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V. SOBRE A MÃO E A LUVA (1874), DE MACHADO DE

V.2 E quem está afeito a ler romances-folhetins?

Na noite do casamento, quem olhasse para o lado do mar, veria pouco distante dos grupos de curiosos, atraídos pela festa de uma casa grande e rica, um vulto de homem sentado sobre uma lájea que acaso topara ali. Quem está afeito a ler romances, e leu esta narrativa desde o começo, supõe logo que esse homem podia ser Estevão. Era ele. Talvez o leitor, em lance idêntico, fosse refugiar-se em sítio tão remoto, que mal pudesse acompanhá-lo a lembrança do passado.399

Mas, afinal, nos últimos decênios do período oitocentista, quem estaria afeito a ler romances? Ou, refinando a pergunta aos nossos interesses, quem estaria afeito a ler os romances-folhetins publicados cotidianamente nas páginas da imprensa? Envolvidos pela prosa do bruxo, nos aproximamos dos espectros de leitores e leitoras sugeridos

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ASSIS, Machado de. ―Ex abrupto‖ (capítulo XIV). A mão e a luva. O Globo. Ibidem.

pelo próprio folhetim. Todavia, e buscando estabelecer um diálogo entre realidade e idealismo, - uma relação que cremos ser intrínseca à obra - sugerimos que, através de projeções acerca de seu público, Machado de Assis buscasse travar um diálogo com os seus leitores e leitoras empíricos, estes que acessavam o romance por meio do jornal. Dessa maneira, adiantamos que o nosso próximo passo no desenvolvimento da tese, deve voltar-se ao escrutínio do jornal O Globo, para que possamos examinar todo o discurso jornalístico que circundava o folhetim, especulando se a interpretação que seguimos propondo seria plausível.

De todo modo, e propondo alguns arremates parciais à nossa análise, retomaremos uma das derradeiras cenas do romance de Machado: a escolha de Guiomar por Luiz Alves. No capítulo, sugestivamente intitulado ―A escolha‖, a moça, em entrevista com a baronesa, optava pelo noivo ambicioso. Porém, e recuperando a nossa proposta comparativa, Guiomar não era Guida, e os seus desejos íntimos não poderiam soar como caprichos intransigentes aos ouvidos de sua benfeitora. Daí, portanto, a necessidade de que o casamento com Luiz Alves se tornasse um desejo da própria senhora. Em outras palavras, Guiomar, sem abandonar os pressupostos em torno de sua condição inferior de dependente, agiria para arrancar da madrinha a sua própria vontade. E é claro que o ―Eu, narrador‖ não deixaria tal situação passar de maneira despercebida:

[...] Vê o leitor que a palavra esperada, a palavra que a moça sentia vir-lhe do coração aos lábios e querer rompê-los, não foi ela quem a proferiu, foi a madrinha; e se leu atento o que precede verá que era isso mesmo o que ela desejava. Mas por que o nome de Jorge lhe roçou os lábios? A moça não queria iludir a baronesa, mas traduzir-lhe infielmente a voz de seu coração, para que a madrinha conferisse, por si mesma, a tradução com o original. Havia nisto um pouco de meio indireto, de tática, de afetação, estou quase a dizer de hipocrisia, se não tomassem à má parte o vocábulo. Havia, mas isto mesmo lhe dirá que esta Guiomar, sem perder as excelências de seu coração, era do barro comum de que Deus fez a nossa pouco sincera humanidade; e lhes dirá também que, apesar de seus verdes anos, ela compreendia já que as aparências de um sacrifício valem mais, muita vez, do que o próprio sacrifício.400

Conforme dissemos anteriormente, em A mão e a luva notamos um novo registro acerca da situação da dependência no Brasil oitocentista e, de maneira diversa da proposta alencariana, que conjugava tal condição social a uma espécie de anulação do indivíduo, em seu folhetim, Machado buscava sugerir os subterfúgios ideados por tais

pessoas para lidar com um cotidiano inegavelmente opressor. Nesse sentido, e ainda pensando no modelo observado em Sonhos d´ouro, podemos sugerir uma espécie de inversão de valores, pois, se o romance de 1872 representava os desmandos de uma nova elite advinda das fileiras liberais, o enredo de 1874 era feito dos arbítrios de jovens destituídos de prestígio, mas que sabiam utilizar-se das próprias habilidades pessoais para alvitrar uma vida melhor. Em Sonhos somos expostos a um cotidiano feito ao sabor de uma elite presunçosa, representada pela prole do banqueiro/conselheiro Bastos; já em

A mão e a luva, a senhora/baronesa/madrinha sequer recebe um nome próprio, dada a

sua inocuidade frente à inteligente e vívida Guiomar. Para José de Alencar, os tempos eram potencialmente novos, mas ainda traziam consigo a poeira dos séculos anteriores, enquanto para Machado os tempos eram avassaladores, e tomavam de assalto o status

quo patriarcal.

Por fim, e retornando à questão do público de literatura no Brasil do século XIX, novamente chamamos a atenção para a presença do leitor-modelo que, no último trecho citado, era convidado pelo narrador a constatar a dissimulação - e até a hipocrisia - de Guiomar ao eleger o seu par junto à madrinha. Por outro lado, e admitindo os signos de humanidade que compunham a personagem, o mesmo narrador parecia propor uma breve trégua nos trabalhos de seu tribunal de inquisição, reconhecendo que a moça também era feita do ―barro comum de que Deus fez a nossa pouco sincera humanidade‖. Enfim, pensamos que, ao sugerir as vulnerabilidades da personagem aos olhos de seus ―leitores‖, Machado de Assis também pudesse alcançar a compreensão de seus leitores não fictícios, que, em determinados momentos, poderiam sentir-se sensibilizados ao acompanhar uma trajetória feita de engodos, mas também de uma enorme e inegável capacidade de superação que levaria a menina pobre e órfã a um novo patamar social.

Dessa forma, seria possível afirmar-se que, na aproximação entre e o narrador e as leitoras, notamos um processo de confabulação em torno da desconstrução dos expedientes romanescos, o que nos parecia exigir, de maneira implícita, algum posicionamento crítico de tais interlocutoras. Paralelamente, o pacto que envolvia o narrador e os leitores era feito, na maioria das vezes, de um voyeurismo cruel, que se propunha ao exame frio de uma figura feminina sempre passível de julgamento. Todavia, e conforme demonstramos, em momentos ímpares, identificamos um narrador que, nas entrelinhas, também convidava os seus leitores a compartilhar de uma perspectiva menos atroz, ou um pouco mais tolerante para com Guiomar, o que

denotava certa humanidade à personagem, tornando factível o desencadeamento de um processo de identificação entre tal caractere e os receptores do texto literário. Portanto, nosso argumento conflui para a tese de que, através de pequenas brechas introduzidas num discurso narrativo essencialmente misógino, fosse construída a hipótese de que os leitores empíricos perscrutassem o próprio olhar mediante mulheres pobres e ambiciosas como Guiomar, cuja verossimilhança se afinava à historicidade de tal período.