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Os circuitos da economia urbana englobam diferentes divisões do trabalho particulares que se inserem, por sua vez, em lógicas escalares distintas. Enquanto o circuito superior da economia constitui uma divisão do trabalho cujos laços de cooperação são pouco visíveis na paisagem urbana, uma vez que se apóiam em largos circuitos espaciais de produção; a maior parte da população sobrevive de um trabalho cuja escala não ultrapassa os limites da metrópole (SILVEIRA, 2004a, p.6), ou mesmo a escala intra-urbana. No entanto, conforme procuramos mostrar, mesmo a cooperação do pequeno, ou seja, do circuito inferior, tende a se realizar hoje, em certos casos, através de circuitos espaciais mais amplos, por vezes internacionais, não se completando, assim, necessariamente na contigüidade.

Não obstante, as formas utilizadas pelos atores não-hegemônicos não deixam de ser, sobretudo, aquelas já existentes no meio construído urbano, resultantes de divisões territoriais do trabalho pretéritas, que se presentificam pelas ações atuais que se dão sobre elas e a partir delas. O circuito superior, em contrapartida, define-se pela capacidade de macroorganização do espaço (SANTOS, 1975), inclusive na escala intra-urbana através da renovação e da remodelação de determinadas parcelas da cidade, como veremos a seguir.

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2.5. O avanço do uso corporativo da cidade: o projeto Nova Luz enquanto

evento emblemático das relações entre Estado e circuito inferior

Em nossa reflexão sobre as dinâmicas do circuito inferior no centro de São Paulo, não poderíamos deixar de abordar as políticas de “requalificação” endereçadas a esta parte da cidade, visto que estas afetam diretamente as atividades aí localizadas.

Atualmente, os pequenos negócios da região central da Santa Ifigênia encontram-se ameaçados de perder sua localização – já consolidada como ponto de referência nacional de comércio e serviços de artigos eletroeletrônicos – assim como o acesso ao mercado que esta localização representa; uma vez que esta área compreende justamente o principal foco das políticas de revitalização urbana da atual administração municipal de São Paulo, simbolizadas pelo projeto Nova Luz e pela polêmica Concessão Urbanística. A região da Santa Ifigênia representa assim um espaço revelador da cidade para avaliarmos as relações estabelecidas entre o Estado e o circuito inferior.

O Programa Nova Luz, anunciado pela Prefeitura do Município de São Paulo em 2005, visa a “revitalização” da área conhecida e estigmatizada como “Cracolândia”, que abrange os bairros Santa Ifigênia e Luz (ver Mapa do Perímetro de Intervenção do Programa Nova Luz em ANEXO 4). O projeto, financiado por parcerias público privadas, prevê a renovação e conservação de mais de 2 milhões de metros quadrados, com base na definição de um Perímetro de Incentivo Fiscal e um Perímetro de Utilidade Pública. Segundo a Prefeitura, os objetivos do Programa Nova Luz consistem em consolidar o controle do bairro pela administração pública, atrair incentivos para produção imobiliária, incentivar a participação de empresários privados no processo de renovação da área e atrair incentivos fiscais para atividades terciárias na área de tecnologia da informação (EMURB, PMSP, 2009, p.9).

Para viabilizar a implantação do programa, foram aprovados sucessivamente, desde 2005, leis, decretos e resoluções que estabelecem incentivos fiscais para a instalação de empresas no bairro e que declaram de utilidade pública algumas áreas para desapropriação. Foi realizado também um levantamento dos imóveis classificados como “edificações precárias, utilizadas por atividades de âmbito local que ali se estabeleceram devido aos baixos valores de aluguel”, os quais seriam, por sua vez, “passíveis de transformação” (EMURB, 2009, p.5). A partir desse levantamento inicial, definiram-se as edificações a serem ou não preservadas (ver Mapa de uso do

86 solo no perímetro de intervenção do Programa Nova Luz segundo a EMURB em ANEXO 5). Verifica-se, assim, como o Estado, ao estimular seletivamente determinadas atividades e ao estabelecer determinados usos do solo, valoriza desigualmente não apenas as parcelas do tecido urbano, mas também os diversos tipos de trabalho realizados na cidade (SANTOS, 1994, p.126).

Nas quadras selecionadas como piloto para o projeto, o poder público já deu início a desapropriações e demolições de imóveis considerados inapropriados. A previsão atual é que cerca 30% da área abrangida pelo programa seja demolida. Entre os imóveis a serem derrubados, estão três quadras praticamente inteiras da Rua Santa Ifigênia. Nesta área, também tem ocorrido fiscalizações sistemáticas, envolvendo o fechamento de pequenos estabelecimentos comerciais, apreensões de mercadorias e prisões.

O Programa Nova Luz visa sobretudo a atração de grandes empresas do ramo de tecnologia da informação que, supostamente, estimulariam a vocação econômica da região. Através da concessão de incentivos fiscais, a prefeitura pretende mudar o perfil das empresas localizadas na área, almejando atrair especialmente empresas mais capitalizadas do que aquelas atualmente presentes no bairro. Contudo, conforme buscamos mostrar, na região da Santa Ifigênia coexistem firmas de todos os tamanhos, e são justamente as menores, instaladas em imóveis menos valorizados, que deveriam constituir a prioridade de ação do poder público, por sua capacidade de geração de trabalho e renda. De acordo com Silveira (2007, p.160), é a desvalorização de certas partes da cidade que impede uma completa oligopolização da economia e permite a fixação de atividades menos capazes de dotar de valor a seus produtos.

Embora o Programa Nova Luz tenha sido aprovado em 2005, sua implementação efetiva ainda não ocorreu. No entanto, houve recentemente uma aceleração em seus rumos graças à aprovação do Projeto de Concessão Urbanística em 2009 para o perímetro do programa. O instrumento jurídico da concessão urbanística implica a possibilidade da Prefeitura transferir à iniciativa privada o direito de desapropriar imóveis para a construção de novos bairros, de “revitalizar áreas degradadas” e até mesmo de construir equipamentos de interesse público.

De acordo com Ferreira (2009), a concessão urbanística autoriza a “terceirização” de bairros para a iniciativa privada por meio de uma espécie de leilão de partes da cidade para as empresas, que passam a ter o direito de desapropriar terrenos e imóveis nas áreas concedidas. Este instrumento jurídico permite que a iniciativa privada negocie diretamente com os proprietários e especule com a venda

87 dos bens. A medida permite, assim, que a urbanização seja cada vez mais definida pelos interesses do mercado, e não por interesses sociais. Vale ressaltar que a aprovação da concessão urbanística já está prevista para outras partes da cidade, definidas como “áreas de intervenção”. Para Ferreira (2009, p.2), a Prefeitura de São Paulo, apoiada neste instrumento, abdica de sua prerrogativa de planejar a cidade, sobretudo em áreas onde há um suposto interesse do mercado imobiliário, repassando-a a grupos privados, cujo interesse evidentemente não é público. Revela- se, assim, como a política se define, de fato, pela força dos diferentes grupos que exercem, direta ou indiretamente, uma influência sobre o destino urbano (BEAUJEU- GARNIER, 2006, p.243)

Após a aprovação da concessão urbanística para o perímetro do Programa Nova Luz, foi realizada uma licitação para a elaboração de um plano com as diretrizes para a revitalização da área. O projeto do consórcio vencedor – formado pelas empresas Concremat Engenharia, Cia City, Aecom e Fundação Getúlio Vargas – pretende incentivar o uso misto na região e prevê intervenções em 50 mil m2 de áreas residenciais e em 300 mil m2 comerciais. O projeto esteve disponível para consulta pública durante apenas dois meses. Segundo a Prefeitura de São Paulo, tal mecanismo garantiria "a participação da sociedade civil, das pessoas que moram e trabalham na área e de especialistas" no processo. Uma nova licitação está atualmente em curso para a definição das empresas que executarão o plano. O grupo vencedor obterá o direito de desapropriar ou comprar os imóveis, demolir e reconstruir o bairro de acordo com o projeto e, posteriormente, revender os imóveis com lucro. Em contrapartida, deverá restaurar os prédios tombados do bairro e fazer obras em áreas públicas...

O poder outorgado aos grandes grupos empresariais através da concessão urbanística nos aproxima, assim, de um verdadeiro cenário de privatização do território urbano e da própria atividade econômica, uma vez que as firmas hegemônicas “(...) tomam o lugar das instituições governamentais (...) impondo regras à totalidade dos cidadãos. Mediante essa invasão descabida, a vida social é ilegalmente regulada em função de interesses privatistas” (SANTOS, 1987, p.22).

Vale ressaltar que a aprovação da concessão urbanística suscitou uma série de críticas e reações. Alguns questionamentos apontam que o projeto seria inviável juridicamente, já que o texto não passou pelas instâncias estabelecidas pelo Plano Diretor de São Paulo. Alegou-se também que o projeto seria inconstitucional, pois o instrumento de concessão não existe para obras, apenas para serviços. Outros críticos

88 afirmaram ainda que a aprovação conjunta da concessão urbanística e do Programa Nova Luz viria a beneficiar o setor imobiliário, ao qual a atual administração municipal estaria estreitamente vinculada. Verificou-se também uma intensa reação por parte dos pequenos comerciantes do bairro que temem o aumento do desemprego e uma “atitude predatória” das empresas do mercado imobiliário que poderão desapropriar seus imóveis. Essa insatisfação já está estampada nas ruas do bairro36.