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Muitos são os desafios que se apresentam para a relação entre a Psicologia e a Educação. Além de superar antigas armadilhas, faz--se necessário construir novas perspectivas para os diversos desafios que se apresentam na escola atual.

Primeiramente, é fundamental buscar a superação de uma visão abstrata acerca do fenômeno psicológico, que isola o humano de suas implicações socioculturais e históricas (BOCK, 2007). A Psico-logia não pode servir para a perpetuação de desigualdades e injus-tiças sociais que se fortalecem a partir do argumento de que as di-ferenças individuais são unicamente responsáveis pelos diferentes papéis ocupados pelos indivíduos na sociedade. Ao mesmo tempo, o processo de escolarização deve ser analisado em sua totalidade,

para além das queixas. A abordagem crítica da Psicologia Escolar considera que a realidade escolar é por demais complexa e multi-determinada e que a Psicologia deve superar a visão de adaptação escolar e social (MARINHO-ARAÚJO, 2014).

Souza (2008) considera a importância de deslocar o eixo da análi-se do indivíduo para a escola e o conjunto de relações institucionais, históricas, psicológicas, pedagógicas e políticas que fazem parte do dia a dia escolar. É necessário refletir sobre as demandas que se apresentam como problemas.

O lugar da Psicologia está para além de um espaço individualizan-te. Deve se concentrar nas relações, no campo afetivo, no campo de potências e forças que se constroem nas instituições escolares (MA-CHADO, 2010). Cabe reconhecer que, embora as queixas tenham se direcionado frequentemente para os alunos e suas famílias, todos os envolvidos sofrem e adoecem frente às dificuldades cotidianas.

Em tempos de medicalização, assim como defende Machado (2010), deve-se lutar “contra a naturalização dos encaminhamentos, das queixas, dos diagnósticos individualizados, que [...], culpabili-zam as vítimas” (p. 122). Antes que sejam avaliadas as condições pe-dagógicas oferecidas aos alunos, diagnósticos têm sido profetizados, resultando em grandes prejuízos. Mesmo que existam implicações orgânicas ou psicológicas que afetem o desenvolvimento discente, a escola tem suas responsabilidades e o compromisso de favorecer meios para que a aprendizagem aconteça.

Também é crucial refletir sobre a inserção da Psicologia na for-mação dos profissionais da Educação. Para Souza (2010), ainda é ne-cessário articular saberes produzidos pela Educação e a Psicologia Escolar. As pesquisas em Psicologia devem contemplar as mudanças nas propostas de formação de professores, incluindo as reformu-lações nas diretrizes curriculares. Ao mesmo tempo, é necessário conhecer as perspectivas psicológicas que têm sido veiculadas na formação inicial e continuada.

Vários autores concordam que a Psicologia também deve estar comprometida com a melhoria da qualidade da educação públi-ca (MACHADO, 2010; SOUZA, 2010; MARINHO-ARAUJO, 2014) e

necessita participar da produção de políticas públicas, seja para garantir direitos, seja para auxiliar na sua reformulação (SOUZA, 2010). Dessa forma, a Psicologia não se resume a um olhar clínico sobre o humano; ela compreende suas multideterminações e pode atuar como coadjuvante em importantes transformações sociais.

Conjuntamente, cabe apontar a importância da pesquisa cientí-fica enquanto ato político. Nesse sentido, a Psicologia Escolar teve participação especial no passado e necessita continuar investindo em novos caminhos. Suas produções contribuíram para mudanças significativas na relação entre a Psicologia e a Educação e devem avançar, fazendo frente às concepções e ideologias excludentes que fundamentam políticas públicas e práticas instituídas no ambiente escolar.

Em resumo, deve-se superar as expectativas equivocadas sobre o fazer psicológico, que demandam ações, ajustamento e silencia-mento dos sujeitos e, ao mesmo tempo, mantém a ordem social vigente, perpetuando desigualdades. Embora essa escolha seja cus-tosa, cabe ao psicólogo um compromisso ético e político com a sua profissão. A Psicologia tem muito a contribuir com a Educação, mas necessita continuar construindo novas possibilidades.

Referências

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Considerações iniciais

O que leva um aluno adolescente a sair da escola? Quais as conse-quências e os principais motivos da evasão escolar? Por que o aluno se sente desmotivado? Tais indagações nos fazem pensar inicialmente em diversas causas como, por exemplo, o cenário atual da educação, a baixa qualidade no ensino nas escolas, condições socioeconômicas, cul-turais, geográficas ou até mesmo questões referentes ao envolvimento com drogas, violência sexual, aliciamento em atividades criminosas de adolescentes, dentre outros aspectos. Essa é uma discussão ampla e que envolve um repensar nas políticas da educação básica e de todos os ato-res repato-resentantes envolvidos no processo educacional.

A evasão escolar é considerada um dos grandes problemas da edu-cação brasileira. De acordo com a Síntese de Indicadores sobre taxas de rendimento, divulgada em 2014 pelo INEP (Instituto Nacional de Estu-dos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), o Brasil tem a maior taxa de abandono escolar no Ensino Médio entre os países do MERCOSUL. Segundo a pesquisa, no primeiro ano do Ensino Médio, a taxa de repro-vação nas escolas é de 17,0% e de abandono é de 9,5%. Logo, quando um aluno é reprovado ou volta a estudar, depois de abandonar a escola por um determinado tempo, ele passa a integrar a taxa de distorção idade ano de escolaridade, e é no Ensino Médio que aparecem as maiores distorções.

Nesse sentido, existe consenso de que a evasão escolar pode trazer uma série de problemas futuros ao adolescente que abandonou os es-tudos. Pode-se definir evasão como o desligamento em função de aban-dono (não matrícula), transferência ou nova escolha, trancamento e/ ou exclusão, evasão da instituição na qual está matriculado; evasão do sistema: abandono definitivo ou temporário. A evasão pode ser consi-derada um problema grave e ainda difícil de controlar e constitui-se em um dos problemas que afligem quaisquer instituições de ensino. A

perda de estudantes que iniciam, mas não terminam seus cursos, implica em desperdícios sociais, acadêmicos e econômicos, tanto no setor público quanto no privado. No setor público, são relacionados aos recursos públicos investidos sem o devido retorno. No setor pri-vado, é uma importante perda de receitas.

De acordo com Belloni (1999), a evasão escolar pode ser defini-da como a interrupção no ciclo de estudo. Essa pode implicar em prejuízos de ordem social, econômica e humana, com impactos em praticamente todos os níveis da educação, desde o primário até os cursos de pós-graduação, tanto no âmbito das instituições privadas, quanto no âmbito das instituições públicas (RIOS; GOMES; SHIMO-DA, 2010).

Campos, Costa e Santos (2007) definem a evasão como abandono ou desligamento do aluno da instituição, podendo ocorrer individu-almente e evoluir para um fenômeno coletivo, classificado, de acor-do com Gaioso (2005), como uma questão social muito complexa.

Uma das maneiras de mensurar a evasão é pela proporção entre os ingressos e egressos de um curso. Neste caso, ocorre uma quan-tidade de egressos menor que a dos ingressos, sendo duas situações possíveis: a permanência prolongada do aluno no seu curso e a eva-são propriamente dita (SANTOS; NORONHA, 2001).

Diversas são as pesquisas que procuram desvendar e enumerar os fatores potencialmente causadores desse abandono. Muito se dis-cute, hoje, sobre a evasão escolar. Pesquisadores estudam os moti-vos que levam os alunos a abandonarem os estudos, principalmente os adolescentes. Apesar de existirem diversos estudos isolados a res-peito dos fatores motivadores da evasão escolar, percebe-se a ausên-cia de pesquisas sistematizadas que consigam listar eficientemente esses fatores.

Compete ressaltar que diversos trabalhos (teses, dissertações, artigos em livros, periódicos e revistas) já fazem revisão da litera-tura pertinente à evasão escolar, priorizando os estudos no Brasil. O presente trabalho tem como foco principal a descrição da litera-tura nas principais bases referenciais mundiais (Scopus e ISI Web of Knowledge), a fim de identificar os fatores motivadores de evasão e

as formas de evitá-la.

Embora muitos trabalhos citados nessas bases correspondam a outros contextos, em que currículos e políticas educacionais são diferentes dos verificados no Brasil, a presente pesquisa permiti-rá a identificação de novas abordagens do problema evasão e, as-sim, mediante discussão contextualizada, será possível a adaptação para o contexto brasileiro para adoção de políticas de educação a partir da verificação em outros países. Não obstante, servirá como base referencial para futuros trabalhos e discussões a respeito da evasão/permanência de alunos no processo de ensino.

Foi realizado um levantamento de artigos nas bases Scopus e ISI Web of Knowledge, durante o mês de abril de 2015, relacionado ao tema “evasão escolar”, sendo utilizado o termo em inglês “drop out”. Foram selecionados em torno de 100 artigos mais pertinentes, sendo apontados os principais causadores de evasão escolar, bem como as estratégias e políticas para redução da evasão.