1.5 Aspectos gerais da Teoria dos Sistemas Sociais de Niklas Luhmann
1.5.3 Dupla contingência, programa e diferenciação funcional
O fechamento operacional dos sistemas sociais engloba todo um processo de criação e reprodução de elementos de funcionamento em seu interior. Por esse motivo, torna-se impossível a sua total compreensão através de uma observação externa, tanto a partir do ambiente quanto do interior de outros sistemas de sentidos, sejam eles também sociais, como, por exemplo, o sistema científico; ou psíquicos, como, da mesma forma exemplificada, a consciência do pesquisador.
De tal constatação decorreria uma segunda noção de contingência desses processos comunicacionais relacionada a essa impossibilidade de se prever suas condições de existência e as operações internas por ele realizadas. Tanto essas condições como as operações citadas são passíveis de mudança em qualquer momento em razão da ampla possibilidade de decisões e de escolhas de sentido que caracteriza a própria complexidade social que o sistema visa reduzir.
Destaca-se, dessa forma, a existência de uma dupla contingência como importante característica da Teoria dos Sistemas Sociais autopoiéticos em estudo. (LUHMANN, 1998, p. 113).
A dupla contingência não se restringe à dificuldade do sistema em lidar com a complexidade desorganizada presente no ambiente, que o leva a se diferenciar recorrendo à auto-referência e ao fechamento operacional de seus processos comunicacionais. Seu caráter dúplice decorre dessa própria diferenciação funcional que tornaria o sistema não totalmente decifrável (“não-transparente”) a seus próprios elementos e ao ambiente,
exterior ou mesmo àqueles resultantes de suas inter-relações com outros sistemas de sentido (acoplamentos estruturais e interpenetrações).48
Ademais, uma vez que essas contingências são reconhecidas pelos sistemas, estes criam mecanismos de seleção em suas operações que passam a fazer parte de seu repertório sistêmico visando à sua proteção de mais essa improbabilidade de comunicação.
Não obstante a hipótese dessa contingência dos processos comunicacionais vir a ser reduzida pelo desenvolvimento do repertório comunicativo próprio do sistema, a mesma volta paradoxalmente a se potencializar com a formação de expectativas operacionais seja, do ponto de vista interno ao sistema, entre seus elementos, seja entre os sistemas de sentido (sociais e psíquicos).
Tais expectativas decorrem do desenvolvimento dos meios de comunicação simbolicamente generalizados e de sua aparente previsibilidade. A relação desses meios com a criação de expectativas comunicacionais resulta do fato de permitirem ao sistema facilitar suas operações seguintes, conectando-as às operações internas pré-existentes e, assim, eventualmente reiterar suas mensagens, repetições e decodificações anteriores em seus processos de dotação de sentido e de seleção das informações. Contudo, trata-se de uma aparente previsibilidade, daí porque como assinala Rômulo Figueira Neves (2005, p. 33):
Os sistemas não têm a expectativa de que suas operações sejam adotadas igualmente por outro sistema e sabem que o mesmo ocorre com a expectativa do outro sistema. As referências [e essas próprias expectativas] do sistema são voltadas para si, já que não podem prever ou definir a operação dos outros sistemas. Forma-se, nessa relação, uma equação com muitas variáveis que têm de ser levadas em conta pelos sistemas, como a expectativa de Alter sobre as operações de Ego e as expectativas de Ego em relação às operações de Alter.
O importante nesse ponto é entender que essas expectativas e as operações
48 Acerca do conceito de contingência na teoria dos sistemas luhmannianos disserta Rômulo Figueira Neves (2005, p. 17): “Essa impossibilidade de previsão pelo ambiente externo das respostas do sistema social a irritações externas, para as quais há uma gama de possibilidades, gera o conceito de contingência, ou seja, não há como uma informação externa pré-determinar uma resposta visto que também internamente há contingências [dupla contingência] que possibilitam processos evolutivos do sistema. Assim, qualquer estímulo externo, como irritação ou ruído, que interesse ao sistema social operacionalmente fechado, é internalizado a partir de processos internos de dotação de sentido”.
reflexas dela decorrentes são geradas pela observação mútua entre os sistemas, sendo tais expectativas, em muitas das vezes, conflituosas e contraditórias entre si. Justamente nesse contexto é que as relações de interação, interpenetração e acoplamento estrutural podem ocorrer. Porém, essa observação entre os sistemas e as inter-relações dela decorrentes não pressupõe necessariamente qualquer cooperação, coordenação ou simbiose entre os mesmos. (NEVES, 2005, p. 35).
Além dessa observação pelo sistema do meio ambiente e dos demais sistemas que compõe seu entorno, os sistemas sociais em seu processo auto-referencial e autopoiético requerem uma constante auto-observação de seu funcionamento, que se relaciona inclusive à sua capacidade de controle e ao grau de programação de algumas de suas funções. Nesse sentido:
Deve-se mencionar, com particular ênfase, uma conseqüência estrutural importante que resulta, forçosamente, da construção dos sistemas auto- referenciais: a renúncia à possibilidade de controle unilateral. Pode haver diferenças na capacidade de influência, hierarquias, assimetrizações, mas nenhuma parte do sistema pode controlar a outra sem sucumbir ao mesmo tempo ante o controle. Sob tais circunstâncias é possível, e ainda muito provável, nos sistemas que têm orientação de sentido, realizar um controle mediante a antecipação de um contra- controle. Apesar disso, a garantia de uma estrutura todavia assimétrica (por exemplo, nas condições internas do poder de um sistema) sempre necessita de disposições particulares. Essa problemática do controle se nivela, em parte, ao acentuar a auto-observação. Nesse contexto, isto é, no nível da teoria geral dos sistemas, observação não significa outra coisa que manejo de distinções. Só no caso dos sistemas psíquicos, o conceito pressupõe consciência (se poderia dizer também que, motivado pela observação, surge o meio próprio do sistema, a consciência). Outros sistemas têm que agregar suas próprias possibilidades de observação. A auto-observação é a introdução da diferença entre sistema e entorno no sistema que se constitui através desta diferença. Dita diferença é, por sua vez, um momento operativo da autopoiese, já que na reprodução dos elementos deve assegurar sua reprodução como elementos do sistema e não como qualquer coisa distinta. (LUHMANN, 1998, p. 58).49
49 Cf. original: “Se debe mencionar, con particular énfasis, una consecuencia estructural importante que
resulta, forzosamente, de la construcción de los sistemas autorreferenciales: la renuncia a la posibilidad de control unilateral. Puede haber diferencias en la capacidad de influencia, jerarquías, asimetrizaciones, pero ninguna parte del sistema puede controlar a otro sin sucumbir él mismo ante el control. Bajo tales circunstancias es posible, y aún muy probable, en los sistemas que tienen una orientación de sentido, llevar a cabo cualquier control mediante la anticipación de un contracontrol. A pesar de esto, la garantía de una estructura todavía asimétrica (por ejemplo, en las condiciones internas del poder de un sistema) siempre necesita de disposiciones particulares. Esta problemática del control se nivela, en parte, al acentuar la autobservación. En este contexto, es decir, en el nivel de la teoría general de sistemas, observación no significa otra cosa que manejo de distinciones. Sólo en el caso de los sistemas psíquicos, el concepto
Os programas surgem então nessa teoria como forma de controle interno das operações sistêmicas. Através deles é que os sistemas sociais estabelecem as condições sob as quais certos processos comunicacionais podem ocorrer e os processos que devem suceder a ocorrência de determinadas operações internas.
Reduzem, assim, uma parte da contingência sistêmica uma vez que, por seu meio, os sistemas podem verificar o direcionamento das referidas operações a despeito de sua evolução indeterminada e contingente.50
A programação do sistema é complementar à função desempenhada pelo código binário na evolução do sistema. Contudo, ao contrário destes e dos meios de comunicação simbolicamente generalizados, os programas dependem do direcionamento que o sistema social assume ao longo de seu processo de evolução, sendo assim flexíveis. (NEVES, 2005, p. 30).
Ademais, cumpre destacar que os programas mais encontrados nos sistemas sociais são de caráter finalístico ou condicional. (LUHMANN, 1998, p. 290).
Os programas finalísticos têm por função coordenar as operações sistêmicas para determinados resultados estipulados internamente e que, por esse motivo, constituem o objetivo da programação.
Nesse sentido, estabelecem quais seleções devem ser consideradas como válidas para se atingir determinados fins. Tais programas coordenam ainda a participação das pessoas, no curso das interpenetrações entre os sistemas sociais e psíquicos, em seus
presupone la conciencia (se podría decir también que, motivado por la observación, surge el medio propio del sistema, la conciencia). Otros sistemas tienen que allegarse sus propias posibilidades de observación. La autobservación es la introducción de la diferencia entre sistema y entorno en el sistema que se constituye a través de esta diferencia. Dicha diferencia es, a la vez, un momento operativo de la autopoiesis, ya que en la reproducción de los elementos debe asegurarse su reproducción como elementos del sistema y no como cualquier cosa distinta”. (LUHMANN, 1998, p. 58).
50 Segundo a síntese explicativa proposta por Rômulo Figueira Neves (2005, p. 30): “As expectativas de operações de Alter e Ego são bastante delineáveis no âmbito dos programas. Além disso, as expectativas podem ser conectadas em uma cadeia de operações que dependem entre si, tanto na dimensão da ocorrência propriamente dita, quanto na ordem e na determinação temporal dos diversos processos comunicativos. Dessa forma, os programas servem para diminuir sensivelmente a contingência dos processos comunicativos do sistema no qual operam o programa. Isso não significa que a contingência foi eliminada, nem que os resultados dos processos sobrecomunicativos possam ser previstos, mas apenas que objetivos prévios ou requisitos mínimos foram definidos”.
diversos processos comunicacionais. (NEVES, 2005, p. 31).
Por sua vez, os programas condicionais definem situações e requisitos em que processos comunicacionais deverão ser realizados. Tais definições disponibilizam aos elementos do sistema critérios sob os quais devem ser organizadas as operações do sistema social em que esse programa é desenvolvido. Permitem ao sistema, em sua auto- observação, avaliar a conformação dos procedimentos às condições fixadas pelo programa.
Paralelamente, no que diz respeito à outra característica dessa teoria luhmanniana dos sistemas sociais autopoiéticos, tem-se que a diferenciação dos sistemas não se restringe ao ambiente, mas pode também ocorrer, ainda que de forma um pouco diversa, no interior próprio sistema social.
Sob o ponto de vista das diferenciações funcionais internas, em sua Teoria da Sociedade, Niklas Luhmann (1998, p. 182) sustenta que, a partir desse processo comunicacional geral, novos e específicos circuitos comunicativos vão sendo gerados e desenvolvidos até que estes, enquanto processos comunicacionais emergentes, atinjam um determinado grau de complexidade e perficiência na sua própria organização auto- reprodutiva que os levam a se autonomizarem do sistema social geral, originando subsistemas sociais autopoiéticos.
O referido processo em que surgem subsistemas sociais autopoiéticos é de suma importância para a compreensão de toda a teoria sistêmica social ora estudada posto que se objetiva neste trabalho delinear as potencialidades e limitações de tal teoria para a compreensão da força normativa constitucional do direito sanitário que perpassa as supostas relações entre os sistemas jurídico e sanitário.51
51 Ressalte-se porém que Luhmann, seguindo uma continuidade em sua obra, ao que tudo indica direcionou seus estudos para a busca da compreensão do funcionamento interno dos sistemas sociais, presente já em seus trabalhos anteriores como em Legitimação pelo procedimento (1980), do que teria resultado uma supervalorização dessa dinâmica interna em detrimento da exploração das potencialidades das inter-relações comunicativas externas, entre os sistemas. (CAMPILONGO, 2000a, p. 81-82). Ademais, em sua dissertação de mestrado intitulada Acoplamento estrutural, fechamento operacional e processos sobrecomunicativos na
Teoria dos Sistemas Sociais de Niklas Luhmann, Rômulo Figueira Neves (2005, p. 72) esclarece que
“pesquisas nesse sentido foram iniciadas por Luhmann, com os estudos de estrutura social e semântica (Gesellschaftstruktur und Semanitk), mas ele não conseguiu completá-las [até o fim de sua vida]”. Nessa linha, os “processos sobrecomunicativos” são apontados na citada dissertação de mestrado como formas de inter-relações sistêmicas não expostas claramente na teoria luhmanniana. Tais processos poderiam, grosso
modo, ser entendidos como situações de peculiar suspensão da clausura operativa do sistema que
A autonomização do sistema social geral em subsistemas pressupõe a constituição de novos processos comunicacionais através da elevação da complexidade e completude da comunicação produzida em alguns de seus circuitos emergentes. Nesses circuitos especializados surgem novos códigos binários e eventualmente programas sistêmicos próprios que passam a guiar as suas operações auto-reprodutivas de subsistemas sociais a partir da consolidação de novos meios de comunicação simbolicamente generalizados.
Ressalta-se neste ponto que o processo de diferenciação funcional do sistema social global implica no pressuposto teórico de que nenhum dos vários subsistemas emergentes — v.g. os sistemas jurídico, político ou econômico — pode reivindicar a supremacia sobre os demais sistemas sociais nem sequer pretender substituí-los em suas respectivas funções. (LUHMANN, 1992, p. 1434-1435).
Dessa forma, a teoria sistêmica, nos termos até aqui desenvolvidos, propiciou a quebra da tradicional oposição entre sistemas fechados e sistemas abertos na medida em que, no paradoxo autopoiético da clausura auto-reprodutiva, os sistemas biológicos, psíquicos ou sociais estão “abertos” ao meio envolvente graças à sua clausura operativa do próprio sistema.52
Em outras palavras, chega-se à conclusão de que a abertura e adaptação de um sistema autopoiético ao seu meio envolvente dependem, paradoxalmente, da capacidade que esse sistema tem de manter intacta a sua própria auto-referencialidade.
Em conseqüência, graças à visão autopoiética, é afastada da relação dos
em situações muito específicas. (NEVES, 2005, p. 67).
52 A esse respeito, Luhmann (1992) diferencia expressamente a teoria dos sistemas sociais da teoria dos sistemas abertos. Destaca, ainda, a inexistência de uma causalidade direta entre as relações do sistema social com seu ambiente o que só é factível a partir de um processo de seleção própria de um terceiro sistema observador que correlaciona a estrutura do sistema com determinadas interações. Situa-se, ao menos nesse ponto, na mesma linha de Humberto R. Maturana e Francisco J. Varela (2005, p. 150-151), posto que entendem que o meio não específica nem sequer instrui as mudanças estruturais do sistema, sendo a relação de causalidade dela decorrente criada pela seleção e dotação de sentido de uma observação externa: “The
emergence of closed systems requires a specific form of relations between systems and environments; it presupposes such forms and is a condition of their possibility as well. The theory of ‘open systems’ describes the forms with the categories of input and output. This model postulates a causal chain in which the system itself serves as the connecting part linking inputs and outputs. The theory of autopoietic systems replaces the input/output model with the concept of structural coupling. It renounces the idea of an overarching causality (admitting it, of course, as a construct of an observer interested in causal attributions), but retains the idea of highly selective connections between systems and environments”. (LUHMANN, 1992, p. 1431-1432).
sistemas sociais com o meio em que estão inseridos a visão até então dominante desses sistemas como realidades totalmente abertas — da qual resultou a crença na capacidade de se regular exogenamente tais sistemas através de estímulos e respostas diretas (inputs-
outputs), o que garantiria uma adaptação constante desses sistemas ao meio continuamente
em mutação. (LUHMANN, 1998, p. 33).
À luz das idéias de auto-referencialidade de suas operações, de unidade e identidade dos sistemas, passa-se a considerar como fator de sua sobrevivência e estabilidade, frente às mudanças de seu meio envolvente a sua própria capacidade de auto- observação e auto-organização. (ANTUNES, 1989, p. xvi).
Portanto, esse processo de diferenciação funcional interna e a própria natureza auto-referencial dos sistemas autopoiéticos denotam a impossibilidade de se compreender os problemas e as peculiaridades de um dado sistema a partir de uma observação que lhe seja exterior. A teoria autopoiética repercute, assim, no campo da gnosiologia e epistemologia de modo a negar a separação entre a construção científica e seus objetos. (LUHMANN, 1998, p. 424).