A Cidade de Caruaru conta com um prontuário funcional de 160 páginas. O início da década de 1960 e nos primeiros anos da década de 1970, se acentuam as atividades do DOPS- PE238 registradas pela Secretaria de Segurança Pública sobre o município de Caruaru.
Contudo, não há registros consistentes sobre a vigilância de comunistas por parte da Secretaria de Segurança Pública nem sobre as ações de partidos de esquerdas no agreste e em Pernambuco como pudemos verificar nas visitas que realizamos ao acervo de arquivos do DOPS em Recife. Essa documentação mais específica sobre as ações das esquerdas em Caruaru, assim como ocorreu com outros municípios pode ter sido destruída, ou desapareceu como ocorreu com vários prontuários individuais durante o processo de abertura do material do DOPS-PE na década de 1990, após o fim da Ditadura Militar no País. Nossa pesquisa não conseguiu encontrar alguns importantes prontuários individuais como o de Drayton Nejaim, cujo outros documentos encontrados no Prontuário Funcional de Caruaru fazem referência.
No entanto, os registros e informações documentais produzidas pela Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco nos primeiros dias após o golpe de 64, demonstram intensa comunicação dos agentes do DOPS-PE sobre os nomes que faziam parte da esquerda em Caruaru, entre quinze a vinte cidadãos foram processados pela Comissão de Investigação Sumária - CIS e acusados de subversão239. O historiador Erinaldo Vicente Cavalcanti240 analisa em sua tese de Doutoramento a atuação desta comissão nos primeiros meses após a instalação do golpe de 1964, em sua tese ele analisa cerca de doze processos movidos contra
237 Essas visitas são registradas pelo jornal Vanguarda e o jornal A Defesa, esse segundo vai produzir um maior destaque a essas visitas, bem como se constituir em um espaço para ataques aos opositores de Drayton no município.
238 Para uma discussão sobre a montagem, o funcionamento e a atuação da polícia política - Departamento de Ordem Política e Social – DOPS-PE durante a Ditadura Militar, indicamos: SILVA, Marcília Gama de.
Informação, repressão e memória: a construção do estado de exceção no Brasil na perspectiva do Dops- PE (1964-1985). Recife: Editora UFPE, 2014.
239 A 22ª CR em Caruaru ficou responsável na maioria desses casos por emitir pareceres, históricos dos indiciados e selecionar testemunhas e fazer o trabalho de colher informações através de depoimentos como pudemos perceber em alguns prontuários individuais encontrados no acervo do DOPS-PE.
240 CAVALCANTI, Erinaldo Vicente. O medo em cena: a ameaça comunista na ditadura militar (Caruaru-
PE 1960 - 1968). Recife, PE, 2015. Tese de Doutorado em História. UFPE. Indicamos a leitura do capítulo V:
caruaruenses241 pela CIS. Nestes processos vários depoentes são funcionários da Prefeitura, Drayton Nejaim foi neste período de investigação convocado pela CIS para apresentar denúncias e outras informações sobre seus funcionários. Nossa pesquisa localizou três funcionários do município, dois suplentes de vereador e um funcionário da PMC242. Em todos os processos Drayton atendeu se utilizando de um dispositivo legal da Comissão Geral de Inquérito.
Um dos mais destacados comunistas para os órgãos de informação da Ditadura em Caruaru foi sem dúvidas Celso Rodrigues243, assim como Manoel Messias acusado de estreita
ligação com a União Soviética e de ter participado de greves e outras agitações na cidade como é registrado nos documentos do Prontuário Funcional de Caruaru e em seu prontuário244. Sobre sua atuação no município podemos encontrar nos arquivos do DOPS referências a sua participação no comício de apoio a Cuba realizado em Caruaru no ano de 1961, bem como sua proximidade com Leonel Brizola, Lamartine Távora, isto demonstrava para os agentes da Ditadura que o mesmo era articulado e incorria em uma grau elevado de “subversão” . Foi indiciado. No depoimento de Manoel Messias sobre Celso Rodrigues, encontramos a seguinte afirmação:
Não admite que o senhor Celso Rodrigues tenha ido, por engano, a um comício pela autonomia de Cuba, visto que o referido comício, organizado pelo senhor Francisco Julião e outros parlamentares, cujo nome não recorda, ter sido amplamente divulgado, inclusive mencionando o nome de seus oradores245.
Como percebemos a vigilância as esquerdas na cidade foi tão ampla que até o registro da presença de Celso Rodrigues àquele comício foi motivo de discussão em um inquérito da
241 No acervo do DOPS/APEJE é possível encontrar os processos referentes aos residentes em Caruaru na época: Manoel Messias (Suplente de vereador pelo PR), José Rabelo Vasconcelos (Suplente de vereador pelo PST), Jurandir Gonsalves Pereira (Funcionário do município), Abdias Basto Lé (Presidente do comitê distrital do PCB em Caruaru), Romero de Figueiredo (Artista plástico), Francisco de Assis Claudino (Bancário e escritor), Ernesto Correia de Melo (comerciante), Gercino Lourenço de Souza (Funcionário do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários – IAPI), Jorge Alves da Silva (Presidente do Sindicato dos Hoteleiros de Caruaru), Antônio Jacinto da Silva, Jonas Mendonça e João Edson de Alencar (Fundador e presidente do Sindicato dos Bancários de Caruaru). Nossa pesquisa também levantou cinco outros nomes investigados, Celso Rodrigues (Candidato a prefeito em 1963), Severino Rodrigues Sobrinho (Vice-Prefeito e vereador pelo PR), Hugo Martins (Membro da direção do PCB), Arsênio Matias Gomes (Advogado) e Fernando Queiroga (Arquiteto), mas não encontramos seus respectivos processos.
242 Os suplentes eram: Manoel Messias e José Rabelo de Vasconcelos, o funcionário da Prefeitura de Caruaru era Jurandir Gonsalves Pereira.
243 Celso Rodrigues foi candidato a prefeito de Caruaru nas eleições de 1963 pela coligação PTB/PST, vários comunistas locais apoiaram sua candidatura.
244 Prontuário de nº 1.208. Fonte: Acervo do DOPS/APEJE.
245 Trecho de depoimento de 12 de Abril de 1964, disponível no Prontuário de nº 1.208. Fonte: Acervo do DOPS/APEJE.
CIS246, suas ações estavam sendo vigiadas pelos agentes da Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco e registradas cuidadosamente. Seu prontuário foi abastecido com informações como sua presença no referido comício, sua escolha para estar a frente do Grupo dos Onze que comandariam o PCB em Caruaru, registros de suas correspondências e da visita de Leonel Brizola à cidade. O DOPS-PE ainda registra seu envolvimento nas disputas político- eleitorais ocorridas em Caruaru e sua ligação com as esquerdas e o ideário comunista.
Manchetes de jornais e recortes de órgãos como o Diário de Pernambuco, Jornal Vanguarda, Jornal A Defesa e outros periódicos, além de ofícios, estavam entre as documentações postadas no Prontuário Funcional de Caruaru de número: 29.581. Há também informes classificados como secretos pelos militares a respeito das atividades subversivas em Caruaru247.
Os primeiros dias após o golpe são bem movimentados como pudemos perceber anteriormente nas notícias, proibição de reuniões, comunicados da 22ª CR, e prisões. Este contexto de tensão, articulação de uma possível reação das esquerdas no município são vestígios do clima de instabilidade que a cidade passava, um verdadeiro “barril de pólvora”. Segundo Erinaldo Vicente Cavalcanti, Caruaru vai aparecer nos documentos do DOPS-PE, como uma possível “praça de guerra”248.