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2 UM ENCONTRO DAS MARGENS ATLÂNTICAS BRASIL E SÃO TOMÉ E

2.1 DRAMAS EM NOME DE DEUS: A PRECISÃO DO NAVEGAR

A colonização em seu aspecto religioso tinha um papel moralizador. A orientação primeira era pregar um ideal comportamental pautado nos preceitos católicos. Para isso, rejeitava-se atitudes que desviassem do padrão estabelecido

pela Igreja. Uma das afirmações era a crença monoteísta, seguida da monogamia e uma vida regrada, fugindo aos excessos − dentre eles o etílico. Essas três referências comportamentais passam a ser foco no exercício da catequização pela existência dessas práticas nas tribos indígenas e nos grupos de escravos.

Grupos de colonizadores, de formação católica, saíam da Europa e iam para as colônias e lá, rejeitando grande parte das práticas locais, imprimiam sua cultura religiosa. A inserção a ―ferro e a fogo‖ na colônia de um novo conceito religioso e de novos rituais geravam um clima de tensão entre o que já existia e o novo a ser introduzido: ―tensão entre o racional e o maravilhoso, entre o pensamento laico e o religioso, entre o poder de Deus e o do Diabo, embate, enfim, entre o Bem e o Mal (...)‖. (SOUZA, 1993, p. 22)

O pacto entre o poder administrativo e o poder religioso tornava a evangelização dos povos que habitavam as colônias uma missão de extrema importância. ―Em 1545, tinha início o Concílio de Trento, e a cristianização das populações de ambos os lados do Atlântico tornou-se um dos pontos de honra do programa tridentino‖ (SOUZA, 1993, p. 23). É a esse contexto europeu que as colônias lusitanas estavam submetidas. No Brasil quinhentista, no final dos anos quarenta, foi enviado o primeiro governador geral e com ele os primeiros missionários jesuítas, para banir os ―maus‖ comportamentos associados à falta da ―santa fé católica‖. Não se sabe se a mesma missão foi desenvolvida em São Tomé e Príncipe, entretanto Seibert afirma que houve uma presença de mais de dois séculos dos Agostinianos e dos Capuchinhos15 e lá desenvolveram importante papel religioso (SEIBERT, 2002, p. 41).

A oposição entre o Bem e o Mal era o princípio orientador da evangelização de índios e negros. As estratégias de implementação da fé católica nas colônias passavam pela afirmação moral na qual o português, o homem branco, ocupava o lugar do Bem, sendo o infiel, o índio ou o negro, o Mal. A intenção das ordens religiosas responsáveis pela catequização nas novas terras descobertas era transformar os ―infiéis‖ em ―bons cristãos‖ e ser um ―bom cristão‖ era ―também adquirir os hábitos de trabalho dos europeus, com o que se criara um grupo de cultivadores indígenas flexível em relação às necessidades da Colônia‖ (FAUSTO, 2009, p. 23).

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Ordens religiosas submetidas às doutrinas de Santo Agostinho e de São Francisco de Assis, respectivamente.

No Brasil a ênfase da Companhia de Jesus, ordem responsável pela organização religiosa dessa colônia, estava na catequização de índios e negros, sendo esse último grupo tratado como inferior, pois juridicamente era considerado como ―coisa‖, mas, mesmo assim, passíveis de serem civilizados e ―salvos pelo conhecimento da verdadeira religião‖ (FAUSTO, 2009, p. 26).

Para a efetivação do ideal evangelizador eram utilizadas pelos jesuítas, dentre suas estratégias, festas e atividades culturais atraentes, incluindo a absorção e adaptação de algumas práticas locais, como danças e instrumentos musicais familiares aos nativos, mas com um conteúdo católico.

Desde a primeira missa rezada em solo brasileiro, no ano de 1500, portugueses convidaram alguns índios para participarem da sua celebração– ―levantar-se, ajoelhar-se, alçar as mãos ou fazer o sinal da cruz‖ − (TINHORÃO, 2000, p. 19), definindo o caráter festivo e coletivo nas ações catequizadoras. Ou seja, além da imposição da fé pela força, o agradável e atraente ambiente da festa e dos espetáculos foi amplamente explorado na implantação do catolicismo. A língua e a música dos índios foram aprendidas pelos padres como forma de ter uma melhor comunicação, e assim foram usadas ―como armas para aniquilação exatamente da sua cultura‖. (TINHORÃO, 2000, p. 24). Tinhorão não hesita em falar de ―oportunismo ideológico‖, afirmando que ―ao apropriar-se da música dos indígenas – inclusive ligada a seus rituais – não apenas a esvaziava de seu conteúdo original, mas a transformava em veículo de pregação da fé religiosa destinada à destruição do seu significado cultural.‖ (TINHORÃO, 2000 a, p. 28)

Além dos rituais festivos, aos moldes do comportamento cristão, as atividades cênicas não ficaram restritas ao espaço fechado das igrejas construídas no decorrer do século XVI. O caráter coletivo e participativo ganhou uma dimensão mais marcante nos rituais acontecidos nas ruas.

Esse movimento no sentido do encaminhamento das festividades, da área limitada do interior dos templos para o céu aberto do espaço público, iria provocar desde logo um competente deslocamento da diretriz religiosa de tais manifestações (baseada no estímulo à fé e à devoção) para objetivos profanos (cujo maior interesse era a afirmação do poder secular e a busca da diversão). (TINHORÃO, 2000 b, p. 63)

As ações cênicas propostas pelos jesuítas, portanto, concentraram seus esforços em eventos que reuniam multiplicidade de linguagens artísticas de forte teor religioso. Os autos foram encenações representativas do período colonial.

Esses tipos de textos aqui encenados tinham uma intenção moralizadora, e já tinham sido difundidos pelo dramaturgo Gil Vicente, em Portugal, em apresentações públicas acompanhados de música e dança.

No Brasil, tais peças eram mescladas com fragmentos da cultura indígena, identificando o índio como representante do mal. Ronaldo Vainfas faz referência a um desses autos com ―situações históricas e traços da cultura nativa‖, encenados no Brasil, em Niterói, no ano de 1560.

Um dos melhores exemplos se encontra no Auto de São Lourenço, também conhecido por Festa de São Lourenço. [...] Num dos atos da peça, aparecem os demônios a se jactar de suas façanhas, o diabo- mor chamado de Guaixará, e seu auxiliar de Aimbirê − e perduram nisso até serem debelados pelas forças do bem, anjos e santos. Vale destacar que os feitos e façanhas de que se jactam os demônios da peça resumem traços importantes da cultura indígena, a exemplo da antropofagia e das bebedeiras regadas a cauim.(VAINFAS, 2000, p. 59)

Segundo Vainfas, quando os tipos indígenas eram colocados como demônios, o

[...] jesuíta estigmatizava a um só tempo os costumes indígenas considerados maus e a aliança com os franceses hereges, inimigos de Portugal. Nem o fato de Aimbirê real ter passado para o lado lusitano escapou ao criador do Auto de São Lourenço, que fez seu personagem arrepender-se e atuar na punição do imperador romano que martirizara São Lourenço e São Sebastião. (VAINFAS, 2000, p. 59)

Festas civis e religiosas celebravam com carga cênica santos, casamentos, chegadas de governantes, dentre outros eventos, estreitando as relações entre o sagrado e o profano. Nas primeiras festas realizadas no Brasil pelos portugueses já havia ―como que o prenúncio do que viria a constituir, nos séculos seguintes, o fenômeno da teatralização das próprias festas públicas, através da vocação barroca para a transformação dos seus temas em espetáculos para o povo‖. (TINHORÃO, 2000 a, 43)

As manifestações cênicas introduzidas pelos portugueses foram precursoras do que viria a ser a marca das principais festas das suas ex-colônias. De caráter popular, moralizante, contemplativo e participativo, ocupando os espaços abertos de ruas ou praças, os dramas carolíngios − e muitas festas populares da atualidade − que acontecem em São Tomé e Príncipe e no Brasil mantêm ainda hoje tais características.

Desta forma, a relação do drama teatral com o objetivo de afirmar o catolicismo como religião foi, ao que tudo indica, uma importante estratégia para a inserção dos dramas carolíngios em solos são-tomenses no século XIX e sua permanência até os dias atuais. Pode-se pensar a mesma lógica para o Brasil.

Aliás, a relação entre os dramas carolíngios brasileiros e são-tomenses pode ser compreendida pelo espaço comum do ponto-de-vista religioso. Durante quase dois séculos, São Tomé pertenceu à arquidiocese da Bahia. Mas, depois de enviar forros para a formação no clero nos seminários brasileiros, a relação religiosa com a Bahia foi se arrefecendo devido às circunstâncias da independência brasileira, em 1822. As ilhas viveram um declínio de investimento no aspecto religioso, recuperado posteriormente no período da recolonização, no século XIX. Com várias queixas enviadas ao poder católico localizado em Lisboa no que dizia respeito à conduta dos padres acusados de praticarem hábitos locais, como a poligamia, e aceitarem práticas religiosas nativas, a Igreja resolveu também por em prática mais um projeto de catequização no país, executado através de ações missionárias para restabelecer a ordem cristã. E, como aponta Seibert,

Embora o número de padres fosse insuficiente para guarnecer todas as paróquias, os crioulos deixaram de ser educados como padres, porque, devido às emergentes doutrinas racistas do século XIX, eram considerados inconvenientes para a função. Em contraste com a missa e o casamento, a população crioula participava maciçamente nas procissões e festas religiosas nas várias localidades. (SEIBERT, 2002, p. 55)

Mesmo não havendo provas testemunhais e documentais, acredita-se que foi nessa época que os dramas carolíngios, o Tchiloli e o Auto de Floripes, chegaram às ilhas de São Tomé e do Príncipe, respectivamente.

Fernando Reis aponta como fonte de introdução desses festejos os mestres açucareiros vindos da ilha da Madeira, que traziam na memória e em livros as histórias desenvolvidas nos espetáculos que acontecem tanto no Brasil como em São Tomé e Príncipe. Mas, no que se refere ao livro ―A História do imperador Carlos Magno e os doze pares de França‖, obra referência dos dramas carolíngios, o etnógrafo publicou em 1969 que: ―Naquela ilha foram-nos facultados dois desses livros: um, muito antigo, impresso no Brasil; outro, velhíssimo, com o nome da editora ilegível, mas presumimos que seja do século XIX‖. (REIS, 1969, p. 127). Mesmo tendo os vínculos efetiva e aparentemente estagnados entre os dois países, o que passou pelas águas do oceano, o que chegou e saiu, continuou a se

manifestar numa dinâmica própria e complexa no que tange à cultura e suas formas de transmissão e sobrevivência.

Assim como nas ilhas africanas, no Brasil, não é possível atestar a genealogia dos dramas carolíngios − Cheganças, Cavalhadas e as Lutas de Mouros e Cristãos, entre outros. Mas, alguns relatos de viajantes nos permitem afirmar que no século XVIII já havia histórias carolíngias sendo representadas em terras brasileiras. Essas celebrações espetaculares estavam ligadas às festas da Coroa e da Igreja.

Os estágios da colonização são-tomense retratam mais um vínculo advindo do trânsito cultural. A inserção da cultura agrária, do tráfico de escravos e das festas populares são pontos representativos da circulação e comunicação identitária na formação do mundo atlântico, no que se refere à triangulação Portugal, São Tomé e Príncipe e Brasil. A localização territorial ou de pertencimento a cada um destes grupos passava por uma constituição identitária fluida, pouco arraigada, mas que posteriormente se constitui elemento marcante na cultura mestiça das ex-colônias.

Torna-se importante identificar o ideal catequizador impresso na cultura são- tomense e brasileira na época da colonização e reconhecer resquícios deste ideal no Auto de Floripes, de Príncipe, São Tomé e Príncipe e na Luta de Mouros e Cristãos, de Prado, Brasil. Lembrando que esses dois países viveram cerca de três séculos sob a dominação da Coroa portuguesa e esta sob o amparo do catolicismo. Os dramas carolíngios que acontecem ainda hoje nas duas ex-colônias revelam uma marca comum no roteiro no que diz respeito ao princípio evangelizador do Bem contra o Mal. Na Luta de Mouros e Cristãos, há uma associação do grupo Mouro, que se veste de vermelho, aos índios, o grupo ―infiel‖ de outrora. Essa relação aparece nos discursos dos brincadores ou figurantes, atores dos folguedos, que dizem: ―Somos guerreiros, cabôco que nem o santo [São Sebastião]‖16

, afirma o mouro pradense Irdinho, colocando num mesmo lugar índios e mouros (DUMAS, 2005, pp 43- 85).

Já no Auto de Floripes o eixo dramático se aproxima do espetáculo brasileiro no que diz respeito à oposição binária Bem-Mal. Entretanto, a localização desses princípios nos respectivos grupos étnicos, negros e brancos, em Príncipe, fica menos evidente. Nessa encenação, o Mal está localizado verbalmente na cultura muçulmana e o ideal do Bem relacionado aos personagens católicos. O cavaleiro

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Hildiberto Coelho Ferreira nasceu no dia 16 de janeiro de 1925 e morreu em janeiro de 2003. Depoimento concedido em 02/ 02/ 2002.

cristão são-tomense Osvaldo Moreira afirma: ―Toda a coisa dos cristãos trabalha mais com Deus, oração, a Bíblia e só. Mouro é uma coisa de Lúcifer, de Diabo‖ (BAPTISTA, 2001, p.15).

Ainda hoje, em Príncipe e em Prado, a cada ano, os espetáculos carolíngios são encenados e, mesmo com significativas mudanças, neles permanece o eixo dramatúrgico que os aproxima do mesmo princípio catequizador da colonização.

As aproximações entre Coroa e colônias foram predominantes nas trajetórias culturais dos países e povos envolvidos. Hoje, ao observar expressões representativas de cada cultura, percebem-se sinais de um passado presente, mas sem perder de vista as novas construções que foram e são desenvolvidas na dinâmica do tempo.

Como já visto, as relações históricas entre São Tomé e Príncipe e o Brasil tiveram fortes laços com a cultura colonial. As estratégias de exploração agrária possibilitaram um largo trânsito e intercâmbio entre grupos étnicos envolvidos no cultivo da cana-de-açúcar, na catequização e nas demais negociações culturais e econômicas adotadas.

A Igreja foi uma das instituições que agregou aos seus interesses de poder referências das culturas locais. Ocupou um papel preponderante na inserção de dramas, danças e festas nas suas colônias. O intuito era catequizador, mas as festas, além do ideal colonizador, assumiram novas motivações.

Na cidade baiana, a Luta de Mouros e Cristãos, que já foi festa realizada com incentivos dos representantes católicos, hoje encontra resistência no padre local, que rejeita a ―brincadeira‖ por discordar dessa forma de celebração popular que compreende manifestações não compatíveis com o modelo ortodoxo cristão. Em Príncipe, o Auto de Floripes decorre sem grandes interferências da Igreja, numa aparente relação de distanciamento, mesmo sendo uma festa de celebração a um santo, o São Lourenço.

Os dramas carolíngios analisados nessa tese trazem uma referência matricial lusitana, retratando os ideais binários Bem-Mal, sendo que cada um, no seu transcurso histórico, incorporou traços desta formação mestiça, tanto local quanto colonial. Se o caráter evangelizador da dramaturgia e da encenação atendeu aos anseios da Coroa, na cena atual, esse princípio converge para novos cruzamentos, interesses, interpretações e outras significações. É compreendendo o espaço

atlântico como espaço de encontros e cruzamentos culturais envolvendo populações africanas, brasileiras e ibero-lusitanas que os tradicionais folguedos se atualizam e se singularizam.