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Graduação Faculdade de Direito Milton Campos

No documento http://conpdl.com.br/conpdl anais (páginas 195-200)

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Palavras-chaves: louco, sujeito, direito.

1. INTRODUÇÃO HISTÓRICA

Nesse artigo trataremos do louco como sujeito de direito. Não do louco em si mesmo, como um fato isolado e paradigmático, mas sim do mesmo visto através da nova ordem constitucional com suas garantias fundamentais, todavia para se pôr a pensar neste estado há que se fazer um breve percurso histórico.

Hipócrates, já por volta de 400 a.C. dizia:

Os homens precisam saber de que nada mais além do cérebro vêm alegrias, tristezas, desesperanças e lamentações. E por isso, de uma maneira especial, nós adquirimos visão e conhecimento, nós vemos e ouvimos e pelo mesmo órgão nos tornamos loucos e delirantes, e medos e terrores nos assaltam, alguns de noite e outros de dia... Todas essas coisas nós suportamos do cérebro, quando ele não é sadio.

A partir deste ponto, vemos que a loucura vista como doença mental atravessa os séculos e chega ao atual mundo ocidental, mas nem sempre foi assim. “Ao longo da historia, os loucos foram concebidos sob várias visões” (Campos, 2003: 1).

Em algumas sociedades primitivas os loucos eram idolatrados, como se fossem deuses ou como se os ataques de loucura fossem a manifestação deles na Terra.

Nas sociedades indígenas, as crianças que nasciam com qualquer deficiência mental, eram jogadas no rio para serem levadas pela água e não deixar o local impuro. Em algumas tribos existiam rituais de purificação.

Durante a Idade Média, os loucos muitas vezes eram considerados bruxos e devido a isto eram torturados e mortos. Muitas pessoas morreram e se feriram gravemente com essa prática da Igreja Católica. Outros eram colocados em barcos e atirados ao mar, no qual muitos morriam por não saberem o que fazer e os que sobreviviam acabavam em terras estrangeiras ficando sob a jurisdição da mesma com o seu destino novamente à mercê da sorte. Uma parte dos loucos eram presos e acorrentados. Tudo isto se baseava no preceito de impedir surtos dos doentes e das doenças (a doença não se espalharia e o louco ficaria resguardado fisicamente). Uma ínfima parte dos loucos ficava escondida de todo esse “tratamento” fornecido pelas autoridades em sua própria casa e recebia os cuidados de seus familiares.

Importante situar que as instituições que tinham como finalidade retirar o louco do convívio social surgiram na cultura árabe no século VII.

Os hospícios iniciaram sua propagação na cultura européia no século XV devido à invasão árabe. Eles se multiplicaram ao longo do território europeu no século XVII, para abrigar tanto os doentes mentais como marginalizados de outra esfera. Começou-se a partir daí, o tratamento desumano desses indivíduos. Na verdade, essa desumanização do sujeito começou muito antes disso com a Inquisição, prática exclusivamente católica, que exterminou centenas de doentes mentais.

Em meados do século XVIII, a loucura passou a ser vista como uma doença psíquica e que deveria ser tratada como tal. Sumiram as correntes e prisões e os loucos ganharam liberdade de movimentos, que já era um

princípio para o tratamento. Surgem, então, duas correntes para o tratamento, uma que acredita nas práticas psico-pedagógicas e nas terapias afetivas e a outra crê no tratamento físico, por acreditar que a loucura é um mau funcionamento encefálico.

A partir do surgimento do hospital psiquiátrico é que nasceu a palavra manicômio em meio ao século XIX com o intuito de retratar especificamente aquele.

Mesmo com o passar do tempo, a loucura teve mais práticas de tortura como “tratamento” do que propriamente um tratamento médico. Tentava com isso tirar o louco do seu estado de alienação na maioria das vezes.

Hoje, têm-se verificado um maior interesse no estudo científico sobre a loucura e sobre todas as suas aplicações. Propomos aqui, uma análise mais pormenorizada da loucura, tendo como base a sociedade brasileira atual, seus princípios, suas concepções e principalmente seus preconceitos.

2. ARGUMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1. A LOUCURA EM SI MESMA

O louco é o sujeito que porta alguma doença mental, sendo que esta pode advir de diversos fatores, desde o social até o hereditário, pode ser tanto uma doença orgânica quanto uma doença psíquica. Assim Shirley de Campos (Campos, 2003: 1) já afirmou: “A loucura é uma experiência social e psicológica”. É um gênero do qual existem espécies, v.g. a esquizofrenia. Ela é tratada de diferentes maneiras variando de acordo com a sociedade em que ela está inserida e com os valores éticos que nela predominam. As

sociedades variam com o tempo, elas evoluem, se transformam, mas nunca chegaram num consenso sobre como deve ser tratado o louco.

Ressalta-se ainda que o louco seja somente um louco porque está no meio de pessoas com provável sanidade mental, que misturado com outros loucos ele se torna apenas outro igual perdendo a utilidade a estigma. Exclui-se o louco como um estranho e onde se reúne muitos estranhos, já não mais são estranhos para entre si. Segundo Shirley de Campos (Campos, 2003: 1):

A loucura é uma experiência social e psicológica. Dizemos que é uma experiência social, tendo em vista a maneira variada que os grupos sociais a concebem. O que nós caracterizamos como loucura pode não ser para um outro grupo. Os critérios segundo os quais é julgada esta experiência são variados. Os grupos sociais delimitam o campo da loucura de maneira distinta. A noção de loucura é diversificada e relativa, uma vez que cada grupo tem uma linguagem particular para defini-la. Segundo Joel Birman (1983) essas diversas linguagens sociais implicam também práticas sociais diversas.

É no campo da infra-estrutura da consciência que podemos compreender o fato do sujeito se relacionar com o mundo exterior; assim como seu constante acúmulo de experiência; e por fim compreender o fato de o sujeito colocar sua presença no mundo, no exato momento em que está, nem no passado e nem no futuro, apenas no presente.

Ponderado afirmar com Henry Ey, P. Bernard e C. Brisset (Ey; Bernard; Brisset, 1999: 35) que:

“as infra-estruturas do campo da consciência se desenrolam como modalidades existenciais do vir-a-ser consciente pela linguagem, e mais geralmente a comunicação com o outro (intersubjetiva) que se reflete na comunicação do sujeito com seu desejo (intra-subjetiva)”

O que nos interessa mais detidamente é a relação que o sujeito estabelece consigo mesmo e com o mundo exterior. Partindo das relações intersubjetivas, pertinente se faz a questão da culpa que sentimos em nós, criada por meio de nossa ‘consciência’, onde na verdade se corresponde à parte do ego que fora introjetado contra o restante do ego, sendo que este se torna agora o superego, esta tensão como explicou Freud corresponde ao famoso sentimento de culpa. É um meio inegavelmente hábil que a civilização utiliza para refrear a agressividade das pessoas.

A punição da intenção que se equivale à conduta proibida serve a este mesmo fim civilizacional de redução da agressividade das pessoas. Ocorre que a justificativa da intenção ser equivalente à conduta proibida está no medo da perca do amor do “mais forte” e das conseqüências por obvio que adviriam desta “revolta”. Esta conduta proibida é toda aquela ação ou omissão que seja má, que corresponda ao mau e não necessariamente ao que a lei diz ser ou não o mau, pouco importa a lei, porque o sentimento de culpa esta ligado ao mau, seja o realizado ou o imaginado, ambos já estão praticados. O mau aqui é toda conseqüência da perda do amor, ou seja, o perigo de uma vingança por parte que se ama por tê-lo traído.

No documento http://conpdl.com.br/conpdl anais (páginas 195-200)