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4 PERSONAGENS E TESSITURAS

4.3 Tessituras de Invisíveis alçando voos coloridos

4.3.1 Duas instâncias tramadas: (pre)texto e tecido

O romance se faz em uma atmosfera tecedeira, que se vale do entrelaçamento etimológico depreendido de textum, do latim, significa tecido, tessitura; daí surge o literal tecido do qual se geram roupas para o corpo; e o texto, do qual se engendram argumentos para a alma. Desses tecidos, ramificam conexões e vasos comunicantes de diversos sentidos. História onde o castelo em que se consolidam os causos é o quarto de uma prostituta, e onde a voz de Sherazade sai do peito do pedreiro Rosálio - aquele que carrega em sua maleta de pedreiro muitos livros que jamais pode ler; uma história em que a esperança está pautada na urgência e no sonho da alfabetização, ou na satisfação em poder voltar a viver após a confirmação do HIV positivo; história do homem e da mulher “bicho”, reduzidos e invisíveis pelo o curso da humanidade; história de metamorfoses: para o letramento e para o voo do guará; história com intertextualidade que se inspira nos contos de fadas, mas na qual as cores são evocadas para fazerem todo o sentido.

Em As Mil e Uma Noites, Sherazade (¸ahråzåd) construiu seu próprio destino desde o começo e é possível compreender que todo o seu conhecimento de histórias viera de leituras: “[…] ¸ahråzåd, a mais velha, tinha lido livros de compilações, de sabedoria e de medicina, decorara poesias e consultara crônicas históricas; conhecia tanto os dizeres de toda gente como as palavras dos sábios e reis. conhecedora das coisas, inteligente, sábia e cultivada, tinha lido e entendido” (JAROUCHE, 2006, posição 1094 de 10432). 21

Ciente da matança que o rei Shariar (åhriyår) promovia, ela pediu ao seu pai, o grão vizir que elegia as moças ao rei a cada noite e também as matava na manhã seguinte por sua

Esgotada impressa, a edição de O Livro das Mil e Uma Noites que utilizo nesta pesquisa é e-book, lido pelo

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Kindle, que pela natureza da tecnologia não demonstra a página, mas sim a posição. Por isso igualmente com a posição vou referenciar.

ordem, levá-la à câmara nupcial do sultão, tão logo traçou o plano para cessar as barbaridades dele, o pavor e as lágrimas de todos.

[…] certo dia, ¸ahråzåd disse ao pai: ‘Eu vou lhe revelar, papai, o que me anda oculto pela mente’. Ele perguntou: ‘E o que é?’Ela respondeu: ‘Eu gostaria que você me casasse com o rei åhriyår. Ou me converto em um motivo para a salvação das pessoas ou morro e me acabo, tornando-me igual a quem morreu e acabou'. Ao ouvir as palavras da filha, o vizir se encolerizou e disse: ‘Sua desajuizada! Será que você não sabe que o rei åhriyår jurou que não passaria com nenhuma moça senão uma só noite, matando-a ao amanhecer?' […] Ela disse: ‘É absolutamente imperioso, papai, que você me dê em casamento a ele; deixe que ele me mate’. Disse o vizir: ‘E o que está levando você a colocar sua vida assim em risco?' Ela disse: ‘É absolutamente imperioso, papai, que você me dê a ele em casamento: uma só palavra e uma ação resoluta’. (JAROUCHE, 2006, posição 1103 de 10432)

Para tentar fazer a filha mudar de ideia, o pai lhe conta a fábula "O burro, o boi e o lavrador” e a inversão vista é que Sherazade assume de fato a narrativa, convence o pai, e seus passos já passam a ser narrados como a “feitora” da história. Para que seu plano dê certo, pede ajuda de outra mulher: a irmã Dinazarde (D∑nårzåd).

[…] ¸ahråzåd, muitíssimo contente, arrumou-se e ajeitou as coisas de que precisaria. Foi até a irmão mais nova, D∑nårzåd, e lhe disse: ‘Minha irmãzinha, preste bem atenção no que eu vou lhe recomendar: assim que eu subir até o rei, vou mandar chamá-la. Você subirá e, quando vir que o rei já se satisfez em mim, diga-me: ‘'Ó irmãzinha, se você não estiver dormindo, conte-me uma historinha’. Então eu contarei a você histórias que serão o motivo da minha salvação e da liberdade de toda esta nação, pois farão o rei abandonar o costume de matar suas mulheres’. A irmã respondeu: ‘Sim’. Depois, quando a noite chegou, o vizir tomou ¸ahråzåd pelas mãos e subiu com ela até o rei mais velho åhriyår, que levou-a para a cama e iniciou o seu jogo de carícias, mas ¸ahråzåd começou a chorar. Ele perguntou: ‘E porque esse choro?’. Ela respondeu: ‘Tenho uma irmã e gostaria que pudéssemos nos despedir nesta noite, antes do amanhecer’. O rei mandou então chamar D∑nårzåd, que se apresentou e dormiu sob a cama. Quando a noite se fez mais espessa, D∑nårzåd ficou atenta e esperou até que o rei se satisfizesse na irmã e todos ficassem bem acordados. Assim, no momento oportuno, D∑nårzåd pigarreou e disse: ‘Minha irmãzinha, se você não estiver dormindo, conte-me uma de suas belas historinhas com as quais costumávamos atravessar nossos serões, para que eu possa despedir-me de você antes do amanhecer, pois não sei o que vai lhe acontecer amanhã’. ¸ahråzåd disse ao rei åhriyår: ‘Com a sua permissão eu contarei’. Ele respondeu: ‘Permissão concedida’. ¸ahråzåd ficou contente e disse: “Ouça”. 1ª noite das espantosas histórias das mil e uma noites: o mercador e o gênio”. (JAROUCHE, 2006, posição 1214-1234 de 10432, grifos nossos) 


De tão esperta, Sherazade já aplica aqui o princípio básico do diagrama de comunicação que no século XX foi elucidado pelo linguísta russo Roman Jakobson: ela emissora, convida a irmã para receptora, contando com os aposentos nupciais como canal para que o sultão ouvisse, até o amanhecer, o conto que Sherazade estivesse pronunciando.

Confiava na mensagem e na identificação de um referente que lhe fosse capaz de mudar o seu destino fatal. O plano deu certo, e os fios passariam a crescer, pois incitante, fez ainda o sultão acreditar que era ele quem mandava [tecendo por trás dos panos], empregando no rei o recurso narrativo de “à beira do abismo”, que é o Cliffhanger . 22

Então a aurora alcançou ¸ahråzåd e ela parou de falar. A mente do rei åhriyår ficou ocupada com o restante da hustória, e nessa primeira manhã, D∑nårzåd disse à irmã: “Como são belas e espantosas as suas histórias!”. Respondeu ¸ahråzåd: “Isso não é nada perto do que vou contar na próxima noite, caso eu viva e caso este rei me poupe. A continuação da história é melhor e mais espantosa do que o relato de hoje”. E o rei pensou: “Por Deus que eu não a matarei até escutar o restante da história. Mas na próxima noite eu a matarei. Depois, quando bem amanheceu, o dia clareando o sol raiando, o rei se levantou e foi cuidar de seu reino e de suas deliberações. O vizir, pai de ¸ahråzåd, ficou admirado e contente com aquilo. E o rei åhriyår ficou distribuindo ordens e julgando os casos apresentados até o cair da noite, quando entrou em casa e se dirigiu para a cama acompanhado por ¸ahråzåd. D∑nårzåd disse à irmã: “Por Deus, maninha, se acaso você não estiver dormindo, conte-me uma de suas belas historinhas para que possamos atravessar acordados esta noite”. E o rei disse: “Que seja a conclusão da história do gênio e do mercador, pois meu coração está ocupado com ela”. Ela disse: “Com muito gosto, honra e orgulho, ó rei venturoso”. (JAROUCHE, 2006, posição 1276 de 10432)

E assim foram se seguindo as noites. A promessa feita por Sherazade à irmã "eu contarei a você histórias que serão o motivo da minha salvação e da liberdade de toda esta nação" (JAROUCHE, 2006, posição 1214 de 10432) é no romance de Maria Valéria Rosálio concretizada por Rosálio e vem para dar uma nova perspectiva de vida à Irene e a ele próprio. Outra possível correlação mitológica que o romance rezendiano me leva a fazer é a de uma "Penélope em revés”. A mulher de Ulisses que tecia a mortalha de dia e desmanchava à noite. No Livro XIX da Odisséia há a conversa entre Ulisses e Penélope seguida da lavagem dos pés. Ela revela, dos versos 98 a 124, ao então hóspede - que é Ulisses disfarçado, como chegou a tal estratégia para suplantar seu sofrimento e saudade:

Me entristece e comprime. A flor dos Gregos De Dulíquio, Zacinto, Ítaca e Same,

Requestando-me invita, os bens me estragam. Já nos pobres nem hóspedes provejo, Ou nos arautos, públicos ministros: Saudosa a pratear consumo a vida;

Cliffhanger: A story or a situation that is exciting because its ending or result is uncertain until it happens:

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Many of Hitchcock's films are real cliffhangers.

[Tradução livre] Cliffhanger: Uma história ou uma situação que é excitante porque seu término ou resultado é incerto até que aconteça: [Ex:] Muitos filmes de Hitchcock’s são verdadeiros cliffhangers. Fonte:

Cliffhanger. Cambridge Dictionary. Obtido em http://dictionary.cambridge.org/pt/dicionario/ingles/cliffhanger acesso em: 1º Mai 2017.

Urgem-me os procos, e eu maquino enganos. Um gênio me inspirou tramar imensa Larga teia delgada, e assim lhes disse: - Amantes meus depois de morto Ulisses, Vós não me insteis, o meu lavor perdendo, Sem que do herói Laertes a mortalha Tôda seja tecida, para quando

No solo longo o sopitar o fado:

Nenhuma Argiva exprobre-me um funéreo Manto rico não ter quem teve tanto. - A diurna obra desfazia à noite, E os entretive ilusos por três anos; Mas, gastas luas e horas, veio o quarto, E então, por traça de imprudentes servas Apanhando-me, encheram-me de afrontas, E a concluir a teia me forçaram.

Nem mais efúgio nem recurso tenho: Muito a casar instigam-me os parentes; Leva meu filho o mal que os bens lhe comam, Pois, homem já, da casa tratar pode,

Como os que de honras Júpiter cumula.

(HOMERO, 1960, p.264, vs. 98-124, grifos nossos)

A trama de Penélope vem sendo referência na literatura e na vida a quiçá tantas mulheres. O fiar é o mesmo que recomeçar, segundo Brunel (2000, p.376): “Esse eterno retorno ao mesmo organiza as metáforas do trabalho interior feminino". Neste capítulo “As fiandeiras” do Dicionário de Mitos Literários há o subtítulo “Penélope e o fio da paciência”. Nele, o autor desenvolve a ideia que “Tecer, fiar, dão-lhe tempo para fabricar suas próprias defesas contra o homem, o esposo e o pai. Para ela, é o tempo de sublimar o medo de ver um esposo devolta mas envelhecido e esquecido de seus antigos segredos de alcova”. (BRUNEL, 2000, p.376-377)

A referência à Penélope pode servir à Irene, pois ao contarem a registrarem histórias, ou seja, bordar a folha branca no segundo grau adormecida, ela vai conseguindo antecipar o desfecho por mais um dia. Irene, soropositiva, quer viver até que possa estar com Rosálio a lhe contar histórias mais uma noite, e Irene possa bordar em mais um amanhecer. O livro de Maria Valéria traz em dado momento uma referência expressa ao fiar com roca e tear. O momento em que a avó de Rosálio costura sua primeira bermuda, para tapar as suas intimidades.

[…] a roupa que conhecia foi a água do riacho, vivia solto, pelado, o sol queimando meu couro me deixava bem escuro como todos, mas quando me amoleceu um dente daqui da frente, avisaram minha avó que pegou o fuso e a roca, depois armou um tear e me fez um calçãozinho, pra tapar minhas vergonhas, e foi assim que vivi, por quanto tempo nem sei, com o calção roxo de terra, às vezes, outras bem branco, corado pelo sol de cada dia, lavado pelas águas do riacho, quando era ali que eu brincava e, por debaixo do pano, a minha pele clareava. REZENDE, 2005, p. 36-37)

O Capítulo roxo e branco é aquele em que sua avó pega a roca, a linha e lhe costura um calçãozinho. Esta é a instância do "tecido" deste subtítulo. Todo o resto é (pre)texto. Mostrarei em seguida que cada história que ele contava, ela escreveu.