4.5 Difração de raios X (DRX) dos corpos cerâmicos
4.5.2 DRX corpos cerâmicos sinterizados à 1600 ºC
Para a temperatura de sinterização à 1600
oC, os difratogramas das composições
investigadas no grupo A (0,00% MgO) apresentaram uma única fase, Al
2O
3, mesmo após as
adições de 0,3% e 0,6% LiF (FIG. 4.56). Observou-se pequena presença de segunda fase nos
contornos de grão por MEV, a análise por DRX não identificou a fase LiAl
5O
8, o que
provavelmente pode ser explicado pelo valor inadequado do índice GOF impedindo a
quantificação das fases presentes pelo método de Rietveld.
Apesar do diagrama de fases do sistema Li
2O-Al
2O
3apresentar o ponto de ebulição da fase
LiAl
5O
8, aproximadamente, de 1905
oC para porcentagens acima de 80% mol de Al
2O
3, estudos
anteriores revelam uma possível degradação e/ou evaporação da fase LiAL
5O
8em temperaturas
acima de 1200
oC (KUTTY et al., 1998; VILLALOBOS et al., 2005; AOYAMA et al., 2013).
No trabalho de AOYAMA et al., (2013), quando utilizada a razão molar Li/Al 1:5,
observou-se a formação de uma faobservou-se minoritária, -Al
2O
3, acima de 1400
oC, provavelmente associada a
evaporação do lítio.
FIG. 4.56 Difratograma do grupo A (0,00% MgO) sinterizadas à 1600 °C. (a) 0,00 % LiF; (b)
0,30% e (c) 0,60% LiF.
Assim como na sinterização à 1400
oC, a análise por DRX do grupo B e C (0,25 e 0,50%
MgO, respectivamente) para a temperatura de 1600
oC indicou, além da fase majoritária Al
2O
3,
a fase MgAl
2O
4(ficha cristalográfica JCPDS 01-087-0342) em todas as composições (FIG.
4.57 e FIG. 4.58).
Para a temperatura de 1600
oC, com as adições de 0,30 e 0,60% LiF, o composto LiAl
5O
8foi identificado. O trabalho de VILLALOBOS et al., (2005) demonstrou que durante a
sinterização do sistema Al
2O
3-MgO-LiF, o MgO não mostrou afinidade para reagir com o LiF,
ocasionando, portanto, reação de diversos compostos contendo alumínio, lítio e oxigênio. Os
resultados obtidos por DRX corroboraram as análises por MEV, indicando existir uma segunda
fase rica em íons Mg
2+, localizados nas regiões de contornos de grãos, referentes à fase
MgAl
2O
4. Apesar das limitações das técnicas de DRX e EDS, sugere-se que a segunda fase
encontrada nos corpos cerâmicos contendo lítio que não seja rica em íons Mg
2+sejam a fase
LiAl
5O
8.
O estudo de SANTOS (2016), sugere que, durante a sinterização do sistema cerâmico
Al
2O
3-4% Nb
2O
5-LiF, a presença da fase Nb
3O
7F contribuiu para melhoria na densificação
deste composto e o aparecimento da fase LiAl
5O
8foi prejudicial. O autor afirma que devido à
grande afinidade eletrônica entre o nióbio e o flúor, dado pela grande diferença de
eletronegatividade, a fase Nb
3O
7F tenha atuado como catalisador durante a sinterização. Além
disso, BARSOUM (2003) afirma que a configuração eletrônica do cátion influencia o caráter
covalente da ligação. Um maior caráter covalente tende a reduzir a entalpia de fusão através da
redução do número de ligações a serem quebradas durante a fusão, resultando em pontos de
fusão mais baixos. No trabalho conduzido por SANTOS (2016) a presença do nióbio contribuiu
para a formar mais ligações covalente, já que este elemento possui elétrons de valência no
subnível d. Os elétrons com este tipo de configuração não são tão efetivos para proteger a carga
do núcleo quando comparados com os elétrons do tipo s e p, como existentes no alumínio. Este
estudo está de acordo com os resultados encontrados para o presente trabalho, indicando que a
fase LiAl
5O
8contribui para piorar os resultados de densificação da Al
2O
3.
FIG. 4.57 Difratograma do grupo B (0,25% MgO) sinterizadas à 1600 °C. (a) 0,00 % LiF; (b)
0,30% e (c) 0,60% LiF.
FIG. 4.58 Difratograma do grupo C (0,50% MgO) sinterizadas à 1600 °C. (a) 0,00 % LiF; (b)
0,30% e (c) 0,60% LiF.
A TAB. 4.7 resume as fases identificadas para cada composição investigada na temperatura
de sinterização à 1600 ºC.
TAB. 4.7 Fases identificas nas amostras sinterizadas à 1600 ºC
Amostras Fases
A (0,00%MgO)
0,00% LiF Al
2O
30,30% LiF Al
2O
30,60% LiF Al
2O
3B (0,25%MgO)
0,00% LiF Al
2O
3, MgAl
2O
40,25% LiF Al
2O
3, LiAl
5O
8, MgAl
2O
40,50% LiF Al
2O
3, LiAl
5O
8, MgAl
2O
4C (0,50%MgO)
0,00% LiF Al
2O
3, MgAl
2O
40,25% LiF Al
2O
3, LiAl
5O
8, MgAl
2O
44.6 MÓDULO DE ELASTICIDADE
As TAB. 4.8 e TAB. 4.9 apresentam o módulo de elasticidade e a média deste valor
calculada para os corpos cerâmicos sinterizados à 1400 ºC e 1600 ºC, respectivamente.
TAB. 4.8 Módulo de elasticidade dos corpos cerâmicos sinterizados à 1400 ºC/3h.
Amostras E (GPa) Média (GPa)
A (0,00%MgO)
0,00% LiF
146,08 ± 0,68
139,32
136,27 ± 0,81
135,52 ± 0,78
0,30% LiF
136,26 ± 0,62
142,69
144,07 ± 0,66
147,74 ± 0,68
0,60% LiF
123,98 ± 0,57
109,92
104,63 ± 0,48
101,16 ± 0,45
B (0,25%MgO)
0,00% LiF
130,29 ± 0,61
118,90
114,57 ± 0,51
111,85 ± 0,52
0,30% LiF
110,92 ± 0,51
107,49
105,97 ± 0,49
105,58 ± 0,48
0,60% LiF
105,20 ± 0,48
97,17
93,20 ± 0,42
93,10 ± 0,42
C (0,50%MgO)
0,00% LiF
124,48 ± 0,58
116,56
108,78 ± 0,51
116,41 ± 0,54
0,30% LiF
82,51 ± 0,39
83,66
85,44 ± 0,39
83,03 ± 0,38
0,60% LiF
99,32 ± 0,45
98,40
97,33 ± 0,45
98,55 ± 0,45
TAB. 4.9 Módulo de elasticidade dos corpos cerâmicos sinterizados à 1600 ºC/1h.
Amostras E (GPa) Média (GPa)
A (0,00%MgO)
0,00% LiF
160,39 ± 0,78
161,03
159,43 ± 0,79
163,27 ± 0,81
0,30% LiF
171,04 ± 0,84
174,14
170,80 ± 0,84
180,59 ± 0,89
0,60% LiF
138,11 ± 0,66
133,78
132,16 ± 0,62
131,08 ± 0,64
B (0,25%MgO)
0,00% LiF
139,94 ± 0,66
136,77
139,70 ± 0,66
130,66 ± 0,55
0,30% LiF
129,30 ± 0,61
135,93
138,17 ± 0,65
140,31 ± 0,67
0,60% LiF
108,52 ± 0,49
114,09
117,08 ± 0,55
116,68 ± 0,55
C (0,50%MgO)
0,00% LiF
130,71 ± 0,61
133,65
140,62 ± 0,68
129,62 ± 0,61
0,30% LiF
105,6 ± 0,49
97,72
96,32 ± 0,44
91,24 ± 0,40
0,60% LiF
95,77 ± 0,43
107,73
105,42 ± 0,49
122,00 0,59
Para os corpos cerâmicos sinterizados à 1400 ºC, o grupo A (0,00% MgO) contendo
adições de 0,30% LiF (142,69 GPa) apresentou valores superiores de módulo de elasticidade.
Os demais resultados da média do módulo de elasticidade para este grupo foram 139,32 e
109,92 GPa para 0,00% e 0,60% LiF, respectivamente. O grupo B (0,25% MgO) apresentou
uma queda contínua nos valores de módulo de elasticidade em função das adições de LiF,
118,90, 107,49 e 97,17 GPa para 0,00, 0,30 e 0,60%, respectivamente. Para o grupo C (0,50%
MgO), os resultados do módulo de elasticidade foram 116,56, 83,66 e 98,40 GPa para as 0,00,
0,30 e 0,60%, respectivamente.
Para os corpos cerâmicos sinterizados à 1600 ºC, o grupo A (0,00% MgO) com a adição
de 0,30% LiF (174,14 GPa) apresentou valores superiores de módulo de elasticidade. Neste
grupo, para 0,00 e 0,60% LiF, os valores da média do módulo de elasticidade corresponderam
à 161,03 e 133,78 GPa, respectivamente. O grupo B (0,25% MgO) apresentou uma queda
contínua nos valores de módulo de elasticidade em função das adições de LiF, 136,77, 135,93
e 114,09 GPa para 0,00, 0,30 e 0,60%, respectivamente. Como também observado nos corpos
cerâmicos sinterizados à 1400 ºC, o valor mais elevado de módulo de elasticidade ocorreu
quando não houve adição de LiF (133,65 GPa) para o grupo C (0,50% MgO). Para as adições
de LiF, os valores médios de módulo de elasticidade foram de 97,72 GPa e 107,73 GPa para a
adição de 0,30% e 0,60% LiF, respectivamente.
A FIG. 4.59 ilustra os resultados do módulo de elasticidade dos corpos cerâmicos
investigados para as diferentes condições de tratamento térmico.
FIG. 4.59 Módulo de elasticidade dos corpos cerâmicos investigados.
Nas condições de sinterização investigadas, os resultados encontrados para o grupo A
(0,00% MgO), sem adições de LiF, apresentaram um valor bem inferior ao encontrado na
literatura (380 GPa à temperatura ambiente). Os fatores que influenciaram estes resultados
provavelmente são atribuídos a falhas e defeitos internos, principalmente em função da elevada
fração volumétrica de poros.
Os valores mais elevados do módulo de elasticidade foram para a temperatura de
sinterização à 1600 ºC, indicando que o aumento da temperatura de sinterização foi
acompanhado pelo aumento da densificação dos corpos cerâmicos, e, por consequência, pelo
aumento da magnitude do módulo de elasticidade. Os valores médios de módulo de elasticidade
encontrados estão coerentes com a literatura, onde a magnitude do módulo de elasticidade
mostrou diminuir em função da fração volumétrica de poros (CALLISTER e RETHWISCH,
139,32 142,69 109,92 118,90 107,49 97,17 116,56 83,66 98,40 161,03 174,14 133,78 136,77 135,93 114,09 133,65 97,72 107,73 75,00 95,00 115,00 135,00 155,00 175,00 195,00
0,00% LiF 0,30% LiF 0,60% LiF 0,00% LiF 0,30% LiF 0,60% LiF 0,00% LiF 0,30% LiF 0,60% LiF
A (0,00% MgO) B (0,25% MgO) C (0,50% MgO)
M
ó
d
u
lo
E
la
st
ic
id
ad
e
(G
P
a)
1400 °C 1600 °C
2011). A EQ. 4.1 é capaz de estimar o módulo de elasticidade (E) em função da porosidade (P)
dos materiais cerâmicos. Onde P é fração porosa do material, E é o módulo de elasticidade, E
0é o módulo de elasticidade com porosidade nula e f
1e f
2são constantes que dependem da forma
dos poros.
E=E
0(1 – f
1P + f
2P
2) EQ. 4.1
Analisando pela EQ. 4.1, TRINDADE (2012) verificou que o módulo de elasticidade
diminuiu com o aumento da porosidade. Assim, a existência de poros residuais exerce uma
função negativa nas propriedades elásticas dos materiais cerâmicos. O trabalho de
YOSHIMURA et al., (2005) demonstrou que, durante a sinterização de uma Al
2O
3de alta
pureza com adições de MgO, as propriedades mecânicas diminuíram com o aumento da
porosidade, tendo sido observado que o módulo de elasticidade apresentou um crescimento com
o aumento da temperatura. Este comportamento também foi encontrado por PINHEIRO e
HOLANDA (2010), onde o comportamento do módulo de elasticidade foi fortemente
dependente da temperatura.
O sistema Al
2O
3-MgO-LiF apresentou os menores resultados de módulo de elasticidade
em todas as condições de sinterização investigadas, coerente com a literatura. Conforme
mencionado anteriormente, menores valores de módulo de elasticidade foram encontrados nas
amostras com maior porosidade.
Neste estudo, era esperado que o sistema Al
2O
3-0,6 LiF, na temperatura de 1600 ºC
apresentasse os melhores resultados para módulo de elasticidade, já que esta composição
apresentou melhores resultados de densificação (82,78%). No entanto, os resultados obtidos
demonstraram menor valor de módulo de elasticidade para esta composição (0,60 % LiF). O
estudo de ZANOTTO e MIGLIORE (1991) sugere que a composição química e a estrutura das
fases formadas podem influenciar nas propriedades elásticas do material. Esta influência pode
ser devida ao número e tipos de fase, sua forma e orientação, e ainda a quantidade relativa de
fases presentes. Entretanto, não foi possível verificar a influência das fases presentes sobre
comportamento do módulo de elasticidade, já que o índice GOF revelou um valor inadequado
para a quantificação das fases. Portanto, um estudo mais aprofundado da influência de fases
sobre o comportamento elástico dos corpos cerâmicos do sistema Al
2O
3-LiF pode esclarecer
esta divergência entre densificação e módulo de elasticidade verificada neste trabalho.
5 CONCLUSÕES
Os resultados obtidos neste estudo, permitiu chegar às seguintes conclusões:
A adição de LiF e MgO contribuíram para diminuir o tamanho médio de partículas das
composições cerâmicas investigadas neste trabalho, com maior rendimento de moagem
observado para o aditivo MgO.
A adição de LiF não influenciou a densificação a verde dos sistemas cerâmicos Al
2O
3-LiF
e Al
2O
3-MgO-LiF.
Não houve uma densificação satisfatória para a sinterização à 1400 ºC com patamar de 3
horas, mesmo nas aluminas aditivadas, provavelmente devido a uma ativação térmica
insuficiente para uma difusão satisfatória.
A adição de LiF resultou em melhores valores de densificação para o sistema Al
2O
3-LiF,
nas duas condições de tratamento térmico investigadas, demonstrando que este aditivo
promoveu uma sinterização em presença de fase líquida, ainda que incipiente. Na para a
temperatura de sinterização à 1600 ºC, a adição de 0,60% LiF ao sistema Al
2O
3-LiF, foi aquela
em que apresentou os maiores valores de densificação, corroborando a conclusão anterior.
Ainda para o sistema Al
2O
3-LiF, a temperatura de 1400 ºC pode ter sido insuficiente para a
ativação térmica e, a 1600 ºC houve uma maior tendência de vaporização do LiF. Por isso,
maiores concentrações desse aditivo são necessárias.
A adição simultânea de LiF e MgO apresentou os piores resultados densificação para as
duas condições de sinterização investigadas, e o aumento destas adições resultou na diminuição
da densificação.
Para o sistema Al
2O
3-MgO, sinterizados à 1600 ºC, este patamar satisfaz em termos de
ativação térmica. Os baixos resultados de sinterização obtidos podem estar associados ao tempo
insuficiente (1 hora), bem como não ter sido otimizada uma concentração de MgO, entre 0,03%
e 0,25%, já que a concentração superior à 0,25% indicou tendência de queda na densificação.
As fases obtidas após a sinterização para as adições de LiF e MgO e identificadas por DRX
foram: LiAl
5O
8e MgAl
2O
4. Acredita-se que a presença da fase LiAl
5O
8tenha sido prejudicial
para a densificação da Al
2O
3, conforme também verificado em outros trabalhos relacionados à
sinterização da Al
2O
3.
Acredita-se que a fase MgAl2O4 não foi adequada para se obter uma densificação
satisfatória. Isto pode ter ocorrido em função da quantidade não otimizada desta fase.
O módulo de elasticidade mostrou ser maior para as amostras sinterizadas a 1600 ºC em
virtude da menor porosidade presente nesta temperatura pela maior ativação térmica.
6 SUGESTÕES PARA TRABALHOS FUTUROS
Com base nos resultados e nas observações realizadas neste trabalho, sugere-se para
pesquisas futuras:
Otimizar a concentração de MgO, entre 0,03% e 0,25%, e investigar o efeito deste aditivo
na sinterização da alumina para os sistemas Al
2O
3-MgO e Al
2O
3-MgO-LiF.
Elevar a concentração de LiF (> 0,60%) e investigar o efeito deste aditivo nos sistemas
Al
2O
3-LiF e Al
2O
3-MgO-Li, para a condição de sinterização 1600ºC/1h.
Experimentar rotas de sinterização para uma temperatura inferior a volatilização do LiF
com tempos maiores.
Utilização de prensagem isostática para elevar a densificação das composições
investigadas neste trabalho.
Estudar as relações entre módulo de elasticidade, densificação e taxa de aquecimento para
as composições investigadas, relacionando com as fases formadas ao longo do aquecimento.
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CAMILA CRISTINE LOPES
(páginas 108-123)