CONSUMO PROBLEMÁTICO DE DROGAS
2.2. Perspectivas Teóricas Explicativas do Consumo Problemático de Drogas
2.2.1. Teorias Parcelares e Baseadas em Poucos Componentes
Estas abordagens teóricas procuram uma explicação para o consumo de drogas mediante o apelo a um número muito limitado de elementos ou de factores (Becoña, 1999).
Dentro deste grupo de teorias, podem referir-se as de carácter biológico, cuja grelha de leitura se reduz a uma explicação etiológica da problemática, baseada no transtorno biológico do indivíduo dependente de drogas (Becoña & Martín, 2004), com base nas consequências da acção das substâncias ou em eventuais “acidentes” genéticos (Alexander, 1988). Trata-se de uma área de pesquisas de desenho predominantemente
experimental, em que se procura discriminar os efeitos das substâncias sobre os indivíduos, numa linha em que se têm desenvolvido vários estudos (Farré et al., 2003; Jansen & Theron, 2003; Sáiz et al., 2003; Tavares, Silva-Araújo, Lopes, Silva & Sousa, 2002). É uma perspectiva que, frequentemente, remete para a toxicodependência como uma doença incurável e, de certa forma, aponta para a não responsabilização do sujeito que, assim, não se curará. Esta é, aliás, uma das premissas de um dos modelos de prevenção de recaída, proposto por Gorzki, e muito usado para orientar o tratamento de indivíduos dependentes de drogas (Trigo, 2006).
Dentro destas perspectivas da toxicodependência aponta-se, reiteradamente, a implicação de certos neurotransmissores como, por exemplo, os níveis de dopamina (Di Chiara, 1995) ou os de serotonina (Heinz et al., 1998). Igualmente frequente, é a referência à importância da componente genética no desenvolvimento do consumo problemático de substâncias, alegando-se a possível existência de uma predisposição geneticamente potenciadora da toxicodependência (Grabbe, McSwigan & Belknap, 1985; Minister of Public Works and Government Services Canada, 2006). Não obstante, é de salientar que a carga genética poderá ter expressão no fenómeno, mas sempre por acção conjugada com uma multiplicidade de factores, nomeadamente, de cariz ambiental (Schuckit, 1980).
Também inscrita no âmbito dos modelos de carácter biológico, encontra-se a Perspectiva da Auto-medicação, que pode ocorrer numa tentativa de alívio de dor, de insónia ou de outros problemas físicos (Minister of Public Works and Government Services Canada, 2006). No entanto, esta explicação parece focalizar-se apenas nas razões associadas ao início dos consumos. Inspirado nessa conceptualização teórica, Khantzian desenvolveu uma outra, que contempla o funcionamento das instâncias psíquicas do sujeito (Farate, 2000; Sánchez & Berjano, 1996). Trata-se da consideração da existência de problemas aos níveis da estrutura e do aparelho psíquico do indivíduo, que recorre às drogas numa tentativa de suspensão de uma realidade interna com um Eu enfraquecido, e em que vigora uma perturbação do sentimento de si, em que a droga será percebida como fonte de alívio para os problemas do sujeito (Khantzian, 1980; 1985). Posteriormente, o autor alargou a sua interpretação do fenómeno, alegando a existência de efeitos directos do consumo de drogas sobre a componente afectiva dos consumidores. No entanto, um estudo recente (Hall & Queener, 2007) concluiu pela
inexistência de evidências de uma relação directa entre a dimensão afectiva e o consumo de substâncias.
Na verdade, muito embora possam existir situações em que algum distúrbio possa estar na origem do contacto do indivíduo com certas substâncias, não parece razoável considerar tal explicação no âmbito da persistência dos consumos de drogas. Além disso, os indivíduos dependentes de substâncias não recorrem a um qualquer fármaco para procurar o alívio dos seus males, consumindo antes substâncias estimulantes dos centros cerebrais de prazer. Então, o que parece mais credível é a existência de uma situação de dependência camuflada pela racionalização da auto-medicação (DuPont, 2005).
As investigações que procuram relacionar o consumo de drogas com factores biológicos, agora despidas do determinismo inicial, têm continuado a desenvolver-se, alegando que a toxicodependência constitui uma doença crónica ou procurando associar certas substâncias a consequências biológicas muito marcantes (Ahmed et al., 2005; Corominas et al., 2010; Ibañez, 2008; Koob & Le Moal, 2008; Koob & Nestler, 1997; Nestler & Landsman, 2001; Leshner, 1997; Liu et al., 2005; McLellan, Lewis, O’Brien & Kleber, 2000). A esse respeito, é de salientar que as pesquisas biológicas na área das toxicodependências se têm revelado tão numerosas quanto dispersas, conduzindo a resultados muitas vezes contraditórios. Esse registo de dispersão também decorre da construção de conceptualizações teóricas fortemente apoiadas em perspectivas unilaterais, num determinismo a que se juntam resultados duvidosos, bem como falhas metodológicas (Marques-Teixeira, 1993a).
Pode afirmar-se que a predisposição biológica do indivíduo para o desenvolvimento destes comportamentos, a existir, terá certamente uma base genética. Todavia, uma explicação desse cariz será aplicável a um número muito reduzido de pessoas, pelo que deve haver o máximo cuidado para não se sucumbir à tentação de reduzir a complexidade do comportamento a explicações lineares e directas, exclusivamente baseadas na Biologia (Becoña & Vázquez, 2001), que se tem revelado insuficiente para explicar a problemática (Ambrosio, 2003). Ainda assim, a Biologia, nomeadamente a Psicofisiologia do toxicodependente, apresenta especificidades que requerem atenção, a par de análises relativas a outras dimensões, como as variáveis de cariz psicológico e eco-social (Marques-Teixeira, 1993b). Deve ainda considerar-se que o adicto às drogas
apresenta, também, um funcionamento específico em termos de processamento cerebral de informação, em diferentes estados emocionais (Marques-Teixeira & Barbosa, 2005), bem como um perfil específico em termos psicofisiológicos e emocionais (Marques- Teixeira, 2001), pelo que a Biologia não pode ser abandonada mas antes integrada, em complementaridade com outras dimensões da problemática. Acrescente-se que certos estudos muito recentes (Schramm-Sapyta, Walker, Caster, Levin & Kuhn, 2009), de desenho experimental e de pendor biológico, procuram outros aspectos cuja utilidade é indiscutível, como por exemplo, o grau de vulnerabilidade às drogas em diferentes idades.
Ainda entre os modelos parcelares e baseados em poucos componentes, destacam-se as Teorias da Aprendizagem, que procuram explicar o comportamento do consumidor de drogas através das aprendizagens do indivíduo. De acordo com estas interpretações, o fortalecimento do comportamento adictivo não resulta apenas dos reforços alcançados através dos consumos, na medida em que esses reforços funcionam como base de um processo que pode conduzir a um condicionamento ainda mais resistente. É que o acesso às drogas pode estimular cada vez mais a procura das substâncias, gerando-se um ciclo quase inquebrantável, em que a própria antecipação do uso da droga já estimula a busca da mesma com subsequente consumo. Trata-se de um ciclo crescente que vai alimentando as respostas adictivas (Frederick, 1980). Na verdade, a Perspectiva da Aprendizagem Social proporcionou uma explicação para o consumo problemático de drogas, nomeadamente na fase de iniciação. Além disso, trata-se de uma linha interpretativa com forte apoio empírico, cujos princípios constituem grande ajuda ao nível da intervenção junto destes sujeitos (Becoña, 2002; Becoña & Martín, 2004). As teorias baseadas em causas intra-pessoais são, também, abordagens psicológicas pertencentes a este grupo de modelos. A Teoria do Comportamento Desviante, de Kaplan, assume a execução de actos desviantes como adaptativa e dependente do referente normativo considerado como tal pelo indivíduo. Segundo esta leitura, é imperativo que o sujeito encontre uma forma de se sentir valorizado pelos que o rodeiam para, assim, alcançar a auto-valorização. Então, se o indivíduo não se sente valorizado quando manifesta comportamentos convencionais, acaba por desenvolver motivações para enveredar por acções não convencionais e de cariz desviante, procurando alcançar nesse meio os reforços e os sentimentos de auto-estima de que carece (Becoña, 2002; Becoña & Martín, 2004).
Ainda nesta primeira classe de teorias, inscrevem-se as baseadas na família e de enfoque sistémico. Segundo esta interpretação, a família, enquanto sistema, é possuidora de determinadas propriedades cujo funcionamento pode levar à manifestação de comportamentos problemáticos, por um ou mais dos seus membros (Alda, 1995). Sob este prisma, a toxicodependência pode considerar-se a resultante de uma perturbação relacional entre o indivíduo e o meio, uma vez que o consumidor de drogas tenta comunicar por meio das suas “incomunicações” e desordens biológicas, familiares e socio-culturais. Então, pode falar-se de um fenómeno de carácter sistémico, em que a dependência estabelecida com as drogas mais não será do que a replicação da dependência anteriormente existente, relativamente à família (Gomes, 1996).
Já numa leitura muito diferente, mas igualmente inscrita neste grupo de teorias, o modelo apresentado por Peele em 1985 aponta a cultura das civilizações ocidentais como favorecedora dos processos adictivos, uma vez que incentiva a observância de valores de êxito e de lucro individuais. Ora, tais valores são perseguidos por todos mas nem sempre alcançados, levando o indivíduo a refugiar-se no comportamento de consumo de drogas como uma tentativa de se deslocar para um ponto de vista diametralmente oposto ao culturalmente definido (Becoña, 2002; Becoña & Martín, 2004; Fuente, 1993; Sánchez & Berjano, 1996). Assim, o sujeito, incapaz de enfrentar a vida quotidiana, é tentado a exercer controlo sobre as componentes física, emocional e comportamental, num registo de funcionamento e de busca de compensação do anteriormente incontrolável, através da obtenção de efeitos imediatos e antecipados por ele próprio (Donovan, 1988).
Como estes, vários outros modelos baseados em poucos componentes têm procurado uma explicação para o consumo de substâncias. Contudo, tal como se constatou a respeito das condutas anti-sociais, a complexidade do comportamento humano não obedece a leituras unifactoriais e, por isso, o contributo destas teorias não terá bastado, pelo que se desenvolveram outras, ancoradas na ideia dos estádios evolutivos do desenvolvimento do fenómeno, conforme se passa a expor.