Camilo Henrique Salgado Júnior, médico de Belém do Pará no início do século XX, ficou conhecido como um cirurgião “que teria exercido com esmero e dedi-cação a medicina, além de ser uma pessoa de notável bondade e dedidedi-cação aos pobres” (COSTA, 2010, p. 62). Essas características podem ter possibilitado, após sua morte, o título de santo popular, devido aos milagres concedidos aos seus devotos.
Nascido em Belém do Pará em 22 de maio de 1873, estudou medicina primei-ramente na Faculdade de Medicina da Bahia, seguindo para concluir o curso na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Posteriormente, foi para França com objetivo de aperfeiçoamento nos estudos. Já como médico, voltou a Belém para exercer a carreira profissional, trabalhando nos principais hospitais da cidade.
Camilo Salgado envolveu-se em termos institucionais da medicina local, sen-do presidente (após a renúncia sen-do primeiro presidente) da Sociedade Médico-Ci-rúrgica do Pará, assim como diretor da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará.
Participou da política local como vereador e até governador interino. Em suma, Camilo Salgado tornou-se uma figura pública visibilizada pela sociedade bele-nense.
Miranda e Abreu Junior (2015), na busca de revisitar Camilo Salgado como mito, contribuem com a apresentação de fatos importantes que possibilitaram ao médico ser considerado um mito e, popularmente, um santo. Para esses autores, o mito Camilo Salgado começa antes mesmo de sua morte, no começo do exer-cício de sua profissão como médico, questão destacada tanto pela imprensa da época quanto posteriormente por seus biógrafos. A memória que se consolidou em torno do médico revela uma trajetória de sucesso que conjuga seu carisma e sua reciprocidade com os menos afortunados.
Seus biógrafos constantemente reforçam seu caráter tido como magnânimo referindo, por exemplo, que Camilo teria se tornado sócio de uma farmácia onde também realizava consultas médicas. Como não cobrava o aviamento dos medicamentos receitados, não tardaram os prejuízos, tendo o mesmo que vender sua parte, antes que o negócio falisse. Segundo os jornais, por ocasião de seu falecimento, “...as suas pharmacias foram as únicas no mundo que fecharam as portas por falta de lucros, nunca por falta de receituários”. O memorialista Clóvis Meira, um de seus biógrafos mais citados, endossa estes aspectos de sua personalidade, tornando-se um elemento de reforço impor-tante na perpetuação de uma memória muito positiva ao afirmar que “Tudo o quanto fazia, ou quase tudo, era de graça. Não cobrava porque o doente era pobre e não cobrava porque era rico, compadre e amigo”. (MIRANDA; ABREU JUNIOR, 2015, p. 133)
Esse discurso sobre o médico, ressaltando suas boas ações em vida, cons-trói, a certo modo, a imagem de um benfeitor que seria evidenciado depois de sua morte, o que pode ser entendido como um caminho para construção do imaginá-rio que certifica sua santidade.
Outra singularidade que favoreceu a criação de um caráter mítico ao médico foi o que Miranda e Abreu Junior (2015, p. 141) chamaram de “suposta capacidade no exercício da medicina”, pois a imprensa o destacava por praticar procedimen-tos cirúrgicos inédiprocedimen-tos e inovadores. É o que esclarecem a partir de uma citação de Abelardo Santos, retirada de seu texto “Camilo Salgado, o mago da cirurgia”, publicado na Revista de Cultura do Pará em 1974:
Avançado no tempo, retirou esquírulas parietais na dura-mater, removeu cál-culos ureterais, laparotomizou para intervir sobre o estômago, os intestinos e os anexos, invadiu a seara cirúrgica de ginecologia e da obstetrícia, penetrou os meandros da pneumologia, realizou engênios de ortopedia e traumatolo-gia, enfim poucos foram os sítios do corpo humano que seu exímio bisturi não perscrutou. (SANTOS apud MIRANDA; ABREU JUNIOR, 2015, p. 141)
Outros procedimentos médicos são destacados pelos autores supracitados, como cirurgia para transplantar ovário de uma cabrita em uma idosa; transplante de ossos de chimpanzé em um soldado ferido; cirurgia para transplantar a uretra de um cão em um paciente (esse último foi destaque no jornal Estado do Pará em 1912 como o terceiro procedimento desse gênero realizado no mundo). Assim, os feitos que o médico Camilo exercia no ofício de sua profissão foram amplamente divulgados na mídia local, favorecendo, assim, a popularidade do médico perante a sociedade.
Devemos ressaltar que estes feitos cirúrgicos não se sustentariam sozinhos, como elementos da “glorificação” de nosso personagem, nada disso teria a repercussão que teve na época se não existisse toda uma imprensa interes-sada em publicar estes fatos, em um período que os jornais noticiavam em suas páginas descrições cirúrgicas para um público avido “por novidades e triunfos da ciência” que eram expostos em uma forma narrativa carregada de
suspense e melodrama, recursos típicos daqueles anos para capturar a atenção do leitor. (MIRANDA; ABREU JUNIOR, 2015, p. 142)
A partir desses esclarecimentos, considera-se que o processo de construção do médico como mito é marcado por um discurso que o apresenta por adjetivos que exaltam a benevolência com a qual se comportava perante os mais humildes e seus pares, e o modo como exercia a medicina. Essas proposições são consoli-dadas na sociedade via imprensa local e, posteriormente, seriam reforçadas por seus biógrafos, contribuindo tanto na construção como na perpetuação do ca-ráter mítico do referido médico. Jornais como Folha do Norte, Estado do Pará e até o jornal carioca Raiz noticiavam feitos do médico tidos como espetaculares, como pode-se ver no trecho que segue: “Teve alta, hontem, do hospital D. Luiz, completamente curada, uma senhora que se submeteu, em péssimas condições, a importante operação cirúrgica, praticada com muita felicidade pelo Dr. Camillo Salgado” (FOLHA DO NORTE apud MIRANDA; ABREU JUNIOR, 2015, p. 143).
Os dados compilados por Miranda e Abreu Junior (2015), naquilo que dizem ser revisitar o mito Camilo Salgado, embasam a leitura de uma possível criação de um mito na sociedade contemporânea. Nesse sentido, os dados e as análises historiográficas apresentados por esses autores nos permitem interpretar o mito Dr. Camilo Salgado a partir da perspectiva teórica de Barthes (2001), que, partindo da leitura do linguista Ferdinand de Saussure, reflete teoricamente o mito como um sistema semiológico, no qual a mitologia “faz parte simultaneamente da se-miologia, como ciência formal, e da ideologia, como ciência histórica: ela estuda ideias em forma” (BARTHES, 2001, p. 134). Assim, o mito na percepção de Barthes é entendido como uma parte da ciência dos signos que Saussure denominou de semiologia.
Barthes (2001) considera mito uma fala, uma mensagem, um sistema de co-municação que não é inocente, já que articula a passagem do real ao ideológico.
No entanto, não sendo uma fala qualquer, necessita de condições especiais para se tornar mito. Segundo esse autor, “já que mito é uma fala, tudo pode constituir um mito, desde que seja suscetível de ser julgado por um discurso” (BARTHES,
2001, p. 131). Como mensagem, o mito pode ser criado por suportes como: um dis-curso escrito, uma publicidade, imagens fotográficas, o cinema. Sobre a formação da fala do mito, o autor dirá que
[...] a fala mítica é formada por uma matéria já trabalhada em vista de uma comunicação apropriada: todas as matérias-primas do mito, quer sejam re-presentativas quer gráficas, pressupõem uma consciência significante, e é por isso que se pode raciocinar sobre eles independente da sua matéria.
(BARTHES, 2001, p. 132)
A perspectiva de mito disposta por Barthes possibilita uma leitura da perso-nalidade aqui analisada, uma vez que o mito Dr. Camilo Salgado surge de toda uma representação comunicacional, de uma mensagem que se coloca diante do público, suscitando admiração e interesse. Desse modo, o mito se constitui do discurso de uma imprensa que apresentava seus feitos científicos e a ideia de médico caridoso com uma espetacular narrativa, que iria criar a imagem que se cristalizou como de santo popular. Vale lembrar que o período dessa construção mítica do médico (primeira metade do século XX) era o de descobertas e experi-mentos científicos, época em que o novo se colocava como algo extraordinário.
Criadas as possíveis causas do mito Dr. Camilo Salgado, será possível enten-der o imaginário que se perpetuou após sua morte: a de um médico que virou santo popular em Belém do Pará.