V. SOBRE A MÃO E A LUVA (1874), DE MACHADO DE
V.5 Sobre casamenteiras dotadas, comerciantes diligentes, trabalhadoras
econômico oitocentista.
Quando abordamos a trajetória da protagonista de A mão e a luva, destacamos alguns ―marcadores sociais‖ que, do nosso ponto de vista, seriam preponderantes na sua construção enquanto personagem de ficção, e que poderiam viabilizar uma interpretação em resposta ao perfil feminino anteriormente apresentando por José de Alencar. Dessa forma, e em oposição a Guida, Guiomar amargava as condições particulares da origem humilde e da orfandade que, por consequência, a encaminharam para o aceite dos afetos e dos favores oferecidos pela baronesa. Acolhida, porém, evidentemente ilegítima; a jovem demonstrava ciência da tenuidade de sua condição, e temia por infortúnios que
421 Cf.: SALVAIA, Priscila. ―Do noticiário estrangeiro: até parece que as mulheres fazem as leis.‖
SALVAIA, Priscila. Diálogos possíveis: o folhetim Helena (1876), de Machado de Assis, no jornal O
Globo. Dissertação (Mestrado em Teoria e História Literária). Campinas, IEL-UNICAMP, 2014, p.68-85. 422 Cf.: SOUTO, Bárbara Figueiredo. “Senhoras do seu destino”: Francisca Senhorinha da Motta Diniz e Josephina Alvares de Azevedo – projetos de emancipação feminista na imprensa brasileira (1873 - 1894). Dissertação (Mestrado em História Social). São Paulo, FFLCH- USP, 2013.
pudessem arrastá-la às agruras do desamparo ou à condição humilhante relacionada ao mundo do trabalho. Porém, e conforme procuramos demonstrar, a personagem machadiana faria do casamento uma possibilidade de ascensão social sob a égide de uma ética liberal; sendo assim, ao eleger Luiz Alves como o seu companheiro, a moça afirmava a escolha diligente de ver-se livre da rede de proteção proporcionada pela matriarca protetora/opressora, sinalizando a favor de uma nova experiência de vida, avessa aos laços/amarras do patriarcalismo, e que oxalá pudesse livrá-la de ver-se prostrada diante de um marido janota.
Nesse momento, faz-se imprescindível que retomemos o enredo de Sonhos
d´ouro (1872) para reestabelecermos as linhas de nosso raciocínio. No derradeiro
capítulo do romance de José de Alencar, quando acompanhamos a moribunda Guida, de joelhos, a implorar que Ricardo a salvasse de um sofrimento amoroso que a reduzira a um farrapo humano; entrava em curso uma guinada na narrativa, que anulava toda a insolência que teria marcado a personagem até então, tornando-a compatível com o perfil feminino romântico, casadoiro e subjugado pelas desilusões amorosas. O casamento, neste caso, era apresentando como única possibilidade de salvação/redenção para a personagem em questão.
Reverberando algo do desfecho de Sonhos d´ouro, no último capítulo do folhetim A mão e a luva, Machado também cuidaria de casar seus protagonistas, proporcionando o aprazível happy end esperado por todos nós e, possivelmente, colocando um ponto final ao diálogo travado com Alencar, mas aproveitando-se para sinalizar com uma noiva de ares mais resolutos e altivos. No excerto abaixo, os recém- casados se elogiavam mutuamente, sendo que Luiz Alves admitia identificar em Guiomar uma ―força nova‖ capaz de alimentar a sua própria ambição. De pronto, e esbanjando graciosidade, a jovem esposa barganhava em troca de sua benfazeja companhia e, divertindo-se com a pilhéria proposta, o marido terminaria acenando com uma oferta descaradamente impregnada de autoelogio varonil. Segue:
O destino não devia mentir nem mentiu à ambição de Luís Alves. Guiomar acertara; era aquele o homem forte. Um mês depois de casados, como eles estivessem a conversar do que conversam os recém-casados, que é de si mesmos, e a relembrar a curta campanha do namoro, Guiomar confessou ao marido que naquela ocasião lhe conhecera todo o poder da sua vontade.
— Vi que você era homem resoluto, disse a moça a Luís Alves, que, assentado, a escutava.
— Resoluto e ambicioso, ampliou Luís Alves sorrindo; você deve ter percebido que sou uma e outra coisa.
— A ambição não é defeito.
— Pelo contrário, é virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de fazê-la vingar. Não me fio só na mocidade e na força moral; fio-me também em você, que há de ser para mim uma força nova.
— Oh! sim! exclamou Guiomar. E com um modo gracioso continuou:
— Mas que me dá você em paga? Um lugar na Câmara? Uma pasta de ministro?
— O lustre do meu nome, respondeu ele.
Guiomar, que estava de pé defronte dele, com as mãos presas nas suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas ambições trocaram o ósculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se aquela luva tivesse sido feita para aquela mão.424
Apesar do destino ter sido generoso com Luiz Alves, fora Guiomar quem ―acertara‖ na escolha do marido. Ou seja, negando as vicissitudes romanescas e reafirmando o traquejo liberal que envolve toda a trama, o narrador esclarecia que o enlace se dera por engenho da protagonista. Por isso, e em tom de zombaria, a moça exigia uma recompensa em troca de sua auspiciosa presença, sugerindo para tanto qualquer bagatela referente ao universo do poder público restrito aos homens: uma pasta de ministro; quem sabe um lugar na Câmara. Em contrapartida, Luiz Alves lhe ofereceria uma prenda factível ao ensejo do casamento, e ao lugar social supostamente reservado ao gênero feminino na época: a condição de ―mulher bem casada‖, ou, em outras palavras, ―o lustre de seu nome‖. Satisfeita, a moça que sempre estivera em pé - e não ajoelhada - defronte do rapaz, permite-se cair sobre os seus joelhos, demonstrando todo o seu contentamento.
Colocando limites ao ego inflado do marido em questão, vale lembrar que, Luiz Alves não pertencia às fileiras enobrecidas e/ou endinheiradas da alta sociedade fluminense oitocentista. Ao descrever a moradia do vizinho da baronesa, o narrador enfatizava: ―A casa de Luiz Alves ficava quase no fim da praia de Botafogo, tendo ao lado direito outra casa, muito maior e de aparência rica.‖425. É verdade também que ele não poderia ter origem pobre, afinal, morava no conhecido bairro de chácaras, possuía ao menos um escravo426, e estudara Direito em São Paulo. Contudo, sempre sequioso da influência política e social proporcionada pela vizinha matriarca, e chegando a exercer o
424 ASSIS, Machado de. ―Conclusão‖ (capítulo XIX). A mão e a luva. O Globo. Ibidem. 425
ASSIS, Machado de. ―Um roupão.‖ (capítulo II). A mão e a luva. O Globo, Rio de Janeiro, 28 de setembro de 1874, p.1, nº 55.
426 ―Sentou-se o bacharel em um banco que ali achou, recebeu a xícara de café, que o escravo lhe trouxe
daí a pouco, acendeu um charuto e abriu o livro.‖ (ASSIS, Machado de. ―Um roupão.‖ (capítulo II). A
papel de ―bajulador/conciliador‖ em tal núcleo familiar em determinados momentos427 ; pode-se concluir que o esposo de Guiomar ainda não possuía luz própria, tampouco poder para iluminar aqueles que estivessem ao seu redor.
Nesse sentido, nos parece relevante sublinhar que, em oposição ao romance alencariano, o tema do casamento na obra de Machado de Assis denota matizes interpretativas para além da tópica da ―redenção feminina‖. Por conseguinte, e muito embora ressoem sentidos retrógrados no desencorajamento das mulheres à vida pública, e na ideia conformista do devir matrimonial; deve-se enfatizar também que o enlace em
A mão e a luva se dá a partir de novos termos, menos passionais e socialmente mais
equânimes. Acreditamos que tal interpretação se conjuga aos signos de modernidade experienciados à época, e que se encontram presentes no suporte jornalístico O Globo. Dessa forma, faz-se necessário rastrear no periódico os sentidos conferidos ao tema do casamento e à condição social desfrutada pela mulher casada em tal historicidade. Nesse trajeto, o tema da inserção feminina ao universo econômico, - pelo meio indireto do matrimônio ou através do trabalho assalariado - também servirá de norte às reflexões que seguimos propondo.
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No Brasil do século XIX, mesmo após o processo de ruptura com o marco institucional português, ainda se encontravam em vigência as Ordenações Filipinas (1603)428, legislação esta que perdurou até o advento do Código Civil em 1916.
427 No episódio da iminente viagem da Baronesa para Cantagalo, Jorge recorreria a Luiz Alves para
persuadi-la a desistir da empreitada, tendo-se em vista que, o afastamento da senhora e de Guiomar da Corte ao longo de meses, poderia esfriar a ideia de casamento insistentemente acalentada pelo tal sobrinho:
―[...] Ora, o que Jorge vinha propor era, - expressões dele, - uma conjuração de amigos para dissuadir a tia daquele projeto. Afiançava ao advogado que, ainda descoberta a conjuração, teria ele a vida sã e salva. Luiz Alves supôs a princípio que aquilo era um simples pretexto; mas, tendo observado que a bela Guiomar não era indiferente ao rapaz, compreendeu que este tinha na conjuração proposta, um interesse inteiramente pessoal. Enfim, Jorge chegou a confessar que, se a tia insistisse em sair da Corte, ele não tinha remédio senão acompanhá-la.
O acordo não foi difícil; ficou assentado que fariam todos os esforços para dissuadir a baronesa. Jorge quis sair logo; reteve-o Luiz Alves algum tempo mais, com expressões de louvor habilmente tecidas e mais habilmente encastoadas na conversação; e também deixando-se ir à feição do espírito dele, aceitando-lhe as ideias e os preconceitos, e aplaudindo-os discretamente, - sério, quando eles o eram ou pareciam ser, - chocarreiro quando vinham com ar de graça, - respondendo enfim a todos os gestos e meneios do outro, como faz o espelho por ofício e obrigação: - toda a arte em suma de tratar os homens, de os atrair e de os namorar, que ele aprendera cedo e que lhe devia aproveitar mais tarde na vida pública.‖ (ASSIS, Machado de. ―A viagem‖ (capítulo XII). A mão e a luva. O Globo. Op. Cit.).
Conforme informa Hildete Pereira de Melo & Teresa Cristina de Novaes Marques429, tal compilação jurídica inaugurava uma longa tradição que se prolongou por muitos anos no direito brasileiro, baseada numa concepção negativa da condição feminina, - o
fragilitas sexus - e que arbitrava que a mulher deveria ser mantida sob o jugo do pai ou
do marido. Entretanto, faz-se imprescindível conhecermos os meandros da letra da lei para que possamos elucidar tal questão.
Por exemplo, ao optar pelo casamento, se não houvesse um acordo pré-nupcial estabelecido, a mulher sempre usufruía da condição de meeira do esposo, tornando-se, portanto, herdeira legítima da metade dos bens acumulados pelo casal ao longo da união. Ademais, se os pais da noiva lhe concedessem um dote, - ou seja, o adiantamento de sua legítima na herança familiar - tal patrimônio passava às mãos do marido, a quem cabia a responsabilidade de administrá-lo como bem entendesse. Todavia, imbuído apenas do direito de posse, o esposo não estava autorizado a alienar ou hipotecar tais bens, e estes deveriam ser obrigatoriamente restituídos à mulher no caso de falecimento do cônjuge. E, se nos atentarmos ao obituário d´O Globo, não teremos dificuldades em encontrar casos desta natureza:
Testamento: Faleceu ontem à meia-noite, na rua Fluminense nº 12, em Paula Mattos, José Gonçalves de Macedo, católico apostólico romano, natural de Portugal, batizado na freguesia de S. Miguel do Monte, bispado de Braga, conselho de Fafe, filho legítimo de Francisco José Gonçalves, e de Maria Gonçalves de Macedo, sendo aquele já falecido, casado com D. Fausta Augusta de Oliveira.
[...] Deixou à sua mulher D. Fausta, além do dote a que tem direito, os prédios ns. 14 e 14 A da rua do Mattoso e Travessa do Cabido, dos quais gozará em sua vida, não podendo vender, hipotecar ou permutar sem consentimento dos testamenteiros, e caso combinem vender para compra de outros bens será deles usufrutuária, passando por sua morte, aos seus legítimos herdeiros com a condição de celebrar 300 missas pela sua alma, fazendo os referidos herdeiros o enterro da usufrutuária com decência, caso não cumpram essas cláusulas passarão os bens para a Santa Casa de Misericórdia desta Corte.430
Porém, e ainda de acordo com Hildete P. de Melo & Teresa C. de N. Marques, há de se advertir que, no cotidiano hostil e imponderável das práticas, eram inúmeros os casos de mulheres ludibriadas que terminavam por perder completamente o controle dos próprios bens. Por outro lado, também vale dizer que a condição da solteirice poderia
429 MELO, Hildete Pereira de & MARQUES, Teresa Cristina de Novaes. ―A partilha da riqueza na ordem
patriarcal.‖ Revista de Economia Contemporânea. Rio de Janeiro, 5(2): 155-179, jul./dez. 2001.
ser ainda mais cruel, uma vez que, sempre salvaguardadas pelos genitores, muitas vezes, tais mulheres terminavam reféns da boa vontade dos irmãos, estes que eram tradicionalmente privilegiados pelos costumes sociais.
Não obstante, ao longo do processo histórico até a instituição do Código Civil no século XX, entraram em vigência outras legislações específicas, que buscavam atender às demandas sociais não contempladas pelas velhas Ordenações Filipinas. De maneira prioritária, elencamos a elaboração da Carta Constitucional que, restrita à questão da restruturação política do Império no período pós-independência, resultou na Constituição outorgada em 1824. Em seguida, e conforme discorremos anteriormente431, em 1831, quando o nosso primeiro Código Penal entrava em vigor, fortalecia-se a máxima da igualdade dos indivíduos perante a lei, ao mesmo tempo em se enfraquecia o caráter corporativo da família patriarcal. Dessa maneira, se antes a célula familiar respondia pelos crimes de seus membros, a partir de então o indivíduo passava a responder sozinho por quaisquer infrações às leis. Além disso, também passava a vigorar o rebaixamento da idade de maioridade para 21 anos, com emancipação automática, ou, sem a necessidade de processo judicial ou casamento para tal. Seguindo adiante, em 1850, em atenção aos reclames dos comerciantes brasileiros que exigiam a elaboração de um corpo de leis que regulasse as relações contratuais referentes à tal classe, foi promulgado o Código Comercial que, entre outras novidades, previa a condição inédita da ―mulher comerciante‖. Dito isso, vamos à boa nova em detalhes:
TÍTULO I
Dos Comerciantes Capítulo I
Das Qualidades Necessárias para ser Comerciante: Art. 1 - Podem comerciar no Brasil:
[...] 4 - As mulheres casadas maiores de 18 (dezoito) anos, com autorização de seus maridos para poderem comerciar em seu próprio nome, provada por escritura pública. As que se acharem separadas da coabitação dos maridos por sentença de divórcio perpétuo, não precisam da sua autorização.
Os menores, os filhos-famílias e as mulheres casadas devem inscrever os títulos da sua habilitação civil, antes de principiarem a comerciar, no Registro do Comércio do respectivo distrito.
[...] Capítulo IV
DAS DISPOSIÇÕES GERAIS
Art. 27 - A mulher casada comerciante não pode obrigar, hipotecar ou alhear os bens próprios do marido adquiridos antes do casamento, se os respectivos títulos houverem sido lançados no Registro do Comércio dentro de 15 (quinze) dias depois do mesmo casamento (artigo nº. 31), nem os de raiz que pertencerem em comum a ambos os cônjuges, sem autorização especial do marido, provada por escritura pública inscrita no dito Registro.
Poderá, porém, obrigar, hipotecar e alhear validamente os bens dotais, os parafernais, os adquiridos no seu comércio, e todos os direitos e ações em que tiver comunhão, sem que em nenhum caso possa alegar benefício algum de direito.
Art. 28 - A autorização para comerciar dada pelo marido à mulher pode ser revogada por sentença ou escritura pública; mas a revogação só surtirá efeito relativamente a terceiro depois que for inscrita no Registro do Comércio, e tiver sido publicada por editais e nos periódicos do lugar, e comunicada por cartas a todas as pessoas com quem a mulher tiver a esse tempo transações comerciais.
Art. 29 - A mulher comerciante, casando, presume-se autorizada pelo marido, enquanto este não manifestar o contrário por circular dirigida a todas as pessoas, com quem ela a esse tempo tiver transações comerciais, inscrita no Registro do Comércio respectivo, e publicada por editais e nos periódicos do lugar.432
Num mundo em que as mulheres ainda amargavam as heranças sociais tacanhas do colonialismo, o Código Comercial deve ser apresentado como um avanço significativo em direção à igualdade de direitos entre os sexos no âmbito jurídico. Reafirmando o conteúdo do excerto, as mulheres casadas, maiores de 18 anos e com autorização prévia do marido, estavam aptas a exercerem o papel de comerciantes. As separadas da coabitação dos maridos por ―sentença de divórcio perpétuo‖433
- e é importante dizer que, em decorrência do patriarcalismo, os casos não eram comuns à
432
[Grifo nosso]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L0556-1850.htm [Acesso em fevereiro/2019].
433 Evitando-se qualquer confusão em relação ao uso do termo divórcio, esclarecemos que a ―Lei do
Divórcio‖ foi sancionada no Brasil apenas em 1977, e o que se compreende como ―divórcio‖ no século XIX, além de estar a cargo da Igreja Católica, previa somente a separação de toro (leito conjugal) e mútua coabitação, uma vez que não havia a possibilidade de rompimento do vínculo matrimonial, tampouco a autorização para se contrair novas núpcias. (Cf.: AMARAL, Isabela Guimarães Rabelo do. ―Divórcio e nulidade de matrimônio: uma forma de reação feminina‖. Resistência feminina no Brasil oitocentista: as
ações de divórcio e nulidade de matrimônio no bispado de Mariana. Dissertação (Mestrado em Direito).
época434 - eram dispensadas da necessidade de autorização masculina. Fora isso, e embora arbitrados pelo Direito Canônico, os casamentos geralmente seguiam um protocolo semelhante ao regime de comunhão de bens435, todavia, e reproduzindo as práticas portuguesas, costumava prevalecer a autoridade marital na sociedade conjugal, sendo assim, era esperado que a mulher não pudesse dispor dos bens adquiridos pelo parceiro antes do casamento, tampouco dos que pertenciam em comum a ambos os cônjuges. Porém, e surpreendentemente, a legislação comercial propunha uma brecha oportuna à experiência feminina: a possibilidade de acesso aos bens dotais. Em outras palavras, dispensando-se a desventura da viuvez, a esposa comerciante poderia apoderar-se do seu quinhão na herança familiar.
Passados mais de vinte anos desde a aprovação do Código Comercial, o recém- inaugurado jornal O Globo abordava os pormenores da legislação. O interesse em trazer o código a lume certamente poderia ser explicado pela temática econômica que, conforme dito, encontrava-se no cerne do projeto editorial do veículo jornalístico. Além disso, e conforme demonstrado por Julio Bentivoglio436, ao longo da segunda metade do século XIX, especialmente a partir de 1850, devido ao fim do tráfico negreiro, seria notável, sobretudo na Corte, o aumento exponencial do capital circulante oriundo das atividades comerciais (uma vez que a terra era compreendida como capital fixo), daí a necessidade de adoção de instrumentos jurídicos para regulamentação do setor em específico.
Dito isso, vamos ao primeiro texto publicado no periódico acerca do tema. Com a intenção deliberada de provocação, o longo escrito datado de agosto de 1874 era iniciado com a seguinte epígrafe: ―A mulher casada pode ser negociante?‖. Dessa maneira, numa tônica que misturava oposição e desconfiança, o redator seguiria expressando o posicionamento defendido pelo Globo:
434 O ―divórcio‖ somente era permitido em casos de adultério ou de sevícias graves. E, de acordo com
Isabela Guimarães Rabelo do Amaral: ―Se o divórcio fosse decretado, trazia como efeito imediato a separação material dos cônjuges, ficando o cônjuge inocente liberado da obrigação de viver conjunta e inseparavelmente do outro cônjuge. Entretanto, cabe ressaltar que a sentença de divórcio não transitava em julgado. Logo, os cônjuges poderiam se reconciliar a qualquer momento. Na esfera civil, em virtude do divórcio cessava o poder marital, a mulher readquiria sua capacidade jurídica, os bens eram divididos e partilhados, segundo o regime de bens, como se um dos cônjuges fosse morto, e os filhos continuavam sob o poder do pai, embora a mãe fosse obrigada a amamentar e criar os filhos até os três anos de idade.‖ In: AMARAL, Isabela G. R. do. Ibidem, 2012, p.134.
435 À época, e seguindo as regras estabelecidas pelo Concílio de Trento (1545 - 1563), os casamentos
eram realizados pela Carta de Ametade, ou seja, com comunhão de bens.
436
BENTIVOGLIO, Julio. ―Elaboração e aprovação do Código Comercial Brasileiro de 1850: debates parlamentares e conjuntura econômica (1840-1850).‖ Justiça e História, vol.5, nº 10, 2005, p.1-23.
REVISTA JURÍDICA – A mulher casada pode ser negociante? – Segundo a doutrina expressa no nosso Código Comercial, (art.1 º, n. 4) as mulheres casadas maiores de dezoito anos podem comerciar em seu próprio nome, uma vez autorizadas por seus maridos em virtude de escritura pública.
Estabelece que a mulher casada assim autorizada pode obrigar, hipotecar e alhear validamente os bens dotais, os parafernais, os