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4.4 RECONHECIMENTO DA FAMÍLIA POLIAFETIVA

4.4.1 Doutrina

Não se pode negar a relevância da doutrina para o mundo jurídico. É por meio da doutrina que se aprofundam os estudos acerca das normas, princípios, regramentos, decisões e demais temáticas da área jurídica; e é por meio do estudo doutrinário, a

priori, que se atualizam institutos e conceitos existentes no direito posto. Não se

pode olvidar que a realidade social é dinâmica, mutável, e que os profissionais necessitam se manter atentos à esta situação, para que a resposta dada pelo Direito e pelos seus aplicadores seja sempre a mais condizente com as necessidades que se manifestam cotidianamente. O Direito deve refletir e normatizar a realidade social, não podendo se manter cego às transformações constantes pelas quais passam as sociedades.

Uma outra função de extrema relevância assumida pela doutrina é a de organizar o conteúdo jurídico, e é justamente em função disto que a doutrina se subdivide em diversos ramos e espécies, cada qual atenta à uma subdivisão do Direito. No entanto, não se deve perder de vista que o Direito é um só, e que deve haver uma coesão dos diversos ramos, sob pena de se dificultar a compreensão do ordenamento como um todo. No entanto, é função essencial da doutrina buscar alternativas para os problemas existentes, e até mesmo para os problemas que não existem ainda, mas que poderão se apresentar em um momento próximo; desta forma, entende-se que a doutrina aperfeiçoa o Direito no sentido da justiça.

O doutrinador não pode se conformar em apenas dizer o direito dado, é preciso que ele se aprofunde em seus estudos, sempre de forma crítica e comprometida, submetendo as leis à uma apreciação criteriosa, feita de diversos ângulos e atenta às possíveis deficiências e falhas do direito posto. Deve-se buscar, por meio da produção doutrinária, a adequação do Direito à realidade a partir dos pontos de vista sociológico, lógico e até mesmo ético; quem se propõe a ser doutrinador deve manter o senso crítico atento, estando disposto a encarar críticas, muitas tantas construtivas e outras não.

O papel do doutrinador se faz de suma importância nas hipóteses em que se verifica uma real lacuna legislativa, a exemplo do que ocorre com a poliafetividade. A doutrina é capaz de proporcionar a integração do Direito, servindo até mesmo como ferramenta de inspiração e orientação das decisões judiciais e das próprias construções legislativas, mesmo que de forma indireta, ao fornecer pontos de sustentação para teses e construções jurídicas. Em matéria de Família, a doutrina

assume relevância ao preceder às alterações legislativas, posto que estas necessitam de um maior tempo de maturação.

[...] o transcurso das alterações legislativas em matéria de família não deve ser visto como o conjunto de marcos que operam as transformações no fenômeno familiar, mas, sim, como o reflexo dessas transformações, operadas em níveis mais profundos do tempo histórico, quando aquilo que se consolida entre estrutura e conjuntura vem à tona, marcando um dado episódico: a emergência da lei. (RUZYK, 2005, p. 151).

Desta forma, reitera-se a relevância da doutrina como primeiro ponto de aproximação da realidade social com a realidade jurídica. Identificado o fenômeno social, iniciam-se os debates sobre o mesmo em âmbito doutrinário. Pela inexistência de norma concreta positivada, a questão, muitas vezes, segue para o debate judicial, que deve identificar nela uma possibilidade ou não de repetição de demandas em mesmo sentido. Só após uma certa sedimentação, há que se pensar na feitura de leis; não pode o processo legislativo atropelar o entendimento do tema, sob pena de repetição de injustiças históricas, de criação de leis com objetivo midiático ou “tapa-buraco”, que não atendem de fato aos anseios da população, e tornam-se ou letra morta ou são ineficazes na oferta de proteção estatal.

No que se refere ao fenômeno do poliamorismo, algumas obras essenciais merecem ser citadas como referência doutrinária, algumas dentro do campo do Direito, outras tantas na área das ciências sociais, psicologia e antropologia. Ressalte-se que os primeiros escritos que cuidam da temática poliamorista não vieram do âmbito jurídico, pelo contrário, vieram de uma vertente mais espiritualista e ligada ao movimento hippie e religioso. Como exemplo, pode-se citar a figura de Deborah Anapol, uma das fundadoras do movimento poliamorista; foi de sua autoria um dos primeiros livros lançados que abordavam a temática, “Love Without Limits” (1992);

que depois foi expandido e reorganizado para se tornar “Polyamory: The New Love

Without Limits” (1997). Dentro desta vertente neopagã também se destacam os

escritos de Morning Glory Zell-Ravenheart, no contexto poliamorista vivenciado na Igreja de todos os mundos (Church of All Worlds), bem como sua participação no documentário “Polyamory in America”.

Conforme já visto, saindo-se da vertente neopagã/tântrica, é atribuído a Jennifer Wesp o cunho do termo poliamor em sua acepção mais cosmopolita. Diversos pesquisadores e escritores internacionais já trabalharam a temática, muitos dos

quais foram, inclusive, utilizados como referências nesta pesquisa. No Brasil, destacam-se os posicionamentos já exarados por Maria Berenice Dias, fundadora do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), Rodrigo da Cunha Pereira, presidente do IBDFAM, e tantos outros autores, que vem se debruçando sobre a temática, apresentando novas perspectivas e apontando os caminhos a serem seguidos na defesa da concessão de direitos às pessoas que vivenciam a realidade dos relacionamentos não-monogâmicos.

No documento UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR (páginas 155-158)