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Drayton Nejaim, a política e o golpe de 64

Drayton Nejaim é eleito prefeito de Caruaru em 1963221, assume em novembro e permanecerá até janeiro de 1969, quando o candidato vitorioso do MDB Anastácio Rodrigues o sucede. Desde a década de 1950, quando acendeu a política e foi eleito deputado estadual, se utilizou de um discurso violento e combativo às esquerdas. Em seus comícios no período de campanha em 1963, Drayton perseguiu em palanque e fora dele o candidato adversário Celso Rodrigues222. Ainda na década de 1960, vai se envolver na tomada de medidas repressivas contra manifestações das esquerdas no estado. No ano de 1961, exercendo mandato de deputado estadual, após receber a informação do anúncio de mais um comício comunista em Caruaru, ele se dirige a Secretaria de Segurança Pública do estado solicitando o aumento do efetivo de soldados no município, além de maior força policial a “fim de evitar conseqüências lamentáveis”223. Drayton se referia a grande manifestação de apoio a Cuba e a

Fidel Castro que se realizaria no dia 22 de abril daquele ano.

Drayton governou o município a partir de 1963 ajudado por uma equipe de governo marcada pela pluralidade de convicções, sua administração trazia os mais diversos nomes, seu então Secretário de Administração do Município era o Pastor Rubem Fernandes Prado224, desempenhou papel importante na relação da administração municipal para com as lideranças religiosas da cidade, incluindo os padres da Diocese. Era o “Pastor Rubem” como mais conhecido na época que recebi as solicitações dos padres em sua secretaria e dava andamento no atendimento dos pedidos. O prefeito também contava com o auxilio de lideranças de forte penetração social, um desses exemplos é a relação de colaboração que mantinha com o Frei

221 As atas do Tribunal Regional Eleitoral registram que Celso Rodrigues disputando o pleito pela coligação PST/PTB obteve 7.626 e Drayton Nejaim pela coligação UDN/PSP obteve 9.392.

222 Foi um dos muitos caruaruenses acusados de subversão, tinha forte ligação com o Deputado federal Lamartine Távora, nas eleições de 1963 recebeu o apoio das esquerdas no município, foi assim que implementado o golpe em 1964 investigado pela Comissão de Investigação Sumária, não conseguimos acesso a seu processo.

223 NOVO comício comunista em Caruaru acarretaria graves consequências. Jornal do Commercio, Recife, 26 de Abr. 1961. Fonte: Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais - FUNDAJ.

224 Nasceu em 22 de agosto de 1922, é um dos fundadores da Igreja Batista de Caruaru. Além de ter trabalhado na esfera pública em Caruaru. Em 1969, prestou trabalhos a Prefeitura de Panelas. Faleceu no mesmo ano no dia 19 de Novembro.

Tito de Piegaio225, como vai confidenciar o oficial de gabinete da prefeitura José Carlos Torres Rabelo:

Ele participava com agente, fundou na prefeitura no governo de Drayton, ele fundou a CODEC – Conselho de Desenvolvimento de Caruaru [...] era assim um líder rural, rurícola ele rodava Xique-Xique, Xicuru aquela região, inclusive, eram reuniões que tinham na Associação Comercial na época. Drayton convidava o secretário de agricultura, ele sempre ia pra lá, preitear muita coisa assim de ajuda de água, de incentivo, de aração de terra do pessoal, ele sempre foi um homem, apesar de ser um frade franciscano, ele teve uma atuação assim, muito de amizade com Drayton. Era amigo dele, era amigo nosso, do Coronel Agnaldo Almeida226.

Ao eclodir o golpe de 64, Drayton Nejaim talvez tenha sido o primeiro prefeito do interior a não medir esforços para colar sua imagem aos militares que comandariam o país. Nas palavras de Assis Claudino:

Drayton era um aventureiro. No golpe de 64 ele se apresentou como o líder da resistência ao movimento subversivo; em defesa da democracia. Aí fez um carnaval. Juntou uns correligionários e trancou-se na prefeitura. O pessoal do comércio distribuiu armas, caixas de revólver, para defender a democracia. Nisso ele se trancou na prefeitura. Colocou gente armada no telhado; gente armada de fuzil. Ele pediu armas ao Exército. Depois disso ele se denominou líder da resistência. Ficou lá em cima da prefeitura, um ou dois dias, esperando que a revolução surgisse227.

Já no primeiro dia da “revolução” durante visita do coronel Justo Moss a prefeitura, Drayton que estava sitiado com seus aliados, vai pedir para o militar intervir junto a informação que o mesmo recebeu sobre as atividades do sargento Severino Ferraz junto com os comunistas da cidade, como relatado pelo oficial de gabinete na época228 e um de nossos entrevistados, que detalhou a interrogação do coronel Justo Moss, ao perguntar ao prefeito:

Ele disse: algum problema? Drayton: eu queria que o senhor mandasse seu serviço de informação verificar a noticia que cegou amanhecendo o dia que o sargento Ferraz tá armado dizendo que quer me pegar e recolheu os fuzis de alguns soldados, cabos, sargento que não eram solidários com a revolução [...]229

225 Franciscano italiano radicado no Brasil chegou ao país na década de 1950, na mesma comitiva do Frei Damião. Em 1958 vai assumir a administração da construção do Convento dos Capuchinhos de Caruaru. Em parceria com a CERAPE, Frei Tito contribuiu decisivamente para a eletrificação de várias comunidades rurais durante a Administração de João Lyra Filho. Administrou o Abrigo de Menores Dom Bosco cuidando da formação de centenas de jovens pobres de Caruaru. Idealizou e construiu educandário ao lado do Convento dos Capuchinhos que atualmente se chama Escola Dom Vital. Faleceu aos 86 anos no Convento Del Frades Capucino no Monte San Quirino, na cidade de Lucca, interior da Itália.

226 RABELO, José Carlos Torres Rabelo. Entrevista, Caruaru, 11 de Setembro de 2015.

227 A afirmação foi feita durante entrevista de Assis Claudino com o historiador Erinaldo Vicente Cavalcanti realizada em 14 de dezembro de 2011. In: CAVALCANTI, Erinaldo Vicente. O medo em cena: a ameaça

comunista na ditadura militar (Caruaru-PE 1960 - 1968). Recife, PE, 2015. Tese de Doutorado em História.

UFPE.

228 Função que ocupava José Carlos Torres Rabelo.

Em 2 de abril de 1964, ele já estava no Palácio das Princesas visitando o novo governador do Estado, Paulo Guerra, anteriormente vice-governador de Miguel Arraes, que havia sido naquele momento destituído do cargo pela Assembléia Legislativa de Pernambuco. Assim buscava Drayton “acercar-se do poder” e gozar das prerrogativas desse raciocínio.

Mais Drayton também não escaparia de ser processado230 durante a Ditadura Militar

sobre crimes administrativos no município, tendo outros processos como nos casos das acusações sobre violências sexuais com moças da cidade. Entre outras acusações respondeu a processos como: desvio ou superfaturamento de obras públicas, contratações irregulares, nomeações, cargos fantasmas, aposentadorias ilegais, desvio de dinheiro público, sem falar em formas de nepotismo com a máquina municipal. Foi também acusado de espancar sua esposa, a deputada Aracy de Souza Nejaim, motivo pela qual ela divorciou-se dele.

Depôs nestes processos e como estratégia de defesa, sempre procurou destacar suas iniciativas e colaboração para com os militares no combate ao comunismo em Caruaru. Construiu a imagem de “revolucionário” e fazia questão de afirmar isso para os amigos mais próximos como confidenciou José Carlos Rabelo, um de nossos entrevistados que em seu relato sobre o golpe de 1964, enfatizava a “coragem pessoal” de Drayton:

Veio o Coronel Justo Moss, essa é que é o engraçado. Eu tava, eu era oficial de gabinete, eu não era chefe de gabinete, mas estava no gabinete com Drayton, aquela movimentação, Edésio Lopes com a rádio Liberdade lá dentro e agente colhendo noticias daqui, colhendo notícias dali. O IV Exército tava e não tava, o Justino Alves dizendo que tava com Goulart. Aí chega um jipão do exército. Naquela época para você ter uma idéia, ficou, um soldado do exército valia mais que um juiz de direito [...] 25 homens, veio o Coronel Justo Moss, ele chegou no jipão desceu, ai chegou na sala que eu estava e disse: Eu quero falar com o prefeito, meu filho, pois não, como é o nome do senhor? Coronel Justo Moss. Aí você veja uma história de um cara de coragem pessoal, naquela situação, ai [...] Pois não, eu vou avisar ao prefeito: Drayton, o Coronel Justo Moss do Exército tá aí, pois não, mande ele entrar[...] O Coronel entrou. Eu a essa altura to na sala, eu vi, ouvi. Aí o coronel: Prefeito tudo bem? Tudo bem coronel; Como está a nossa cidade? palavras do coronel. Drayton conheceu ele neste momento, no primeiro dia da revolução Drayton conheceu o Coronel Justo Moss [...] Ele disse: tudo bem prefeito? Tudo bem coronel; nossa cidade como está? Aí Drayton disse: Para agente começar a conversa, eu quero saber o seu lado. ele disse: Como assim prefeito? Por que o seu comandante do IV Exército ta dando entrevista, eu to pegando aqui, dizendo a João Goulart que está tudo sob controle, então o seu comandante do IV Exército não é revolucionário, o senhor é? Ele disse: Sou. Agora, agente pode conversar [....]231

Drayton não mede esforços, não só para acercar-se dos vitoriosos, mas também para construir uma narrativa de revolucionário como dissemos anteriormente. Ele durante toda sua

230 A investigação será desenvolvida entre 1969 e 1972 pela Comissão Geral de Investigação - CGI e a Divisão de Segurança e Informação – DSI do Ministério da Justiça. Foi posteriormente inocentado em dois processos que investigou sua administração.

vida, vai se orgulhar de ter participado da “revolução”, como um dos “lideres civis” naquele movimento, como ele mesmo dizia:

Estive em cargos legislativos, no cargo executivo eleito Prefeito, em 1963, contra o Comunismo, e a subversão, fui, queiram ou não queiram os meus inimigos, um dos líderes civis da Revolução, de arma em punho com os meus amigos e correligionários. Revolução vitoriosa, fui aplaudido; recebi mensagens de todas as Associações, inclusive da Associação Comercial; dos Comandos Militares, enfim, de muita gente boa232.

A sua retórica, seu autoelogio ao papel de combate ao Comunismo e a subversão que ocupara foi legitimada também pelos seus aliados em discursos proferidos na Câmara Municipal de Caruaru. No final da década de sessenta, no ano de 1969, teremos um episódio importante a votação para aprovação ou rejeição das contas do Executivo no ano de 1968, nele podemos perceber a apropriação do discurso de legitimação por parte de seus aliados, nestes a ênfase é na “bravura” e no “espírito revolucionário” de Drayton. Na visão de seu aliado o vereador Elias Soares da Silva233, a Casa Jornalista José Florêncio da Silva deveria aprovar suas contas “considerando a posição afirmativa do senhor prefeito desde o ano de 1963, contra forças políticas que tentaram perturbar a coletividade, não só em Caruaru, mas em todo Brasil”234.

Em outras ocasiões, podemos ver os elogios dos pares da Câmara de Vereadores de Caruaru235 a posse de Castelo Branco, e continuadamente nas atas de sessões da Câmara Municipal a lembrança sempre recorrente do “brilhantismo e amor a pátria” por parte de Drayton Nejaim naquele processo. Aludindo a coragem, o civilismo do prefeito o vereador aliado José Salvador Sobrinho - PSP no dia 6 de abril, durante a sessão extraordinária da Câmara Municipal solicita236 “voto de aplausos” ao prefeito Drayton Nejaim.

A aliança de Drayton com os militares vai se mantém até o fim da Ditadura Militar, sua ligações estreitas com o militares fica demonstrada nas várias visitas a Brasília que o prefeito realizou, em 1965 visita Castelo Branco. Mais tarde em 1979 visita a Figueiredo

232 Escreveu - Drayton Nejaim: Álbum - Revista de Caruaru, 1975. Fonte: Centro de Documentação e Pesquisa – CEPED/FAFICA

233 Vereador eleito pelo PSP – Partido Social Progressista.

234 Ata da Câmara Municipal de Vereadores de Caruaru, Janeiro de 1969.

235 A Câmara Municipal é composta na legislatura de 1963 a 1969 pelos seguintes vereadores de oposição: Severino Rodrigues Sobrinho, Amaro Veríssimo Silva, Edson Barros Pereira, Anastácio Rodrigues da Silva, José Florêncio de Souza e Antônio Bezerra do Amaral. Situação: José Augusto de Araújo, Aurelino Joaquim do Nascimento, Elias Soares da Silva, José Salvador Sobrinho, Carlos Alberto Toscano de Carvalho, João José Dutra e José Antônio Liberato.

acompanhado de Marco Maciel e Sarney237. Ele vai permanecer à frente do executivo municipal até 1982, quando será sucedido pelo prefeito eleito José Queiroz do MDB.