4.5 POLIAFETIVIDADE COM DIGNIDADE
4.5.1 Poliafetividade x monogamia
A exemplo do proposto por Pilão e Goldenberg (2012, p. 1), busca-se entender qual o papel que a monogamia ocupa na construção do discurso poliamorista, sobretudo no tocante à visão que hierarquiza ambas as formas relacionais, sedimentando-as como uma dicotomia. Desta forma, há que se investigar se, de fato, a monogamia e a poliafetividade são incompatíveis em um mesmo ordenamento, ou se há possibilidade de conciliação entre ambas. Como bem afirma Veras (2013, p. 22), a sedimentação da monogamia no ordenamento brasileiro é “consequência da construção política e histórica da dominação masculina, referendada pelo direito canônico e, posteriormente, confirmada pelo Código Civil, através de diversos dispositivos legais, que objetivam ‘punir’ patrimonialmente o cônjuge que descumprir o dever de fidelidade apregoado pelo artigo seu 1.566, inciso I.” É, portanto, ferramenta de discriminação e exclusão, levando à invisibilidade de diversos arranjos familiares, tais como os simultâneos ou poliafetivos, dentre outros.
Assim, muito embora ao longo deste estudo tenha se definido a poliafetividade como a prática da não-monogamia responsável qualificada com o intuito de se constituir família, há que se atentar ao fato de que o poliamor, e sua vertente qualificada, a poliafetividade, não são a única forma de relacionamento não-monogâmico existente. De fato, a monogamia e o poliamor se encontram em vértices opostos, podendo ambos serem considerados como ápices relacionais; no entanto, não se pode afirmar que uma pessoa é completamente “mono” ou “poli”, por conta de ambas as identidades serem processos que se referem à constante identificação dos indivíduos.
Alfred Kinsey (1948) defendeu que os comportamentos sexuais têm variações consideráveis entre o grau máximo de “homossexualidade” e “heterossexualidade”, sendo irreal a divisão dos indivíduos em dois grupos sexuais estanques. Nessa linha, pode-se afirmar que ninguém é absolutamente “poliamorista” ou “monogâmico” e que estes termos correspondem apenas a princípios binários de organização da realidade, combinados de forma singular em cada trajetória de vida. (PILÃO; GOLDENBERG, 2012, p. 4)
Ou seja, o que se pode afirmar, com certeza, é que o processo de construção da identidade poliamorista se inicia justamente da negação de atendimento voluntário ao paradigma monogâmico, mas que não há uma separação hermética entre os institutos. Ora, já foi visto que mesmo entre os que se dizem exclusivamente monogâmicos, há espaço para a manutenção de relações extraconjugais, que, muito embora condenáveis, são lugar comum nesta prática conjugal. Da mesma forma,
dentre os que se dizem poliamoristas, ainda existem resquícios da “contaminação monogâmica”, com a existência de ciúmes, busca pela exclusividade e competição pelos parceiros. Não se pode afirmar, desta forma, que uma forma relacional seria superior à outra, posto que ambas são válidas na busca pela realização da dignidade dos indivíduos. Em um mundo com tantas opções, há que se averiguar quais seriam as razões práticas para que se condene a forma poliafetiva de se constituir família ao mesmo tempo em que a forma monogâmica, mesmo que eivada de mentiras, traições e frustrações, seja louvada e apontada como paradigmática.
A relação entre poliamor e monogamia é uma de tensão, mas também de (possível) coexistência. [...] é face à monogamia que o poliamor se afirmou. Antes de esta palavra ter sido inventada, o único termo que parecia ser comummente usado era “não-monogamia”. Será que a única distinção entre monogamia (seja ela a monogamia clássica ou em série, isto é, apenas um parceiro de cada vez, mas vários parceiros ao longo da vida) e poliamor é a diferença entre o número de relações simultâneas? Há também que ter em conta o contexto moral e prescritivo de cada uma. [...] é importante fazer uma distinção entre a monogamia como ideal e norma, e a monogamia como prática. (CARDOSO, 2010, p. 7)
A monogamia como ideal, ou como norma, é aquela que preceitua que cada indivíduo deve se relacionar com apenas uma pessoa por vez, mantendo respeito ao dever de fidelidade, ínsito à relação monogâmica. A monogamia como prática, por sua vez, é marcada por traições e infidelidade; em verdade, “a fidelidade ou a infidelidade é uma escolha pessoal, insuscetível do controle do Estado e do Direito, e negar direitos, considerando-se o comportamento fiel ou infiel na família, é retroceder e ignorar conquistas históricas, como o abandono da discussão da culpa na separação”. (FIÚZA; POLI, 2015, p. 11)
De fato, essa obsessão pela monogamia, e, portanto, pela fidelidade dentro das relações conjugais, pode ser entendida explicada pelo entendimento do conceito de pânico moral, apresentado por Fiúza e Poli (2015), a partir dos estudos feitos por Goode, Bem-Yehuda e Cohen. A prática de um comportamento não convencional, como a prática da não-monogamia responsável, leva à julgamentos e temores desnecessários, posto que o estilo privado de vida de uns não geraria perigo real ao estilo de vida dos que seguem o padrão moral monogâmico.
O pânico moral pode ser compreendido, numa acepção mais abrangente, como o consenso, partilhado por um número substancial de membros de uma sociedade, de que determinada categoria de indivíduos estaria ameaçando a estrutura social e a ordem moral. A
partir dessa suposta ameaça, confabulam que seria necessário o fortalecimento do aparato de controle social, provocando a promulgação de novas leis, orientando a atuação estatal por políticas públicas capazes de imprimir hostilidade e condenação pública a determinado estilo de vida [...] O objeto do pânico pode ser um fenômeno absolutamente novo ou algo que já existia na sociedade há muito tempo, ofuscado e reprimido, mas que, desencadeado por algum movimento ou fato, ganhou notoriedade. As repercussões geradas são diversas; por vezes o pânico desaparece e é esquecido, permanecendo apenas no imaginário cultural como no folclore e na memória coletiva. Outras vezes, gera efeitos mais duradouros, capazes de produzir mudanças nas políticas públicas, na política legal e social ou, até mesmo, na forma como a sociedade se compreende. (FIUZA; POLI, 2015, p. 13)
O pânico leva a uma consequência retrógrada: a necessidade de reafirmação dos valores tradicionais da sociedade. Deve-se vislumbrar os movimentos da sociedade tais como um pêndulo: sua oscilação tende ao equilíbrio. Quanto maior é o ângulo total de oscilação do pêndulo (ou quanto mais longe se vai na concessão/negação de direitos), maior e mais vigoroso é o movimento de retorno do pêndulo à posição oposta (movimento conservador/radical). Ou seja, aplicada esta teoria ao Direito das Famílias: quanto maior a abrangência do conceito de família, mais os conservadores tentam restringi-lo (vide o PL 6583/2013, que, em seu artigo 2º define entidade familiar como “o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio do casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”).
Constata-se que, em épocas em que se apresenta uma maior garantia e extensão de direitos, amplia-se o clamor por um maior controle estatal, com maior grau de intervenção na vida privada; pelo contrário, quando a intervenção é demasiadamente invasiva, a sociedade passa a clamar por mais liberdade. Ocorre que estas oscilações pendulares, ou o chamado movimento pendular histórico de retorno ao equilíbrio, demonstram a necessidade de uma ruptura com o radicalismo ideológico da etapa histórica que se põe, e esta sequência de fatos acaba por causar feridas profundas na sociedade e na continuidade das práticas.
Hannetie Sato afirma que: “o Brasil é um Estado laico, determinado na própria Constituição Federal, mas estamos vivendo um momento de forte pressão conservadora, muitas vezes por razões religiosas. Essa onda conservadora é um fato e que reflete tanto nas novas leis como nas decisões do Poder Judiciário”. A onda conservadora apontada por Sato refere-se justamente ao movimento de
retorno do pêndulo, agora puxado pela parcela mais conservadora e religiosa da sociedade, utilizando-se de discursos fundamentados na moral cristã para negar o reconhecimento das relações conjugais distintas do modelo tradicional, monogâmico e heteronormativo.
Mais interessante ainda é perceber que, junto ao pânico moral, que traz em si a necessidade de reafirmação dos valores tradicionais, há um outro fator que inflama o temor da parcela mais conservadora da sociedade: o desejo das minorias de se enquadrarem na normatividade posta, como bem aponta Roudinesco (2003):
[...] o grande desejo de normatividade das antigas minorias perseguidas semeia problemas na sociedade. Todos temem, com efeito, que não passe do sinal de uma decadência dos valores tradicionais da família, escola, nação, pátria e, sobretudo, da paternidade, do pai, da lei do pai e da autoridade sob todas as formas. Como consequência, não é mais a contestação do modelo familiar que incomoda os conservadores de todos os lados, mas, ao contrário, a vontade de a ele se submeter. (ROUDINESCO, 2003, p. 10).
É necessário que se perceba que, mesmo com todas as rupturas e todas as mudanças pelas quais a família passa, não significa que o conceito de família tenha sido destruído ou encontrado seu fim. Pelo contrário, deve-se enxergar todo este movimento como uma real revalorização das famílias: cada vez mais e mais pessoas demonstram seu interesse em se organizar como família, em agrupar-se em núcleos pautados pelo afeto e pela solidariedade, na busca por suas felicidades individuais e coletivas. Não é para menos que Petrini (2003) aponta que a família possui alta capacidade regenerativa e adaptativa, por ser elemento de caráter permanente nas sociedades.
Não são poucos os estudiosos que afirmam que, no meio das turbulências, a família empenha-se em reorganizar, na sociedade pós-moderna, aspectos da sua realidade que o ambiente sociocultural vai desgastando. Reagindo aos condicionamentos externos e, ao mesmo tempo, adaptando-se a eles, a família encontra novas formas de estruturação que, de alguma maneira, a reconstituem, sendo reconhecida como uma estrutura básica permanente da experiência humana e social. (PETRINI, 2003, p. 60) Assim, entende-se em mesmo sentido, ao se afirmar que a família, seja ela tradicional ou pós-moderna, mono ou poli, permanece como fundamento da sociedade, bem como mantém seu caráter de primeiro espaço de socialização dos indivíduos. O que se vê é a ampliação do desejo de família àqueles que antes eram
excluídos por conta de velhos tabus e preconceitos; desta forma, enxerga-se que a idéia de família “é amada, sonhada e desejada por homens, mulheres e crianças de todas as idades, de todas as orientações sexuais e de todas as condições” (ROUDINESCO, 2003, p. 198). Fica então o questionamento: qual o sentido de se negar o status familiar àqueles que mais o anseiam, apenas por conta de suas famílias se constituírem por meio de um comportamento que desvia do artificialmente construído padrão monogâmico? Será que nas famílias não-monogâmicas não há também amor, afeto, solidariedade, companheirismo, assistência e todos os demais elementos/sentimentos que servem para atribuir o caráter familiar aos agrupamentos humanos? O que há, de fato, é a necessidade de se respeitar a opção por um estilo de vida não monogâmico, e de se atribuir direitos às pessoas nesta relação, atendendo seus anseios mais íntimos e mais naturais de constituir família.
Conclui-se com o pensamento de Veras (2013, p. 91) que brilhantemente afirma que “a constituição monogâmica de família representa apenas uma forma de convivência humana. É parte do todo, parcela da miscelânea de arranjos afetivos que hoje podem ser encontrados em uma sociedade plural como a nossa”. Enxergar a monogamia como princípio do Direito de Família é afastar da proteção normativa inúmeras formas de convivência familiar pautadas nos princípios constitucionais da dignidade, solidariedade, igualdade e, sobretudo, da afetividade. Desta forma, faz-se necessária análise da poliafetividade face aos já citados princípios constitucionais.