5 EXPERIÊNCIAS JUVENIS E O CRIME COMO POSSIBILIDADE 117
5.4 Drogas
A forma e o uso de drogas diferem de indivíduo para indivíduo, assim como de grupo para grupo dentro de uma mesma cultura, e são mais distintos ainda quando consideramos culturas contrastantes. É importante registrar que os grupos, em sua maioria e sua singularidade, desenvolvem conhecimentos a respeito das drogas que utilizam, compartilhando essas experiências e estabelecendo normas e formas de uso. É com relação a esse aspecto que H.
Becker (2008) se refere à cultura das drogas, ou seja, a troca de experiências entre os indivíduos de um grupo, ou entre grupos, ou entre indivíduos.
Durante a década de 1970, o antropólogo Gilberto Velho foi um dos primeiros a questionar a relação entre droga e pobreza no Brasil. O autor começou a tratar teoricamente do tema das drogas ilícitas e sua conexão com os indivíduos da classe média. A pesquisa desenvolvida permitiu a Velho ver a existência do “mundo das drogas” vinculado a “redes sociais que organizam sua produção, distribuição e consumo, bem como a conjuntos de crenças, valores, estilos de vida e visão de mundo que expressariam modos particulares de construção social da realidade”. A grande contribuição do autor estava no fato de compreender o uso das drogas em um contexto sociocultural claro, e não simplesmente de reificar o seu uso.
Considerando os trabalhos de H. Becker e Velho, é possível perceber a cultura da droga como um modo social de articulação de atitudes e de linguagem particular, que os usuários produzem para se comunicar entre si e marcar suas identidades de indivíduos e grupos frente aos demais. Esse conjunto de representações pode ser visto como um universo próprio, como um mundo em que se vivencia uma pluralidade de relações que extrapolam o universo familiar e o de vizinhança, argumento utilizado por H. Becker e muito bem interpretado e utilizado por Velho na análise da realidade brasileira. O uso de drogas pelos jovens deste trabalho revela o que esses autores já apontaram como pluralidade de relações ao uso.
Segundo Abramovay et al (2010), no que diz respeito à análise do uso de drogas pelos jovens, há diferentes abordagens que perpassam pelo campo médico, psicológico e das ciências sociais. Segundo os autores, as perspectivas de análise nos anos 1980 associavam o uso de drogas a causas como “fuga de problemas”, incapacidade de resolver conflitos, ou até mesmo a
“problemas psicológicos”. Posteriormente, o uso foi associado ao modismo, à
curiosidade, à necessidade de firmar-se como adulto e a pressões dos grupos de amigos, focalizando aspectos relacionados aos tipos de ambiências de micro e macrorreferências.
Recentemente, destacam, “orienta-se o debate a partir tanto da subjetividade do jovem como de sua inserção na sociedade, aspectos que não podem ser entendidos de maneira separada”. Isso significa que “o uso de drogas deve ser contextualizado para não incorrer em discursos preconceituosos e deterministas. Ressalta-se, por exemplo, reconhecendo como problema, o vício em substância psicoativa não é exclusividade de jovens pobres, nem mesmo de jovens.” (ABRAMOVAY, et al, 2010, p. 149).
No caso dos jovens entrevistados para este estudo, destaca-se o mesmo achado feito por esses autores. É importante considerar as características culturais, raciais e econômicas que influenciam a forma como as drogas penetram em seu universo. O uso da droga está relacionado a “buscas no ser e estar em ambiências sociais”. Devemos, então, “considerar aspectos comuns ao uso de drogas entre juventudes, com características socioeconômicas e culturais diferenciadas, e aspectos próprios à presença de drogas nos espaços sociais específicos [onde se mora]” (ABRAMOVAY, et al, 2010, p. 149).
Todos os jovens entrevistados usavam drogas. Com exceção de Jadson, que experimentou maconha e crack por volta dos 18 anos, todos os demais experimentaram a droga por volta dos 14 anos de idade. As drogas apontadas nesse primeiro contato foram: maconha, cola de sapateiro e roupinol. O uso normalmente está relacionado a uma sociabilidade grupal.
Aponta-se sempre um amigo ou um grupo de amigos que os influenciaram ou os “batizaram”, ou seja, apresentaram-lhe a droga para uso pela primeira vez.
Pesquisadora: Quando foi a primeira vez que você usou drogas?
Franque: Foi na Rocinha. Não, na Rocinha não. Foi aqui, quando os meninos disseram “peraí, velho, vou pegar uma massa ali pra fumar”, tinha uns que fumava. Aí, eu falei “é, velho, hoje eu vou dar um pau38”. Aí foi nesse pau que viciou. Todo dia eu fumava uma maconha, todo dia, todo dia, todo dia, todo dia. Ainda hoje, todos os dias eu fumo, pode-se dizer, todos os dias. Às vezes, um bota, às vezes, eu tô com dinheiro, eu boto. É assim, quando um tem, chama todo mundo pra fumar. É uma onda da porra!
(Franque)
38 Vou fumar.
A droga é percebida como um mecanismo de inibição de sentimentos como o medo, ao mesmo tempo que produz a adrenalina. Os efeitos psicoativos do colega servem como elemento de influência. E, no intuito de experimentar o que outro está vivenciando, descobrem o prazer no uso da droga.
Oxe... Era criança, mas naquele tempo a gente sempre usava drogas, cheirava muita cola, tomava roupinol, muita maconha. Aí, tudo isso...
Comprei cachaça. Tudo isso tira o medo da pessoa, né? Rapaz, a primeira vez mesmo que eu cheirei uma cola eu via um colega meu que hoje em dia é cristão e tudo, Valdir, tá entendendo? Aí, ele tava cheirando cola assim e ficava viajando em um bocado de coisa. Eu: “oxe, que porra que esse cara está sentindo com esse saco de negócio na mão aí?” e: “nada, tô muito doido”; e aí ficava bradando39, eu: “oxe, colé?”; depois, a curiosidade bateu, eu digo: “é, eu vou tentar fazer também”. Depois, rapaz, acordei todo melado de cola. Daí por diante gostei [...] (Diego)
A influência dos colegas não é um determinante, vale lembrar. No caso de Elza, apesar da particularidade dentro do grupo de entrevistados, de primeiro evitar e depois ceder ao uso, não há um determinismo nessa relação oferta-uso. Não estamos falando de um bairro pobre de drogadictos, mas na experiência dos entrevistados para este trabalho, fatores como a ausência de controle, cotidiano dos pais vendendo drogas em casa e socialização na rua que acontece ao lado de amigos usuários de drogas são fatores que contribuíram fortemente para a maioria dos “batizados40”.
Eu comecei a ver as pessoas ali fumando, aí eles me ofereciam e eu dizia que não. Aí, no dia que me bateu a vontade de fumar, eu mesmo fui e mandei comprar e fumei. Agora, quando tem, eu fumo, quando não tem, eu não fumo. Agora, já fumei um e já tô com a cabeça pesada, aí, se chamar pra fumar, eu não vou. (Elza)
O controle dos pais, ainda que frágil, era um fator de dissuasão para o uso de drogas, pelos menos dentro do território do bairro.
Fernando: A primeira vez que eu comecei a fumar assim, sem parar, foi com quatorze anos, treze anos. No começo foi assim, oh. Eu vendia lá no Pelourinho, aí, eu vendia... Sabe como é a vendagem, né? Um bocado de pivete que mora na rua, aí , eu comecei a fumar [maconha], mas no Pelourinho. Foi na Rocinha. Quando eu comecei a fumar, quando daqui a pouco que a “lombra41” passou; eu me vi doido. A mulher teve que me dar foi leite... que ao mesmo tempo que eu ficava dando risada, eu passava mal. Ó paí!
Pesquisadora: Você usava drogas aqui [Fazenda Coutos] também?
Fernando: Fumava mais lá no Pelourinho, porque aqui ninguém poderia saber. Aí era assim, eu ia vender... Aí, aqui eu não fumava; só fumava quando chegava no Pelourinho. Ninguém sabia da minha família.
39 Rindo
40 Usar a droga pela primeira vez.
41 Sensação do uso da maconha.
Além do primeiro contato com a droga nesse período, acontecem também as primeiras atividades ilegais. A porta de entrada na vida do crime é o furto, considerado ainda uma infração em função da idade dos garotos, realizado principalmente nos shopping centers ou nas praias da cidade do Salvador. A atividade ilegal normalmente começa na companhia de um ou mais colegas que já agem dentro da ilegalidade: um colega da escola ou colegas do bairro.
As teorias sociológicas sobre socialização consideram importante o efeito das instituições sociais na formação da identidade dos indivíduos. As principais agências de socialização são os grupos primários formados pela família, os pares, os educadores da escola, e, atualmente, a religião e a mídia são fatores que não podem ser deixados de fora dessa compreensão. Dentre os aspectos que a socialização envolve, podemos destacar pelos menos dois:
a formação da personalidade e a internalização de regras de condutas da sociedade.
Do processo de socialização pode surgir o controle social informal que emerge de um rol de reciprocidades e estruturas dos laços interpessoais que ligam os membros da sociedade uns aos outros e de forma mais ampla à sociedade. O crime e a transgressão podem resultar da fragilidade do laço social que une indivíduo e sociedade, conforme aponta os trabalhos de Sampson e Laub, assim como o trabalho de Hirschi. Nesse sentido, o destaque é mais para a qualidade e a força dos laços do que para a ocorrência de eventos específicos. Portanto, seria o investimento social ou o capital social presente na relação institucional, como na família, no trabalho ou na comunidade que reafirmam a importância do controle social informal no nível individual (SAMPSON, LAUB, 1990, p. 611). Na ausência desses, os pontos de inflexão na vida podem redirecionar os caminhos e mudar as trajetórias, positiva ou negativamente.
Entre o despertar da consciência cívica e a frustração com a sociedade, entre a descoberta do primeiro amor e a exploração sexual, entre a liberdade sexual e os valores conservadores da família, entre a euforia e a ilegalidade da droga, entre o prazer de estar em grupo e a ausência de um local público que viabilize esses encontros e a ludicidade, a jovem, os jovens e os adultos deste
trabalho começaram a “sair na vida sozinho42”, aproveitando da fragilidade do controle social que existia sobre eles (família e escola, principalmente) para buscar alternativas àquelas já prefixadas por suas condições materiais e simbólicas de existência. As primeiras investidas infratoras geralmente aconteceram nos primeiros anos da adolescência, entre 12 e 13 anos de idade.
Mas por que chegar até a porta e atravessá-la?
Este trabalho certamente não tem verdades cabais nem descobertas inusitadas, já que temos muitos trabalhos nesta área que se assemelham, mas ajuda, pelo menos no caso dos jovens deste trabalho, a entender um pouco desse universo, partindo da análise daqueles que são os “criminosos”.