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DROGA E ANTI-SOCIALIDADE

3.1. Droga/Anti-socialidade: do Determinismo ao Processual

A alusão ao problema do consumo de substâncias remete, desde logo, para um conjunto de representações variadas e de precisão duvidosa (Cardoso, 2001; Moral, 2005; Taylor, 2008), com imediata associação a temas como doença, insegurança, crime, desvios comportamentais, perversões, transgressões sociais e morais, entre outros cujas pesquisas são, não raramente, divergentes e até antagónicas (Cardoso, 2001). Na verdade, a relação entre droga e crime tem sido alvo de discursos produzidos por áreas muito diferentes, nomeadamente de cariz político e, muito frequentemente, com tendência a elaborar análises de carácter mecanicista (Allen, 2007; Brochu, 1997). Durante muito tempo, prevaleceu a ideia de que o consumo problemático de substâncias seria a causa do desenvolvimento de condutas delinquentes. Assim, a explicação mais

corrente para a associação entre o consumo de drogas e a manifestação de certos comportamentos, como a prática delituosa, incidiu sobre os efeitos desinibidores das substâncias, que conduziriam ao desenvolvimento de condutas sexuais agressivas e de comportamentos delinquentes. Relativamente ao consumo de drogas ilícitas, a sua associação a um registo comportamental anti-social, nomeadamente a acções de delito contra a propriedade, foi, tradicionalmente, explicada pela necessidade do indivíduo obter meios económicos que lhe permitissem sustentar os consumos (Allen, 2007; Brunelle, Brochu & Cousineau, 1998; Negreiros, 1997; Otero, 1994), num registo de execução de práticas delituosas de carácter essencialmente aquisitivo (Allen, 2007). Assim, pode afirmar-se que os estudos desenvolvidos a respeito da concomitância do consumo de drogas e da anti-socialidade levantaram três hipóteses explicativas. Duas dessas hipóteses remetem para um dos comportamentos como causa do outro, e a terceira aponta para a inexistência de causalidade entre as duas condutas (Bean, 2004; Manita et al., 1997; Otero, 1994). A primeira hipótese considera que o consumo de substâncias antecede e origina o desenvolvimento de outros comportamentos anti- sociais, nomeadamente de carácter delituoso, sendo a necessidade de manutenção dos consumos o factor que leva o indivíduo a delinquir. De facto, foi esta a ideia que surgiu a partir dos primeiros trabalhos científicos sobre o fenómeno (Bean, 2004; Bennett & Holloway, 2005b; Brunelle et al., 1998; Hammersley, 2008; Otero, 1994). Actualmente, vão sendo investigadas algumas das facetas da problemática através de estudos (Agra & Matos, 1997; DeBeck et al., 2007; Johnson, 2004) que, nos seus resultados, encontram essa relação em que se verifica a necessidade de obtenção de rendimentos através da execução de actos ilegais, muito embora tal posição se faça acompanhar da consideração de outras vertentes explicativas. Junger e Dekovin (2003), por exemplo, apresentam uma perspectiva do delito como constituindo um risco para o posterior consumo de drogas, numa lógica que se aproxima da segunda hipótese explicativa da problemática.

A segunda hipótese parte da suposição de que o delito precede e é causador do posterior envolvimento do sujeito no consumo de substâncias. Sob este ponto de vista, a associação entre os dois comportamentos prende-se com um compromisso do indivíduo relativamente a uma sub-cultura favorecedora de oportunidades de envolvimento com as drogas. Dito de outra forma, o consumo de substâncias seria, nesta perspectiva, uma fase mais avançada de todo um percurso desenvolvido no mundo do desvio (Bean,

2004; Bennett & Holloway, 2005b; Hammersley, 2008; Otero, 1994), em que se poderia considerar que a acção das drogas facilitaria a execução de certos actos delinquentes (Allen, 2007; Brochu, 2003; Brunelle et al., 1998). Este registo foi encontrado num estudo (Agra & Matos, 1997), em que se identificou um tipo de trajectória desviante, dos “delinquentes/toxicodependentes”, no qual os sujeitos revelaram ter contactado as drogas antes dos 16 anos de idade, após integração num contexto de delinquência, pelo que os consumos terão sido um dos elementos de um estilo de vida desviante. O mesmo estudo identificou um outro tipo de percurso, o dos “toxicodependentes/delinquentes”, cujo registo evolutivo vai ao encontro da primeira hipótese apresentada, seguindo-se um terceiro e último tipo de trajectória desviante, que aponta para percursos nos quais, antes dos 17 anos de idade, se verificaram contactos com as drogas em contextos de sub- culturas delinquentes ou de consumidores regulares de substâncias. São os indivíduos considerados como “especialistas droga-crime” e que se enquadram na terceira hipótese explicativa do fenómeno.

Essa terceira e última hipótese remete para a inexistência de uma causalidade linear e directa entre as duas condutas que, no entanto, parecem também evidenciar uma mutualidade causal, de recíproca potenciação de comportamentos (Bennett & Holloway, 2005a). Sob esta perspectiva, ambas as condutas seriam resultantes da presença de determinados factores, que poderiam conduzir ao desenvolvimento de cada um dos comportamentos separadamente ou, pelo contrário, à emergência mais ou menos simultânea das duas práticas. Com efeito, esta terceira hipótese surgiu como uma alternativa às duas anteriores, na medida em que a relação causal entre as condutas delinquentes e o consumo de drogas acabou por se revelar falaciosa, já que ambos os comportamentos pareciam resultar de uma constelação de factores comuns. Esta última ideia tem sido apoiada por vários trabalhos desenvolvidos com amostras constituídas por jovens nos quais se manifestam as duas condutas (Bean, 2004; Otero, 1994).

De facto, nas análises mais recentes, o que se tem procurado averiguar não é a eventual existência de uma associação de carácter causal entre os dois comportamentos, nem num sentido, nem no seu oposto. A ideia que tem sido privilegiada é a de que a relação droga/crime faz parte integrante de um esquema de desviância social inerente à adopção de um estilo de vida desviante (Brochu, 2006; Brunelle et al. 1998; Parent & Brochu, 1999; Seddon, 2000). Estudos e interpretações muito recentes (Anglin et al., 2009; Bennett e Holloway, 2005a; Conner et al., 2009; Fite et al., 2010; Lier et al., 2009;

Martins & Pillon, 2008; Seddon, 2006;) têm vindo a analisar as possíveis relações entre o consumo de substâncias e as práticas delituosas, numa busca de novas configurações do fenómeno e de diferentes variáveis implicadas, em que se procura, frequentemente, ter em consideração as diferentes substâncias e os díspares registos de criminalidade a elas associados.

Em suma, é possível identificar diferentes vertentes explicativas do fenómeno. Primeiramente, surgiram as abordagens nas quais prevalecia a procura de uma relação de causalidade linear e directa, através do estabelecimento de leis em que toda e qualquer variação de um elemento produziria um efeito directo e previsível sobre um segundo elemento, este último causado pelo primeiro. Numa outra leitura do fenómeno, a explicação procurou basear-se na ideia de que aquela realidade poderia ser vista como uma manifestação de um conjunto de comportamentos, que poderiam ser reduzidos a formas estruturais orgânicas, psicológicas e sociais. Finalmente, sob um outro ponto de vista, o fenómeno passou a ser considerado como interveniente num processo de passagem por estádios que se iriam configurando ao longo do tempo (Agra, 1996). Então, podem considerar-se três grandes linhas interpretativas da problemática, que passam pela Explicação Determinista Causal, pela Explicação Estruturalista e, por último, pela Explicação Processual (Agra, 1996). Em torno destas três vertentes, foram sendo desenvolvidas diferentes conceptualizações, algumas das quais passarão a ser sumariamente expostas no ponto seguinte.