II. TECHNÉ: PRESSUPOSTOS METODOLÓGICOS
6.1 DROGAS E VIOLÊNCIA ENTRE CRIANÇAS E ADOLESCENTES EM
Neste capítulo, discute-se a violência e o uso de drogas por meninos internos das instituições de acolhimento de Juiz de Fora, Minas Gerais. Ressalta-se que, assim como nos capítulos anteriores desta tese, e de acordo com a metodologia aqui empreendida, não houve em momento algum uma predeterminação do que se estudar em cada instituição de acolhimento pesquisada. Assim como nas instituições anteriormente analisadas, houve uma imersão no campo, o qual nos apresentou a história daquela instituição.
O campo, o lugar da imersão e nosso lugar de pesquisa, sempre nos pareceu muito rico, com muitas histórias, conflitos e temas oportunos para a compreensão das instituições. Acreditamos que há aqui uma compreensão tanto das dificuldades vivenciadas institucionalmente quanto das potencialidades para a formulação de políticas públicas. Houve, contudo, divergências em relação à história deste capítulo que consideramos relevante explicitar. Nos dedicaremos ao relato das vidas de três indivíduos – uma criança de onze anos de idade e dois adolescentes de quinze e dezesseis anos de idade. Este capítulo será protagonizado por Joaquim; diferente do que ocorreu nas instituições pesquisadas e analisadas nos capítulos anteriores, Joaquim decidiu se o estudaríamos.
Em um dia de visita ao campo, ao chegar à instituição, vimos Joaquim fumando maconha na rua ao lado da entrada da instituição. Já nos conhecíamos e conversávamos há aproximadamente três meses devido às nossas visitas semanais. Ele rapidamente veio conversar e perguntou-nos o motivo de nossa visita ao abrigo e também a nossa profissão. Respondi que sou professora de Sociologia e estudante do Doutorado em Ciências Sociais e que pesquisava a vida deles nas instituições de acolhimento da cidade. Conversamos e indagamos se poderíamos descrever sobre sua história de vida nos nossos estudos. Prontamente ele respondeu: “Pode sim, pode contar, sim. O que quer saber?”. Assim, Joaquim permitiu-nos e mais que isso, definiu o tema deste capítulo. Investigamos o que ele estava fumando, ele sorriu dizendo: “nada, né?”. Questionado sobre onde e como conseguia o dinheiro, o adolescente iniciou a história aqui narrada.
Joaquim nos disse que é usuário de maconha e que conseguia o dinheiro com uma pessoa que gostava muito dele, era, segundo seu relato, como uma mãe para ele. Conhecera tal pessoa quando cumpriu, durante três meses, uma medida socioeducativa com o seu filho, protegendo-o dos demais adolescentes; daí, ambos, a mãe e Joaquim, se afeiçoaram, fato que fez com que ela lhe desse uma “graninha” toda semana. Joaquim será, neste capítulo, nosso
guia por uma realidade sobre a qual sabemos, mas muitas vezes não gostamos de enxergar, pode-se dizer, portanto, que ele nos guiará por um universo incômodo, um mundo de violência, dor e abandono, muitas vezes sem perspectivas e que se forjará dentro das instituições de acolhimento.
Neste capítulo, estudaremos a violência e o uso de drogas dentro das instituições de acolhimento por crianças e adolescentes em Juiz de Fora. Houve, de nossa parte, uma preocupação em não apenas reafirmar estigmas e estereótipos em relação àqueles que são as vítimas de um processo de cronificação da desigualdade social.
Para Goffman (1980), o estigma representa um atributo depreciativo, oferecido àquelas pessoas que se afastam dos padrões normativos determinados socialmente como “normais”. O atributo de determinado indivíduo se caracteriza como um estigma quando seu efeito é o descrédito social que faz com que, a partir do que é ajuizado como uma propriedade negativa, outros elementos negativos sejam adicionados. Geralmente, os estigmatizados tendem a se reunir em pequenos grupos sociais como forma de se fortalecerem diante das exclusões e discriminações às quais e estão sujeitos. Os processos de construção do estigma estão associados às formas como alguns atributos dos indivíduos passam a ser considerados socialmente pejorativos. Para o autor, estes atributos não são, intrinsecamente, positivos ou negativos, mas emergem do contexto social; são, portanto, definidos culturalmente, em resumo, nascem das interações sociais. Todos podem ser, em certa medida, “desviantes normais”, já que nem sempre é possível corresponder a todas as normas sociais (Goffman, 1980).
Tivemos ainda a preocupação em não reafirmar o espectro da violência relacionado ao uso de drogas em um contexto de vulnerabilidade social. Essa noção depreciativa em torno da juventude está presente em toda sociedade e também na Criminologia, que tem apontado para alguns atributos e características de adolescentes como determinantes para o “surgimento” de potenciais criminosos. Essas concepções, consequentemente, determinam, em grande parte, o tipo de intervenção do Estado e a reação social referente a tais fatos. Muitas dessas percepções difundidas socialmente alimentam visões negativas em torno da juventude e aumentam ainda mais o medo e pânico social com relação a essa categoria.
Chegou-se mesmo a ponderar acerca do veto ou não desta história que passa a ser narrada. Contudo, decidimos por Joaquim. Ele terá a autonomia de nos contar os conflitos, os dilemas e os meandros de ser um adolescente negro, interno de uma instituição de
acolhimento desde criança e de ter cumprido medida socioeducativa por tentativa de assassinato.
Ressalta-se que o Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990) constituiu- se pela diferenciação das legislações tradicionais para a infância, baseadas na doutrina da situação irregular, que colocava uma divisão entre as crianças e os “menores”, ou seja, os meninos e meninas de lares “desestruturados”, os abandonados e/ou “perigosos”. A legislação anterior ao Estatuto enfatizava a responsabilidade individual sobre a pública, deslocando a um plano secundário a necessidade de implantar as políticas sociais que garantissem a universalidade dos serviços e os direitos básicos. O Estatuto, por sua vez, baseado na doutrina da proteção integral, assegura às crianças e adolescentes tais direitos. No caso de cometimento de ato infracional, estão destinadas medidas de caráter socioeducativo e também protetivas, sem deixar de responsabilizar os adolescentes.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990) busca romper com a mentalidade menorista, que dirigia a tutela do Estado às crianças pobres e que estivessem em “situação irregular”, termo que abrangia abandono, maus tratos e a prática de delitos. A atual legislação brasileira, seguindo os principais tratados internacionais, adota o paradigma da proteção integral e reafirma que toda e qualquer criança e adolescente é sujeito de direitos e deve ser respeitado em sua condição de pessoa em desenvolvimento. O Estatuto assegura direitos inclusive ao adolescente autor de ato infracional, para quem são destinadas medidas de caráter socioeducativo, também podendo ser aplicadas as medidas protetivas. Além disso, as atividades pedagógicas são sempre obrigatórias nesses casos.
Segundo os artigos 2.° e 103.º do Estatuto, é considerada adolescente a pessoa entre doze e dezoito anos de idade, e define-se ato infracional a conduta descrita como crime ou contravenção penal. A Constituição Federal de 1988, no art. 228, estabelece que a pessoa até 18 anos de idade é considerada inimputável e, assim, não está sujeita aos preceitos do Código Penal, mas, sim, a uma série de prerrogativas elencadas no Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990). O critério utilizado para fazer essa diferenciação se baseou unicamente na faixa etária, não sendo considerada a questão psicológica e social (LIBERATI, 1991). Nota-se, portanto, que mesmo estando excluído da esfera penal, o adolescente é responsabilizado pelo seu ato em âmbito estatutário. Enquanto a responsabilidade penal preocupa-se primeiramente com a repressão e a punição, a responsabilidade estatutária tem como principal objetivo a educação do adolescente, visto que é determinada de acordo com as
necessidades pedagógicas, priorizando aquelas que visam o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários.
Ao adolescente autor de ato infracional, considerado inimputável, são aplicadas medidas socioeducativas. O Estatuto da Criança e do Adolescente (Brasil, 1990) elenca as seguintes medidas socioeducativas no Capítulo IV: advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, inserção em regime de semiliberdade e internação em estabelecimento educacional. Para a aplicação destes dispositivos, o Estatuto determina que seja observada a capacidade do adolescente para cumprir a medida, as circunstâncias e a gravidade da infração. Entretanto, a questão do jovem em conflito com a lei e do sistema socioeducativo é o locus do conflito entre a doutrina de proteção integral atual e nossa histórica doutrina de situação irregular, herdada dos antigos paradigmas dos códigos de menores (ZAMORA, 2004).