1.5 Aspectos gerais da Teoria dos Sistemas Sociais de Niklas Luhmann
1.5.2 Sentido e fechamento operacional do sistema
Para Luhmann (1998, p. 58-59), diferentemente dos sistemas biológicos, para os quais a construção das relações entre sistema e ambiente só é possível através das seleções de comportamento por um outro sistema observador, os sistemas sociais e os próprios sistemas psíquicos têm uma autopoiese própria e particular, o sentido, que permite tanto a auto-referencialidade das operações internas desses sistemas quanto à ocorrência de suas interações.
A partir da evolução ontogênica dos domínios lingüísticos, que para Humberto R. Maturana e Francisco J. Varela (2005, p. 220-221) teria possibilitado o acoplamento estrutural de terceira ordem entre os seres humanos e a formação dos sistemas sociais, Luhmann (1998) destaca o papel fundamental do sentido como um ganho evolutivo que possibilitou o desenvolvimento conjunto dos sistemas sociais e psíquicos para além dessa visão biológica.
Embora se constituam como sistemas auto-referenciais diversos, ambos os sistemas autopoiéticos (sociais e psíquicos) são tidos pela teoria luhmanniana como imprescindíveis uns aos outros, servindo cada qual de ambiente necessário para a evolução do outro. As razões dessa interdependência relacionam-se à evolução de um instrumental comum: “[...] As pessoas não podem permanecer nem existir sem os sistemas sociais e vice e versa. A coevolução é conduzida através desse ganho comum [o sentido] que é utilizado tanto pelos sistemas psíquicos como sociais”. (LUHMANN, 1998, p. 77).
Nessa teoria, a idéia de sentido não se restringe de modo unilateral à consciência, em sua simples existência psíquica, restrita ao consenso e à harmonia do comportamento como seu próprio fundamento consciente. De maneira mais abrangente, “o fenômeno do sentido aparece sob a forma de um excedente de referências a outras possibilidades de vivência e de ação” presente em seu processo de seleção. (LUHMANN, 1998, p. 78).
Enquanto forma de seleção, os mecanismos de dotação de sentido dos processos comunicacionais permitem a estabilização do sistema ao passo em que restringem a complexidade a ser considerada possibilitando a utilização desses sentidos selecionados pelos próprios sistemas em suas operações futuras.
sua nova teoria sociológica supor que Luhmann (1998) estivesse propondo a sua exclusão a despeito de considerá-la a característica essencial da sociedade moderna. Nesse sentido, ao tratar do caráter reflexivo da compreensão autopoiética não só da sociedade como da própria ciência, tece as seguintes observações:
[...] A apresentação da teoria, portanto, aplica a si mesma o que aconselha: redução da complexidade. Contudo, complexidade reduzida não significa complexidade excluída, mas sim complexidade elevada. Deixa aberto o acesso a outras possibilidades sempre que suas definições sejam levadas em consideração ou sejam substituídas no justo lugar que a teoria exige. Se abandonasse o nível das definições, desapareceria na neblina o acesso a outras possibilidades de traços lineares e se cairia novamente na complexidade indefinida e impossível de processar. (LUHMANN, 1998, p. 10).43
Poder-se-ia, então, destacar a presença em cada sentido de uma complexidade “inconcebivelmente alta (complexidade do mundo) que, se mantém disponível para a operação dos sistemas psíquicos e sociais”. Assim, para o referido autor, segundo a forma e não o conteúdo, o sentido é, portanto, “reprodução de complexidade, uma forma de reprodução que permite o uso pontual onde é empregado, e que por sua vez identifica qualquer uso como seleção e o faz, se é possível assim dizer, responsável”. (LUHMANN, 1998, p. 79).
Acrescente-se que a produção de sentido presente em todos os sistemas psíquicos e sociais permite não só seus processos auto-referenciais como implica em conseqüências para as relações que se estabelecem entre sistema e ambiente. A esse respeito afirma Luhmann (1998, p. 79):
Nem todos os sistemas processam a complexidade e a auto-referência em forma de sentido. Contudo para aqueles que o fazem, só existe essa possibilidade de processamento. Para esses, o sentido se constitui na forma de mundo com que se transcende a diferença entre sistema e ambiente. O ambiente se dá em forma de sentido e os limites do ambiente são limites de sentido; [...] O sentido, em geral, e os limites de sentido, em particular, garantem o nexo insuperável entre sistema e ambiente
43 Cf. o original: “[...] La presentación de la teoría, por lo tanto, aplica a sí misma lo que aconseja:
reducción de complejidad. Pero complejidad reducida no significa complejidad excluida, sino complejidad elevada. Deja abierto el acceso a otras posibilidades siempre que sus definiciones sean tomadas en cuenta o sean sustituidas en el lugar preciso que requiere la teoría. Si se abandonara el nivel de las definiciones, desaparecería en la neblina el acceso a otras posibilidades de trazos lineales y se caería de nuevo en la complejidad indefinida e imposible de procesar”. (LUHMANN, 1998, p. 10).
mediante uma forma especial de sentido: remissões redundantes.44
Tais “remissões redundantes” que compõe o processo de dotação de sentido devem ser entendidas com base no fechamento operacional dos sistemas auto-referenciais e em seu processo interno de diferenciação. Essa clausura operativa dos sistemas sociais é que lhes permitiria produzir de maneira recursiva a seleção desses sentidos e, ao mesmo tempo, tornar possível a geração de novos elementos a partir das informações que se depreendem de seu ambiente.
Luhmann (1998, p. 90) decompõe o sentido em três dimensões: a objetiva, a temporal e a social.
A primeira relaciona-se, nos sistema psíquicos, a todos os objetos com intenção de sentido e, no caso dos sistemas sociais, aos temas de comunicação plena de sentido. Torna, então, possível que sua estrutura remissiva decomponha aquilo a que se refere em “este” e o “outro”, como pontos de referência operacionalizados de referências do mundo, sendo horizontes que intervém na constituição objetiva do sentido. (LUHAMNN, 1998, p. 91-92).
Por sua vez, a segunda dimensão do sentido, temporal, refere-se à “diferença entre o antes e o depois”, e permite aos sistemas de sentido lidarem com horizontes especiais que se prolongam em direção ao passado e ao futuro, diferenciando-se entre o presente e o ausente.45
44 Cf. o original: “[...] No todos los sistemas procesan la complejidad y la autorreferencia en forma de
sentido. Pero para aquellos que lo hacen, solo existe esa posibilidad de procesamiento. Para ellos, el sentido se constituye en la forma del mundo con lo cual se trasciende la diferencia entre sistema y entorno. El entorno se da en forma de sentido y los límites del entorno son límites de sentido; por consiguiente, se remiten, al mismo tiempo, hacia afuera y hacia dentro. El sentido, en general, y los límites del sentido, en particular, garantizan el nexo insuperable entre sistema y entorno mediante la forma especial del sentido: remisiones redundantes”. (LUHMANN, 1998, p. 79).
45 Cumpre, então, destacar que, segundo Luhmann (1998, p. 93): “El tiempo es para los sistemas de sentido,
la interpretación de la realidad en relación con la diferenta entre pasado y futuro. Aquí, el horizonte del pasado (y también el del futuro) no representa el principio (o el final) del tiempo. El concepto de horizonte excluye precisamente la idea de principio o de final. Más bien, todo el pasado y todo el futuro fungen como horizontes del tiempo — independientemente de que sean representados cronológicamente y en forma lineal o no, De cualquier manera, es imposible experimentar o actuar en alguna parte del pasado o del futuro, pues los horizontes del tiempo cambian de sitio con el avance del tiempo. Futuros y pasados —en ese sentido, completamente idénticos — pueden intentarse o todavía mejor tematizarse, pero no experimentarse o manejarse”.
Nesse contexto, a “designação história não deve ser entendida como simples seqüência real de acontecimentos em razão da qual se pode conceber o presente como efeito de causas passadas ou como causa de efeitos futuros”. Para a referida teoria sistêmica, a história constitui uma dimensão específica do sentido de tempo relacionada ao estabelecimento discricionário de sentido aos acontecimentos passados ou futuros que permitem saltar a sua seqüência temporal, tendo lugar “quando as seqüências são desligadas”. (LUHMANN, 1998, p. 94).
A dimensão social, enquanto terceira dimensão de sentido citada, diz respeito ao “que se supõe respectivamente igual, como alter ego e articula a relevância desta suposição para cada experiência do mundo e fixação de sentido”. (LUHMANN, 1998, p. 94).
O social seria então parte do sentido não porque se vincula a determinados objetos, mas por ser portador de uma reduplicação particular de possibilidades de entendimento. Isto porque os conceitos ego e alter, empregados por Luhmann (1998, p. 95), “não designam aqui papéis, pessoas ou sistemas senão horizontes especiais que agregam e atribuem peso às remissões plenas de sentido”.
Uma vez redimensionada na teoria luhmanniana para a compreensão dos processos comunicacionais e conscientes auto-referenciais de dotação de sentido, a dimensão social apresenta-se como um horizonte duplo que se torna relevante na medida em que as perspectivas de entendimento referidas pelo sistema decorrem da vivência e da ação mesmo que estas não possam ser separadas uma das outras.46
46 Para o referido sociólogo alemão, o social não se deixa reduzir aos resultados de consciência de um sujeito monádico, o que indicaria o fracasso de todas as tentativas teóricas de constituição subjetiva ou da intersubjetividade. Sobre essa diferenciação conceitual, adverte Luhmann (1998, p. 94-95): “Es importante
evitar cualquier tipo de amalgama entre dimensión social y dimensión objetiva. Este ha sido y es el error cardinal del humanismo. El hombre ha sido conceptuado en distintas versiones por su diferencia con el animal, y dotado de sociabilidad (animal social) y de temporalidad (memoria, phantasia, prudentia) y así finalmente declarado sujeto. Aun la teoría del sujeto ubica la relación interna/externa donde deberían distinguirse con base en el doble horizonte, la dimensión objetiva u la dimensión social. A pesar de ello, sin embargo, el hombre sigue siendo un objeto preferido junto al cual existen otros — lo que es evidente en la tendencia hacia la reantropologización de la filosofía trascendental y en su concepto de sujeto. El humanismo también reproduce un concepto de naturaleza y, por lo tanto, debe enfrentarse al dilema de su propia limitación. Es necesario no interpretar la distinción entre dimensión objetiva e dimensión social como distinción entre naturaleza y hombre. El progreso teórico estriba precisamente en evitar este angostamiento humanista”.
Contudo, é a partir de sua clausura operativa que os sistemas sociais podem produzir de maneira recursiva a seleção desses sentidos gerando novos elementos com base nas informações que se depreendem de seu ambiente.
Assim, essa recursividade dos sentidos que compõe o seu repertório auto- referencial possibilita não só sua reprodução e a auto-observação de seus elementos internos como, também, a observação externa e o acoplamento com outros sistemas que compõem o seu ambiente, posto que permite ao sistema social referenciá-los como informação para seus processos comunicacionais. 47
Segundo Rômulo Figueira Neves (2005), os sentidos no contexto da teoria social de Luhmann contribuem dessa forma para o processo de diferenciação do sistema, estando presentes em todas as suas operações:
[...] Para completar o processo comunicativo, o sistema necessita dotar as informações e os acontecimentos de sentido referenciando a um repertório existente e a um meio de comunicação simbolicamente generalizado. Para existir sentido é necessário um sistema que organize formas de relacionar e selecionar as informações e os processos comunicativos. A principal característica da dotação de sentido, para o sistema, é a concepção da virtualidade, ou seja, a capacidade de intelecção de que dada informação ou evento tinha outras possibilidades, outros caminhos possíveis e que, em virtude de uma seleção, outras possibilidades foram abandonadas. Esta característica envolve por um lado o reconhecimento de outras possibilidades no passado e por outro, e por isso mesmo, a manutenção de alternativas para o futuro. Assim, o mecanismo de dotação de sentido dos processos comunicativos restringe
47 Essas três dimensões de sentido exercem na teoria de luhmanniana uma função importante em relação à destautologização da auto-referência do sentido. A esse respeito, discorre Luhmann (1998, p. 91): “[...] El
sentido tiene sentido: esto permanece como un hecho (correspondientemente no se ponen en duda afirmaciones como: todo sentido tiene sentido, sólo el sentido tiene sentido). Al mismo tiempo, la autorreferencialidad del sentido se reespecifica dimensionalmente con ayuda de las diferencias de cada una de las dimensiones específicas. El futuro es futuro sólo respecto de un presente con pasado; pero no es el pasado y tampoco retorna a él (como lo sugería el modelo circular). Mi consenso sólo lo es en relación con tu consenso, y no hay ninguna clase de argumento objetivo o racional que finalmente pudiera asegurar esa coincidencia (de nuevo, desde la dimensión objetiva). Las autorreferencias deben articularse dentro de cada dimensión del sentido, no puede ser producida por los horizontes de otra dimensión. Por ejemplo, el consenso no puede sustituir al futuro ni ser sustituido por el horizonte objetivo interno del sistema (en esto, por ejemplo, el psicoanálisis, reclama su competencia). Sin embargo, en la medida en que se establecen las diferencias en las dimensiones del sentido (las diferencias de las diferencias de las dimensiones específicas), las interdependencias entre las dimensiones pueden servir para la condicionalización y destautologización de las autorreferencias. Los círculos se romperán. El mundo objetivo obliga a pensar al tiempo asimétricamente, y este obliga a pensar asimétricamente, como gradiente de complejidad, a la relación entre mundo externo y mundo interno. Sólo de esta manera se puede extraer del mundo complejidad estructurada plena de sentido, en la que las operaciones de los sistemas de sentido pueden encontrar su lugar”.
a finalização do processo a uma compreensão, ao mesmo tempo em que também abre a possibilidade para outras operações, que se utilizam daquela como pressuposto. O processo de dotação de sentido também torna permanente a capacidade dos sistemas de se auto-reproduzirem, na medida em que mantém como possíveis todas essas operações que fazem parte do repertório do sistema e que dão lugar a novas operações. (NEVES, 2005, p. 40).
O fechamento operacional dos sistemas sociais se perfaz graças à criação e reprodução de seus elementos de funcionamento em seu interior sem a interferência ou influência de elementos externos, os quais podem contribuir apenas indireta e eventualmente para esse processo em face da recursividade daqueles mecanismos de seleção que compõem processos comunicacionais desses sistemas autopoiéticos.
Dessas considerações, segundo Gotthard Bechmann e Nico Stehr (2001, p. 189), resulta a descrição dos fenômenos sociais como interações e a idéia de que “o mundo (como horizonte de descrições possíveis) é expresso por meio de uma rede de distinções e rótulos contingentes que sempre devem ser entendidos dentro do contexto”. Nesse sentido, acrescentam os autores citados:
Sistema, para Luhmann, quer dizer uma série de eventos relacionados um ao outro, ou de operações. No caso dos seres vivos, por exemplo, esses são processos fisiológicos; no caso de sistemas psíquicos, os processos são idéias; e em termos de relações sociais, são comunicações. Os sistemas se formam ao se distinguirem do ambiente, no qual esses eventos e operações ocorrem, e que não pode ser integrado a suas estruturas internas. (BECHMANN; STEHR, 2001, p. 190).
Essa ênfase no aspecto relacional dos sistemas e a idéia correlata de sua separação do ambiente distinguem a teoria sistêmica de Luhmann (1998) daquela proposta por Talcott Parsons (1974) que, em linhas gerais, em seu funcionalismo de persuasão, destaca a adesão coletiva a normas e padrões compartilhados como definição de sistemas.
Por sua vez, para a teoria luhmanniana, essa fronteira operacional (não espacial) dos sistemas sociais é vista, sobretudo, em relação aos sistemas psíquicos (individuais) e demais sistemas que fazem parte de seu ambiente ou entorno. (LUHMANN, 1998).
Essa diferenciação operacional e as estruturas dos sistemas sociais emergentes não seriam porém um dado pré-estabelecido ou pré-ordenado, muito menos auto-evidente, mas um processo contínuo de novas construções do ponto de vista existencial de sua
forma, portanto, contingenciais e relacionados ao aumento da complexidade social. No mais, diferentemente do funcionalismo de persuasão parsoniano, Luhmann, com essa teorização, não estaria comprometido com a preservação dos sistemas sociais. (BECHMANN; STEHR, 2001, p. 191).
A sociedade vista como um sistema autopoiético de comunicação, caracterizado pela organização auto-reprodutiva e circular de processos comunicacionais, permitiu a Niklas Luhmann (1998) explicar a evolução das sociedades modernas desenvolvidas através de um fenômeno de diferenciação funcional.