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6 A EXPERIÊNCIA CRIMINAL

6.3 Repercussão

6.3.4 O crime e a prisão

A prisão é vista por todos eles como um lugar que não regenera ninguém, pelo contrário, a prisão é vista como “uma escola, pro mal” (Beto), cuja lição aprendida é apenas uma: “ou dá, ou não dá; se der, leva, se não der, passa direto pra não cair novamente” (Fernando), consequentemente a cadeia é um sistema falho, pois “se cadeia ensinasse algo a alguém não tava cheia de reincidente e mais uma galera nova. Ali é o inferno”, (Franque). Essa é a forma geral com que a cadeia, presídios, delegacias e penitenciárias são vistos pelos sujeitos deste trabalho.

Este tópico pretende focar nos relatos daqueles que cumpriram pena em uma “instituição total”. Nos termos definidos por Goffman (1974), tal instituição é um local de residência e trabalho, onde um grande número de indivíduos, em situações semelhantes e separados da sociedade mais ampla por um considerável período de tempo, leva uma vida fechada e formalmente administrada.

Os indivíduos deste trabalham estavam no terceiro tipo de instituição total, definida pelo autor como “instituição organizada para proteger a comunidade contra perigos intencionais, e o bem-estar das pessoas assim isoladas não constitui o problema imediato: cadeias, penitenciárias [...], (GOFFMAN, 1974, p.16). No sentido apontado por Goffman, Beto, Franque e Diego foram aqueles que passaram um considerável período de tempo em uma instituição total e, por isso, trabalharemos com seus relatos nesse tópico

O tempo que os indivíduos levam separados da sociedade, presos em uma “instituição total”, tem a sua própria obviedade, na função suposta ou exigida, de “transformar os indivíduos” (Foucault, 2004). Porém, o sistema prisional brasileiro tem dado inegáveis provas do permanente fracasso na

tentativa de “transformar os indivíduos” dentro de suas apavorantes prisões que

[...] se parecem mais com campos de concentração para pobres ou com empresas públicas de depósito industrial dos dejetos sociais, do que com instituições judiciárias servindo para alguma função penalógica – dissuasão, neutralização ou reinserção. O sistema penitenciário brasileiro acumula, com efeito, as taras das piores jaulas do Terceiro Mundo, mas levadas a uma escala digna do Primeiro Mundo, por sua dimensão e pela indiferença estudada dos políticos e do público: entupimento estarrecedor dos estabelecimentos, o que se traduz por condições de vida e de higiene abomináveis, caracterizadas pela falta de espaço, ar, luz e alimentação (nos distritos policiais, os detentos, frequentemente inocentes, são empilhados, meses e até anos a fio em completa ilegalidade, até oito em celas concebidas para uma única pessoa, como na Casa de Detenção de São Paulo, onde são reconhecidos pelo aspecto raquítico e tez amarelada, o que lhes vale o apelido de "amarelos"); negação de acesso à assistência jurídica e aos cuidados elementares de saúde, cujo resultado é a aceleração dramática da difusão da tuberculose e do vírus HIV entre as classes populares; violência pandêmica entre detentos, sob forma de maus-tratos, extorsões, sovas, estupros e assassinatos, em razão da superlotação superacentuada, da ausência de separação entre as diversas categorias de criminosos, da inatividade forçada (embora a lei estipule que todos os prisioneiros devam participar de programas de educação ou de formação) e das carências da supervisão. (WACQUANT, 2001, p. 11, grifo do autor)

Diante desse quadro estarrecedor do sistema prisional brasileiro, não é demais afirmar que ele tem sido perigoso e, quando não inútil, pois não tem conseguido respostas positivas quanto à prevenção da prática de novas infrações e crimes, principalmente na regeneração do preso. Pelo contrário, temos testemunhado cada vez mais a superlotação dos presídios que atinge a principais regiões metropolitanas do país. Como ressocializar nessas condições? A população carcerária do estado da Bahia, por exemplo, em 2004 era de 6025, um acréscimo de 12,7% em relação a 2003. Em 2006, essa população carcerária já estava em torno de 7120 apenados (BAHIA, 2006c, apud CARVALHO, 2007, p.83)65.

A partir da experiência prisional, a ressocialização aconteceu para os sujeitos deste trabalho? Mesmo aqueles que não foram julgados e sentenciados, mas que foram presos, compreenderam a função da penalidade e mudaram as suas condutas? Uma vez fora da prisão, a sociedade viabiliza uma inserção social capaz de manter esses indivíduos longe da criminalidade?

65 Para ver mais sobre os custos da violência no Estado da Bahia, ver CARVALHO, Silvio Roberto Bastos de. Estudo exploratório dos custos da (in) segurança na Bahia: correlações socioeconômicas. Salvador, 2007. Dissertação apresentada ao curso de Mestrado em Análise Regional e Urbano, Universidade Salvador – UNIFACS, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre. Orientador: Prof. Dr. Carlos Alberto Costa Gomes.

De fato, foram capacitados tecnicamente para conseguir uma inserção no mercado de trabalho?

Beto, quando questionado sobre as lições que aprendeu na cadeia durante o cumprimento de suas penas, faz uma reflexão controversa. Ao mesmo tempo em que diz que quem entra na cadeia sempre sai pior, ele diz que saiu diferente, pensando em parar. Entretanto, ele não parou e optou por seguir apenas na prática de furto nas festas populares, onde considerava o risco de ser pego muito menor.

Pesquisadora: Você acha que você aprendeu alguma lição na cadeia para sua vida fora dela?

Beto: Dentro da cadeia... Quem disse que vai na cadeia, se fulano vai na cadeia vai se regenerar, é mentira. Cadeia ali é uma escola de malandragem. Porque se a pessoa for presa, vai sair pior, porque sai com mais ódio, mais ainda porque tá presa. Cada vez que vai passando mais uma década preso, o cara vai ficando com a mente mais desturbinada.

Cadeia nunca fez bem pra ninguém, sempre fez mal. Quem disse que a pessoa ir presa vai se regenerar, é mentira. O cara só sai transtornado de lá. Sai pior.

Pesquisadora: E você saiu como?

Beto: Eu mesmo saí diferente, né. Eu mesmo senti em mim mesmo diferença. Porque eu mesmo pensava também “porra, se eu tomar essa cadeia eu vou parar. Vou parar essa...”. O cara para pra rezar né, dessa maneira “vou parar, não vou fazer mais isso...”, mas daqui a pouco o cara já tá fazendo de novo. Não consegue se controlar. Saí dessa maneira, né. Eu parei e fiquei mesmo só no 155, viajando e pegando só micareta fora, nos estados.

Uma vez fora da cadeia, o tom dos planos para a vida futura é dada pela máxima “seja o que Deus quiser”, ou seja, não existem planos de vida numa rota diferente numa sociedade em que as oportunidades de inserção social legal continuam sendo inexistentes.

Cadeia mô pai, não regenera ninguém, se ele fizesse um negócio assim pá todo pai de família ter um trabalho e cuidar da sua família você ia vê aí que esse negócio de cadeia nem ia precisar muito, só aqueles mesmo que estupra, mata criança, mas esse negócio de roubo mesmo eu acho que não ia ter assim não, pelo menos eu acho assim. Mas se não acha não acha mô pai uma coisa assim, aí eu to nessa aí até quando Deus quiser né! (Diego)

Todos falam em parar quando estão presos, mas o que acontece é que quando saem, buscam a melhor forma de executar suas ações e diminuir a possibilidade de ser pegos.

Porra, pra mim era o fim do mundo aí, eu digo é o medo, que não ia mais fazer mais isso, mas isso a gente só fala no momento, só lá dentro mesmo, depois que retorna pra vida de novo, não teve jeito. Mas hoje em dia eu fico só na batifum mesmo porque pra mim é mais seguro, naquela muvuca ninguém vê nada, não tem câmera nem nada, aí hoje é melhor assim. Mas depois da primeira aí (a prisão) [...] Ah, já fui preso demais na minha vida.

Já fui preso... Oxe, nessas delegacias de Salvador, quase tudo aí eu já fui preso já, velho, já tenho entrada já. Já fui preso em Fortaleza mesmo o arregueiro me pegou lá, me levou pra delegacia lá, me deixou dois dias.

Porto Seguro, que é na Bahia. Na Paraíba, na Micaroa lá, João Pessoa, eu rodei, fui pra delegacia. [...] (Diego)

Beto, ao mesmo tempo em que tenta se autorresponsabilizar por ter continuado agindo na criminalidade, também recai na análise da questão estrutural de oportunidades de vida, principalmente na dificuldade de inserção, agora ainda maior, no mercado de trabalho, devido ao estigma de ex-presidiário.

[...] Agora esse negócio de não parar eu acho... Porra, acho que foi discarice minha mesmo, viu, velho. Você caiu preso. Já tô sujo pela justiça mesmo, porque se você caiu preso, tá sujo pela justiça, neguinho já vê você sujo, aí “já foi preso fulano e tá ali”. Aí, se arrumar trabalho, vai dizer, “ah não vou nem chamar fulano” porque você já foi preso e não vai dá nenhuma oportunidade a você, né. Aí, sempre vai te rejeitar. Tem três sentados ali de boa qualidade e você tá no meio. Ele vai escolher aqueles dois, mas não vai escolher você porque você, pelo fato que você já passou preso “eh, aquele já foi preso ali, já não vou chamar fulano pra trabalhar porque já foi preso”, mas os dois ali vai; aí nessa aí, eu falei “eh já tenho entrada pela cadeia, vou ficar aí mesmo, o povo acha que eu sou vagabundo. Seja o que Deus quiser.

Pode parecer que a dificuldade de inserção no mercado de trabalho soe como desculpa para seguir em uma via ilegal, mas essa é a realidade cotidianamente vivida por centenas de jovens nas periferias do país que, mesmo fora do mercado de trabalho, estão impelidos a comer, beber, vestir, enfim, consumir diariamente, e essas coisas só o dinheiro paga, daí, se não acessam por uma via, acessam por outra. O estigma serve de reforço à exclusão social e para empurrar para longe do mercado legal de trabalho.

Quando Beto foi questionado se a criminalidade era a única via, ele nos responde com as seguintes palavras:

Eu nem sei, viu, velho, eu nem sei. A gente fica marcado e, quando a gente fica marcado, a oportunidade só aparece nesse mundão aí que eu tô e, como todo mundo, eu preciso sobreviver. Pelo menos eu não vejo outras coisas pra mim não. Até agora não vejo não. Se eu for procurar trabalho e eles pedirem os antecedentes criminais, quem vai me querer? Tô marcado, a correria é essa aí. Tudo bem que eu tô marcado porque eu aprontei, mas eles dizem quando você vai pra cadeia que é pra melhorar quando sair.

Todo mundo repete isso, só que quando a gente sai, ninguém é pela gente, só a nossa mãe, às vezes nem a família, só a nossa mãe. Você fica um tempo de boa, não apronta nada, mas aí nada de nada, nada de trabalho, nada de ajuda, e aí você volta. Tenho uns camaradas que vão pra igreja, mas a maioria não aguenta a pressão não, pressão assim de não ter nada, de querer as coisas e não conseguir, a família cobrar, aí o cara acaba voltando pra essa vida louca.

A resposta de Diego sobre as lições que tirou da experiência no presídio é a mesma compartilhada pela maioria: “Rapaz, aprendi o quê, velho? Só veio mais coisas, cadeia não muda ninguém não, meu pai”.

Entre eles, Franque é um dos únicos que fala com maior veemência de uma possibilidade de se afastar do tráfico de drogas, e, por isso, é chamado por muitos colegas de “alemão”, o traidor. Franque, desde que saiu da prisão, passou a se dedicar ao seu trabalho informal de venda de amendoim nas praias de Salvador. O que antes servia de desculpa para esconder da família o que fazia, passa a ser uma alternativa real de ocupação, apesar de o retorno financeiro ser ínfimo. O dinheiro agora não dá para ajudar a sua mãe, como ele fazia antigamente, nem sair com a namorada, que reclama do fato de ele não ter mais dinheiro para se divertir com ela, nem para presenteá-la, o que levou ao rompimento do relacionamento.

Para Franque, são questões que, quando balanceadas, fazem do crime uma via interessante, embora perigosa. Por isso, decide complementar sua renda com a venda dos produtos roubados pelos colegas. Ele diz que essa é uma forma de se manter longe do tráfico de drogas e ter uma renda melhor. A experiência vivida na penitenciária foi suficiente para que ele desejasse manter-se longe do crime, apesar de não encontrar uma situação favorável fora da penitenciária para poder consolidar o seu desejo.

[...] Lá é o inferno [penitenciária]. Lá é onde filho chora e mãe não vê. Lá é o inferno, foi um ano vivendo no inferno. [...] O cara se envolve, vai se envolvendo, quando para pra analisar, já era. Muitas vezes os meninos me chamavam e eu não queria ir. “Vambora, Rato, ficar aqui fazendo o quê”? Aí eu ia. Agora não vou mais. Vai Franque, no queixo dos outros!! Nesse queixo aí eu que vi como eu fiquei lá (penitenciária). [...] Porra!!! Eu me senti só. Não o quê! O cara se sente solitário. Velho, meio mundo de coisa na minha cabeça: “Porra, como é que minha mãe tá lá fora? Como tá a minha família lá fora?”. É aí que o cara pensa diferente. É aí que vem a mente do cara. O cara vê meio mundo de coisas lá que não quer ver, mas vê. Tipo, já vi muita gente morrer lá, gente caindo na faca, gente caindo de cima a baixo, já vi gente ser apanhado por doze, vinte pera aí, um pisa pisa da porra. Eu passei um ano e vi esse meio mundo de coisa. E quem tá lá há mais tempo, diga aí. [...] Não, não quero voltar nunca mais pra lá por isso que eu tô mais quieto agora. Agora que eu tô na condicional e os caras ficam de olho, eu trabalho em outro ramo. Vendo amendoim, quando não vendo amendoim, eu vendo queijo, às vezes eu faço uns bolos pros meninos que trazem roupa da cidade. Às vezes os meninos trazem celular, também vendo. Eu pego dos caras, passo e pego a minha parte. Se eu for comparar com que eu ganhava é quase nada, mas, por enquanto, vai ser assim. E também eu sei que vai ser assim porque vai ser bem difícil pra mim conseguir um trabalho melhor. Eu não conheço ninguém assim forte que pode me ajudar e eu sei que se pedirem meus antecedentes, não vão me dar trabalho nenhum. A gente fraco assim, quando passa por uma dessa, fica ainda pior.

Franque mora em uma área onde todos o conhecem pelo apelido de Rato66, ele diz que esse apelido vem do fato de ele ser muito rápido em suas ações, quando praticava o furto, ele era sempre mais rápido que todos e nunca foi pego nessa ação. Depois da prisão, esse nome tornou-se para ele algo maculado, que ele deseja deixar para trás. Na nova vida que tenta construir, deseja deixar para trás qualquer coisa que possa ainda vinculá-lo à criminalidade, embora não tenha se afastado completamente dessa vida.

Como eu já falei, né, meu nome é Franque e todo mundo aí me conhece como Rato. O Antenor até me apresentou a você como Rato, mas o meu nome é Franque. Se você perguntar quem é Franque, ninguém sabe, mas se você perguntar quem é o Rato, todo mundo conhece. Mas agora eu não quero ser mais Rato, eu quero ser Franque. Esse Rato pra mim morreu. [...]

Rapaz... Rato? Rato não existe, é um apelido que botaram aí. Mas Rato, pra mim, não existe mais, as pessoas é que ficam aí me chamando ainda de Rato. Rato foi um cara que fez muita coisa errada, que já roubou, que já fumou, que já pegou cadeia por causa de tráfico, que não levava desaforo pra casa e só andava fazendo bolo. Mas Franque... Franque é diferente.

Franque é um menino direito, que agora tá sendo um menino direito, que antes era só bagunceiro. Agora Franque, tá sendo um bom menino, tá dando certo, que andava antes, que antes só andava bagunçando, todo mundo agora tá gostando do Franque, mas Rato era da bruxa mesmo, todo mundo respeitava o Rato. Era uma onda da porra. (riso). [...] Ninguém mexia comigo, porque eu não mexia com ninguém, cada um vendia no seu ponto e ninguém atrapalhava ninguém. Às vezes, a gente ficava até tarde da noite vendendo aí e a gente não tinha problema.

A tentativa de Franque de construir uma nova identidade, totalmente desvinculada do “criminoso”, esbarra em muitos obstáculos, principalmente das diversas carências que ainda o cercam. Os colegas o chamam de traidor por se afastar da venda de drogas, o que o obrigou a sair de Fazenda Coutos por um tempo. Segundo seus colegas, “os cabeças caras queriam a cabeça dele”. A única possibilidade de conseguir uma renda para ajudar na sobrevivência foi através da subocupação de vendas de amendoim nas praias de Salvador, incapaz de poder suprir basicamente as suas necessidades e da sua família.

Como revendedor de mercadorias roubadas e furtadas, o limite entre estar longe da criminalidade ou fazer parte dela é ainda muito tênue. O perigo de Franque incidir novamente na mesma atividade é permanente.