II. TECHNÉ: PRESSUPOSTOS METODOLÓGICOS
2.2 LEVANTAMENTO NACIONAL DOS SERVIÇOS DE ACOLHIMENTO PARA
Por conseguinte, buscando compreender a realidade das intuições de acolhimento como medida protetiva para crianças e adolescentes no país, apresentam-se alguns dos dados recolhidos e elaborados através do relatório Um olhar mais atento aos serviços de acolhimento de crianças e adolescentes no país (BRASIL, 2013). Primeiramente, ressalta-se que em 2011 o Conselho Nacional do Ministério Público editou a Resolução nº71, com o desígnio de regulamentar e uniformizar, nas unidades do Ministério Público dos Estados e do Distrito Federal, as fiscalizações realizadas nas entidades e nos programas de acolhimento institucional e familiar.
Este trabalho de monitoramento envolve a realização de inspeções anuais em todos os serviços de acolhimento no país, documentadas por meio de relatórios, com vistas à obtenção das mais diversas informações, desde a condição das instalações físicas, adequação dos programas de atendimento às diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente, até o perfil e status familiar das crianças e adolescentes acolhidos.
Para uma compressão mais clara do contexto vigente nas ações de acolhimento institucional do país, apresentam-se alguns dos dados obtidos no levantamento nacional destas organizações. De um total de 2.754 entidades que executam programas de atendimento institucional ou familiar, o Ministério Público brasileiro inspecionou até março de 2013, 86,1% de todas as entidades no país, o que corresponde a 2.370 entidades. Destas casas pesquisadas, cerca de 2.247 eram entidades de acolhimento institucional e 123 entidades voltadas ao acolhimento familiar.
De acordo com os dados do relatório, os números que expressam a realidade brasileira são inferiores aos encontrados em outros países. O número de crianças e adolescentes atendidos pelos serviços de acolhimento, em suas diversas modalidades, é de aproximadamente 51.6705, na Inglaterra e na Argentina, que possui uma população aproximada de 42 milhões de habitantes há cerca de 17.063 atendidos.
O levantamento nacional revelou que a grande concentração de entidades de acolhimento institucional do tipo de abrigo está na Região Sudeste do país, com aproximadamente 53% do total das instituições. Como demonstra o gráfico 01, esta concentração de abrigos acompanha o maior volume populacional desta região e a maior participação da região Sudeste no total das crianças e adolescentes abrigados reflete, na verdade, a própria realidade de urbanização do país. Outros números deste levantamento
informam que o Sudeste é seguido pela região Sul, com 21% das instituições de acolhimento em 2013. Já no caso região da Norte, ao contrário do Sudeste, é possível observá-la como aquela que apresenta o menor número de instituições de acolhimento, ou seja, apenas 5% das instituições que amparam as crianças e adolescentes que são vitimas de direitos violados, no ano de 2013.
Gráfico 01: Distribuição do Acolhimento Institucional por regiões do Brasil.
Fonte: BRASIL, 2013, p.19.
Um dos princípios que norteiam o acolhimento institucional no país pauta-se na garantia de acesso a proteção as crianças e adolescentes, como previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990), bem como a não-discriminação destes sujeitos. De tal modo, de acordo com a legislação considera-se que devem ser evitadas as especializações e ou atendimentos exclusivos, como por exemplo, direcionar o atendimento apenas a determinado sexo, atender exclusivamente ou não atender crianças e adolescentes com deficiência. Neste aspecto, o gráfico 02 demonstra que as entidades de acolhimento que atendem a crianças de ambos os sexos, superam com larga vantagem àquelas destinadas à população feminina ou masculina.
Gráfico 02: Brasil: oferta de Acolhimento em Abrigo por sexo.
Fonte: BRASIL, 2013, p.29
Na avaliação por regiões, observada no gráfico 03, nota-se que embora seja mantida a superioridade numérica das entidades de acolhimento indiferentes ao sexo dos atendidos, verifica-se na Região Nordeste uma maior tendência à segmentação de entidades voltadas aos usuários do sexo masculino, com 22%, e 18% focadas no sexo feminino. Na região Norte a tendência à segmentação também é expressiva, com 17% das instituições para o público masculino e 16% para o público feminino. O ideal é que as instituições de acolhimento reproduzam as mesmas características vivenciadas socialmente, neste sentido, a segregação e ou a segmentação dos grupos é muito contraproducente. Já que pode, muitas vezes, reafirmar estigmas e ou preconceitos estabelecidos socialmente.
Gráfico 03: Oferta de acolhimento em abrigos por sexo nas regiões do Brasil, ano 2013.
Fonte: BRASIL, 2013, p. 31
Com relação ao papel das entidades não governamentais, nota-se, muitas vezes, que elas são expressamente importantes. Em Juiz de Fora, por exemplo, o acompanhamento que se estabelece em uma das instituições de acolhimento do município diferencia-se positivamente das demais instituições público-municipais.
Observa-se, portanto, a presença expressiva de entidades não governamentais na oferta dos serviços de acolhimento institucional no país (tabela 01), com exceção da Região Norte, onde as instituições públicas correspondem a 57,7% dos serviços. Nas demais regiões do país, as instituições não governamentais superam o Estado na prestação do acolhimento institucional. Na região Nordeste, por exemplo, a atuação das entidades não governamentais é bastante expressiva e os serviços de acolhimento institucional por elas ofertados representam 84,8% do total, enquanto instituições públicas correspondem a apenas 15,2%.
Tabela 01: Distribuição dos serviços de acolhimento institucional quanto à natureza governamental e
não governamental nas regiões do Brasil, ano 2010.
Fonte: BRASIL, 2013, p.32
Ainda de acordo com o relatório “Um olhar mais atento aos serviços de acolhimento de crianças e adolescentes no país” (BRASIL, 2013), em um universo de 86,5% de entidades de acolhimento institucional inspecionadas, encontrou-se o expressivo quantitativo de 29.321 crianças e adolescentes em abrigos (tabela 02). Nas casas-lares, por sua vez, residem outras 1.019 crianças e adolescentes atendidos nos 123 programas específicos ao acolhimento familiar, de um total de 156 entidades no país (tabela 03). São, portanto, mais 30.000 crianças e adolescentes afastados do convívio com seus pais e ou responsáveis, vítimas da negligência, do abandono ou da impossibilidade, por distintas razões, de permanecerem em companhia de sua família biológica.
Tabela 02: Capacidade total e ocupação nos serviços de acolhimento institucional
por Estado e Região, 2013.
Fonte: BRASIL, 2013, p.33-34
Tabela 03: Capacidade total e ocupação atual nos serviços de acolhimento familiar por Estado e
Região do Brasil.
Quando se trata da idade das crianças e adolescentes em acolhimento institucional, os dados relativos demonstram que a faixa etária dos atendidos é bastante abrangente, conforme o gráfico 04. Sobretudo, representam em maior número meninos e meninas de 0 a 15 anos, com maior incidência de meninos entre 6 e 11 anos e meninas de 6 a 11 anos e 12 a 15.
Gráfico 04: Crianças e adolescentes atendidos em abrigos, por faixa etária e região, 2013.
Fonte: BRASIL, 2013, p.36.
Podemos observar, a partir dos dados do gráfico 05, a existência de atendidos em condições especiais, tais como: acolhidos com deficiência física, sensorial, mental, com transtorno mental, dependentes químicos, portadores de doenças infecto-contagiosas, acolhidos em situação de rua, ameaçados de morte e adolescentes grávidas e/ou com filhos.
Nesse recorte de acolhidos com especificidades, em 2013, a maior prevalência na Região Centro-Oeste é de crianças e adolescentes com deficiência mental; no Nordeste, acolhidos com trajetória de rua; no Norte, com números bastante próximos, acolhidos com deficiência mental, deficiência física e em situação de rua; no Sudeste, indivíduos com deficiência mental, seguidos de acolhidos com transtorno mental, dependência química e em situação de rua. Por fim, no Sul, dentro do universo de acolhidos com especificidades, são mais numerosos os acolhidos com deficiências e transtornos mentais.
Gráfico 05: Acolhidos, com especificidades, em abrigos, 2012-2013.
Fonte: BRASIL, 2013, p. 40.
Segundo os dados do relatório, há a presença significativa de acolhidos com deficiência mental, sensorial e física em todas as regiões do País. Para muitas dessas crianças e adolescentes o acolhimento se distorce. Se inicialmente ele deveria ter um caráter provisório, no cotidiano converte-se em moradia permanente. Sendo assim, o que se observa é que as crianças e adolescentes com deficiência entram nos abrigos porque necessitam de cuidados que a família não consegue fornecer. Desta forma, um grande número deles ao entrar tem referências familiares, que são perdidas com o tempo, muitas vezes completamente. Estas crianças e adolescentes ficam muitos anos institucionalizados ou jamais deixam as instituições de acolhimento. Desta forma, o que deveria representar um local de acolhimento transitório transforma-se em um espaço de confinamento.
No que concerne às causas do acolhimento, averiguou-se que entre os principais motivos para o acolhimento institucional estão, como se observa no gráfico 06, a negligência dos pais e/ou responsável (mais de 80%); dependência química/alcoolismo dos pais e/ou responsável (mais de 80%); abandono dos pais e/ou responsável (em torno de 77%); violência doméstica; (próximo a 60%); abuso sexual praticado pelos pais e/ou responsável (em torno de 45%),
Gráfico 06: Principais motivos do acolhimento de crianças e adolescentes em abrigos, 2012.
Fonte: BRASIL, 2013, p.43
E ainda sobre a visitação e a manutenção dos vínculos com os pais e ou responsáveis nas instituições, o relatório demonstra que 76%, em 2012, e 77%, em 2013, das entidades informaram que há atendidos que não recebem visitas dos pais por mais de dois meses (gráfico 07). Esse dado alarmante alude ao drama de que, quanto menor a incidência das visitas, mais frágeis se tornam, portanto, os vínculos que unem a família e a criança ou adolescente abrigado. Por conseguinte, as chances de reinserção serão sensivelmente reduzidas, derivando no aumento do tempo de permanência no serviço de acolhimento. Mais uma vez, confirma-se que as instituições que deveriam ser de caráter provisório, não o são.
Gráfico 07: abrigos com crianças e adolescentes visitados por seus pais ou responsáveis
nos últimos 2 meses, Brasil, 2012-2013.
Fonte: BRASIL, 2013, p.49.
Em relação ao tempo médio de permanência dos acolhidos nas instituições, a realidade encontra-se muito aquém do que propõe o Estatuto (gráfico 08). O Estatuto da Criança e do Adolescente determina que até o prazo máximo de seis meses, a necessidade de permanência da criança ou adolescente no serviço de acolhimento seja reavaliada, a fim de que não se prolongue por mais de 2 (dois) anos, somente quando comprovada a necessidade que atenda ao seu superior interesse, devidamente fundamentada pela autoridade judiciária. Contudo, o percentual de crianças e adolescentes que permaneceram no serviço até o período de seis meses não chega a 20%. Cerca de 50% dos atendidos permanecem no serviço entre 6 meses a 2 anos e um número bastante elevado, correspondente a aproximadamente 35% dos acolhidos, são mantidos nas entidades por mais de 2 anos, perfazendo um total de mais de 10 mil crianças e adolescentes abrigados.
Gráfico 08: Tempo médio de permanência em abrigos.
Fonte: BRASIL, 2013, p.52.
É importante observar, que a produção deste relatório pelo Ministério Público é de suma importância para que seja conhecida a realidade das instituições de acolhimento para crianças e adolescentes no país, todavia, apesar da qualidade do material aqui divulgado, não
há uma regularidade na sua produção. Sabe-se que o relatório divulgado anteriormente data do ano de 2003 (SILVA, 2003), e só dez anos depois foram apresentadas informações atualizadas, através do relatório “Um olhar mais atento aos serviços de acolhimento de crianças e adolescentes no país” (BRASIL, 2013).
Esta política de monitoramento pode de fato contribuir e tornar visível a realidade de mais de 30 mil crianças e adolescentes afastados do convívio com seus pais e ou responsáveis por razões diversas. Podem ser elucidadas as condições em que vivem os acolhidos institucionalmente e até mesmo reverter um quadro de esquecimento a que tantas crianças e adolescentes abrigados estão relegados.
Mas, sobretudo, há que se considerar que os enfrentamentos e as dificuldades relatadas no levantamento nacional expõem as dificuldades no cotidiano institucional de todos os municípios, inclusive as de Juiz de Fora. Existem semelhanças quando se observa, por exemplo, em Juiz de Fora, que as instituições de acolhimento para crianças e adolescentes atendem, muitas vezes, além de sua capacidade máxima. Nas instituições há a presença de crianças e adolescentes grávidas, e ausência de políticas relacionadas a estas novas famílias que se constituem a partir da maternidade. Há crianças e adolescentes portadoras de necessidades especiais que passam por toda a sua menoridade, institucionalizadas.
As razões da institucionalização também se assemelham, seja pela negligência dos responsáveis, ou pela presença da dependência química entre os seus responsáveis, em Juiz de Fora, principalmente pelo uso de crack. Desta forma, a manutenção de um trabalho em rede que fiscalize, monitore e regulamente procedimentos, práticas e que garanta a qualidade do atendimento fornecido nestas instituições, pode contribuir sobremaneira com as instituições e seus abrigados em todo o país.