui que o Brasil encontra-se aquém do limiar da sensibilidade social, e assim tem convivido, pacificamente, com a miséria cotidiana, material e cívica, sem gerar grandes ameaças ou focos de resistência à naturalização destas.

Para ilustrar ainda mais esse horizonte de instabilidade e inércia social, José Murilo de Carvalho considera que o autoritarismo brasileiro pós- 1930 sempre procurou compensar a falta de liberdade política com o paternalismo social (2002: 190). Carvalho sustenta que, apesar dos avanços relacionados aos direitos que compõem a cidadania, desde a Constituição

de 1988, no Brasil os direitos civis apresentam sérias deficiências em termos de seu conhecimento, extensão e garantias (2002: 210 et seq.).

Graciliano Ramos exemplifica, em Vidas secas, os elevados riscos que a busca pela afirmação da identidade do sujeito de direitos acarreta. Os personagens do romance, designados como “[...] infelizes, [...] cansados e famintos” (RAMOS, 2006: 9), representam uma família de retirantes, descrita também como “[...] miudinhos, perdidos no deserto queimado, [...] os fugitivos” (RAMOS, 2006: 14).

Fabiano, o chefe da família – “fabiano: pobre-diabo; indivíduo qualquer, desconhecido, sem importância” (FELINTO, 2006) – “[...] tinha o coração grosso, precisava responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário. [...] E o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde” (RAMOS, 2006: 10). Contudo, seus movimentos pareciam inúteis, uma vez que “[...] o vaqueiro, o pai do vaqueiro, o avô e outros antepassados mais antigos haviam-se acostumado a percorrer veredas, afastando o mato com as mãos” (RAMOS, 2006: 17-18).

O conflito psicológico que se instaura no ambiente desolado do sertão é um claro indicador da existência das condições necessárias para a tematização da reconstrução da identidade/subjetividade, embora, no romance, esta busca pela afirmação identitária só pudesse advir das próprias potencialidades dos sujeitos, sem qualquer respaldo institucional.

A relativa estabilização das condições materiais de existência da família – o que claramente não remete à semântica de efetividade dos direitos – é problematizada, na novela, por meio de uma linguagem tão seca quanto o ambiente, de onde emerge uma reflexão existencial que

quase não chega a motivar o vaqueiro, por sua quase incapacidade em dar continuidade à reconstrução de sua identidade:

[...] – Fabiano, você é um homem. [...] Pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros.

[...] – Você é um bicho, Fabiano. [...] Um vagabundo empurrado pela seca (RAMOS, 2006: 18-19).

O questionamento interior de Fabiano quanto à sua condição humana – o que se dá pela contraposição entre humanidade e brutalidade – revela uma interessante ruptura em sua existência: “[...] Era como se na sua vida houvesse aparecido um buraco” (RAMOS, 2006: 21). Neste panorama, tudo aquilo que até então “era natural” – como a desigualdade entre as pessoas, a fatalidade da seca e a sorte ruim – apareceu a Fabiano como passível de superação.

A sensação de escassez – material e psicológica –, de fragmentariedade, revela o indivíduo como uma carência, uma carência a ser suprida pela aquisição de uma identidade como sujeito, o que se dá a partir da ordem simbólica da linguagem (ROSENFELD, 2003: 33). Segundo Rosenfeld, a identidade do sujeito torna-se predicável com o reconhecimento dos outros (2003: 31). Neste sentido, a Constituição enquanto projeto político-jurídico de uma sociedade, ou seja, enquanto estrutura institucionalizada de um sistema de pensamento específico,

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