7.1 DE UM PLANO A OUTRO – O CONTÁGIO
7.1.1 Duplicando no plano, duplicando o plano
O que faz com que um elemento social seja imitado ao invés de outro? Uma vez capturados pela ideia tardeana da imitação como força que cria repetições e semelhanças enveredamos agora pelos caminhos da transmissão imitativa. Se em um grupo vemos que tantos gestos, desejos e outras tantas ações e inovações emergem, porque alguns são imitados e outros não?
Duelos lógicos, uniões lógicas e influencias extralógicas são pistas do pensamento tardeano para tentar responder a esta questão (TARDE, 2000). Toda vez que uma novidade emerge no tecido social, ela atende a uma necessidade a qual o grupo já conhecia e, ao mesmo tempo, produz combinações entre crenças e desejos. A comunicação destas segue um ou outro caminho de caráter lógico: o primeiro é a união lógica ou forças criativas que se articulam com as quantidades psicológicas que já atuam em cada indivíduo.
Já o segundo são os duelos lógicos, vão se articular de uma maneira mais complexa com estas crenças e desejos que atuavam no sujeito podendo até mudar radicalmente os mesmos. Isso porque ao comunicar de um sujeito a outro, a corrente imitativa constituída pela junção de forças pode esbarrar em outras correntes que atuam em outro sentido (TARDE, 2000). Esse duelo entre duas possibilidades imitativas que visam atender à mesma necessidade ocorre no indivíduo, que porta conflitos entre as crenças e desejos novos e os antigos. Na ideia tardeana, apesar deste conflito ter lugar no indivíduo, são as imitações e os efeitos da vida em sociedade que levam-no a hesitar entre assumir uma ou outra ação imitativa para atender a alguma necessidade ou desejo, que por sua vez também é efeito de um processo social (idem, ibidem).
Longe de criar dicotomia entre o que se passa no sujeito e na sociedade, o pensamento aqui exposto é norteado pela assunção do quão imbricadas são estas
relações: o social, que não é espectro transcendental, é encarnado na vida pelo contato um a um, tendo efeitos e contágios que daí emergem, além de também se materializarem pelo modo como toda esta interação reverbera de modo distinto em cada sujeito. Como os duelos lógicos são combates de crença e desejo, sua lógica operativa é consequentemente a redução deles, ao menos momentaneamente, e por esse motivo são considerados modos menos intensos de transmissão da imitação (TARDE, 2000).
A união lógica ao contrário, é considerada uma forma mais intensa e efetiva de transmissão imitativa por operar de modo a aumentar a crença e o desejo, uma vez que a nova imitação não é contrária à ação imitativa anterior no atendimento às demandas sociais, atuando no sentido de confirmá-la (idem, ibidem).
Em quaisquer âmbitos sociais, as leis lógicas da imitação se dariam inicialmente por grandes uniões lógicas, seguidas de duelos lógicos para, enfim, acontecerem as uniões lógicas mais robustas e fortificadas (TARDE, 2000). Contudo, não estamos falando aqui em fenômenos homogêneos, mas sim do que resultam os fenômenos infinitesimais operando. São inúmeros fenômenos acontecendo simultaneamente, os quais indicam que não existe “a mudança”, mas sim a multiplicidade de mudanças que vão se operando em cada linha, cada nó do tecido social. Ao grande número de transmissão imitativa inicial por uniões lógicas procederiam no mesmo nó, linha ou indivíduo duelos lógicos e contradições produzidas por estes duelos, que por sua vez, possibilitam a produção de regras ou formas de coexistência que deem conta destas contradições (TARDE, 2000, 2011).
Neste segundo ‘estágio’ das uniões lógicas, as invenções atuariam no sentido de aumentar a crença em uma determinada ideia. Então, o que torna um âmbito, instância ou campo social mais forte são as invenções e as contradições presentes no processo de transmissão imitativa, pois as contradições longe de enfraquecer uma ideia, tornam-na mais forte e ampla ao dar conta de múltiplas contradições e negociações. Dessa forma, não há uma grande mudança que opere de forma homogênea e em etapas perfeita e exatamente seccionadas, mas inúmeras reações, duelos e uniões acontecendo simultaneamente (TARDE, 2011). Para pensar as mudanças que se operam na malha social a neomonadologia tardeana
não toma estas como evoluções, mas como multiplicidades de revoluções que compõem qualquer tecido social.
Outro ponto importante na trama tardeana sobre como acontece a imitação ou o contágio é o que é assinalada como influencia extralógica. Usando a linguagem como exemplo, situa a mesma como um efeito de imitação e também como uma força propulsora do processo imitativo. Isto se dá ao considerarmos os sentidos e a direção do processo imitativo: de dentro para fora. Aqui, não estamos nos referindo a uma essência que transvaza, mas sim à noção de que as ideias e as finalidades são os primeiros elementos que são contagiados socialmente e só então imita-se também os meios e as expressões (TARDE, 2000). Em outras palavras: o indivíduo, em seus duelos e uniões lógicas, lidando com as crenças e desejos que já atuavam nele, primeiro é sugestionado por outras crenças e desejos para só então tornar esse processo imitativo mais tangível quando também passa a imitar ritos e expressões, dispondo de elementos da linguagem.
A concepção da influência extralógica como o que primeiro atravessa o sujeito e nele atua de forma singular é essencial também para rever o processo comunicativo a partir não daquilo que é externo, tangível: palavras, gestos, atitudes e movimentos, mas do que atua diretamente no processo de produção de subjetividade: crenças e desejos. Quando a imitação ganha “exterioridade” ou objetivação é porque seu processo de transmissão de ideias e finalidades já está em funcionamento no indivíduo.